Lugar da delicadeza com o outro e com a própria Liberdade.

Onde se está de acordo com o único modo do humano de ser feliz

Sunday, May 28, 2006

A Felicidade em Clarice Lispector


Introdução

Este trabalho trilhou os caminhos da filosofia para a identificação e clarividência dos mais variados conceitos de Felicidade na obra de Clarice Lispector. Na construção foram tomadas como "roteiro" quase todas as obras da autora, excetuando - se os livros infantis, por se entender como desafio menor encontrar essa felicidade nesses. Onde Clarice era um pouco mais "fácil" consigo mesma com um "e pronto". A autora publicou cinco deles (Editora Rocco).

A trajetória tem início no último livro da autora (a novela A Hora da Estrela), publicado no ano em que Clarice morreu (1977). Um relato "cru" e aparentemente distante do sentimento habitual de Felicidade. Principalmente pelo forte caráter de autobiográfico na obra de Clarice, toda marcada pelo traço autoral, onde escritor e obra se confundem em vários instantes. Nas palavras de Benedito Nunes, grande crítico da obra da autora "o narrador de A hora da estrela é Clarice Lispector, e Clarice Lispector é Macabéa tanto quanto Flaubert foi Madame Bovary".

O aspecto observado na obra é o do riso ou dos instantes em que a autora presenteia o leitor com a mais refinada forma do aspecto dentro do conceito, traduzido ainda em 1900, por Henri Bergson, do mecânico do corpo endurecido ao se confrontar com a fluidez da alma. Ou ainda da alegria que trazia o progresso como previu Condercet oferecendo a todos um novo padrão de conforto e felicidade à massa da humanidade.

Ainda será foco da análise o conto Felicidade Clandestina, onde a busca pelo "bem supremo" e a felicidade se configuram na relação com a leitura ou na própria imagem do livro Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato) que Clarice carrega nos braços contra o peito ao atravessar as ruas e pontes do Recife onde viveu quando menina e ao se confrontar com esta alegria adia o encontro tornando a felicidade clandestina e transformando a menina deitada na rede com seu livro no colo, numa mulher com seu amante.

Também a alegria de escrever, já destacada pelo autor Benedito Nunes em análise do romance Legião Estrangeira e que avaliamos também através das Correspondências de Clarice e "crônicas" publicadas no Jornal do Brasil e outros depoimentos dessa ventura na vida da autora. Além do busca da perfeição, personificada pela personagem de Laços de família também é incorporado à análise, em momento posterior, pela descrição do cotidiano de Catarina que revela nas palavras da autora um "riso doído que saía pelos olhos". Uma prova da existência de uma felicidade oculta, enviesada.

Clarice Lispector sabia que a escolha de sua obra não era psicológica: "Além do mais a 'psicologia' nunca me interessou. O olhar psicológico me impacientava e me impacienta, é um instrumento que só trespassa. Acho que desde a adolescência eu havia saído do estágio do psicológico". A afirmação é feita pela personagem G.H. em A paixão segundo G.H., (pag.18, Paris/Brasília, Coleção Arquivos, v.13.). E esta afirmação - facilmente encontrada na internet nas referências selecionadas e associadas ao nome de Clarice - é um dos motivos para a escolha do entendimento através da Filosofia deste estudo.

Através destes elementos é possível encontrar os instantes da obra da autora onde a felicidade e a busca existem. Como na Ventura ou Aventura do Amor, sentimento necessário à conquista da felicidade. Porque está ligado ao desejo concretizado. A satisfação de um anseio. Por isso, não é objetivo do estudo um conclusão a este respeito na obra de Clarice. Por este ou pelos demais caminhos. Mas dizer. Escrever. Refletir sobre o que está escrito no título:


A FELICIDADE EM CLARICE LISPECTOR
"CLARICIDADE"

De pessoa "difícil" a escritora hermética, Clarice foi vista de diferentes ângulos: obtusos, retos, "escuros". Alguns mais amplos. Hoje, vinte e seis anos depois de sua morte, pode se afirmar, com muita cautela, que alguma coisa mudou. A autora, além de mais lida, é um tanto mais compreendida. Enquanto isso, a vontade de decifrá - la só aumentou. Neste ano, o "modo" vem sendo as compiliações de correspondências que trocou com amigos, parentes e outros, além de igualmente importantes escritores brasileiros.

São passos, mas a evidência dessa trajetória ainda é sinônimo de uma literatura densa, de uma intelectualidade exarcebada. Na melhor das hipóteses de uma escrita fortemente autoral. E ser não foi fácil para Clarice. Viver menos ainda. Questões pessoais não auxiliaram no "esperado" riso fácil. Talvez por isso ela passou a entender como possível o riso "que saía pelos olhos", como acontece à sua personagem Catarina, no conto Laços de Família. E como sorriam mais que qualquer outros os olhos de Clarice... Ela jamais abandonou a busca. Basta um olhar mais atento: observar essa presença nas entrelinhas.

Da "personagem" que suporta em silêncio as ansiedades da mãe e as hostilidades entre ela e o marido. Em Felicidade Clandestina, o encontro com o "bem supremo", personificado na imagem do livro como foi dito, é adiado com uma ida até a cozinha para se "comer pão com manteiga". Que de Felicidade adiada torna - se clandestina, que a autora assegura já pressentia que assim seria. Um dos objetivos do trabalho, talvez o que se dará por fim, será documentar e evidenciar esse tipo de Felicidade. E a própria existência de "modos" felizes escolhidos por Clarice.
Alegre ainda que por uma "fatalidade", como traduz no contro Águas do Mundo. Ou que é abolida por uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha - com persistência, continuidade, alegria", nas palavras da autora no conto Amor. Contudo existente, se motivação para um deixar de existir. Uma alegria contente.

De contentamento mesmo. Mesmo no famigerado universo de Macabéia, identificar essa alegria, além de prazerosa tarefa pela sua desafiante escrita, tornou - se ainda tranqüila, depois de codificada a maneira holográfica do riso doído de Clarice. Um ser humano fosforescente (para Heitor Cony, um "peixe fosforecente") e uma luminescente (numa palavra da própria Clarice) autora da Literatura Brasileira.

Além de brilhante e às vezes indecifrável, Clarice era também maternal e, em muitos momentos, feliz. Além da vasta e respeitada obra, deixou cinco livros infantis, das vinte e três publicações (Ed. Rocco). Universo que merece, com carinho, atenta análise posterior. Clarice sofreu mesmo com terríveis dificuldades, uma vida sem a mãe depois dos nove anos, com uma tia difícil, um casamento precoce, um marido diplomata, casamento que chegou ao fim, um filho que apresentou problemas de esquizofrenia.

Ela mesma precisou de muitos cuidados, principalmente nos últimos anos de vida, uma morte dolorida, prematura. Mas Clarice teve também um reconhecimento abrangente, até muito imediato - talvez imediato demais - com a publicação do seu primeiro romance Perto do coração selvagem, em 1944. Quando Clarice tinha apenas 19 anos. Não dá para calcular o tamanho do débito de uma sociedade adoecida na vida daquela jovem escritora.

Nascida na Ucrânia, em 1925, e trazida para o Recife com meses de idade, teve problemas com sua nacionalidade, até a idade adulta. Foram necessários vários e insistentes pedidos ao Presidente Getúlio Vargas e ao Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Cultura para regularizar sua situação de "não naturalizada" no Brasil. "Que, se fosse obrigada a voltar à Rússia, lá se sentiria irremediavelmente estrangeira, sem amigos, sem profissão, sem esperanças."

A primeira tentativa de resolução foi através de carta datada de três de junho de 1942, na qual Clarice descreve sua condição de "jornalista, ex - redatora da Agência Nacional (Departamento de Imprensa e Propaganda), atualmente n'A Noite, acadêmica da Faculdade Nacional de Direito e, casualmente, russa também. Uma russa de 21 anos de idade e que está no Brasil há 21 anos menos alguns meses. Que não conhece uma só palavra de russo mas que pensa, fala, escreve e age em português, fazendo disso sua profissão e nisso pousando todos os projetos do seu futuro, próximo ou longíquo".

Ficou no Brasil, casou, teve filhos. Teve amigos, foi morar fora, continuou a escrever em português e foi muito querida, além de respeitada inteletual e pensadora do seu tempo. Versada depois da morte em várias línguas. Uma mulher amorosa que guardava muito desse afeto. Foi não se dizendo que ela foi. Por quê ? Talvez para "reservar" aos seus, filhos e livros, ambos nasceram e cresceram em seu colo. Há muitas outras perguntas e análises que ficaram para o futuro. Feliz que próximo. A idéia é satisfazer, mesmo que em pequeníssima proporção, um dos pedidos feitos por Clarice em sua última entrevista. Questionada quem era Clarice Lispector, ela respondeu: Eu sou um ser humano. É inspirado por esse desejo simples que o trabalho pretende se guiar.

As compilações de correspondências têm ajudado o leitor a enxergar Clarice através destes outros ângulos. Mas ainda não é o bastante. Decifrar essa felicidade clandestina não é tarefa fácil. Já não seria se Clarice fosse um ser humano raso, de obra simples, que dirá com tal grau de complexidade. É claro que é possível de imediato identificar a presença dessa busca em sua obra. A proposta é fazê - lo, depois de identificados os conceitos de felicidade. E não encerramos em apenas um. A compreensão é de que há vários deles que se aplicam na obra da autora. É tão somente um olhar sob esse ponto de vista. Com a licença autoral, que plagia Clarice, em sua "alegria livre" - que acaba de ser inventada como o era a verdade da autora - das três epígrafes a seguir. Numa ilustração da proposta do estudo de demonstrar a convivência das diferentes versões do ser feliz num mesmo e único ser humano.

O QUE É FELICIDADE ?


"Então eu canto alto agudo uma melodia sincopada e estridente - é a minha própria dor, eu que carrego o mundo e há falta de felicidade. Felicidade ? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes".

Clarice Lispector

"Eu canto, porque o instante existe. Não sou alegre nem sou triste. Sou poeta"
Cecília Meireles

"Vem do latim, felicitate, qualidade ou estado de feliz, ventura, contentamento".
Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa


Existem vários conceitos de felicidade. E diferentes caminhos para estudá - la. Aqui, a escolha é compreender a felicidade sob as luzes da Filosofia. O empreendimento mais ousado do pensamento humano, que pretende explicar o mundo e o homem como um todo (Platão). Para isso, serão instrumentos de orientação nessa travessia os livros O Riso e o risível, de Alberti Verena, e Felicidade de Eduardo Giannetti, além A Felicidade - Ensaio sobre a Alegria, de Robert Misrahi.

Também conceitos propagados desde o princípio dos tempos por Aristóteles, Platão, Kant, Russel e tantos outros. Uma reflexão que mistura a visão do início e da atualidade. O entendimento é o mesmo de Henri Gouhier, em Siutación Contemporanea del Mar: "se existe uma filosofia eterna, philosophia perenis, ela não existe historicamente senão através de filosofias atuais; e isto porque as exigências permanentes do pensamento, se manifestam no interior de situações concretas que favorecem, mais ou menos, seu desenvolvimento".

O conceito de Felicidade vem sendo estudado pela Filosofia desde sempre (!), da Antiguidade. Quase não houve (se é que houve) quem não se encarregasse dela. A lista é de um sem fim. Além dos que foram citados: Epicuro, Platão, Tucídedes, Spinoza, Heidegger, Nietzsche, Schopenhauer, Sartre (mesmo que pelo avesso), Ernst Bloch, Pascal, Göethe, a lista é de um sem fim. Robert Misrahi, no livro A Felicidade, explica a existência de duas correntes nos estudos filosóficos para conceitualizá - la.

Uma primeira, que ele critica, que se deteve mais à angústias, trilhada por Heidegger, passando por Sartre, numa teorização do "ser - para - a - morte". E ainda uma outra linha, traçada por Nietzsche onde a "Plena Luz" ou "vida ascendente" estaria estreitamente ligada à dor e ao trágico. Ainda da Felicidade Adiada entendida por Platão, seguido por Kant, onde o desejável bem supremo só se alcança após a morte. E a corrente que evidencia como a ser seguida, que começa em Aristóteles , passa por Spinoza e é difundida por Ernst Bloch, da felcidade que deve se realizar neste mundo. Como completa Misrahi: "felicidade concreta pelos prazeres ponderados, espiritual pelo conhecimento e pela filosofia, ativa pela política. Sendo portanto, a um só tempo, a possibilidade mais perfeita para o homem e sua maior virtude".

Baruch Spinoza enfatiza a ligação dos conceitos de Felicidade e Liberdade, entendendo em Deus, a natureza infinita e criando a imagem do "homem livre". Epicuro reforça a idéia da felicidade como virtude e ligada aos sentimentos íntimos e atitudes com a definição que "o essencial para a nossa felicidade é a nossa condição íntima; e desta somos nós os senhores". Ainda no século III a.C., entende que o objetivo da vida humana é obter a felicidade. E que o meio de alcançá - la é o prazer nascido da satisfação dos desejos.


O iluminismo que trouxe a idéia de que a automatização faria dos humanos mais felizes porque tirariam pessoas de funções aprisionadoras. Idéias como a de Condorcet sobre como "o progresso das artes mecânicas trará um novo padrão de conforto e felicidade à massa da humanidade", que Clarice retrada na personagem Macabéia. Que de tão feliz não tem consciência de sê - lo como é preciso na opinão de John Stuart Mill ou mesmo Fernando Pessoa.

Ainda é necessário tratar da importância do desejo e da satisfação ou não dos mesmo na história da humanidade. Aspecto abordado por Philipe van den Bosh (A Filosofia e a Felicidade, pag.29) sob o título de Elogio do desejo:

(...) para ser feliz, há que ter desejos e sobretudo ter o poder de saciá-los. Com efeito, um desejo insaciado faz sofrer, ao passo que desejos realizados dão satisfações cujo acúmulo constitui a felicidade. Por conseguinte, o desejo é uma coisa boa: pois, quanto mais desejos tenho, mais sou capaz de satisfazê-los, e mais feliz sou.

O mesmo autor lembra que esse elogio do desejo está amparado por algumas filosofias, entre as quais a que fora desenvolvida pelo pensador contemporâneo Gilles Deleuze, que em sua obra escrita junto com o psicanalista Félix Guattari, L'Anti-Edipe (Éditions de Minuit, 1972)..."o desejo é uma potência vital, um dinamismo criador, que nos proporciona alegria".

No estudo há vários destes conceitos e aspectos. Na obra de Clarice é possível encontrar quase a todos. Alguns de maneira mais predominante pelo ser da autora, como em Epicuro. Outros por passagens do que está escrito e, em recorte, pode ser comparado ou associado. Outros autores serão citados ao longo do trabalho, assim como seus diferentes entendimentos da Felicidade. Ao final, o objetivo será traduzir o que fora criado pela própria autora. O esforço é para evidenciar o riso e o "modo" de ser feliz, e seus plurais.


Novamente Philipe van den Bosh no item Dificuldades de uma definição da felicidade (pag.18) auxilia com sua lógica de clareza franca e simplificada.

"Apresenta-se uma primeira objeção: todos nós sabemos o que é a felicidade, isso é obvio, por isso uma definição é bem inútil! (...) uma segunda objeção: a felicidade é algo pessoal, cada qual tem sua felicidade própria, diferente daquela de outrem.Portanto, não se pode dar nenhuma definição universal da felicidade".

Uma evidência dessa felicidade de Clarice, ou "Claricidade", é a evolução dos desejos. Como explica o mesmo Philippe van den Bosh, (pag.25), "há várias maneiras de vir a interroga-se sobre a felicidade e todas elas são crises existenciais. Oscar Wilde dizia basicamente que há duas tragédias na existência: não conseguir satisfazer todos os desejos e conseguir satisfazer todos os desejos".

Segundo o autor para Wilde - que é um otimista - a existência é sempre trágica. Para Clarice o desejo saciado não finda numa insatisfação posterior, mas na própria evolução do desejo. Como no exemplo da menina e seu livro. Há um desejo posterior: da mulher e seu amante numa rede. E nisso resume e encerra a felicidade. Com um ponto final. A mesma Clarice que foi capaz de começar um livro (Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres) com uma vírgula. Encerra seu conto sobre a felicidade (por ela clandestina) com um ponto. Depois de um desejo que evoluiu da garota com seu livro (bem supremo - objeto de desejo) para uma mulher com seu amante.

Embora, com unanimidade, se acredite que ser feliz requer a satisfação de todos os desejos, o mesmo autor (Philippe van den Bosh) lembra a visão do filósofo Kant, que define a felicidade como "a totalidade das satisfações possíveis", e conclui que "o fato de obter todas as satisfações que seja possível ter, ou que possamos imaginar e que por isso mesmo desejamos experimentar". Bosh deduz que por conseguinte, ser feliz significa também não ter nada mais diferente para desejar, citando Epicuro para concluir: " Com a felicidade temos tudo de que precisamos".

Para no momento seguinte entendê - la como "absurdo ?": Mas então a felicidade não é algo contraditório? De fato, se realizamos todos os nossos desejos, depois de ficarmos imersos uns tempos na mais completa felicidade, se já não temos nenhum desejo, não corremos o risco de afundar- nos no tédio? Então já não seria a felicidade! ( Bosh, van den Philippe. A Filosofia e a Felicidade.São Paulo. 1998. pag.23).

No entanto, é preciso que a equação da conquista da felicidade se resolva, mesmo na sua impossibilidade e contradição. Pois se quando o é, passa no momento seguinte a desfazer - se em tédio (ou a projetar - se em outro desejo). E, portanto, não sendo mais satisfeita. Conquistada. É dessa forma que Clarice soluciona a difícil condição do ser feliz tornando a felicidade clandestina.

Clarice, "como Deleuze, se opôe a toda uma tradição de pensamento moral e religioso, que condena o desejo e mesmo a uma tradição filosofica dominante que , de Platão a Freud, concebe o desejo de modo negativo e infeliz, como uma falta". Palavras de Philipe van den Bosh (pag.30) que bem se encaixa no comparativo do pensador contemporâneo, falecido em 1996, dezenove anos após a autora. Bosh ainda afirma que Deleuze tenha invocado filósofos mais originais, e em geral julgados escantadosos em sua época, como Spinoza e Nietzsche. Também escolhas comparativas para análise da obra de Clarice Lispector desse estudo. Autora que no conto A Repartição dos Pães (pag.88, Felicidade Clandestina) diz completamente desse desejo. O seu desejo. Melhor, o dela.:

"Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá - lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo".

Nietzsche que em seu estudo Will to power (§433,p.237,e § 437. p.241) analisa criticamente a fórmula proposta por Condorcet, em Sketch, p.201: Razão = virtude = felicidade. A sequência constituiria um "elo indissolúvel", como lembra em notas de seu livro Felicidade, Eduardo Gianetti. O próprio Gianetti faz a sua análise também crítica da associação Kantiana:

"Razão = virtude = felicidade? E se nem tudo o que é prima facie bom e valioso no mundo - o saber verdadeiro, a correção moral, o belo estético, a livre escolha individual, a eficiência econômica e o bem-estar humano - convergir no tempo ou for necessariamente compatível ? O futuro despe o passado. Nossas escolhas têm conseqüências imprevistas".

Do filósofo Baruch Spinoza (nascido em Amsterdam, 1632 - 1677) vem a melhor de todas as frases e definições filosóficas :"A Felicidade não é recompensa da virtude, mas a própria virtude". Simplificando a relação antes citada como "felicidade=virtude". Clarice enxerga essa felicidade criando outras relações, como virtude/recompensa, e escrever/felicidade.

A frase vem de Auto - retrato I , onde a própria autora fala de si ; (Waldman, Berta.2 ed.1993.Ed.Escuta.p.15) "As recompensas de escrever são as de escrever apenas". Ou seja: recompensa=escrever", quando escrever é a felicidade. Chegando à mesma relação: virtude=felicidade.

É difícil não reproduzir todo o estudo de Philipe van den Bosh para tratar da Felicidade como tema em sua totalidade. Como quanto o autor fala na inversão dos valores da sociedade moral e religiosa que condenava o prazer a partir de 1968. Philipe van den Bosh arrisca uma "hipótese explicativa" para o desmoronamento da ideologia pré - Renascimento, "quando os libertinos se tornaram suficientemente numerosos para produzir uma espécie de contra - discurso também oficial." Quando a humanidade passa a desejar outros objetivos para a existência humana.

Bosh entende como pertinente uma interpretação de tipo marxista e conclui: "Havia uma contradição moral no capitalismo em seu primeiro século: ele prescreve ganhar um máximo de dinheiro produzindo cada vez mais, mas também pelo menor custo, portanto privando a maior parte da população dos meios de aproveitar bens assim produzidos e , em conseqüência, limitando consideravelmente o número de consumidores, portanto freando seu próprio desenvolvimento".

Clarice Lispector fala dessa evolução em sua novela A hora da estrela, que escolhemos para mostrar o trânsito da autora na difícil (e triste) arte de um elegante e não menos trágico humor. É no capítulo a seguir que se pode constatar a mobilidade de clarice com o riso, diante de uma antiga forma de Henri Bergson, do rígido do humano que onde se adapta a fluidez da alma.

RISO, SÓ RISO EM CLARICE


"Toda rigidez do caráter, do espírito e mesmo do corpo é, pois, suspeita para a sociedade, por ser o signo de uma atividade que adormece e também de uma atividade que se isola, que tende a se afastar do centro comum em torno do qual a sociedade gravita (...) essa rigidez é o cômico, e o riso é o seu castigo".

Henri Bergson, O Riso

A frase resume o conceito de Henri Bergson sobre o "Riso e o risível". Para ele, o homem é caracterizado pela liberdade. E o que caracteriza a natureza é a necessidade. Apesar disso, o homem só é livre no espírito. O corpo tem algo da necessidade da natureza. O risível, para Bergson, vem do fato de esperarmos do homem o todo da liberdade e não o endurecimento do corpo mecanizado. Portanto, nós "rimos na presença de um contraste entre o que se espera e o que existe, contraste este que se fundamente na expectativa de alguma coisa graciosa, viva e inventiva como a vida e a aparição do oposto, algo de duro, mecânico e desgracioso".

A análise da novela A hora da estrela quer identificar o prazer nas palavras empregadas e no fazer da obra da autora. No caso, Rodrigo M., na verdade Clarice Lispector. E entende dever revelar alguns dos instantes do surgimento do riso, na utilização deste conforme definição do cômico por Henri Bergson enquanto "mecânico aplicado sobre o vivo" ("du mécanique plaqué sur du vivant") da série de artigos sobre o Riso publicados na Revista de Paris, em 1899, e reunidos em livro pelo autor em 1900 sob o título O Riso: Ensaio sobre a significação do cômico. Um dos textos mais conhecidos e citados nas pesquisas contemporâneas sobre o tema. "Construindo freqüentemente o limite até onde se vai para dar conta de formulações anteriores sobre o assunto. Por isso, suas asserções adquirem quase sempre um caráter de autoridade original".


Tomando por base a interpretação de Verena Alberti sobre a definição do Riso de Bergson é possível reler a obra de Clarice, não sobre a intenção do seu universo e conteúdo. Mas sob a compreensão e observação de um "modo" mecânico, aplicado sobre o vivo - ou vida pulsante, em grito - que por sua vez gera os instantes onde a autora, com capricho da forma, torna o universo magro e de cors pálidas de Macabéia num intrigante caleidoscópio de falas entrecortadas e significações tecidas e retorcidas. O texto é de uma dureza incomum, sendo assim se encaixa no conceito do ridículo do estudo de Bergson, conforme obsera Verena Alberti:

"Pode se dizer que Bergson redescobre o que era voz corrente há mais de um século na discussão sobre o ridículo e a utilidade de sua aplicação. Cômico e riso, para ele, são, respectivamente, um desvio negativo e sua sanção funcional que reestabelece a ordem da vida e da sociedade".

A autora observa, ainda, riscos de tropeços nos argumentos de Bergson, o que (não) nos interessa aqui - insisto - no entendimento da ambivalência da teoria. E continua: "Bergson sempre utiliza a palavra cômico (comique) para designar aquilo de que se ri - por isso vamos preferi - la aqui a "risível". Na frase está toda a diferença necessária para os argumentos propostos nesta etapa do estudo, porque diferencia a intenção e a função do texto de interpretações equivocadas, simplistas e precipitadas... Referendando a importância da obra e seu papel na sociedade da época, no Brasil do final dos anos 70.

A história de Macabéa , uma nordestina de fazer pouca sombra que é levada para o Rio de Janeiro por uma tia, contada por Clarice é a reprodução - ou pretende ser, como propõe a autora - da imagem refletida em espelho manchado de ferrugem dessa que representa tal segmento da população que insiste em resistir, mesmo ao passar dos anos.

"Parte daquela raça anã teimosa que um dia vai talvez reivindicar o direito ao grito".

Clarice Lispector, A Hora da Estrela

Como traduz no prefácio (O grito do silêncio) Eduardo Portella. Com emprego de balconista numa grande loja de departamentos para a época, Macabéia é um sujeito - broto do que também podia ser compreendido como estudo da depreciação do humano frente às relações geradas e realidade recriada com o impulsionamento do sistema capitalista. Nada disso. E tudo isso a um só tempo. Estão ali questões também culturais e de gênero. Como se vê na "dignidade" adquirida pelo namorado de Macabéia por trazer uma morte nas costas. Ainda mais, e principalmente, na escolha de um autor (Rodrigo S.M.) para a obra.

Escolha que merece destaque em análise de Lúcia Helena em Nem Musa Nem Medusa e onde a autora que conviveu com Clarice esclarece:(pag.62)"Esta máscara subjetiva e masculina chama a atenção do leitor pelo inevitável enclave não só com a biografia da escritora, criada em menina em Alagoas e no Recife, mas também com a "biografia" das duas nordestinas personagens, de modo que uma espécie de dramaturgia da subjetividade vai sendo entramada, espraiando - se por todo o texto, e conduzida por um processo de tecelagem cujos recursos se sustentam com base na ironia, na antítese e na repetição"

É mesmo no "parafuso" que a análise pretende se centra ou girar em seu entorno. Aquele que é o objeto de consumo "apreciado" na vitrine pela personagem. Na vitrine da vida dessa personagem não há jóias ou vestidos bonitos. Mas um parafuso ! Benedito Nunes (O Drama da Linguagem, pag.35) lembra referindo - se a uma leitura de A Cidade Sitiada: " o humor em A Cidade Sitiada neutraliza a realidade dissolvendo - a numa sucessão de aparências equívocas. Maquinais nos sentimentos e cercados de coisas rígidas".

Faz lembrar previsões sobre a conquista do bem - estar (viver mais próximo do feliz) de Condorcet: "o progresso das artes mecânicas trará um novo padrão de conforto e felicidade à massa da humanidade". Relação entre processo civilizatório e o conceito focado neste estudo em Felicidade, de Eduardo Gianetti. Está no primeiro texto intitulado "A bifurcação pós - iluminista" apresentado pelo personagem Melo, um erudito historiados de idéias que leu em demasia e encontra dificuldade em acreditar no que quer que seja; atualmente desempregado, aos outros três amigos que participam de encontros para entender melhor e discutir a felicidade.

"na terra prometida da razão secular (...) as desigualdades entre os indivíduos e as nações diminuiriam, a paz internacional seria alcançada e a adoção do livre - comércio e de uma língua universal selariam a fraternidade entre os povos. O avanço do saber científico e a difusão da educação popular dissipariam as trevas da superstição e da intolerância. (...) O enredo é familiar: a estrada da razão e da virtude leva ao regaço da felicidade."

E lembra ainda, reforçamos, as esperanças de Kant:

"E mesmo o austero Kant, para citar um último exemplo histórico, não se furtou de nutrir esperanças exaltadas em relação ao que o processo civilizatório faria, a longo prazo, em prol da felicidade humana".


Clarice, ou o narrador Rodrigo S.M. deseja a presença do avanço tecnológico ainda na dedicatória onde inicia:"Pois que dedico esta coisa aí ao antigo Schumann e sua doce Clara, que são hoje ossos, ai de nós" finalizando: "é uma história tecnocolor para ter algum luxo, por Deus, que eu também preciso".

Nesse entendimento de felicidade que está descrito por Philipe van den Bosh sobre A satisfação total dos desejos, ideal da sociedade de consumo, (pag.29), onde o autor definindo este ideal descreve que para a maioria dos homens, o caminho da felicidade é simples, ao menos quanto à sua direção:

"Basta acumular certo número de bens, de satisfações, na verdade todos os que podemos desejar, para alcançá - la. Ora, acontece que vivemos numa sociedade industrial avançada que se atribui a missão de produzir todos os bens de que necessitamos para ser feliz e de oferecê - los ao ator econômico, em forma de objetos ou de serviços.”

E completa:

“O verdadeiro problema é ter os meios para proporcionar-se tais bens. Aí, também, grande é a nossa possibilidade! Nossa sociedade liberal visa a um crescimento geral das riquezas e, por tabela, uma elevação do nível de vida de cada um".

E mesmo no fim da história, Macabéia é atingida por um carro em velocidade, guiado por um estrangeiro. Aquele prometido pela cartomante minutos atrás num encontro amoroso que mudaria para sempre a vida daquela moça. É esse futuro veloz e indomável, tanto quanto o primitivo cavalo branco que relincha em prazerosa gargalhada do autor, que atinge em cheio os desejos de mudança e bem estar (ou bem supremo) da personagem.

Em outro aspecto, a mesma obra (A hora da estrela) remete - se ao conceito de felicidade primitiva e animal descrita por Walt Whitman:

Creio que poderia transformar-me e viver com os animais. Eles são tão calmos e donos de si, Detenho-me para contemplá-los sem parar.Não atarantam nem se queixam da própria sorte.Não passam a noite em claro, remoendo suas culpas.

Para completar:

“Nenhum deles se mostra insatisfeito, nenhum deles se acha dominado pela mania de possuir coisas. Nenhum deles fica de joelhos diante de outro, nem diante da recordação de outros da mesma espécie que viveram há milhares de anos. Nenhum deles é respeitável ou desgraçado em todo o amplo mundo.

Para Clarice: "A história é de uma inocência bizarra", conclui o autor (ou autora). De modo que Macabéia ela mesma se alimentava apenas de cachorro - quente. E ela mesma chega a ser desumanizada, comparada ao animal mais fiel e amigo do homem:

"Essa moça não sabia que ela era o que era, assim como um cachorro não sabe que é cachorro. Daí não se sentir infeliz. A única coisa que queria era viver. Não sabia para que, não se indagava. Quem sabe, achava que havia uma gloriazinha em viver. Ela pensava que a pessoa é obrigada a ser feliz. Então era."

Numa alusão ao que escreveu John Stuart Mill em sua Autobiografia - citação de um dos personagens de Eduardo Gianetti no seu livro sobre a Felicidade - : "Pergunte - se a si próprio se você é feliz, e você deixa de sê - lo". Ou mesmo Fernando Pessoa "por que é que, para ser feliz, é preciso não sabê - lo ?"

Já, mesmo sem entendimento, era. Em vida simples e de uma miséria de cais imundo: "O cais imundo dava - lhe saudade do futuro (O que é que há ? pois estou como que ouvindo acordes de piano alegre - será isto o símbolo de que a vida da moça iria ter um futuro esplendoroso ? Estou contente com essa possibilidade e farei tudo para que esta se torne real.)"

Busca que Robert misrahi entende ter sido explicada e definida em duas correntes a partir do início dos tempos ("Le Bonheur" - "A Felicidade").
De Plantão a Kant, coloca - se como obrigatório e desejável o que é inacessível. Filosofias cegas a uma segunda corrente que atravessa todo o pensamento filosófico, que vai desde a antigüidade, de Aristóteles a Ernst Bloch, passando por Spinoza. para Aristóteles, a felicidade "que é de fato o supremo desejável (ou o soberano bem)" deve poder se realizar neste mundo. Como o prazer, ela é a perfeição e a conclusão de um ato que exprime a mais alta especificidade do homem, que é a contemplação.

"Concreta pela prazeres ponderados, espiritual pelo conhecimento e pela filosofia, ativa pela política, a felicidade é, portanto, a um só tempo, a possibilidade mais perfeita para o homeme e sua maior virtude".

Embora veremos a seguir uma aproximação com o fluxo da corrente iniciada em Platão - também compreendida por Kant - onde "a plenitude e o esplendor só poderiam ser acessíveis no mundo inteligível, após a morte, já que o desejo da felicidade imortal, presente no amor terrestre, indicava - nosa espiritualidade e o despojamento do corpo como vias privilegiadas para o conhecimento do soberano bem", corrente que Robert Misrahi chama de "felicidade adiada". E Clarice - como veremos posteriormente - assim se traduz em Felicidade Clandestina, adiando o encontro com o tão desejado livro (soberano bem) para antes um pão com manteiga.

Também a liberdade está ligada ao conceito de felicidade, como para o historiador grego Tucídides (460 - 400a.C.) "o segredo da felicidade está na liberdade e o segredo da liberdade, está na coragem". Palavra que tem mesma origem de outra não mesmo importante ou dissociada da busca: coração. Liberdade que está presente no último livro escrito por Clarice Lispector já na escolha do título. São treze, ao todo, inclusive a assinatura da autora. Muito embora corra ela o risco de uma "desqualificação da obra a ser apresentada", na análise da doutora em Literatura pela Universidade de Paris VIII, Hélène Cixous, em seu livro A Hora de Clarice Lispector.

Na avaliação do crítico Benedito Nunes (O Drama da Linguagem, pag.169), segundo Berta Waldman (A paixão segundo C.L., pag.179), quem, até hoje apresentou estudos de maior fôlego sobre a obra de Clarice:

O narrador de A hora da estrela é Clarice Lispector, e Clarice Lispector é Macabéa tanto quanto Flaubert foi Madame Bovary. Entretanto, ao contrário de Flaubert, que permaneceu sempre como narrador, por trás de seus personagens, Clarice Lispector se exibe, quase sem disfarce, ao lado de Macabéa. Também ela persona, em sua condição patética de escritora (culposa relativamente à moça nordestina), finge ou mente - mas sabendo que finge ou mente - para alcançar uma certa verdade humana acerca de si mesma e de outrem. A escritora se inventa ao inventar a personagem. Está diante dela com de si mesma. Em sua escritura errante, autodilacerada, repercute, secretamente e em permanência, a pergunta - Eu que narro, quem sou?, numa réplica ao Cogito de René Descartes ("Penso, logo sou").

Entendimento também da proximidade da sua existência contraditória que inclui o ser feliz ou da alegria e tristeza profundas:

"Se a moça soubesse que minha alegria também vem de minha mais profunda tristeza e que tristeza era uma alegria falhada. Sim, ela era alegrezinha dentro de sua neurose". Definição que se confunde com as dualidades vividas pela própria autora. Gente viva por trás da obra. Provo através das frases escritas pelo escritor mineiro Fernando Sabino em correspondência enviada de Nova York, em 10 de junho de 1946, para Clarice sobre ela mesma:

"Clarice Lispector saiu correndo correndo no vento na chuva, molhou o vestido, perdeu o chapéu. Clarice Lispector sabe rir e chorar ao mesmo tempo, vocês já viram ? Clarice Lispector é engraçada ! Ela parece uma árvore. Todas as vezes que ela atravessa a rua bate uma ventania, um automóvel vem, passa por cima dela e ela morre."

Essa graça, ou humor, ou argumento fatalista está no fechamento da "triste" História lacrimogênica de cordel da nordestina "alegrezinha"...

:"Também esqueci de dizer que o registro que em breve vai ter que começar - pois já não agüento mais a pressão dos fatos - o registro que em breve vai ter que começar é escrito sob o patrocínio do refrigerante mais popular do mundo e que nem por isso me paga nada, refrigerante esse espalhado por todos os países. Aliás, foi ele quem patrocinou o último terremoto da Guatemala. Apesar de ter gosoto do cheiro do esmalte de unhas, de sabão Aristolino e plástico mastigado. Tudo isso não impede que todos o amem com servilidade e subserviência. Também porque - e vou dizer agora uma coisa difícil que só eu entendo - porque essa bebida que tem coca é hoje. Ela é um meio da pessoa atualizar - se e pisar na hora presente".

E há ainda a preocupação com o equilíbrio o de ser alegre a narrativa:

"E se for triste a minha narrativa ? Depois na certa escreverei algo alegre, embora alegre por quê ? porque também sou homem de hosanas e um dia, quem sabe, cantarei loas que não as dificuldades da nordestina".(A hora da estrela, pag.25)

E não fica nas dificuldade. Nos encontros de Macabéia com seu namorado estão as dificuldades do namorado e as facilidades dela em ouvir a rádio relógio e reproduzir o que ouve, ou mesmo de gostar de um parafuso exposto na vitrine ou de acreditar na colega de trabalho por quem o namorado se interessa e aceitar seu presente da consulta à cartomante.

Há a morte (provavelmente simbólica) da personagem e a permanência feliz do autor, que se lembra naquele instante que se morre. Para imediatamente lembra - se de sua própria existência: "Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas - mas eu também ?! Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos. Sim."

E a certeza do estar vivo, mesmo que da certeza da morte faz feliz. Pouco antes, no texto da autora, estava ali a necessidade do ser para a morte. Como para o filósofo Platão pro qual a plenitude e o esplendor só poderiam ser acessíveis no mundo inteligível, após a morte, já que o desejo de uma felicidade imortal, presente no amor terrestre, indicava - nos a espiritualidade e o despojamento do corpo como vias privilegiadas para o conhecimento do bem soberano. "Então - ali deitada - teve uma úmida felicidade suprema, pois ela nascera para o abraço da morte".

Visão também Kantiana da felicidade para quem ela seria "a síntese da virtude e do prazer, improvável, posto que é impossível realizá - la em nosso mundo e apenas com as forças do homem". Como explica Robert Mishari Kant entendia que "é após a morter que Deus, caso deseje, saberá efetuar essa síntese e conferir à alma imortal uma espécie de perfeição e de santidade". Ali está o autor Rodrigo S.M, ou a própria Clarice, se perguntando sobre sua "salvação", ou "perfeição". Antes já revelara sentir - se "culpada":

"Ai de mim, todo na perdição e é com se a grande culpa fosse minha. Quero que me lavem as mãos e os pés e depois - depois que os untem com óleos santos de tanto perfume. Ah que vontade de alegria. Estou agora me esforçando para rir em grande gargalhada. Mas não sei por que não rio. A morte é um encontro consigo"

Nesse encontro consigo ao autor(a) que não ri em grande gargalhada resta "acender um cigarro e ir para casa" e aproveitar a safra da fruta da época : vermelha, doce e pouco ácida - o morango. "Sim", encerra o livro e a obra em vida como começou, com um "Sim". Daquela leitura de "salvação" ou "perfeição" do pós - morte, fazemos nós a leitura ou a análise da Clarice Lispector que morreu no mesmo ano em que foi lançada aos leitores brasileiros a história de Macabéia, no ano de 1977, é hoje lida em vários países da Europa e tanto mais compreendida por edições de suas Correspondências. Além de atores e diretores premiados por interpretarem seus personagens e sua obra no Cinema (ou na televisão !). Mais que tudo isso. Clarice Lispector está a cada passo mais "ser humano apenas". Como em seu capítulo Luminescência, de Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres:

"De Ulisses ela aprendera a ter coragem de ter coragem de ter fé - muita coragem, fé em quê ? Na própria fé, que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo, Lóri tinha medo de cair no abismo e segurava-se numa das mãos de Ulisses enquanto a outra mão de Ulisses empurrava-a para o abismo - em breve ela teria que soltar a mão menos forte do que a que a empurrava, e cair, a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre.
A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um humano."

Basta para concluir o tanto que a autora é mais compreendida hoje. Como nesse "agora"...

MESMO CLANDESTINAMENTE FELIZ


" Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia".

Clarice Lispector, Felicidade Clandestina


Neste capítulo é retratado o encontro de filosofias diversas. Da felicidade adiada, como chamou Robert Misrahi, da Universidade de Paris I, na obra de Clarice. O mesmo autor critica o desprezo da filosofia contemporânea ao tema:

"esta só faz prolongar um dos dois movimentos da filosofia clássica: para Platão e para Kant, ela era, certamente, levada em consideração na construção da moral, mas era sempre objeto de um deslocamento metafísico”.

Conclui que para Platão, só se poderia ter acesso a plenitude e o esplendor no mundo inteligível, após a morte, já que o desejo de uma felicidade “imortal, presente no amor terrestre, indicava a espiritualidade e o despojamento do corpo como vias privilegiadas para o conhecimento do soberano bem".

Esse mesmo entendimento se pode observar na obra de Clarice, como uma solução para o proposto em Felicidade Clandestina. Mesmo adiando o encontro com o tão desejado "soberano bem" - felicidade personificada na imagem do livro Reinações de Narizinho - a autora soluciona essa espera criando a possibilidade de torná - la invisível, ou clandestina. Antes, ainda em A hora da estrela, há concordância com a toria Kantiana de que é após a morte que Deus, caso deseje, saberá efetuar essa síntese e conferir à alma imortal uma espécie de perfeição e de santidade" no momento final da história de: "Então - ali deitada - teve uma úmida feliciade suprema, pois ela nascera para o abraço da morte".

Conceito recriado no conto observado neste capítulo onde a autora crê na espera e na concretização do encontro com a felicidade; "Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam."

Segundo o escrito poeta argentino Jorge Luís Borges, "um forma de felicidade é a leitura". Para a autora também. O livro personifica o próprio "bem supremo", que refere - se Aristóteles. A própria Clarice, enquanto criança que morava no Recife, atravessa suas ruas e pontes, incansável, para ter a felicidade (ou o livro "Reinações de Narizinho", de Monteiro Lobato - "um livro para se viver com ele") nos braços. E por quanto tempo "quizer", como autoriza a mãe da garota ruiva com talento para a crueldade. Para a autora valia mais do que lhe dar o livro. "pelo tempo que eu quisesse é tudo que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer". O que se segue ao encontro com o tão desejado "bem supremo" é um sentimento de estonteamento:

"Como contar o que se seguiu ? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo - o contra o peito".

Então a autora relaciona o sentimento e a fluidez do que fora conquistado com o tempo: essa constante invariável no relógio criado pelo humano e de uma variação infinita quanto ao verdadeiro sentimento que se tem em relação ao seu compasso em circunstâncias marcantes do viver. "Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quante, meu coração pensativo". E é nesse exato instante que começa a análise de como se relacionou com o mais completo dos sentimentos, os passos desse encontro: "Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter". Numa surpresa insuspeita, embora caracterizada por um "movimento simulado".

E é preciso esperar horas para que o encontro com o "bem supremo", o tal encontro feliz se concretize:

"Horas depois abri - o, li algumas linhas maravilhosas, fechei - o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga...".

Momento que merece atenta análise da autora do livro A hora de Clarice Lispector, a francesa Hélène Cixous sobre a metáfora da necessidade de nada além de "comer pão com manteiga". Numa fome que ganha nos símbolos escolhidos um nome secreto. Mantém - se sem o verdadeiro nome. O que é dito é que há a necessidade e é necessário comida. O grupo Titãs traduz bem contemporaneamente: "Comida, necessidade, vontade....Você tem fome de quê ?".

É também uma felicidade adiada, até o momento em que a necessidade primeira foi saciada.

"...fingi que não sabia onde guardara o livro, achava - o, abria - o por alguns instantes". Esse tempo calculado, diminuído, de "instantes" é o que autora compreende como o que pode ser permitido para se viver a felicidade. Já não parece mais a descrição do encontro da garotinha com o livro. Mas da própria vivência da autora em relação aos encontros ou "instantes" com a felicidade. A prova é a conclusão de um pressentimento, uma reflexão comparativa, um desabafo:

"Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar...Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada." Então, num "insight" alusivo Clarice abre o leque das possíveis felicidades e num passar de vírgulas faz do passado, futuro presente. "Às vezes sentava - me na rede, balançando - me com o livro aberto no colo, sem tocá - lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante."

Então o Amor é essa felicidade. Não é mais o prazer da leitura. Da vitória, da conquista. A grande felicidade, "em êxtase puríssimo", se traduz com a presença do amante. E da transformação da menina em mulher. Em crônica publicada no Jornal do Brasil no dia 07 de outubro de 1967, Clarice se ocupa agora de entender e reponder pergunta feita pela personagem Joana, ainda menina na escola, à professora em seu livro Perto do Coração Selvagem:

"E depois ? O que acontece depois que se é feliz ?"

A resposta remete ao Medo do desconhecido (crônica), agora adiada pelo "sim" à mediocridade:
"Então isso era a felicidade. E por assim dizer sem motivo. De início se sentiu vazia. Depois os olhos ficaram úmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor pela vida mortal a assassinava docemente, aos poucos. E o que é que eu faço ? Que faço da felicidade?

Para afirmar:

Não, não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah, milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar - se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir - se feliz, e preferem a mediocridade".

O texto faz lembrar desabafo de Bertrand Russell (A Conquista da Felicidade, pag.182) sobre uma das causas da infelicidade entre os intelectuais da época em que estamos vivendo hoje:
"é que muitos deles, sobretudo os que possuem talento literário, não acam ocasião de exercer seu talento de maneira independente e precisam se filiar a ricas empresas, dirigidas por filisteus, que insistem em fazê-los produzir o que eles consideram tolices perniciosas".

Clarice admite um pecado que quase todos os escritores são obrigados a cometer, mas que, em posteridade é possível observar, que foi desobediente em muitos momentos a autora. Novamente Bertrand vem nos salvar:


"A capacidade de produzir grandes obras de arte, não raro, anda junto (...) com uma infelicidade temperamental tão grande que, se não fosse o prazer que o artista obtém com sua obra, o levaria ao suicídio. Portanto, não podemos dizer que uma grande obra, ainda que seja a melhor de todas, torna um homem (ou uma mulher!) feliz; só podemos dizer que consegue fazê-lo menos infeliz".

Para Benedito Nunes (O Drama da Linguagem, pag. 152), "o autodilaceramento da escritura de Clarice LIspector (...) exterioriza a possibilidade de transgressão que a vida subjetiva comporta. Mas concretizada a transgressão, produzem-se inversões súbitas - da inquietude na quietude contemplativa, do ímpeto libertário na renúncia e na abdicação - , que restabelecem, de cada vez, os extremos das mesmas polaridades:

- procura/fuga
- encontro/perda,
- liberdade/necessidade,
- autenticidade/simulação.

O espaço literário da errância do sujeito é, na obra de Clarice Lispector, tanto o lugar das inversões e dos antagonismos quanto da negação e do esvaziamento". Como no trecho de O Lustre (pag.16):

"Daí a instantes porém o sol surgia esbranquiçado como uma lua. (...) Um frio inteligente, lúcido e seco percorria o jardim, insuflava-se na carne do corpo. Um grito de café fresco subia na cozinha misturado ao cheiro suave e ofegante de capim molhado. O coração batia num alvo.”

Inversão e presença do nobre sentimento, que se pode constatar em carta enviada pela autora às irmãs. E que por cenestesia, transforma - se em matéria viva. O desejo da autora é doá - lo a alguém em flor:

"Isso que estou sentindo pode - se chamar de felicidade só que a natureza se faz tão estranha que o próprio momento de felicidade é de temor, susto e apreensão. É pena que não se possa dar o que se sente, porque eu gostaria de dar a vocês o que sinto como flor".
Correspondências (Clarice Lispector, pag.90,13 de Julho de 1946).

VENTURA OU AVENTURA DO AMOR


Neste capítulo analisamos as similitudes entre dois contos da autora que traduzem ambiente de contraditórios e ambivalentes sentimentos como aconchego e hostilidade. Amplitude e restrição. Contradições e semelhanças que são reveladas através de elementos essenciais como o tempo e as cores. A água ou líquido equivalente à vida; ainda o clima (ambiente). Em ambos surgem em diferentes conceitos a palavra "alegria", que já chamara a atenção de Clarice em italiano:

A palavra mais bonita da língua italiana é Gioya, embora alegria também seja bonito
.
(Lispector, Clarice. Correspondências, p. 56).

No conto Amor (Lispector, Clarice. O primeiro beijo e outros contos, p...), Clarice Lispector traduz um lado - visão - inusitado desse que é sentimento compreendido por dos mais nobres e importantes na busca do maior do humano. Etério seria um bom nome. Um cego que masca chicletes provoca na contente dona - de - casa, Ana, sentimentos com os quais não havia ela (ou haveria ?) antes se confrontado. Ao ponto de quebrar os ovos que carrega tão carinhosamente no colo em rede de tricô não mais tão "íntima como quando a tricotara". As gemas amarelas e viscosas douram os fios da rede. E há um muro que surge a seguir que também é amarelo. Da cor das gemas. A autora usa a cor como elo de ligação (e mesmo transformação) das gemas com o muro. Antes desse encontro, a personagem atravessa os portões de um obscuro jardim. Nesse encontro está todo o dito do citado conto.

Em comparação com o outro conto, que a princípio foi chamado por Clarice - em sua coluna semanal no Jornal do Brasil - de Águas do Mar e em coletânea de contos sob o título Felicidade Clandestina tornou-se Águas do Mundo. Neste outro conto, o "líquido" com o qual a mulher (personagem sem nome) se confronta não é mais amarelo, "viscoso", "nem vida espativada". Sequer "pinga entre os fios da rede". É água do mar, que se tornou do mundo. É água salgada. Nesse encontro da mulher com o mar há descobertas, como no encontro com o jardim. Dito há um "se conhecer" com motivos e explicação: "É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem" (Lispector, Clarice. Felicidade Clandestina, Águas do Mundo, pag.145):

"O caminho lento aumenta sua coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo - espantada de pé, fertilizada" (FC,pag.145)

Agora é a mulher - personagem de nome em segredo - que está cega. Amando (afinal o amor é cego). Ainda ainda referências de semelhanças quanto o tempo. Outro importante elemento na escrita. E que em Clarice Lispector, desde a primeira frase do seu primeiro livro Perto do Coração Selvagem está em evidência.

"A máquina do papai batia tac-tac...tac-tac-tac... O relógio acordou em tin-dlen sem poeira. O silêncio arrastou-se zzzzzz. O guarda-roupa dizia o quê? roupa-roupa-roupa. Não, não. Entre o relógio, a máquina e o silêncio havia uma orelha à escuta, grande, cor-de-rosa e morta."

(Perto do coração selvagem, Rio de Janeiro, 1963)

Como esclarece Berta Waldman, em seu livro A paixão segundo C.L.(2a.ed., São Paulo, 1993, p.37). A busca é falar sobre a paixão na autora. Compreendida a relação dessa interferência desse sentimento na busca da felicidade, é útil reproduzir as conclusões de Waldman:


"Assim inicia Perto do coração selvagem. A partir do primeiro parágrafo, o leitor se dá conta de que está diante de um texto onde a consciência individual figura no primeiro plano."

Concluída a relação da autora com o tempo e subjetividade comparamos a utilização desse elemento literário nos dois contos. Em Amor, o tempo está enquanto "certa hora da tarde...a mais perigosa". Em Águas do Mundo, "são seis horas da manhã". A precisão dos fatos faz a diferença. É como se traduzisse o estado de espírito da personagem. Sua disposição com os fatos. E dos personagens ao redor das protagonistas de ambos os contos.

O clima também varia de acordo com este "humor" dos fatos, das circunstâncias. No conto Amor: "o calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas". Já em Águas do Mundo: " O cheiro é de uma maresia tonteante que desperta de seus mais adormecidos sonos seculares...agora o frio se transforma em frígido".

E ainda há parâmetros para a Morte: "O assassinato das formigas"; "a crueza do mundo era tranqüila. o assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos" (Amor). Enquanto em Águas do Mundo : há apenas um náufrago. A morte é próxima, mas não concreta e é compreendida, pressentida: "perigo tão antigo quanto o ser humano".

Há também a presença das palavras Alegria e Felicidade (e sorrisos) em ambos:

Amor: "O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia, aos poucos, emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha - com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora do seu alcance: uma exaltação pertubada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável". (Lispector, Clarice. Amor, Descoberta do Mundo, Rocco (1999). pag.470 - 1)

E em Águas do Mundo: "Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal - a alegria é uma fatalidade - já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir". (Lispector, Clarice. Felicidade Clandestina. 1998.p.144 - 145.

Em ambas ocasiões literárias de entrega da autora em conto e crônica há entrega. Apenas não se dá o mesmo nome. Porque o resultado da entrega não é o mesmo. Nunca é o mesmo, ou igual. Amor não é igual a felicidade. Nem As Águas do mundo são a vida do planeta. E é isso apenas que está dito. Mas são momentos de discussão do tema focado. Textos em que a autora debate o assunto e cria para ele novos conceitos. "A alegria é uma fatalidade - já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir", ou ainda "exultação pertubada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável". É como se a autora dissesse em resumo que no Amor há pétalas sobrepostas, situações múltiplas. E nas Águas do Mundo, se cumpre uma coragem; "parte de liberdade de cão nas areias".

A ALEGRIA SILENCIOSA DE ESCREVER


"Minhas intuições se tornam mais claras ao esforço de transpô - las em palavras. É nesse sentido pois que escrever me é uma necessidade. De um lado porque escrever é um modo de não mentir o sentimento (a transfiguração involuntária da imaginação é apenas um modo de chegar); de outro escrevo pela incapacidade de entender sem ser através do processo de escrever"

Clarice Lispector

Em toda a sua obra Clarice fala da sua relação com o ato de escrever. Ora é uma necessidade, ora uma alegria. É nesses instantes de clarividência que iremos focar o capítulo. Recolhendo em sua obra e mesmo crônicas e correspondências o que escreveu sobre esse feliz, de alegria.

Em crônica publicada no Jornal do Brasil a 30 de novembro de 1968, Clarice Lispector descreve o que para ela representa o ato de escrever. Se o sabe ou não, ou se é ofício. Mas entre o que pensa revela a sua relação com a folha em branco:

"Quando não estou escrevendo, eu simplesmente não sei como se escreve. E se não soasse infantil e falsa a pergunta das mais sinceras, eu escolheria um amigo escritor e lhe perguntaria: como é que se escreve ?
Por que, realmente, como é que se escreve ? e que é que se faz com o papel em branco nos defrontando tranqüilo ? Sei que a resposta, por mais que intrigue, é a única: escrevendo. Sou a pessoa que mais se surpreende de escrever. E ainda não me habituei a que me chamem de escritora. Porque, fora das horas em que escrevo, não sei absolutamente escrever. Será que escrever não é um ofício ? Não há aprendizagem, então ? O que é? Só me considerarei escritora no dia em que eu disser: sei com se escreve".

A 09 de Setembro, de 1967, ano em que começou a escrever as crônicas a autora fala sobre os dilemas ao assumir a coluna no JB assinada:

"Ainda continuo um pouco sem jeito na minha nova função daquilo que não se pode chamar propriamente de crônica. E, além de ser neófita no assunto, também o sou em matéria de escrever para ganhar dinheiro. Já trabalhei na imprensa como profissional, sem assinar. Assinando, porém, fico automaticamente mais pessoal. E sinto - me um pouco como se estivesse vendendo minha alma. Falei nisso com um amigo que me respondeu: mas escrever é um pouco vender a alma. É verdade. Mesmo quando não é por dinheiro, a gente se expõe muito. Empbora uma amiga médica tenha discordado: argumentou que na sua profissão dá sua alma toda, e no entanto cobra dinheiro porque também precisa viver. Vendo, pois, para vocês com o maior prazer uma certa parte de minha alma - a parte de conversa de sábado".

Alegria e Liberdade através do ato de escrever, que ganha nome durante descrição do ato de ver (perceber) no livro Água Viva da autora (pag.81): "Mas agora quero ver se consigo prender o que me aconteceu usando palavras. Ao usá - las estarei destruindo um pouco o que senti - mas é fatal. Vou chamar o que se segue de "à margem da beatitude". Começa assim, bem devagar: gando se vê, o ato de ver não tem forma - o que se vê às vezes tem forma, às vezes não. O ato de ver é inefável. E às vezes o que é visto também é inefável. E é assim, certa espécie de pensar - sentir que chamarei de "liberdade", só para lhe dar um nome. Liberdade mesmo - enquanto ato de percepção - não tem forma".

No conto Duas Histórias a Meu Modo, a autora fala de "uma espécie de exercício de escrever (grifo da autora), para me divertir. E diverti - me.". E transcorre sobre a dupla história de Marcel Aymé: um homem que não gostava de vinho, e Félicien Guérillot, dono de vinhedos, que "para ser verdade só da verdade careciam".
Curiosos os nomes escolhidos para os personagens. A autora fala a mais pura verdade quando diz se divertir. A história se propõe a falar de "vinho" (o que de fato representaria ?), para a autora; "a excelência do que é excelente". A revelação é feita de fato: "A verdade é que Aymé, enquanto vai contando o que inventaria, aproveita e conta mesmo - só que nós sabemos que não é, porque até no que se inventa não vale o que apenas seria".

E mais adiante, confirma: "Escamoteamos o que o autor quis narrar, assim como foi escamoteado pelo autor o que de Félicien queríamos ouvir".

Não cabe aqui revelar o verdadeiro propósito do conto, ou seus verdadeiros personagens, importante se dizer que fala, além do bem querer à excelência do vinho em vida, é um conto que se interessa pela grande sede:

"Permanece até hoje Duvilé (Etienne Duvilé, para quem Aymé passa a contar a história, alguém que para Paris se muda e ao contrário de Félicien Guérrillot, gostava de vinho mas não o (a) tinha. Garra a cara, e Etienne funcionário estadual. Bem que gostaria de se corromper mas vender ou trair o Estado não é ocasião que apareça todos os dias. A ocasião de todos os dias era uma casa cheia de filhos, e um sogro que de comer sem parar vivia. A família sonhando com mesa farta, e Duvilé com vinho".

O ritmo do conto lembra literatura de cordel, por rimas finalizadas em ditongos crescentes...Para citar apenas mais um, além do parágrafo anterior, agora um tritongo, terminado com a mesma combinação usada nos demais parágrafos:

"E vai que um dia Etienne sonha mesmo, com o que desejamos dizer que dessa vez enquanto sonhava dormia. Mas agora que o sonho deveríamos contar - pois que Marcel Aymé o faz e longamente - agora é a nós que çá vraiment nos chateia".

Analisando outro momento da autora, o autor Benedito Nunes, referindo - se ao conto Legião Estrangeira, mas que se encaixa como luva nesse outro trecho da obra, esclarece no livro O Drama da Linguagem (pag., essa necessidade de escrever, necessidade tranqüilizadora, que o crítico chama de reverso da necessidade feliz de escrever. O trecho é do conto Legião Estrangeira (pag.252)

"Ao escrevê - lo, de novo a certeza paradoxal de que o que atrapalha ao escrever é ter de usar palavras. É incômodo. Se eu pudesse escrever por intermédio de desenhar na madeira ou de passar pelo campo jamais teria entrado pelo caminho da palavra. Faria o que tanta gente que não escreve faz, e exatamente com a mesma alegria e o mesmo tormento de quem escreve, e com as mesmas decepções inconsoláveis: não usaria palavras. O que pode vir a ser minha solução. Se for, bem - vinda".

E a análise que acredita - se servir também para o conto Duas Histórias a Meu Modo e outros "instantes" da obra, como Água Viva, da autora:

"Temos agora o reverso da necessidade feliz de escrever. Necessidade pertubadora, aventura incômoda, a escritura é aquele caminho perigoso e arriscado, no qual não se deve ir longe demais porque não se sabe aonde vai dar e em que se acaba recuando por medo".

O autor ainda esmiúça a aventura do escrever e o poder da palavra escrita para a autora:

"Jamais triunfante, a escritura de Clarice Lispector, assombrada pelo silêncio porque assombrada pela presença mística da coisa, sempre ameaçando - a com o risco de emudecimento, é uma escritura conflitiva, autodilacerada, que problematiza, ao fazer - se e ao compreender - se, as relações entre linguagem e realidade". Não é senão esse autodilaceramento que se revela, tematizado, nas reflexões de Clarice Lispector sobre o ato de escrever."(O Drama da Linguagem, pag.145)

E exemplifica com um trecho retirado do livro de contos Legião Estrangeira (págs. 145 -6):

"Minhas intuições, diz ela, se tornam mais claras ao esforço de transpô - las em palavras. É nesse sentido pois que escrever me é uma necessidade. De um lado porque escrever é um modo de não mentir o sentimento (a transfiguração involuntária da imaginaçõa é apenas um modo de chegar); de outro escrevo pela incapacidade de entender sem ser através do processo de escrever".

É quando o autor compreende e dá nome ao sentimento profundo que liga Clarice Lispector ao ato de escrever:"Sob esse aspecto, portanto, escrever é uma aventura bem - sucedida, uma necessidade feliz. Mas como fora do processo de escrever não há compreensão possível, as palavras impõem ao que exprimimos uma natural falsidade. O que quer que passe a existir na rede verbal tecida por esse processo, surge sempre mentido pelos signos que transcenderam a intuição ao formá - la. Intuir é instantâneo. Escrever é dilatar o tempo, decompondo - o em instantes sucessivos"

Completa com palavras escritas da autora:"...e escrever é prolongar o tempo, é dividi - lo em partículas de segundos, dando a cada uma delas uma vida insubstituível" (Legião Estrangeira, pag.226).

Escrever que também é uma surpresa. Uma inexperada e imprevisível e incerta experiência. Em água viva a experiência do escrever ultrapassa a vontade livre da autora. Clarice Lispector afirma em Água Viva, pag.59:

"Oh, como tudo é incerto. E no entanto dentro da Ordem. Não sei seque o que voi te escrever na frase seguinte. A verdade última a gente nunca diz. Quem sabe da verdade que venha então. E fale. Ouviremos contritos.
......eu o vi de repente e era um homem tão extraordinariamente bonito e viril que eu senti uma alegria de criação. Não é que eu o quisesse para mim assim como não quero para mim o menino que vi com cabelos de arcanjo correndo atrás da bola. Eu queria somente olhar. O homem olhou um instante para mim e sorriu calmo: ele sabia quanto era belo e sei que sabiea que eu não o queria para mim. Sorriu porque não sentiu ameaça alguma. É que os seres excepcionais em qualquer sentido estão sujeitos a mais perigos do que o comum das pessoas".

E a autora cria então uma nova relação para o sentimento de felicidade que já havia abordado antes:

"Atravessei a rua e tomei um táxi. A brisa arrepiava - me os cabelos da nuca. eu estava tão feliz que me encolhi no canto do táxi de medo porque a felicidade dói. E isto tudo causado pela visão do homem bonito. Eu continuava a não querê - lo para mim - gosto é das pessoas um pouco feias e ao mesmo tempo harmoniosas, mas ele de certo modo dera - me muito com o sorriso de camaradagem entre pessoas que se entendem. Tudo isso eu entendia."

E a autora já compreendia enquanto experimentava o que escrevia, então, compreendida e resolvida de culpas a experiência incerta, inusitada e não desconcertantes, a autora decide pelo fim. Está finda a emoção do que fora vivido:
"A coragem de viver: deixo oculto o que precisa ser oculto e precisa irradiar - se em segredo. Calo – me, porque não sei qual é o meu segredo. Conta - me o teu, ensina - me sobre o secreto de cada um de nós. Não é segredo difamante. É apenas esse isto: segredo. E não tem fórmulas".

Embora haja Estilo. Como afirma a própria Clarice, em crônica publicada com este nome em 12 de outubro de 1968, no mesmo JB:

"Como uma forma de depuração, eu sempre quis um dia escrever sem nem mesmo o meu estilo natural. Estilo, até próprio, é um obstáculo a ser ultrapassado. Eu não queria meu modo de dizer. Queria apenas dizer. Deus meu, eu mal queria dizer.

E o que eu escrevesse seira o destino humano na sua pungência mortal. A pungência de se ser esplendor, miséria e morte. A humilhação e a podridão perdoadas porque fazedm parte da carne fatal do homem e de seu modo errado na terra. O que eu escrevesse ia ser o prazer dentro da miséria. É a minha dívida de alegria a um mundo que não me é fácil".

No livro Descoberta do Mundo (pag. 142-3) onde está publicado, pode-se ler logo a seguir o "comentário-crônica" Delicadeza, que reproduz-se aqui, para encerra o capítulo com as palavras da autora, numa metáfora pré-escrita da alegria silenciosa de Clarice ao escrever:

"Nem tudo o que escrevo resulta numa realização, resulta mais numa tentativa. O que também é um prazer. Pois nem em tudo eu quero pegar. Às vezes quero apenas tocar. Depois o que toco às vezes floresce e os outros podem pegar com as duas mãos".

Viva e com perfume de flor ainda hoje aqui, neste exato instante, em quem lê.

CONCLUSÃO

Não é objetivo desse estudo concluir, ou sugerir conclusão do que já está dito no título. Há sim o desejo de reafirmar. Há sim o desejo de mostrar e de esclarecer ou clarear o aspecto feliz da obra de Clarice Lispector. Sua busca. Essa presença da felicidade nas entrelinhas, e no resolutivo "modo" de dar nome aos "bichos" que corrompem e corróem o castelo construído. Os caminhos foram tantos quantos foram ditos. Ascendentes, crescentes, ditos secretamente, silenciados e anunciados.

Contemporaneamente e com visão do que virá e ainda não veio porque será sempre amanhã. E do ontem que não foi enquanto hoje e agora o é. Do riso elegante e da gargalhada cifrada, em gritos de ser, de um viver discreto ou aos murros no estômago do(a) leitor(a). Do teatro pensado dos sentimentos profusos, que adiam ou facilitam. A crença no somatório dos instantes e da contradição dos fluxos de energias felizes e tristes. De nascimentos e mortes. Como um final. E a felicidade está em ter sido tido. Como na introdução: ter sido escrito. Refletida e pouco mais compreendida.



A FELICIDADE EM CLARICE LISPECTOR.


BIBLIOGRAFIA

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Bruckner, Pascal, 2000. A Euforia Perpétua, trad.António Cruz Belo, 2003. Editorial Notícias, Lda. Heska Portuguesa, SA

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Alberti, Verena. 1999. Jorge Zahar Editor Ltda. Ed. 2002. O riso e o risível (na história do pensamento)

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2 comments:

Letícia said...

Belíssima análise! Parabéns!

Geo said...

Grata, Letícia! Muito grata.