Lugar da delicadeza com o outro e com a própria Liberdade.

Onde se está de acordo com o único modo do humano de ser feliz

Sunday, June 15, 2008

16 horas - em frente ao Maksoude Plaza. Até onde posso ir? Pra que tanta bagagem? Um café!!! sento observando o prédio. Quanta pompa. Baita "ostentação" diante de olhos tão carentes como os meus. Aqui, como pão a metro. Perfeito para horas de fome. E quilômetros de incerteza. Abuso na medida. É sempre assim. Difícil encontrar medida certa. Equilíbrio. (Já disse que na ponta de uma espada não dá, não tente, vá por mim...)



Vou pedindo desculpas. Morre-se assim a cada dia. Me sinto a pior das criaturas. Ou uma das mais "privilegiadas".

16 horas 20 minutos - chegou o ônibus. Preciso correr. Ninguém ajuda com os pacotes. Eu poste. Vou desequilibrar e cair. Preciso insistir com o bilheteiro: "Um mão?". "Não, obrigado. Não sou parte interessada"... "Tudo bem, tudo bem! Seguro para você essa caixinha de presente". Ele está certo. Três sacolas numa mão, uma mala enorme na outra. Quem mandou ser consumista & feminista?

16 horas 45 minutos - enfim, confortavelmente na poltrona. Tudo aqui é macio e "arcondicionado!". Me vem a cara do taxista, que pensou que eu era turista. Descolado, eu nunca pagaria pelo triplo, sem direito a tudo isso. Janelas maiores e o silêncio... Segurança na estrada.



A viagem vai durar uma hora. Se não houver engarrafamento. Nunca torci tanto por um. Daqueles de parar a via Dutra: 5 km. E lá estão os helicopteros das emissoras de tevê. Só sobrevoando. Mas não foi o que aconteceu. Durou menos de uma hora. Ensaiei uns cochilos. Como se olhos carecessem repouso diante de tanta imagem. Foram oito dias dormindo com buzinadas no juízo. Nada podia ser mais recompensador e tranqüilizante que a borrachinha da janela em atrito. Bom, fim da linha. De novo às malas...

17 horas e 20 minutos - o bilheteiro já me dirige a palavra. Pergunta o nome da companhia aérea. De repente está até curioso. Para que tanta informação? Sua desculpa é que cada porta ou terminal corresponde a uma porção delas. Que bom que me avisou antes.... Tudo bem, São Paulo é mesmo uma cidade grande. E o aeroporto tinha que ser enorme. (Só vamos combinar que "Passaredo" não soa bem em lugar algum).

17 horas e 40 minutos - descobri que cheking só se faz horas antes do vôo. E como são poucos. Vou ter que dormir com um olho aberto?

18 horas - Preciso ir ao banheiro e isso é para hoje! Cometo o pecado de entrar no que é reservado para pessoas com necessidades especiais. Por favor, dá um tempo. Essa sou eu. Eu mesma: "euzinha". Hoje eu estou assim, assim. É O ÚNICO LUGAR QUE DÁ PRA ENTRAR COM ESSA MALA!!! ah, que alívio...

18 horas e 20 minutos - alguém com tantos pacotes quanto eu. Confortavelmente sentado. Deve ser rei. Ou deputado. Consegue até ler esse "gênio"! Tá pesado. Talvez me sente ao lado dele... Dando início aos movimentos necessários, que antecedem uma boa leitura de aeroporto. Confiro as malas e pacotes. Estão firmes no carrinho. O mais próximo possível de mim. Tiro o livro de uma das sacolas, prendo a bolsa na cadeira. Mesmo sem um centavo. Ainda assim é uma alegria reencontrá-la. Fiquei até carinhosa, de repente, com ela. Resolvi abrí-la, olhar por dentro. Bater um papo. Ah, minha bolsa querida... Lá dentro vejo a pasta de dentes e a escova num estojinho. Tudo tão delicado. Graças a essa dupla amiga me livrei do gosto de presunto na boca. Pois é, creme dental é mesmo a solução. Vou olhando os outros elementos na sacolinha transparente de objetos de uso tão pessoal. Só carteira vazia me dá náusea.

18 horas e 39 minutos - Descubro esse bloquinho de anotações. Posso escrever por mais 24 horas. Visto uma blusa cor de prata. A caneta é de alumínio.

19 horas - o fluxo de pessoas é menor. Grupos de negros americanos. Mãe irlandesa com filhinho de uns 3 anos. Homens com a mão no bolso, pensando. Começa a missa das sete. Será que o pároco se incomoda que eu entre? "Não é lugar pra malas". Nunca imaginei que o reencontro com o divino seria num aeroporto.

19 horas e 05 minutos - por que essa voz no alto falante não para?

19 horas e 49 minutos - que bebê bonito. A família passa por mim com dois carrinhos. Na volta só vejo o bebê nos braços. Livraram-se das malas? Quem? Como? Quando? Onde? Nem preciso perguntar por que. Vou pelo caminho trilhado pela simpática grande família. Entrou com bagagens, saiu feliz sem elas. Eu nunca imaginaria. Eum estante com cara de companhia de ônibus. Não parecia serviço de guarda-volumes. Mas é. Que bom que inventaram o "malex".

20 horas - aqueles ali são de "países nórdicos".

20 horas e 08 minutos - portal aberto. Caixa eletrônico. Nada!. Nient! Nothing! Fora do ar. Não remédio que dê jeito numa dor de cabeça dessas. Quando vão inventar uma lei que garanta trabalho remunerado e livre do sistema bancário? É duro.

20 horas e 18 minutos - como tem gente de fora circulando por aqui.

20 horas e 33 minutos - um casal comprando souvenir.

20 horas e 45 minutos - fome começando a apertar. Dá-lhe pão a metro.

20 horas e 59 minutos - no final do corredor tem um restaurante chiquérrimo.

21 horas - melhor conhecer as instalações.

21 horas e 30 minutos - e duas revistas depois. Já sou figurinha conhecida por aqui.

21 horas e 45 minutos - na sala vizinha ao restaurante dá para dormir.

22 horas e 01 minuto - essa risadinha foi comigo...

22 horas e 16 minutos - seria muito pedir para fazerem silêncio.



22 horas e 56 minutos - meu Deus, eu só quero conseguir dormir.

-

05 horas e 17 minutos - acordei, acordei! significa que consegui: dacordafelicidade. Eu preferi estar de acordo! Que emoção. E lá se vão as horas, os dias, os anos. Agora só faltam mais doze...



6 horas - já tem gente na rede. Que bom inventaram Internet.

6 horas e 30 minutos - pausa para um café. Se o sistema eletrônico permitir.

6 horas e 45 minutos - No ar!!! ahhhh, não inventaram cheiro tão bom. Café, café, café!!! Toledo: tirei lição dessa marca. Tomo Santa Clara.

7 horas - pena que os paulistas não conhecem tapioca. Tudo bem, pão de queijo e croissant. Nunca mais pão a metro.

7 horas e 55 minutos - tem um garoto que também durmiu nessa salinha.

8 horas e 10 minutos - fiz meu primeiro amigo na viagem. Paulista sabe ser correto. E frio. Não sei por que, mas gosto muito disso. Em Brasília, foi só o que ouvi. De São Paulo? No espelho, uma elegância paulista.

8 horas e 23 minutos - ganhei minha primeira caixa postal gratuita: georgia_alves@yahoo.com.br. À Rafael Giuliano Leite. Professor de linguagem de surdos mudos.
9 horas e 9 minutos - mais um portal. Atravessei!


(24 horas no Aeroporto Internacional de Garulhos, Cumbica)

- inaugurado em 20 de janeiro de 1985

- primeiro vôo: Boeing 747 da Varing, Vindo de Nova York. Depois um Air bus A-300 da Vasp, so com autoridades do Aeroporto de Congonhas

- responsável pro 30% do tráfico aérea do país

- mais de 171.000 movimentos de aeronaves

- 14 milhões de metros quadrados, 5 milhões de área urbanizada

- duas pistas paralelas para pousos e decolagem

- uma com 3 km de extensão outra 3,7 km

- outra auxiliar com 2 km

- dois terminais: número 1: 75 mil m2. Terminal número 2: 80 mil metros quadrados.

- atividades operacionais: 25 horas por dia

- 44 companhias

- Em 22 anos de existência calculou-se que:

"222,3 milhões de pessoas embarcaram e desembarcaram pelos terminais de passageiros, através de 2,9 milhões de operações de pousos e decolagens que transportaram cerca de 6,9 milhões de toneladas de cargas."

2 comments:

Camila said...

Veio a SP e nem pra avisar, né... Podíamos ter tomado um café. :(

Muito boa descrição, me senti dentro do aeroporto acompanhando tudo.

Beijo e boa semana!

Geórgia Alves said...

Camila, aviso sem falta na próxima
Beijo e boa semana!