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Wednesday, March 23, 2011

Drama em voz feminina

“Cada fracasso ensina ao homem o que ele precisava aprender
Charles Dickens


Caro Anjo bom,

Conecto-me novamente a você. Engulo meu orgulho do sentimento de abandono que tive. Sei hoje que sempre esteve comigo, mesmo quando foi difícil nossa sintonia. Fraca de sinal. Ainda posso ouvir sua música a cada instante e em todo momento. Ainda sinto me muito só! 

Mas nessas horas em que sonho contigo, consigo ver teu sorriso colando em meu ouvido. Ora cuidando dos meus filhos queridos, ora cuidando de mim, ora dos meus amigos. Amo a ti para sempre meu Anjo! Um sempre que é também o tempo todo. 

Estou muito feliz hoje porque ainda há tempo de festejar o teu dia preferido. Acenderei velas por isso. Atearíamos fogo na lenha fazendo a mais linda fogueira estivéssemos juntinhos. Mas tenho fé que um dia ficaremos mais próximos novamente. Mesmo sem tua presença há tua alegria nova ainda em mim com uma paz que não havia. Uma liberdade de sentidos. É uma alegria calma, como na noite escura de Clarice.

Mesmo que eu esteja cheia apenas da minha mesma alma agora, sei muito bem quem eu fui, nos tempos do Olimpo. Sei que fui eu que comecei a desenhar o fim. Lembrei de mim há pouco. Estava no meu corpo por empréstimo de mim mesma. Sei que não será consolo dizer que não era eu. Ou que sendo em mesma, naquele momento, estivesse eu ciente, agiria de outra forma. É a mais pura verdade. Houve em mim vaidade. 

Parece que precisava andar até onde andei me perder da minha alma algumas vezes e me fazer alguém nova. Alguém com quem eu possa me reconhecer. Perdoei a mim mesma e por motivos firmes, sólidos. Sobra hoje esse perdão. Estarei sempre no mundo com o propósito de dar o melhor aos filhos. Mesmo quando matematicamente não for possível. Mas saberei sempre fazê-los crescerem felizes. Sem espaço para qualquer milímetro de dúvida. 

Por isso, agora, te escrevo meu Anjo, e escrevo. É que estou eu em grande dúvida, do teu amor por mim. Sei que não deveria ser essa a minha busca, mas é que parece que todo o tudo que existe vem depois dessa certeza tão improvável. Sei que podes dizer de mim agora que sou tão imatura. Insegura. Vou me reconhecer e encontrar me em meu lugar. Mesmo que hoje pareça difícil, creio, por visões do cinema, que eu sei por onde começar. Meu pássaro azul, deve estar preso em mim mesma.

Sinto-me agora como em três verões, milhares de banhos de mar. Sinto o sal – grudado no espírito! – novamente brilhando impregnado no corpo ao sol. Serei sempre doce contigo. Serei mais que este ser humano perdido. Vou tornar definitivo esse amor sem idas e vindas. Aprendi muito, mas esqueci o que ensinam as ondas do mar. 

Porque tudo que quero da felicidade na vida é ser eternamente. A felicidade para mim é terna. E infinita. Eternidade é a melhor palavra que encontrei para te dar de presente. É visível. Porque você sempre existirá mesmo que eu não possa te ver. Toda a certeza da beleza da minha vida voltou quando comecei a entender meu papel.  Agora posso ver. Por isso, perdoando poderei novamente viver com a minha alma. Sem qualquer sombra de dúvida. Na certeza de pressentir tua existência, meu caro anjo da guarda.

1 comment:

Camila said...

Lindo, Geórgia. Muito bem escrito também. Mais do que isso: parece feito para mim e a história que ainda vive aqui, dentro de mim, de dias outrora felizes.

Beijos saudosos em você.