Wednesday, February 03, 2010

A filha me conta a história de amor de seus pais portugueses. Ele era tísico. E ela, seu Amor: "uma flor, em perfeito estado físico". Bem sabia, era pura ainda e moça com tudo se melindra... Por isso, o jeito que encontrou para "beijá-la" foi dar a ela conchinhas minúsculas, colhidas no mar. Guarda até hoje o tesouro e uma enorme valise. A doença fez a troca eternizada.
Como livro de uma única página espero que escreva em mim com uma só palavra. E o vento sopre o branco do meu vestido e você, com seu estilo, me faça imprimir a essência dessa mistura. Que nossa vida se construa em cada tijolo da pirâmide. Tu me liberta em movimento. E eu alimento a anima tua.

Monday, January 25, 2010

Na ponta do Arco-íris. Fervo.
Preto
Desejo de gueto
Eu no espeto
Caso amanhã
De preto...
Roxo
Rosto no encontro
Do carro, pálido...
Você tira sarro.
Ficou rôxo?
Eu presa
No intervalo.
Lilás
Será que você
É mesmo capaz?
Dê-me apenas uma
Flor, que seja lilás
Assim, a mentira
se desfaz.
Azul
Senhora Azul:
Posso esconder
o meu pranto
em teu manto?
Juro, logo após
abro os olhos
Pra ver com
Encanto
Vermelho
Teu medo e o meu
Vestido vermelho
Não combinam.
Mira só no espelho
Eu te vejo inteiro
Você me estilhaça
Depois de virar
Pelo avesso.
Verde
Um dia eu vi
Alguém, decidi
Esse não houvera
Igual a ele antes
A este dediquei
Um dia inteiro
Diamantes
Amarelo
Se amar não é
O nosso elo,
O que será
Mais sincero?
Acho que vi
Um sorriso
Amarelo
Laranja
Antes do céu
Ficar laranja
Junte tudo
O que é seu
Dê adeus e
Vamos ver
Como se
Arranja...
Anil
Acho que vi
Um brilho nutri
Será que fiquei
Senil? Menti?
Meu rosto
Pintei de anil.
Violeta
Vamos brincar?
De borboleta!
Eita, eita!
Olha, como deita!
Deu pra ver?
O quê?
Sua violeta.
Branco
Vi um céu liso
De algodão
Pus a mão
E o coração
disparou.
Teu manto
Virou circo branco.

Wednesday, December 30, 2009


A menor concha do mundo



Não que procurasse por tal, mas à menina moça, naquela praia de água fina, ocorreu numa tarde encontrar uma conchinha minúscula. Se fosse para ser contada em dias, ela duraria paneas um instante. Feliz e raro.


De uma notoriedade que não ansiava, ela era! E fosse na escola ou no curso de francês ela era lembrada pelos colegas por sua solidariedade e até caçulice. Precoce, ela durava. Uma vez, um amigo mais próximo levou dez anos para livrar-se de imagem dela em seus sonhos...


Então, o que mais buscava a menina tão moça ainda? O que sei dizer de maneira simples e reta é que a menina fazia por onde realizar metas e planos. E, naturalmente, tinha seus sonhos!

Talvez, uma de suas características mais próprias fosse o êxito com pouco esforço aparente. Sem empenho árduo visível. Porque como capturava instantes em seu imediato momento ficava com aquilo e não abandonava mais. É o que se pode dizer, alguém preciso. Ela é matemática. Pura lógica. Sim, prática. E faz sempre sentido.
Ali, com ajuda diânica e materna, bem terna, foi ali, naquela tarde que parecia ser só de descanso, que à menina moça aconteceu enxergar em meio ao cascalho na areia, a menor concha do mundo. Com a imediata impressão de coisa rara passou a se ocupar de achar uma palavra que naquela minúscula criatura coubesse.


O que afinal descobriu e foi com o passar dos anos é que são duas ou três palavras que cabem naquele universo. Palavras que só se escreve em maiúscula.

Tuesday, September 08, 2009

Bloco de notas: "Aproximo momento de explosão criadora do universo", junção de duas moléculas: H2O.
Explico: viagem Narciso!

Saturday, September 05, 2009

Alturas: numa tarde de completo encanto consegue de mim tanto. Mesmo quanto sinto, apreendo mais do que deveria. É que absorvo naturalmente. Identifico, afinal, um desejo meu. Não importa se tanto amor me leva algum pranto. Vou indo sem medo. Tua música única é a minha também e me põe a palmos de chão. Nas alturas! Mais perto do céu. Longe do não. Amor de medida rara. Sem vírgulas. É azul e está na cara. Sou ponto tão exclamativo ao teu lado. Sinto amizade. Um bem querer para sempre.


Desenho nesse escuro, discorro há horas. Nenhuma palavra é completa para dizer do meu intenso prazer em revelar esse fluxo... Quero escrever até enquanto rezo. E prezo porque não publico. Revejo teus beijos à porta da minha casa. Eles voltam e fixam-se em halo. Não deixaria você ir não fosse “está na hora de dormir”. Passaria a noite naquele mesmo abraço contigo. Fez-me existir. Teu perfume meu elixir. Tua ternura de amigo meu encarecido abrigo.
L&G.


Você, daí de tão longe, devolve em mim uma natureza viva e perdida. Como a terra devolvesse a si mesma o ar puro de antes, muito antes daqui... Vale de água limpa e campo verde em tarde cristalina. Porque há uma sinceridade real no silêncio. E há flores por vir. Uma floresta antiga de raízes profundas e tênues como uma teia. Você me devolve a mim mesma.


É improvável esperar qualquer tempo sem ouvir tua voz ou ver teus olhos. Contigo a noite não chega e é terno o dia. Não tenho medo. Habituo-me à luz que não se apaga. Nem para uma penumbra de quarto e de cores. Querer teu corpo ao lado do meu é perceber-me assim! Por mim apaixonada. Você faz isso comigo? É pergunta de amigo...

Sim. Gene como a própria fé. Zen como meu espírito. Percebo tanta fé em mim que não adormeço revendo teus beijos. Meus olhos brilham em faíscas ao pousar em você. É um pouso... Como uma criança diante da alegria de saber tocar um instrumento. Quase dissolvo. Brilho feita em duas moléculas. Viro água e escorro. Derreto como as asas de Ícaro em proximidade improvável do Sol. Sem qualquer máscara ou disfarce, minha tensão escapa entre os dedos e não faço mais segredo. Foi longa a espera.


Penso em você como quem tece uma manta de fios perfeitos. E se escrevo é porque explodo de alegria quando dedicas horas do dia e da noite a me provocar efeitos. Reencontro a tua gola de camisa azul clarinho nas alturas, os dedos compridos tão conhecidos. Decorei tudo. Cada detalhe. Tua boca e lábios em minha direção. Meu amor por você me leva às alturas e vou. Deixo ir. Encontro de corpos celestes. Força de atração que construiu em mim a trajetória elíptica. E quanto mais distância alcança o meu olhar, enxergo o que fui. Anos luz de história descrita no espaço. Aproximo momento de explosão criadora do universo.

Thursday, August 06, 2009

Lei Maria da Penha. Pequena a distância que separa o silêncio do cumprimento... Tênue e frágil em suas horas a rede que sustenta o elefante. Tal violência é latente e não se encerra o tempo de denunciá-la.

Wednesday, July 29, 2009

Ficou para nunca mais...



Ficou para nunca mais o filme que faríamos no bar Garagem. Ficou para nunca mais a imagem fumegante do seu dono abrindo a geladeira diante de um balcão escuro por sobre uma parede cheia de detalhes. Sim, a iluminação permitia confundir teto e chão com as paredes... De lá se desprendia como num espaço etério a foto do Papa João Paulo II, lembranças de um lugar e outro. Recordações para acender a memória. Isso hoje é tudo.

Tudo que restou do cenário dos que buscavam mais um pouco, um outro passo louco, numa noite que não fosse o Garagem já teria tido fim... Sua grande ventura foi transformar o dia em noite eterna que se misturava a um amanhecer que começava por assim dizer, quando sequer havia terminado...

Realizava assim em nós, recifenses de uma boemia lisa, a aventura de continuar existindo na beira rio que inventamos no nosso projeto de cidade. Cumplicidade. Poeticidade. Insanidade branda. E eternidade de todos nós, se fôssemos jovens. Teciamos ali em conversas mal ouvidas sensações que nem raízes em imaginário fértil.

Em pleno bairro da Torre, depois de resistir a todas as águas que passaram por baixo da ponte, o Garagem foi trator abaixo por decisão e ordem do nosso poder público. Não há manifesto que conserte. Nem concerto que revele a música que se construiu ali. As imagens de um Recife indie, underground, retrô, punk, hardcore ou apenas azul, de um bom blues ficou para nunca mais. Soterrado por leis, licenças de funcionamento e decisões. Representativas?

Não acontecerão nunca mais. Não bastou fazerem pouco do desejo de consumidores pagantes removidos de outras calçadas, longe dali. E os shows que aconteceriam? Os encontros e desencontros? Ali, não acontecerão nunca mais.

Ficou para nunca mais. E eu que neguei o pedido de Alice no país das maravilhas, em mais uma noite que começou e que naturalmente não terminaria, ao pé da indestrutível Ponte da Torre. A única que resistiu às dinamites. Como a ponte, a boemia em nós vai resistir.

E outros lugares como o Garagem surgiram em todas as partes. Embora aquele filme de um colorido obscurecido que faríamos ali, ficou para nunca mais.