Lugar da delicadeza com o outro e com a própria Liberdade.

Onde se está de acordo com o único modo do humano de ser feliz

Wednesday, December 26, 2007

Centro: "é preciso fixar o parafuso central para que a forma permaneça"

A história de Macabéa , uma nordestina de fazer pouca sombra, que é levada para o Rio de Janeiro por uma tia, contada por Clarice é a reprodução - ou pretende ser, como propõe a autora - da imagem refletida em espelho manchado de ferrugem dessa que representa tal segmento da população que insiste em resistir, mesmo ao passar dos anos.

"Parte daquela raça anã teimosa que um dia vai talvez reivindicar o direito ao grito".


Como traduz Eduardo Portella no prefácio "O grito do silêncio", em A Hora da Estrela, Clarice Lispector, Rocco:

"Com emprego de balconista numa grande loja de departamentos para a época, Macabéia é um sujeito - broto do que também podia ser compreendido como estudo da depreciação do humano frente às relações geradas e realidade recriada com o impulsionamento do sistema capitalista."

Nada disso. E tudo isso a um só tempo. Estão ali questões também culturais e de gênero. Como se vê na "dignidade" adquirida pelo namorado de Macabéia por trazer uma morte nas costas. Ainda mais, e principalmente, na escolha de um autor (Rodrigo S.M.) para a obra.

Escolha que merece destaque em análise de Lúcia Helena em Nem Musa Nem Medusa e onde a autora que conviveu com Clarice esclarece:(pag.62)

"Esta máscara subjetiva e masculina chama a atenção do leitor pelo inevitável enclave não só com a biografia da escritora, criada em menina em Alagoas e no Recife, mas também com a "biografia" das duas nordestinas personagens, de modo que uma espécie de dramaturgia da subjetividade vai sendo entramada, espraiando - se por todo o texto, e conduzida por um processo de tecelagem cujos recursos se sustentam com base na ironia, na antítese e na repetição"

É mesmo no "parafuso" que a análise pretende se centra ou girar em seu entorno. Aquele que é o objeto de consumo "apreciado" na vitrine pela personagem. Na vitrine da vida dessa personagem não há jóias ou vestidos bonitos. Mas um parafuso !

Benedito Nunes (O Drama da Linguagem, pag.35) lembra referindo - se a uma leitura de A Cidade Sitiada: " o humor em A Cidade Sitiada neutraliza a realidade dissolvendo - a numa sucessão de aparências equívocas. Maquinais nos sentimentos e cercados de coisas rígidas".
Faz lembrar previsões sobre a conquista do bem - estar (viver mais próximo do feliz) de Condorcet: "o progresso das artes mecânicas trará um novo padrão de conforto e felicidade à massa da humanidade".

Relação entre processo civilizatório e o conceito focado neste estudo em Felicidade, de Eduardo Gianetti. Está no primeiro texto intitulado "A bifurcação pós - iluminista" apresentado pelo personagem Melo, um erudito historiados de idéias que leu em demasia e encontra dificuldade em acreditar no que quer que seja; atualmente desempregado, aos outros três amigos que participam de encontros para entender melhor e discutir a felicidade:

"na terra prometida da razão secular (...) as desigualdades entre os indivíduos e as nações diminuiriam, a paz internacional seria alcançada e a adoção do livre - comércio e de uma língua universal selariam a fraternidade entre os povos. O avanço do saber científico e a difusão da educação popular dissipariam as trevas da superstição e da intolerância. (...) O enredo é familiar: a estrada da razão e da virtude leva ao regaço da felicidade."

É no parafuso ainda solto que Macabéa pode centrar a força de sua formação. Se "felicidade" é uma palavra doida inventada pelas nordestinas que vivem aos montes por aí, a loucura é uma forma solta, sem amarras. Precisa fixar suas bases, reconhecer sua dimensão e formatar seu próprio entendimento para existir.

Trecho do estudo A Felicidade em Clarice Lispector, 2002, Pós-graduação em Letras UFPE, Literatura Brasileira.
Negociatas

"Depois que descobri em mim mesma como é que se pensa, fazendo comigo mesma negociatas, nunca mais pude acreditar no pensamento dos outros"

Clarice Lispector
Aprendendo a Viver, pág. 74

Sunday, December 09, 2007





Clarice: na data em que ela nasceu celebremos sua obra
em frente à casa onde morou a família Lispector


Amanhã, dia 10 de dezembro, é a data de nascimento de Clarice Lispector. A autora gerada na Ucrânia mas que chegu ao Brasil (Maceió) com dois meses e que morou dez anos no Recife e se dizia tão do Nordeste como sua personagem Macabea, da novela A Hora da Estrela. Há pelo menos uma semana o Recife lembra a importância da autora que há exatos 30 anos morreu.

Com o apoio da Prefeitura, do próprio Vice-Prefeito, Luciano Siqueira, admirador da obra da autora, o Recife conclui esse ciclo de homenagens com um recital na Praça onde existe até hoje a casa onde a família Lispector morou. Um grupo de especialistas estudiosos da obra da autora fazem recital com exibição de filmes e fotos, na praça Maciel Pinheiro, a partir das 18 horas desta segunda-feira (amanhã). No grupo estão professores da rede pública municipal e estadual, universidades públicas e privadas, todos especialistas na obra de Clarice.
Na exibição de filmes haverá: O Recife em mim, produzido por concluíntes do curso de jornalismo da UNICAP, com orientação do professor Alexandre Figueirôa e a atuação da jornalista Stella Maris, como a própria Clarice. Filmes de Jacieneide Travassos, sobre o lado pintora da autora do livro Água Viva. Além de entrevista com professora Fátima Costa, da solidão à condição, exibida pela TVU.

Também do curta-metragem 1o.colocado no concurso Para Amar Clarice, promovido pela Nave de Cultura: O TRIUNFO (PARTICIPAÇÃO DE RAIMUNDO CARRERO - ficha técnica abaixo). Com projeção de fotos de Larissa Alves, still do premiado curta.
Atores: Ana Paula Ferrari e Davison Carvalho
Roteiro e direção: Geórgia Alves
Produção: Sérgio Montenegro Filho
Fotografia: Marcelo Lordello
Montagem: Marcelo Pedroso
Still: Larissa Alves
Criança: Enrico Mello
Participação especial: Raimundo Carreiro (voz)
Apoio: Símio Produções e Trincheira Filmes
O TRIUNFO é inspirado no conto de mesmo nome, primeiro a ser publicado por Clarice Lispector, no semanário pan, no ano de 1940. Onde uma mulher forte, escritora, desperta do enorme choque de despertar, sem a presença do seu amante no apartamento onde viviam juntos. Uma realidade que está para romper na vida da escritora Clarice Lispector, com o reconhecimento conquistado na publicação do livro Perto do Coração Selvagem, primeiro da autora, publicado quatro anos depois (1944), pela Nova Fronteira.






Monday, December 03, 2007




- Onde foi que eu já vi uma lua alta no céu, branca e silenciosa? As roupas lívidas flutuando ao vento. O mastro sem bandeira, erecto e mudo fincado no espaço.... Tudo à espera da meia-noite....




(pág. 68! Perto do Coração Selvagem, Rocco)




Friday, November 16, 2007


"Amar será dar de presente um ao outro a própria solidão?
Pois é a coisa mais última que se pode dar de si."


Clarice Lispector


Às vezes descubro que também a minha solidão é o que tenho para oferecer de melhor. Assim como o silêncio do mundo se afirma na sua respiração contínua, quero me afirmar com o meu mais absoluto aquietar. E se não sei o que fazer da minha felicidade, também sei que não se faz amor sem silêncio. Uma calma vinda de onde geramos a força mais intensa nos faz ficar em silêncio e calar diante da respiração do mundo. Diante da própria força da vida.

Sunday, October 14, 2007

Eu e Jimmy* (trecho)

Lembro-me ainda de Jimmy, aquele rapaz de cabelos castanhos e despenteados, encobrindo um crânio alongado de rebelde nato.

Lembro-me de Jimmy, de seus cabelos e de suas idéias. Jimmy achava que nada existe de tão bom quanto a natureza. Que se duas pessoas se gostam nada há a fazer senão amarem-se simplesmente. Que tudo o mais, nos homens, que se afasta dessa simplicidade de princípio de mundo, é cabotinismo, e espuma. Se essas idéias partissem de outra cabeça, eu não toleraria ouvi-las sequer. Mas havia a desculpa do crânio de Jimmy e havia, sobretudo a desculpa de seus dentes claros e de seu sorriso limpo de animal contente.

Jimmy andava de cabeça erguida, o nariz espetado no ar, e, ao atravessar a rua, pegava-me pelo braço com uma intimidade muito simples. Eu me perturbava. Mas a prova de que eu já estava nesse tempo imbuída das idéias de Jimmy e sobretudo do seu sorriso claro, é que eu me repreendia essa perturbação. Pensava, descontente, que evoluíra demais, afastando-me do tipo padrão - animal. Dizia-me que é fútil corar por causa de um braço; nem mesmo de um braço de uma roupa. Mas esses pensamentos eram difusos e se apresentavam com a incoerência que transmito agora ao papel. Na verdade, eu apenas procurava uma desculpa para gostar de Jimmy. E para seguir suas idéia. Aos poucos estava me adaptando à sua cabeça alongada. Que podia eu fazer, afinal?

(...)

Minha avó, uma velhinha amável e lúcida, a quem contei o caso, inclinou a cabecinha branca e explicou-me que os homens costumam construir teorias para si e outras para as mulheres. Mas, acrescentou depois de uma pausa e um suspiro, esquecem-nas exatamente no momento de agir... Retruquei a vovó que eu, que aplicava com êxito a lei das contradições de Hegel, não entendera palavra do que ela disse. Ela riu e explicou-me bem-humorada:

- Minha querida, os homens são uns animais.

Voltávamos, assim ao ponto de partida? Não achei que esse fosse um argumento, mas consolei-me um pouco. Dormi meio triste. Mas acordei feliz, puramente animal. Quando abri as janelas do quarto e olhei o jardim fresco e calmo aos primeiros fios de sol, tive a certeza de que não há mesmo nada a fazer senão viver. Só continuava a me intrigar a mudança de Jimmy. A teoria é tão boa!

*publicado na Folha de Minas. Belo Horizonte, em 24 de dezembro de 1944 - conto antigo reproduzido no jornal sem autorização da autora.

Thursday, October 11, 2007

"A opinião dos outros interessa em parte. Só a parte que interessa".
eu mesma em 2001


O QUE EU QUERIA TER SIDO*
Clarice Lispector


Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.
O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de "a protetora dos animais". Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la.


E eu sentia o drama social com tanta intensidade que vivia de coração perplexo diante das grandes injustiças a que são submetidas as chamadas classes menos privilegiadas. Em Recife eu ia aos domingos visitar a casa de nossa empregada nos mocambos. E o que eu via me fazia como que me prometer que não deixaria aquilo continuar. Eu queria agir. Em Recife, onde morei até os doze anos de idade, havia muitas vezes nas ruas um aglomerado de pessoas diante das quais alguém discursava ardorosamente sobre a tragédia social. E lembro-me de como eu vibrava e de como eu me prometia que um dia esta seria a minha tarefa: a de defender os direitos dos outros.

No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.
É pouco, é muito pouco.


*Pag. 46, Aprendendo a viver, Rocco. Seleção de crônicas antes publicadas em A descoberta do mundo (Rocco), escolhidas por estarem todas na primeira pessoa, uma não-ficção, discutindo filosofia de vida e a tentativa de compreender o mundo.

Monday, October 01, 2007

Vi um imenso mar azul, ainda de longe. Vi que a indignação está presente em poetas. Ouvi seu canto de silêncio e sorriso. As fronteiras que ultrapassamos com o acelerar do batimento cardíaco são bem maiores que as fronteiras que nos separam. Indignação em canto: de quem chegou ao ponto essencial da compreensão do sentido profundo da dimensão idílica e erótica da vida.

Venho apenas dizer da calma que dá compreender. A busca de uma alegria. O caminho para estar e ser feliz. Eliminando com habilidade fronteiras. Veloz, escolher rumos e direcionamentos da vida com firme poder de decisão.

Wednesday, September 26, 2007

“Cada fracasso ensina ao homem o que ele precisava aprender”
Charles Dickens


“Nem pai, nem mãe, nem parente algum
nos fará tanto bem quanto a mente bem dirigida”
Buda
Anjo, meu anjo bom! É 25 de junho de 2005,

Oro!
Conecto-me novamente a você. Sei que sempre está comigo. Posso ouvir sua música a cada instante e em todo o sempre que me sinto só. Ouço seu sorriso colando em meu ouvido. Ora cuidando dos meus filhos queridos, ora cuidando de mim, ora cuidando dos amigos. Amo a ti para sempre meu Anjo! Um sempre que é também o tempo todo. Estou muito feliz hoje porque é dia de festejar São João. Acendi velas por isso. E tenho fé novamente. Uma alegria nova junto com uma paz que não havia. É uma alegria calma, Clarice!

Mesmo calma. Sei quem fui. Sei como comecei. Lembrei de mim há pouco. Parece que precisava andar até onde andei me perder da minha alma algumas vezes e me fazer alguém nova de novo. Passou tudo. Perdoei a mim mesma e por motivos firmes, sólidos, eu existo. Estou no mundo para oferecer o melhor para os meus filhos. Fazê-los crescerem felizes, sem qualquer milímetro de dúvida.

E tornar o mundo melhor. O mundo ao meu redor. Sou teu instrumento, meu Anjo divino, e escrevo. E nessa busca, nesse processo de conquista de um mundo melhor tenho certeza que vou encontrar o meu lugar. Mesmo que pareça tão difícil encontrar sei que vou encontrar. Mesmo quando pareça tão difícil, já sei por onde começar.

Sinto-me como três verões e milhares de banhos de mar. Sinto o sal – salgado em espírito! – novamente brilhando ao refletir ao sol. Doce vai ser sempre esse encontro com o Mar que é o que eu preciso. Esse Amor de idas e vindas de um eterno “recomeço” de ondas. Sou do mar. Estou certa disso e não posso afastar-me dele. Faremos parte um do outro. E ele sempre existirá em minha vida. Toda a certeza da beleza da minha vida voltou. Mesmo que eu tenha escolhido caminhos tão diferentes. Tão próprios. Estou feliz agora e calma.

Agradeço aos meus filhos, meu Anjo da Guarda e aos amigos. Assim, com a calma que sinto, vejo-me de volta ao fluxo da vida. E muito feliz por estar mais presente na vida dos meus filhos queridos amados e tão lindos. Cada um com sua beleza seu modo seu jeito, tudo tão particular e novo na descoberta de estar no mundo todos os dias. Do mesmo modo reconheço a rotina dos amigos raros que tenho. Amo-os. Amo com força e intensidade viva, de corpo que sara.

Não deve se alimentar culpas, há as decisões a tomar. É necessário enfrentar a vida com toda a coragem da escolha. E me sinto por isso mais perto de Deus. Da Nossa Senhora Azul. Escolho sempre meus filhos. Por eles, respondo. Eu os amo. Mais que tudo! Eles eu escolhi. Eu quis e quero com todas as minhas forças. Eu amo muito meus filhos. Quero tê-los ao meu lado. A hora boa vai chegar. Vejo o futuro sendo construído agora. Tijolo por tijolo. Livro após livro. Derrota após vitória após vitória! Dia após dia, hora após hora. A cada minuto. Segundo por segundo, por milésimo! Outro mundo.

Sunday, September 23, 2007


"The question is: if I become completely still, would next moment ever come? The answer is: ‘no it wouldn’t come, I have to make it’; translated: if I don’t go to the person, would ever the person come to me? The answer: ‘No, if I don’t go to the person to make with her my next moment, nobody will come to me’. Even more translated in term [sic] of the past: ‘nobody at home came to me, I had to ask and beg and caress, and give warmth till the person would give me some attention”*

Clarice Lispector




Cresce em mim um estado de espírito que entende a vida. Um jeito de acordar onde entendo como agir na adversidade e no estalar da vida. Não é apenas com a alma ("vá com calma!") ou com fé (nem de mais, nem de menos). Facilito. Com o humor faço isso. Mas é que está avolumando-se em mim a força de recuperar minha criação pura. Como Ângela Pralini:



"Onde está minha corrente de energia? meu sentido de descoberta, embora esta assuma forma obscura? Eu sempre espero alguma coisa nova de mim, eu sou um frisson de espera - algo está sempre vindo de mim ou de fora de mim." (Um sopro de Vida, pág. 62)



Ângela já havia, no parágrafo anterior, declarado: "Estou sofrendo de amor feliz. Só aparentemente é que isso é contraditório. Quando se sente amor, tem-se uma funda ansiedade. É como se eu risse e chorasse ao mesmo tempo. Sem falar no medo que essa felicidade não dure. Preciso ser livre - não agüento a escravidão do amor grande, o amor não me prende tanto".



O amor precisa ser opressivo. Gosto do amor suave que tece encontros e similitudes com delicado entendimento e acordo. E isso é profundo. Só não é necessário que me cause ansiedades, angústias. O amor, como o sangue, pode fluir em todo o meu corpo, em cada veia, sem que esmague meu peito como pedregulho. Eu quero um amor que me faça bem e compreenda antes, examine, não que venha "distorcer". Quero um amor calmo, fluido. Um Amor feliz.







O Nascimento

A enfermeira negra pesava, sem medo de erro, uns setenta quilos… distribuídos em seu um metro de cinqüenta e oito de altura. Muito mais nos quadris e nos seios, que exigem mesmo a palavra tetas, de tão fartos. E não encontrou outro jeito senão usar força a para fazer sair a criança e montou-se na barriga da mãe. Parecia mais envolvida na situação. Dizia: “Força, minha filha. Faça força nos quartos!!! Você vai ter que empurrar aqui, porque é por baixo que vai sair!!!”

E o corpo não respondia àquela voz firme e, ao mesmo tempo, macia. A tensão de músculo ia toda para o pescoço. Como se o aprendizado de uma vida que se viu sempre no grito, só soubesse mesmo acordar a musculatura do pescoço.

Debruçou-se rápida com os braços roliços empurrando com jeito. Usou o seu peso contra o alto do dorso. Como num instante de estalo, que não se ouviu, houve o desencaixe. A criança, finalmente, “descolou”. E saiu...

No princípio, não gritou. Mas, logo, o obstetra usou o costumeiro truque de “ensinar” com as mãos. O reflexo que faz ir buscar no sentido do que está fora, o ar necessário lá dentro, nos pulmões.

Do outro lado, do corredor da Avenida, não se tratava de maternidade pública. Nem havia uma enfermeira negra. Houve a escolha de introduzir na mulher, ali medida por uma ausência, um gélido metal na abertura por onde estava para sair uma vida inteira. Em meio àqueles quadris, a temperatura era fria. Estourou ele mesmo, o metal, a placenta.

Metal

- Dinheiro é sujo.
- Sujo é quem pega nele
- Mas dinheiro passa em tudo que é mão.. Se pegar em dinheiro: “Lave as mãos”

Há diferença entre pegar e ter dinheiro.

Pontos de Fusão e de Ebulição. Há diferença entre um ponto de fusão e outro. Um ponto de ebulição e outro, explica-se. O mistério está na distância. A distância entre as partículas que formam as substâncias. A distância, a distância, a distância varia. E é de acordo, ou em conformidade. Qual o estado físico em que o material se encontra? Esta é a pergunta a ser feita. Se o estado é sólido as partículas estão mais próximas. Muito mais entre si.



No estado gasoso a escolha é por estar mais distantes. No estado líquido, as partículas estão a uma distância mediana, intermediária.É. São as forças de atração que mantêm as partículas de qualquer substância juntas. O estado da substância é conseqüência das forças de atração que se formam entre elas. No estado sólido essas forças são maiores do que no líquido e neste, maiores do que no estado gasoso.



Quando material sólido é aquecido, é com intensidade que suas partículas começam a se movimentar. Intensamente. Dão vazão ao aquecimento, elas chegarão a superar as forças de atração que as mantêm juntas. Quando essas forças são superadas, atinge-se a temperatura de fusão, e o sólido começa a derreter. Muda de estado. Passando para o estado líquido quando as partículas permanecem geralmente mais afastadas.Continua o aquecimento.



O movimento continua. As partículas passarão a se movimentar ainda mais intensamente, até romper as forças de atração que existem no estado líquido. Quando essas forças são vencidas, atinge-se a temperatura de ebulição, ou seja, o liquido começa a ferver e passa para o estado gasoso, com o maior de todos os níveis de afastamento.E há a substância pura

Há o elemento puro. Ele não sofre com a pressão. Quanto maiores são essas forças, mais próximos os átomos permanecem. Esse ao elemento conta com uma estrutura mais compacta e uma densidade maior. Além disso, quanto maiores essas forças, maior é a temperatura necessária para separar os átomos. E isso significa dizer é preciso pontos de fusão e de ebulição maiores, quando maior é a densidade.

A Forma
Preciso de um parafuso. E urge! Um parafuso que vai fixar o centro. Criar o ponto para unir. Então, minha forma não se desfaz. Então, minha forma não desfará. Farei uma festa por isso. Serei eu uma festa em mim e quem me deu o parafuso, vivamente fluirá em minhas formas.

O Toque
Perguntas? o médico prepara o espírito para chegar ao corpo...

- Vamos dar uma olhada... Já conhece a máquina. Já experimentou? Supermoderna. Veio da Inglaterra. O mais avançado tratamento que existe inclusive na Europa. Você fica de cabeça para baixo, enquanto examino...

Ela, sem qualquer surpresa, responde:

- Sim, eu me lembro de quando tive que experimentar, da última vez!

Sem suprimir o impacto:

- Pôxa, é a primeira vez que alguém responde assim... Não entendo porque instrumentos de metal. Tudo é muito primitivo. (E moderno, ao mesmo tempo)

A Lata

As de alumínio permitem aos catadores de lixo alguma renda. E há latas e latas. Umas são para depositar bebidas, lixo. Outras reservam filmes. Conservam obras de arte.

A Pressão

Cunhar uma única moeda. Requer... reservas de mercado?

A Quebra


Para romper a partícula-molécula do metal é preciso que ferva. As partículas quando submetidas às altas temperaturas, elas se agitam.

[1]* Varin, Claire. Línguas de Fogo. Editora Limiar, São Paulo, 2002
Dir-se-ia teu olhar coberto de uma bruma;

Teu olhar misterioso (é azul, verde ou se esfuma?)

Ás vezes terno e sonhador, às vezes cruel,

Reflete a palidez e a indolência do céu


Lembras os dias brancos, mornos e velados,

Que em prantos põem os corações enfeitiçados,

Quando, despertos por uma torção desconhecida,

Os nervos tensos zombam da alma adormecida.


Não raro imitas essas cores vaporosas

Que fulguram aos sóis das estações brumosas...

Como resplendes, horizonte assim molhado

Quando a flama do sol aquece o céu nublado!


Ó mulher perigosa, ó climas sedutores!

Hei de adorar a tua neve e os teus rigores?

E como arrancarei do inverno em que me enterro

Mais agudo prazer que os do gelo e do ferro


(versos de Baudelaire me fazem imaginar o diálogo que teria com Martha Medeiros... Tão gata em teto - fresco - de zinco. Aliás, são metais aqueles que com suas composições têm me ocupado...)

Wednesday, September 12, 2007

Clarice: O Xamã de Fogo

A crítica Lúcia Peixoto Cherem, em dossiê apresentado no começo deste ano, na revista Entrelinhas, escreve que “Tanto Hélène Cixous quanto Claire Varin têm de Clarice Lispector uma leitura bastante subjetiva”. Relação que se diz perigosa, facilmente apreendida na leitura de Clarin Varin. O que deixa professores de metodologia científica de cabelos em pé e aconselhar ao iniciado: “afaste-se de Clarice!”. A pergunta é: Como? E é um mistério responder. Se a força descrita nas palavras desse “Xamã” da atualidade, nos transporta para uma vida pré-humana divina “de uma atualidade que queima” é “de uma certa alegria cega e já feroz que começava a me tomar. E a me perder”.


Nas palavras G.H., e supõe-se a personagem mais distante do leitor da própria Clarice. E diz-se Xamã no sentido que diz Joseph Campbell; “homem ou mulher, que no final da infância ou no início da juventude, passa por uma experiência psicológica transfiguradora, que a leva a se voltar inteiramente para dentro de si mesma... Experiência xamânica ao longo de todo o caminho que vai da Sibéria às Américas, até a Terra do Fogo”. Desavisado, o jornalista Bill Moyers pergunta: “E o êxtase faz parte dela?” Para a afirmativa de Campbell. Em Clarice, há o êxtase no todo.


Línguas de Fogo - De Claire Varin


“Línguas de Fogo: Ensaio sobre Clarice Lispector”, da canadense Claire Varin, (Editora Limiar, 2002) revela as relações que a autora ucraniana, naturalizada brasileira e de origem judaica mantinha com o Português e outras línguas, não apenas as européias, durante o tempo que morou no exterior com o marido diplomata, como também o Iídiche (língua que já foi falada por 11 milhões de judeus no mundo, já naquela época, restrita a comunidades ortodoxas).


Claire Varin, nascida em Montreal, no Quebec embarca na viagem de refazer os lugares por onde esteve Clarice. Conquistou a confiança de Elisa Lispector, a irmã mais velha e também escritora, já falecida. “Clarice não falava outra língua além do português em casa?”. Não, lacônico, é a resposta de Elisa que acaba por revelar, que os pais falavam iídiche em casa e conceder-lhe o manuscrito: “Vivo ‘de ouvido’, vivo de ter ouvido falar”.


De onde pode afirmar que Clarice Lispector “sonha acordada com as palavras”. Prova com trecho do livro Perto do Coração Selvagem em que a personagem Joana confidencia ao seu amante que Lalande é dessas “inventadas”. Diz que gostava de brincar com elas tardes inteiras e que a tal palavra “é como lágrima de anjo” e “é também mar de madrugada, quando nenhum olhar ainda viu a praia, quando o sol nasceu”. Para Varian, Lalande é o lugar de origem da menina que ouvia o iídiche, é “a terra mãe desconhecida, sentida e reconhecida”. Cita, então, “terra” em várias línguas: “land alemã e inglesa, lande francesa onde só crescem certas plantas selvagens e dos land, o pais nomeado na própria língua materna de Clarice”.


Revelação que está na página 27 (fazem bem os atentos aos números) como pedra de toque do seu livro que cita uma a uma os passos e obras de Clarice detalhando datas e outros números, bem mais específicos. A obra de Clarice é composta por oito romances, uma novela e oito livros de contos. “Línguas de Fogo: Ensaio sobre Clarice Lispector” ajuda o leitor a identificar a construção das seis pontas da estrela judaica pela exatidão dos intervalos exigidos para que cada livro seja publicado. Ou mesmo no número de páginas para compor cada conto, muitos com a ajuda de Olga Borelli.


Embora fossem as referências da menina, a escritora ocupou-se em domar a língua portuguesa, para Claire numa ansiedade de estrangeira que emprega a língua de adoção, “exigindo desta o máximo de adequação a seus pensamentos e sentimentos”. Pensamento reiterado nas palavras da própria Clarice; “Tentativa de sensibilizar a língua para que ela trema e estremeça e meu terremoto abra fendas assustadoras nessa língua livre – mas eu preso e em processo de que não tomo consciência e ele segue sem mim”, no livro Um Sopro de Vida. E que o máximo desse “cavalgar”.


O repertório da crítica literária traz análises de todas as obras, explorando trechos de “Perto do coração selvagem”, “Um Sopro de Vida”, “Descoberta do Mundo”, “A paixão segundo G.H.”, “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”, “Água Viva”, “A hora da estrela”, além dos contos. Dedica um capítulo à paixão de Clarice Lispector pelos números. Do testemunho de Olga Borelli de que, ao se tratar de um conto, dizia; “Dê um pouco de espaço para não passar da página 13”. E da ordem dos números na construção de autora que “no espaço entre seu 7º. E seu 17º. Anos amadureceu o primeiro de seus sete romances, numa década, símbolo da criação universal, segundo os pitagóricos”.


Dos dezenove capítulos da vida de Joana que irradiam fora do tempo cronológico, o que Varin explica em nota: A soma dos dois números (1+9) que compõem o número de capítulos é igual a 10, que nos leva novamente à totalidade, ao retorno à unidade após o fechamento do ciclo. Assim o décimo e último capítulo da segunda parte de Perto do Coração Selvagem intitula-se “A Viagem”; mostra-nos Joana ao cabo de um outro círculo de vida, sozinha sobre um barco “forte e bela como um jovem cavalo”.


É espantosa e finamente tensa a relação do detalhamento do texto e contexto de Clarice nas línguas de fogo de Varin. Não é possível evitar a sensação da extrema presença como na obra da escritora e professora da Sorbonne, Hélèlen Cixou, uma das grandes responsáveis pela maior recepção de Clarice nos outros países.


Claire Varin preocupa-se também com o universo ao redor que influencia e é influenciado por Clarice, que vai curando o Brasil do que Autran Dourado chamou de “solidão lingüística”. E que estamos distantes não apenas da Europa e da África, mas separados do resto da América do Sul hispânica. “Clarice não escapou à regra” – “Depois de ter bebido até se saciar nas fontes da cultura do Velho Continente – entre suas paixões literárias: Emily Brontë, Fiodos Dostoievski, Julien Green, Herman Hesse, Katherine Mansfield -, ela põe em destaque a questão das literaturas nacionais,”. Afirma que põe de lado a palavra vanguarda no seu sentido europeu, pensando, por exemplo, se o nosso movimento de 1922 seria considerado vanguarda por outros países.


Friday, August 31, 2007

Carinho da brisa

Estou aqui, ensandecida (de areia?), faz algum tempo. Vem me ocorrendo em sonho, vez por outra, fazer a viagem de bonde que Clarice e família faziam até o mar de Olinda. Sonho que é meu o cabelo fino grudando um no outro por causa do sal. Sinto até os primeiros raios de sol da manhã batendo em meu rosto, que parece bem mais jovem que este que me restou, neste início de novo milênio. Aliás, é para mim um orgulho, mesmo tão feminina, ter nascido no século vinte e no segundo milênio (pós-cristão) da raça humana.
E de fato, venho sonhando assim e sendo interrompida por minha própria incredulidade. Acho, mesmo dormindo, tão surreal tal passeio, que acordo em susto de sentimento da realidade.

Pois agora, será dito: eu desejo, da próxima vez, que o tal sonho me ocorrer, que eu me permita sentir a brisa e os raios de sol tocando no rosto. Velho ou novo, pálido ou rubro, tolo ou firme. Vou apenas me deixar levar pelo sonho...

Permitir-me sentir o carinho da brisa na pele salgada por uma eternidade! E mais, sentir todo prazer em perceber saracotearem, por causa do vento, os meus cabelos cortados. Num buliço de dança. Um meneio que nem a mim cansa! O bonde, o tempo, meu rosto, o desenho, no sol à luz da história. Com uma brisa "lambendo", meus olhos cheios de pestanas, tão sedendos.

Thursday, August 30, 2007

E para não falar somente de mim, ou imprimir aqui a minha escrita, ainda pouco expressiva, tão apenas, vou transportar do livro Aprendendo a Viver, a versão inspiradora de Clarice.

Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.
Houve o grito abafado de um de meus filhos:
- Uma esperança! e na parede bem em cima de sua cadeira! - Emoção dele também que unia em uma só as duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não podia ser.
- Ela quase não tem corpo - queixei-me.
- Ela só tem alma - explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças.
Ela caminhava devagar sobre o fiapo das longas pernas, por entre os quadros da parede. Três vezes tentou renitente uma saída entre dois quadros, três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.
- Ela é burrinha - comentou o menino.
- Sei disso - respondi um pouco trágica.
- Está agora procurando um outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.
- Sei, é assim mesmo.
- Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.
- Sei - continuei mais infeliz ainda.
Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em Roma 0 começo do fogo do lar para que não apagasse.
- Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar devagar assim.
Andava mesmo devagar - estaria por acaso ferida? Ah não, senão de um modo ou de outro escorreria sangue, tem sido sempre assim comigo.
Foi então que farejando o mundo que é comível, saiu detrás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me parecia a aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:
- É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte...
- Mas ela vai esmigalhar a esperança! - respondeu o menino com ferocidade.
- Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros - falei sentindo a frase deslocada e ouvindo um certo cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe diria apenas: você faça o favor de facilitar o caminho da esperança.
O menino, morta a aranha, fez um trocadilho com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo televisão, ouviu e riu de prazer. Não havia dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo.
Mas como é bonito o inseto: mas pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la.
Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: "E essa agora? que devo fazer?" Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. É, acho que não aconteceu nada.
Pois eu encontrei uma esperança maior. Grande, uma espécime que atingiu o tamanho máximo de sua raça. Uma esperança "gigantesca" e bem instalada, de um jeito que se sentiu à vontade de deixar ali "restos", aquilo que não lhe cabia mais...

Uma Esperança com É. Assim, maiúsculo e acento nordestino. Uma Esperança amiga que me fez sair de onde eu estava para sentar ao lado dela, durante a viagem. Viagem em coletivo, que me permitiu aumentar o orgulho de levantar e colocar-me ao lado dela, em acento vazio que ninguém no rodante em movimento se atrevia a conviver ou se aproximar. Correr o risco? Pra quê? Se pergutavam essas pessoas, a quem eu respeito ao ponto de comover e lamentar por elas...

Mas seguimos, então, viagem juntas. Eu e a Esperança. Uma ao lado da outra, se entreolhando vez por vez, em curiosidade mútua. Ela se ajeitando de lá, eu ajeitada de cá. Mas ambas, bem instaladas em seus devidos lugares. E essa enorme ESPERANÇA - que já quero chamar em grito de grifo - fez exemplo de condição de inseto capaz de escalar aos poucos em suas perninhas de graveto verdes, bem devagarinho e persistente, as paredes do transporte coletivo. Até chegar no topo. No alto do portal de passagem para o lugar novo, o lugar de chegada. Para onde eu agora me guio nessa força da condição de humano, frágil e resistente a desertos e tempestades. Alegrias e tristezas, aventuras e desventuras - no meu caso já em série - mas um humano que se mantém vivo! E de olhos abertos...

Tuesday, August 28, 2007

É lindo, comovente, fascinante, perdoem, o "modo" como Clarice cita o Recife com enorme carinho, nos seus escritos. Eu, de minha parte, estou cada vez mais encantada com a seleção de "coisas soltas nas gavetas", ajuntadas no livro Aprendendo a Viver (Rocco,2004).
E, digo logo, 2004 foi o ano em que insisti com a professora Zuleide Duarte, na sala de aula e na monografia, sobre A Felicidade em Clarice Lispector. (Eu e minhas teimosias...).
A querida e muito paciente, professora que tornou-se minha orientadora e generosa ofereceu uma homenagem à Clarice na nossa turma. Zuleide, não posso deixar de dizer - é doutora em Literatura, especialista na obra de Florbela Espanca, merecedora de inesquecível convite do Governo de Portugual para a marcar o centenário da intensa e "tinta" - como maravilhoso vinho raro - de Florbela.

Veja e diga por você, por aí:

VIAGEM DE TREM

Devo ter viajado de trem da Ucrânia para a Romênia e desta para Hamburgo. Nada sei, recém-nascida que eu era.

Mas me lembro de uma memorável viagem de trem, com 11 anos de idade, de Recife a Maceió, com meu pai. Eu já era altinha, e pelo que se revelou, já meio mocinha. Na viagem de ida - quase um dia inteiro - um rapaz de seus 18 anos, lindo de morrer e que comeu no mínimo uma dúzia de laranjas, e que tinha olhos verdes pestanudos de preto, simplesmente veio pedir licença a meu pai para ficar conversando comigo. Meu pai disse que sim. Eu não cabia em mim de emoção: namorarmos o tempo todo sob o olhar aparentemente distraído de meu pai.
Em Maceió, onde íamos ficar um dia apenas, aconteceu outro milagre. Houve uma festa dada para meu pai. E havia lá um menino de 13 anos, considerado marginal. Contava-se que, uma vez, à saída de uma festa, acompanhando uma senhora de noite para casa, beliscara-lhe o braço. Pois esse menino me quis. E me pediu para passeas com ele. Eu era completamente inocente, mas instintivamente compreendi alguma coisa e disse que não. Tomou meu endereço em Recife e recebi dele um cartão-postal todo florido, com palavras de amor. Perdi o cartão, perdi o amor. Ficou-me a lembrança. A volta foi no dia seguinte à festa - todos na estação, inclusive o menino marginal - e sei que alguma coisa aconteceu também bouleversante mas não me lembro o quê.

São memórias, precisas. E segredo, mantido, do "modo" Clarice. O não dito, de tanto valor. Inclusive com o Recife. Reparem, começa a falar pela viagem de trem em recém-nascida. Da qual não lembra, pela condição do recém-nascimento...




Aprendendo a viver (Rocco, 2004, pág.120)

Monday, August 27, 2007



SUPONDO O ERRADO

Suponhamos que eu seja uma criatura forte, o que não é verdade. Suponhamos que ao tomar uma resolução eu a mantenha, o que não é verdade. Suponhamos que eu escreva um dia alguma coisa que desnude um pouco a alma humana, o que não é verdade. Suponhamos que eu tenha sempre o rosto sério que vislumbro de repente no espelho ao lavar as mãos, o que não é verdade. Suponhamos que as pessoas que eu amo sejam felizes, o que não é verdade. Suponhamos que eu tenha menos defeitos graves do que tenho, o que não é verdade. Suponhamos que baste uma flor bonita para me deixar iluminada, o que não é verdade. Suponhamos que eu finalmente esteja sorrindo logo hoje que não é dia de eu sorrir, o que não é verdade. Suponhamos que entre meus defeitos haja muitas qualidades, o que não é verdade. Suponhamos que eu nunca minta, o que não é verdade. Suponhamos que um dia eu possa ser outra pessoa e mude de modo de ser, o que não é verdade.

(Aprendendo a Viver, CLARICE LISPECTOR, pag.42)


Tuesday, August 21, 2007

Talvez compreendam, agora, com o que fica dito, a felicidade em ser e ter sido, todo dia, Clarice Lispector. Acabam de atribui-la mais uma data de nascimento. Por certidões já existiam mais de uma: 10 de Dezembro de 1920, da primeira tradução do documento russo para o português, e 10 de Outubro de 1920, com assinatura do juramentado "Tradutor Público e Interprete comercial da Praça do Recife, Arthur Gonçalves Filho".

Nádia Battella Gotlib, que assina a mais completa biografia da autora (Clarice: uma vida que se conta), explica e pergunta: "A primeira versão - do documento - traz o lugar de seu nascimento: Chechelinick, distrito de Olopolko, na Ucrânia; contém a data de nascimento de Clarice: 10 de dezembro de 1920. Mas declara como data da certidão original a de 14 de novembro de 1920. Como registraram a criança em novembro se ela só nasceu em dezembro?". A própria biógrafa faz questão de dizer que, ao longo da vida, Clarice "adota diferentes datas (...) embora a crítica adote, durante longo tempo, o de 1925, Clarice registra as de 1921, 1926, 1927..."

E ainda. Há um vídeo na web, com efeitos especiais e tudo! em que, a hoje-posteridade (me permitam!), oferece a Clarice uma nova data: 10 de Novembro. Um mistura do primeiro e do segundo "presentes".

É.

Monday, August 20, 2007




A Felicidade em



Por Geórgia Alves*


Com uma única palavra - "CLARICIDADE" - à francesa, Hèléne Cixous traduz o poder conquistado pela autora e através dela para diferentes "modos" de felicidade. Com idéias claras. Ou ainda, e também, se preferir: a clarividência nascida por dentro, ensinada por Clarice. Poucos colheram do "modo" de Clarice em semear o "direito à diferentes felicidades". Muito embora quase tod@s já saibam que o livro "A Paixão Segundo G.H.", de Clarice Lispector, conta a história de uma mulher que se chamava apenas pelas iniciais na valise de viagem e que um dia se depara com uma ordem diferente da dela. Perfeita, mas em tudo desigual da sua "casa de revista".

Dia em que vai ao quarto da empregada e se depara com uma barata. Ser pré - histórico com condição que antecede a condição humana. G.H. descobre aos poucos que vai impelindo - a ao encontro do que existe dentro da "coisa" que descobriu: "Ontem, no entanto perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia (grifo meu) de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? (quase ouço com sotaque espanhol...) e no entanto não há outro caminho."
É assim, sem qualquer pausa, em um único fôlego, que vai indo:"Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra - como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização. E uma desilusão. Mas desilusão de quê? se , sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema."E arremata, abrindo o leque para o "ser feliz", criando caminhos: "No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido". (A Paixão Segundo G.H., Clarice Lispector, Ed. Rocco, 1998) De pessoa "difícil" a escritora hermética, Clarice foi vista de diferentes ângulos: obtusos, retos, "escuros". Alguns mais amplos. Hoje, trinta anos após sua morte, pode se afirmar, o que tornou – se o hoje. A vontade de decifrar enxergar Clarice e seus passos em Aprendendo a Viver é um sinal "paginável" desse novo tempo. Passos para a clara evidência da autora, sinônimo de uma literatura densa e intelectualidade extrema.
Clarice jamais abandonou a busca para compreender a condição, como explicou a professora – com o tema pesquisado em Doutorado – Fátima Costa, e estabelecer a partir da solidão o universo próprio a ser inserido no contato com o outro e o mundo. São pistas dessa descoberta, em fio de novelo, possíveis de identificar.
No livro Felicidade Clandestina, o encontro com o "bem supremo", personificado na imagem do livro como foi dito, é adiado com uma ida até a cozinha para se "comer pão com manteiga". Que de Felicidade adiada torna - se clandestina, que a autora assegura já pressentia que assim seria. Um tipo de Felicidade que ultrapassa o sentimento da menina Clarice com o exemplar grosso, "para se viver com ele", Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. E ainda, pelo "tempo que quisesse", como faz questão de dizer a mãe da menina que exercia sua crueldade sobre Clarice por ser filha de dono de livraria. Não há mais como negar - ou espaço para o desenho de qualquer expressão de espanto, srs e sras da Academia -, a existência de "modos" felizes escolhidos por Clarice.
Alegre ainda que por uma "fatalidade", como traduz no conto Águas do Mundo. "Ou que é abolida por uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha - com persistência, continuidade, alegria", nas palavras da autora no conto Amor. Contudo existente, se motivação para um deixar de existir. Porque a autora e seu amor que a permitiu escrever e salvar sua existência. E de muitos outr@s. Uma alegria contente. De contentamento mesmo. Mesmo no famigerado universo de Macabéa, identificar essa alegria, além de prazerosa tarefa pela sua desafiante escrita, tornou - se ainda tranqüila, depois de codificada a maneira holográfica do riso doído de Clarice. Um ser humano fosforescente (para Heitor Cony, um "peixe fosforescente") "e uma luminescente" (numa palavra da própria Clarice) "autora da Literatura Brasileira. Além de brilhante e às vezes indecifrável". Clarice era também maternal e, em muitos momentos, feliz. Além da vasta e respeitada obra, deixou cinco livros infantis, das vinte e três publicações (Ed. Rocco).
Com a publicação do seu primeiro romance Perto do coração selvagem, em 1944. Quando Clarice tinha apenas 19 anos. Não dá para calcular o tamanho do débito de uma sociedade adoecida na vida daquela jovem escritora. Nascida na Ucrânia, em 1925, e trazida para o Recife com meses de idade, teve problemas com sua nacionalidade, até a idade adulta. Foram necessários vários e insistentes pedidos ao Presidente Getúlio Vargas e ao Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Cultura para regularizar sua situação de "não naturalizada" no Brasil. "Que se fosse obrigada a voltar à Rússia, lá se sentiria irremediavelmente estrangeira, sem amigos, sem profissão, sem esperanças."
A primeira tentativa de resolução foi através de carta datada de três de junho de 1942, na qual Clarice descreve sua condição de "jornalista, ex - redatora da Agência Nacional (Departamento de Imprensa e Propaganda), atualmente n’A Noite, acadêmica da Faculdade Nacional de Direito e, casualmente, russa também. Uma russa de 21 anos de idade e que está no Brasil há 21 anos menos alguns meses. Que não conhece uma só palavra de russo mas que pensa, fala, escreve e age em português, fazendo disso sua profissão e nisso pousando todos os projetos do seu futuro, próximo ou longínquo". Ficou no Brasil, casou, teve filhos. Teve amigos, foi morar fora, continuou a escrever em português e foi muito querida, além de respeitada intelectual e pensadora do seu tempo. Versada depois da morte em várias línguas. Uma mulher amorosa que guardava muito desse afeto.
Foi não se dizendo que ela foi. Como deixou gravado na última e única entrevista para televisão (TV Cultura): " Eu não tenho esperança que o que eu escrevo altere alguma coisa. Não altera em nada". Clarice foi se "reservando" aos filhos e livros, ambos nasceram e cresceram em seu colo. Há muitas outras perguntas e análises que ficaram para o futuro. Feliz que próximo. A idéia é satisfazer, mesmo que em pequeníssima proporção, um dos pedidos feitos por Clarice em sua última entrevista. Questionada quem era Clarice Lispector, ela respondeu: Eu sou um ser humano. "O que eu escrevo é muito simples". É inspirado por esse desejo simples que é peciso enxergar Clarice através destes outros ângulos. Mas ainda não é o bastante. Diriam que decifrar essa felicidade clandestina não é tarefa fácil. E não é este o "letmotiv". O importe é saber: há, sempre houve, havia ali. Haverá para sempre.
Já não seria se Clarice fosse um ser humano raso, de obra simples, que dirá com tal grau de complexidade. É claro que é possível de imediato identificar a presença dessa busca em sua obra. A proposta é fazer depois de identificados os conceitos de felicidade. E não encerramos em apenas um. A compreensão é de que há vários deles que se aplicam na obra da autora. É tão somente um olhar sob esse ponto de vista. Com a licença autoral, que plagia Clarice, em sua "alegria livre" - que acaba de ser inventada como o era a verdade da autora - das três epígrafes a seguir. Numa ilustração da proposta do estudo de demonstrar a convivência das diferentes versões do ser feliz num mesmo e único ser humano.
Os caminhos são os da filosofia na identificação e clarividência dos mais variados conceitos de Felicidade na obra de Clarice Lispector. Na construção foram tomadas como "roteiro" quase todas as obras da autora, excetuando - se os livros infantis, por se entender como desafio menor encontrar essa felicidade nesses. Onde Clarice era um pouco mais "fácil" consigo mesma com um "e pronto". A autora publicou cinco deles (Editora Rocco).
A trajetória tem início no último livro da autora (a novela A Hora da Estrela), publicado no ano em que Clarice morreu (1977). Um relato, "cru", e aparentemente, distantes, do sentimento habitual de Felicidade. Principalmente pelo forte caráter de autobiográfico na obra de Clarice, toda marcada pelo traço autoral, onde escritor e obra se confundem em vários instantes. Nas palavras de Benedito Nunes, grande crítico da obra da autora "o narrador de A hora da estrela é Clarice Lispector, e Clarice Lispector é Macabéa tanto quanto Flaubert foi Madame Bovary".

O aspecto observado na obra é o do riso ou dos instantes em que a autora presenteia o leitor com a mais refinada forma do aspecto dentro do conceito, traduzido ainda em 1900, por Henri Bergson, do mecânico do corpo endurecido ao se confrontar com a fluidez da alma. Ou ainda da alegria que trazia o progresso como previu Condercet oferecendo a todos um novo padrão de conforto e felicidade à massa da humanidade.
Na obra de Clarice há o conto Felicidade Clandestina. Deste o nome a busca pelo "bem supremo" e a felicidade se configuram na relação com a leitura ou na própria imagem do livro Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, que Clarice carrega nos braços contra o peito ao atravessar as ruas e pontes do Recife onde viveu quando menina e ao se confrontar com esta alegria adia o encontro tornando a felicidade clandestina e transformando a menina deitada na rede com seu livro no colo, numa mulher com seu amante.
Há como na alegria de escrever, já destacada pelo autor Benedito Nunes em análise do romance Legião Estrangeira e que avaliamos também através das Correspondências de Clarice e "crônicas" publicadas no Jornal do Brasil e outros depoimentos dessa ventura na vida da autora. Além do busca da perfeição, personificada pela personagem de Laços de Família também é incorporado à análise, em momento posterior, pela descrição do cotidiano de Catarina que revela nas palavras da autora um "riso doído que saía pelos olhos". Uma prova da existência de uma felicidade oculta, enviesada. Clarice Lispector sabia que a escolha de sua obra não era psicológica:
"Além do mais a ‘psicologia’ nunca me interessou. O olhar psicológico me impacientava e me impacienta, é um instrumento que só trespassa. Acho que desde a adolescência eu havia saído do estágio do psicológico".
A afirmação é feita pela personagem G.H. em A paixão segundo G.H., (pág.18, Paris/Brasília, Coleção Arquivos, v.13.). E esta afirmação - facilmente encontrada na internet nas referências selecionadas e associadas ao nome de Clarice - é um dos motivos para a escolha do entendimento através da Filosofia deste estudo. Através destes elementos é possível encontrar os instantes da obra da autora onde a felicidade e a busca existe. Como na Ventura ou Aventura do Amor, sentimento necessário à conquista da felicidade. Porque está ligado ao desejo concretizado. A satisfação de um anseio.
Por isso em letras altas e com grifo: HÁ FELICIDADE EM CLARICE LISPECTOR. Assim como cantou Caetano. Há mistérios em Clarice e quais são? Quais são os "modos" de busca que explicou tecendo e destecendo a autora. Como as atenienses de Chico? Não. Como Clarice no sofá, com a máquina de escrever no colo, ao invés - e reveses - das linhas e agulhas.
Se Clarice é uma pergunta, aprendemos. É onde tudo começa. Afinal: O QUE É FELICIDADE?
Não é difícil deparar – se com diferentes definições da Felicidade. E diferentes caminhos para estudar o tema. Aqui, a escolha é compreender a felicidade sob as luzes da Filosofia. O empreendimento mais ousado do pensamento humano, que pretende explicar o mundo e o homem como um todo (Platão). Para isso, serão instrumentos de orientação nessa travessia os livros O Riso e o risível, de Alberti Verena, e Felicidade de Eduardo Giannetti, além A Felicidade - Ensaio sobre a Alegria, de Robert Misrahi. Também conceitos propagados desde o princípio dos tempos por Aristóteles, Platão, Kant, Russel e tantos outros.
Uma reflexão que mistura a visão do início e da atualidade. O entendimento é o mesmo de Henri Gouhier, em Siutación Contemporanea del Mar: "se existe uma filosofia eterna, philosophia perenis, ela não existe historicamente senão através de filosofias atuais; e isto porque as exigências permanentes do pensamento, se manifestam no interior de situações concretas que favorecem, mais ou menos, seu desenvolvimento". O conceito de Felicidade vem sendo estudado pela Filosofia desde sempre (!), da Antiguidade.
Quase não houve (se é que houve) quem não se encarregasse dela. A lista é de um sem fim. Além dos que foram citados: Epicuro, Platão, Tucídedes, Spinoza, Heidegger, Nietzsche, Schopenhauer, Sartre (mesmo que pelo avesso), Ernst Bloch, Pascal, Göethe, a lista é de um sem fim. Robert Misrahi, no livro A Felicidade, explica a existência de duas correntes nos estudos filosóficos para conceitualizá - la.
Uma primeira, que ele critica, que se deteve mais à angústias, trilhada por Heidegger, passando por Sartre, numa teorização do "ser - para - a - morte". E uma outra linha, traçada por Nietzsche onde a "Plena Luz" ou "vida ascendente" estaria estreitamente ligada à dor e ao trágico. Ainda da felicidade adiada entendida por Platão, seguido por Kant, onde o desejável bem supremo só se alcança após a morte.
E a corrente que evidencia como a ser seguida, que começa em Aristóteles, passa por Spinoza e é difundida por Ernst Bloch, da felicidade que deve se realizar neste mundo. Como completa Misrahi: "felicidade concreta pelos prazeres ponderados, espiritual pelo conhecimento e pela filosofia, ativa pela política. Sendo, portanto, a um só tempo, a possibilidade mais perfeita para o homem e sua maior virtude". Baruch Spinoza enfatiza a ligação dos conceitos de Felicidade e Liberdade, entendendo em Deus, a natureza infinita e criando a imagem do "homem livre".
Cartas e cartas para a Felicidade Epicuro, o grande pensador do tema, na sua Carta sobre a Felicidade (a Meneceu) insiste na idéia da felicidade como virtude e ligada aos sentimentos íntimos e atitudes com a definição que "o essencial para a nossa felicidade é a nossa condição íntima; e desta somos nós os senhores". Ainda no século III a.C. entende que o objetivo da vida humana é obter a felicidade. E que o meio de alcançar a felicidade é o prazer nascido da satisfação dos desejos. Antes mesmo de qualquer necessidade urgente da criação de um bem sucedido movimento, Epicuro já permitia mulheres em sua escola filosófica, no século 341 a. C..
O iluminismo que trouxe a idéia de que a automatização faria dos humanos mais felizes porque tirariam pessoas de funções aprisionadoras. Idéias como a de Condorcet sobre como "o progresso das artes mecânicas trará um novo padrão de conforto e felicidade à massa da humanidade", que Clarice retrata na personagem Macabéa. Que de tão feliz não tem consciência de sê - lo como é preciso para John Stuart Mill ou mesmo Fernando Pessoa. Na importância destinada ao desejo e à satisfação ou não, dos mesmos, na história da humanidade.
Aspecto abordado por Philipe van den Bosh (A Filosofia e a Felicidade) sob o título de Elogio do desejo: (...) para ser feliz, há que ter desejos e, sobretudo ter o poder de saciá-los Com efeito, um desejo insaciado faz sofrer, ao passo que desejos realizados dão satisfações cujo acúmulo constitui a felicidade. Por conseguinte, o desejo é uma coisa boa: pois, quanto mais desejo tem, mais sou capaz de satisfazê-los, e mais feliz sou.
O mesmo autor lembra que esse elogio do desejo está amparado por algumas filosofias, entre as quais a que fora desenvolvido pelo pensador contemporâneo Gilles Deleuze, que em sua obra escrita junto com o psicanalista Félix Guattari, L’Anti-Edipe (Éditions de Minuit, 1972)... "O desejo é uma potência vital, um dinamismo criador, que nos proporciona alegria". No estudo há vários destes conceitos e aspectos. Na obra de Clarice é possível encontrar quase a todos. Alguns de maneira mais predominante pelo ser da autora, como em Epicuro. Outros por passagens do que está escrito e, em recorte, pode ser comparado ou associado.
Há muitos entendimentos para a Felicidade. Phillipe van den Bosh explica sobre as dificuldades de uma definição da felicidade: "Apresenta-se uma primeira objeção: todos nós sabemos o que é a felicidade, isso é obvio por isso uma definição é bem inútil! (...) uma segunda objeção: a felicidade é algo pessoal, cada qual tem sua felicidade própria, diferente daquela de outrem. Portanto, não se pode dar nenhuma definição universal da felicidade... Há várias maneiras de vir a interroga-se sobre a felicidade e todas elas são crises existenciais".
Oscar Wilde dizia basicamente que há duas tragédias na existência: não conseguir satisfazer todos os desejos e conseguir satisfazer todos os desejos". Segundo o autor para Wilde, a existência é sempre trágica. Para Clarice o desejo saciado não finda numa insatisfação posterior, mas na própria evolução do desejo. Como no exemplo da menina e seu livro. Há um desejo posterior: da mulher e seu amante numa rede. E nisso resume e encerra a felicidade. Com um ponto final. A mesma Clarice que foi capaz de começar um livro (Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres) com uma vírgula.
Encerra seu conto sobre a felicidade (por ela clandestina) com um ponto. Depois de um desejo que evoluiu da garota com seu livro (bem supremo - objeto de desejo) para uma mulher com seu amante. Embora, com unanimidade, se acredite que ser feliz requer a satisfação de todos os desejos. Para Kant, ao contrário de Schopenhauer ou Sartre ("O prazre é a morte e o fracasso do desejo"), a felicidade é "a totalidade das satisfações possíveis". Kant estava no caminho certo.
Como deixa claro André Comte Sponville os SenhoreSS confundiram felicidade com esperança.
Ser feliz significa também não ter nada mais diferente para desejar. Epicuro para concluir: "Com a felicidade temos tudo de que precisamos". Na crítica a Schopenhauer por Philippe van den Bosh "E não se realizamos todos os nossos desejos, depois de imersos uns tempos, na mais completa felicidade, se já não temos nenhum desejo, não corremos o risco de afundar-nos no tédio? Então já não seria a felicidade!" (A Filosofia e a Felicidade.São Paulo. 1998. pág.23).

No entanto, é preciso que a equação da conquista da felicidade se resolva mesmo na sua impossibilidade e contradição. Pois se quando o é, passa no momento seguinte a desfazer - se em tédio (ou a projetar - se em outro desejo). E, portanto, não sendo mais satisfeita. Conquistada. É dessa forma que Clarice soluciona a difícil condição do ser feliz tornando a felicidade clandestina.
Clarice, "como Deleuze, se opõe a toda uma tradição de pensamento moral e religioso, que condena o desejo e mesmo a uma tradição filosófica dominante que, de Platão a Freud, concebe o desejo de modo negativo e infeliz, como uma falta". Palavras de Philipe van den Bosh (pág.30) que bem se encaixa no comparativo do pensador contemporâneo, falecido em 1996, dezenove anos após a autora.
Bosh ainda afirma que Deleuze tenha invocado filósofos mais originais, e em geral julgados escantadosos em sua época, como Spinoza e Nietzsche. Também escolhas comparativas para análise da obra de Clarice Lispector desse estudo. Autora que no conto A Repartição dos Pães (Felicidade Clandestina) diz completamente desse desejo. O seu desejo. Melhor, o dela: "Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gasta - lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo".
Nietzsche que em seu estudo Will to power (§433, p.237, e § 437. p.241) analisa criticamente a fórmula proposta por Condorcet, em Sketch, p.201: Razão = virtude = felicidade. A seqüência constituiria um "elo indissolúvel", como lembra em notas de seu livro Felicidade, Eduardo Gianetti, o próprio faz a sua análise também crítica da associação Kantiana: "Razão = virtude = felicidade?
E se nem tudo o que é prima facie bom e valioso no mundo - o saber verdadeiro, a correção moral, o belo estético, a livre escolha individual, a eficiência econômica e o bem-estar humano - convergir no tempo ou for necessariamente compatível? O futuro despe o passado. Nossas escolhas têm conseqüências imprevistas". Do filósofo Baruch Spinoza (nascido em Amsterdã, 1632 - 1677) vem a melhor de todas as frases e definições filosóficas: "A Felicidade não é recompensa da virtude, mas a própria virtude". Simplificando a relação antes citada como "felicidade=virtude".
Clarice enxerga essa felicidade criando outras relações, como virtude/recompensa, e escrever/felicidade. A frase vem de Auto - retrato I, onde a própria autora fala de si; (Waldman, Berta. 2 ed.1993.Ed.Escuta.p.15) "As recompensas de escrever são as de escrever apenas". Ou seja: recompensa = escrever, quando escrever é a felicidade. Chegando à mesma relação: virtude=felicidade.
É difícil não reproduzir todo o estudo de Philipe van den Bosh para tratar da Felicidade como tema em sua totalidade. Como quanto o autor fala na inversão dos valores da sociedade moral e religiosa que condenava o prazer a partir de 1968. Philipe van den Bosh arrisca uma "hipótese explicativa" para o desmoronamento da ideologia pré - Renascimento, "quando os libertinos se tornaram suficientemente numerosos para produzir uma espécie de contra - discurso também oficial". Quando a humanidade passa a desejar outros objetivos para a existência humana.
Bosh entende como pertinente uma interpretação de tipo marxista e conclui: "Havia uma contradição moral no capitalismo em seu primeiro século: ele prescreve ganhar um máximo de dinheiro produzindo cada vez mais, mas também pelo menor custo, portanto privando a maior parte da população dos meios de aproveitar bens assim produzidos e , em conseqüência, limitando consideravelmente o número de consumidores, portanto freando seu próprio desenvolvimento".
Clarice Lispector fala dessa evolução em sua novela A hora da estrela, que escolhemos para mostrar o trânsito da autora na difícil arte de um elegante e não menos trágico humor. É no capítulo a seguir que se pode constatar a mobilidade de clarice com o riso, diante de uma antiga forma de Henri Bergson, do rígido do humano que onde se adapta a fluidez da alma. A idéia do riso faz parte desse conceito. E como sorriam os olhos de Clarice.
Talvez por isso entenda como possível o riso "que saía pelos olhos", como acontece à sua personagem Catarina, no conto Laços de Família. E como sorriam mais que quaisquer outros os olhos de Clarice... Ela jamais abandonou a busca. Basta um olhar mais atento: observar essa presença nas entrelinhas. Da "personagem" que suporta em silêncio as ansiedades da mãe e as hostilidades entre ela e o marido. "Toda rigidez do caráter, do espírito e mesmo do corpo é, pois, suspeita para a sociedade, por ser o signo de uma atividade que adormece e também de uma atividade que se isola, que tende a se afastar do centro comum em torno do qual a sociedade gravita (...) essa rigidez é o cômico, e o riso é o seu castigo". Henri Bergson, O Riso.
A frase resume o conceito de Henri Bergson sobre o "Riso e o risível". Para ele, o homem é caracterizado pela liberdade. E o que caracteriza a natureza é a necessidade. Apesar disso, o homem só é livre no espírito. O corpo tem algo da necessidade da natureza. O risível, para Bergson, vem do fato de esperarmos do homem o todo da liberdade e não o endurecimento do corpo mecanizado. Portanto, nós "rimos na presença de um contraste entre o que se espera e o que existe, contraste este que se fundamente na expectativa de alguma coisa graciosa, viva e inventiva como a vida e a aparição do oposto, algo de duro, mecânico e desgracioso".
Analisando a novela A hora da estrela é possível identificar o prazer na escolha das palavras empregadas e no fazer da obra da autora. No caso, Rodrigo M., na verdade Clarice Lispector. E entende dever revelar alguns dos instantes do surgimento do riso, na utilização deste conforme definição do cômico por Henri Bergson enquanto "mecânico aplicado sobre o vivo" ("du mécanique plaqué sur du vivant") da série de artigos sobre O Riso na Revista de Paris (1899), e reunidos em livro pelo autor em 1900, sob o título O Riso: Ensaio sobre a Significação do Cômico.
Um dos textos mais conhecidos e citados nas pesquisas contemporâneas sobre o tema.
"Construindo freqüentemente o limite até onde se vai para dar conta de formulações anteriores sobre o assunto. Por isso, suas asserções adquirem quase sempre um caráter de autoridade original". Verena Alberti ao relatar a definição do Riso de Bergson é possível reler a obra de Clarice, não sobre a intenção do seu universo e conteúdo.
Mas sob a compreensão e observação de um "modo" mecânico, aplicado sobre o vivo - ou vida pulsante, em grito - que por sua vez gera os instantes onde a autora, torna o universo magro e de cores pálidas de Macabéia num intrigante caleidoscópio de falas entrecortadas e significações tecidas e retorcidas, com capricho da forma. O texto é de uma dureza incomum, sendo assim se encaixa no conceito do ridículo do estudo de Bergson, conforme observa Verena Alberti:
"Pode se dizer que Bergson redescobre o que era voz corrente há mais de um século na discussão sobre o ridículo e a utilidade de sua aplicação. Cômico e riso, para ele, são, respectivamente, um desvio negativo e sua sanção funcional que restabelece a ordem da vida e da sociedade".
A autora observa, ainda, riscos de tropeços nos argumentos de Bergson, o que (não) nos interessa aqui - insisto - no entendimento da ambivalência da teoria. E continua: "Bergson sempre utiliza a palavra cômico (comique) para designar aquilo de que se ri - por isso vamos preferi - la aqui a "risível". Na frase está toda a diferença necessária para os argumentos propostos nesta etapa do estudo, porque diferencia a intenção e a função do texto de interpretações equivocadas, simplistas e precipitadas...
Referendando a importância da obra e seu papel na sociedade da época, no Brasil do final dos anos 70. A história de Macabéa, uma nordestina de fazer pouca sombra que é levada para o Rio de Janeiro por uma tia, contada por Clarice é a reprodução - ou pretende ser, como propõe a autora - da imagem refletida em espelho manchado de ferrugem dessa que representa tal segmento da população que insiste em resistir, mesmo ao passar dos anos. "Parte daquela raça anã teimosa que um dia vai talvez reivindicar o direito ao grito". Clarice Lispector, A Hora da Estrela. Como traduz no prefácio O grito do silêncio Eduardo Portella.
"Com emprego de balconista numa grande loja de departamentos para a época, Macabéa é um sujeito - broto do que também podia ser compreendido como estudo da depreciação do humano frente às relações geradas e realidade recriada com o impulsionamento (sic) do sistema capitalista".
Tudo isso a um só tempo.
Estão ali questões também culturais e de gênero. Como se vê na "dignidade" adquirida pelo namorado de Macabéa por trazer uma morte nas costas. Ainda mais, e principalmente, na escolha de um autor (Rodrigo S.M.) para a obra. "Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia". Felicidade Clandestina. Neste capítulo é retratado o encontro de filosofias diversas. Da felicidade adiada, como chamou Robert Misrahi, da Universidade de Paris I, na obra de. Clarice.
O mesmo autor critica o desprezo da filosofia contemporânea ao tema: Segundo Misrahi para Platão, só se poderia ter acesso à plenitude e o esplendor no mundo inteligível, após a morte, já que o desejo de uma felicidade "imortal, presente no amor terrestre, indicava a espiritualidade e o despojamento do corpo como vias privilegiadas para o conhecimento do soberano bem". Esse mesmo entendimento se pode observar na obra de Clarice, como uma solução para o proposto em Felicidade Clandestina.
Mesmo adiando o encontro com o tão desejado "soberano bem" - felicidade personificada na imagem do livro Reinações de Narizinho - a autora soluciona essa espera criando a possibilidade de tornar invisível, ou clandestina. Em A Hora da Estrela há concordância com a teoria Kantiana de que é após a morte que Deus, caso deseje, saberá efetuar essa síntese e conferir à alma imortal uma espécie de perfeição e de santidade " no momento final da história de: "Então - ali deitada - teve uma úmida felicidade suprema, pois ela nascera para o abraço da morte".
Conceito recriado no conto observado neste capítulo onde a autora crê na espera e na concretização do encontro com a felicidade; "Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam". Segundo o escrito poeta argentino Jorge Luís Borges, "uma forma de felicidade é a leitura". Para a autora também. O livro personifica o próprio "bem supremo", que refere - se Aristóteles.
A própria Clarice, enquanto criança que morava no Recife atravessa suas ruas e pontes, incansável, para ter a felicidade (ou o livro "Reinações de Narizinho", de Monteiro Lobato - "um livro para se viver com ele") nos braços. E por quanto tempo "quiser", como autoriza a mãe da garota ruiva com talento para a crueldade. Para a autora valia mais do que lhe dar o livro. "Pelo tempo que eu quisesse é tudo que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer".
O que se segue ao encontro com o tão desejado "bem supremo" é um sentimento de estonteamento: "Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo - o contra o peito". Então a autora relaciona o sentimento e a fluidez do que fora conquistado com o tempo: essa constante invariável no relógio criado pelo humano e de uma variação infinita quanto ao verdadeiro sentimento que se tem em relação ao seu compasso em circunstâncias marcantes do viver.
"Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo". E é nesse exato instante que começa a análise de como se relacionaram com o mais completo dos sentimentos, os passos desse encontro: "Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter". Numa surpresa insuspeita, embora caracterizada por um "movimento simulado". E é preciso esperar horas para que o encontro com o "bem supremo", o tal encontro feliz se concretize: "Horas depois abri - o, li algumas linhas maravilhosas, fechei - o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga...".
Momento que merece atenta análise da autora do livro A hora de Clarice Lispector, Hélène Cixous sobre a metáfora da necessidade de nada além de "comer pão com manteiga". Numa fome que ganha nos símbolos escolhidos um nome secreto. Mantém - se sem o verdadeiro nome. O que é dito é que há a necessidade e é necessário comido. É também uma felicidade adiada, até o momento em que a necessidade primeira foi saciada. "... fingi que não sabia onde guardara o livro, achava - o, abria - o por alguns instantes".
Esse tempo calculado, diminuído, de "instantes" é o que autora compreende como o que pode ser permitida para se viver a felicidade. Já não parece mais a descrição do encontro da garotinha com o livro. Mas da própria vivência da autora em relação aos encontros ou "instantes" com a felicidade. A prova é a conclusão de um pressentimento, uma reflexão comparativa, um desabafo:
"Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar. Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada". Então, num "insight" alusivo. Clarice abre o leque das possíveis felicidades e num passar de vírgulas faz do passado, futuro presente. "Às vezes sentava - me na rede, balançando - me com o livro aberto no colo, sem tocar o volume ainda, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante". Então o Amor é essa felicidade. Não é mais o prazer da leitura. Da vitória, da conquista. A grande felicidade, "em êxtase puríssimo", se traduz com a presença do amante. E da transformação da menina em mulher.
BIBLIOGRAFIA
Lispector, Clarice. 1948. Perto do Coração Selvagem (Romance), Rocco, Rio de Janeiro. Lispector, Clarice. 1998. Felicidade Clandestina (Contos), Rocco, Rio de Janeiro.
Lispector, Clarice. 1982. Uma aprendizagem ou O Livro dos prazeres. Rocco, Rio de Janeiro. Lispector, Clarice. 1998. Água Viva: ficção, Rio de Janeiro: Rocco.
Lispector, Clarice. 1999. A Descoberta do Mundo. (Crônicas). Ed. Rocco.
Lispector, Clarice. 2002. Correspondências (Org. Teresa Monteiro). Rio de Janeiro. Ed. Rocco Sabino, Fernando. 2002. Cartas perto do Coração Selvagem, Lispector, Clarice. 2002 Ed. Recorde. Rio de Janeiro. São Paulo.
Lispector, Clarice. 1998. A paixão segundo G.H., (Romance). Ed. Rocco. Rio de Janeiro. Lispector, Clarice. 1977. A hora da Estrela, (Romance), Rocco, Rio de Janeiro.
Lispector, Clarice. 1989. Laços de Família. (Contos), Rocco, Rio de Janeiro.
Gotlib, Nádia Battella. 1995. CLARICE, Uma vida que se conta, (Biografia), Ed. Ática, São Paulo. Russell, Bertrand. (trad.) 2002. A Conquista da Felicidade, trad. Luiz Guerra (2ª. Edição), Ediouro.
Giannetti, Eduardo, 2002. Felicidade (Diálogos sobre o bem-estar na civilização), 3ª. Reimpressão, Companhia das Letras.
Bosh, van der Philippe. 1998. A Filosofia e a Felicidade. Trad. Maria Ermantina Galvão. Ed. Martins Fontes. São Paulo.
Comte-Sponville. 2005. A felicidade desesperadamente. Trad. Eduardo Brandão. Ed. Martins Fontes. São Paulo.
Bruckner, Pascal, 2000. A Euforia Perpétua, trad.António Cruz Belo, 2003. Editorial Notícias, Lda. Heska Portuguesa, SA.
Misrahi, Robert, 2001. A Felicidade - Ensaio sobre a Alegria, (Le Bonheur). trad.Flávia Nascimento. Ed. Difel. 1994.
Alberti, Verena. 1999. O riso e o risível. Jorge Zahar Editor Ltda.ed. 2002.
Nunes, Benedito. 1989. O Drama da Linguagem. Editora. Átila.
Waldman, Berta. 1992. Clarice Lispector. A paixão segundo C.L. (2ª. Edição revista e ampliada). São Paulo. Ed. Escuta.
Helena Lucia. 1997. Nem musa, nem medusa: itinerários da escrita em Clarice Lispector. Niterói/RJ: EDUFF, 1997.
*Geórgia Alves é jornalista e concluiu especialização em Literatura Brasileira pelo Departamento de Letras, da Universidade Federal de Pernambuco. e pede licença para apresentar aqui apresenta uma síntese.

Wednesday, August 08, 2007


Poucos colheram do "modo" de Clarice em semear o "direito à diferentes felicidades". Muito embora quase tod@s já saibam que o livro "A Paixão Segundo G.H.", de Clarice Lispector, conta a história de uma mulher que se chamava apenas pelas iniciais na valise de viagem e que um dia se depara com uma ordem diferente da dela. Perfeita, mas em tudo des - igual (neologismo meu) da sua casa de revista. Dia em que vai ao quarto da empregada e se depara com uma barata - ser pré - histórico com condição que antecede a condição humana. G.H. descobre aos poucos que vai impelindo - a ao encontro do que existe dentro da "coisa" que descobriu. Da página doze à página treze (1998, Ed. Rocco) conta:

"Ontem no entanto perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia (grifo meu) de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? (quase ouço com sotaque espanhol...) e no entanto não há outro caminho."

É assim, sem qualquer pausa, em um único fôlego, que vai indo:

"Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explicq que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra - como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização. E uma desilusão. Mas desilusão de quÊ? se , sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema."

E arremata, abrindo o leque para o "ser feliz", criando caminhos:

"No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido".

(A Paixão Segundo G.H., Clarice Lispector, Ed. Rocco, 1998, págs. 12 e 13)

Monday, August 06, 2007

Os infantis de Clarice Lispector


“...é uma coisa escondida sozinha num canto, esperando, esperando. Clarice Lispector só toma café com leite. Clarice Lispector saiu correndo correndo no vento na chuva, molhou o vestido perdeu o chapéu. Clarice Lispector é engraçada! Ela parece uma árvore. Todas as vezes que ela atravessa a rua bate uma ventania, um automóvel vem, passa por cima dela e ela morre. Me escreva uma carta de 7 páginas, Clarice”. Fernando Sabino.


nota: o escritor já havia terminado sua longa carta, tendo, inclusive, assinado-a. Mas, parece que ao perceber que ainda resta meia folha disponível, lançou-se nesse improviso lírico, assinando-o ao final. Carta manuscrita, enviada de Nova York e datada de 10 de junho de 1946.


Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa.

"Clarice Lispector nasceu em Tchetchelnik, na Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920. Morou num navio. Atravessou o oceano, morou em Alagoas. Viveu no Recife, escreveu para o Diário de Pernambuco suas primeiras estórias. Mudou – se para o Rio. Morou no Rio de Janeiro, lá escreveu e publicou suas primeiras reportagens. Casou. Mudou – se para Belém do Pará. , tendo recebido o nome de Haia Lispector, terceira filha de Pinkouss e de Mania Lispector. Seu nascimento ocorre durante a viagem de emigração da família em direção à América".

Museu da Língua Portuguesa
“Trinta anos d’A Hora da Estrela”
Jornal de Idéias

Clarice Lispector escreveu livros infantis. Tantos quantos os dedos da mão. Foi Paulo - filho dela - quem provocou Clarice com uma pergunta: por que você só escreve livros para adultos ? Nenhum deles é para crianças..."


Clarice "respondeu" dois anos depois. Com O Mistério do Coelho Pensante (Rocco,1967). E mais dois anos depois, com a frase numa carta: Rio,23/2/1969


"Você é o melhor livro que eu jamais escrevi, issso não tem dúvida".


Livros infantis de Clarice:

O Mistério do coelho pensante – Rocco, 1967
A Mulher que matou os peixes – Rocco, 1968
A Vida íntima de Laura – Rocco, 1974
Quase de verdade – 1978
Como nasceram as estrelas – doze lendas brasileiras – Rocco, 1987
(fonte: http://www.claricelispector.com.br/, onde ainda constam fotos e o trecho abaixo)

A importância da maternidade


“Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].”


Clarice Lispector



Friday, August 03, 2007


O mar, agora, é tão escuro quanto a mágoa retida pelo insólito desejo de vê - la viver. Tão misteriosa em seu nada quanto uma noite sem lua. Mas a luz ergueu - se sólida e longe. A água fria eriçando pontas de pêlos curtos. Olho distante a cor translúcida das espumas prateadas. Dedos escorrendo entre fios de cabelos de crisálidas. Minha tristeza é como canto de sereia, deixa a voz mais suave, a fala hipnotiza até a mim. Até eu me convenço que não sinto o peito repleto. Luto com a força de uma baleia gigante encalhada na areia. É hora de fechar o que havia aberto em mim. Qualquer coisa, aliás, que se pareça com amor. Somente essa breve solidão me faz livre. Saber que é possível não existir nunca mais é uma terna e irresistível tensão cristã. Vou apenas olhar mais de perto, peixes que vão ao meu encontro. É cada vez maior o desejo de estar em silêncio.

Tuesday, July 31, 2007


Será que vai me amar, ou sentirá medo? construirá um castelo com flores no jardim e uma enorme lareira? ou erguerá muralhas?

Tuesday, July 17, 2007

(foto: jc imagem)
Como a gente pode dizer que tem alguém? (tipo: você é meu!) se a gente nem sabe se o outro é dele mesmo? se o outro se tem de verdade, por inteiro, como um cão tem o próprio rabo e faz dele o que bem quer? (ou ainda o que os "sentimentos" desse cão levam ele a fazer com próprio rabo?). Não, não estou tocando o telhado de mansinho... pergunto para saber se algum mecanismo, ou lógica, fato, nos faz perceber que travamos nós mesmos essa luta de viver uma solidão boa, completa, povoada de nossos desejos? Solidão que tem por único objetivo nos tornar completos em nós mesmos e, por isso, capazes de acrescentar - em alegria e zelo e aprendizado - à convivência com o outro. Essa única e tão própria solidão que me fez plena, inteira. E capaz de oferecer flores e perfume e sorrisos ao ver seres se aproximarem. Deu - me uma essência equilibrada e o sentimento realmente nobre, puro tanto quanto a vida e o temperamento permitem, ainda.


Grita num silêncio seco em mim, uma solidão que há muito não sentia. Nisso não está qualquer desvelo, qualquer notícia. Esse é a maior de todas as capas, a maior pétala ou porta de que pude dispor. Tenho nehuma certeza de quem sou, do que tenho ou do que fiz de bom e de mau. Para os que amo e não amo. Para os que admiro ou os que tolero. Um sentimento que me faz repetir: essa cidade não tem amigos, essa cidade não tem amigos, esssa cidade NÃO! Ali só luzes frias acendem. Ora do pensamento perdido ora do pensamento criativo,


resisto em nome da felicidade que inventei para mim. De ser o mais sincera com meus próprios sentidos e crenças. De ser o mais atenta com os meus gestos mais simples ou sutis. As ações também, mesmo que tolas. É em nome dessa felicidade, por batismo, que resisto. Por ter tomado a decisão de escolher estar junto! De ser real e não mito. Comum. O eternamente inusitado virou de um jeito rotina que o abandonei sem pena ou saudade. Quis e me dei o direito de ser "apontada" como alguém que ama.