Lugar da delicadeza com o outro e com a própria Liberdade.

Onde se está de acordo com o único modo do humano de ser feliz

Wednesday, June 25, 2008


há espaços que só bons amantes conquistam
silêncio.. toques quase mudos.

Veludo.

Pausas para os encontros.
E então, os corpos guardam da ausência, a presença do outro

Flor da pele.

O ritmo intenso "da vida"
O mudo propósito do trabalho

Há os que ainda cumprem missões...

Acreditam no que fazem
Realizam desejos pelo único
motivo de tê-los consigo
por mais tempo

Crêem naquilo que planejam

Eles têm fé no que fazem
E a certeza de chegar

Do destino, do lugar

Depois, repousam mansinho
onde uma brisa leve sopra no ouvido...
- Foi um suspiro!
(...)

Monday, June 23, 2008


No entanto, é preciso que a equação da conquista da felicidade se resolva, mesmo na sua impossibilidade e contradição. Pois se quando o é, passa no momento seguinte a desfazer - se em tédio (ou a projetar - se em outro desejo). E, portanto, não sendo mais satisfeita. E sim conquistada.

A Felicidade em Clarice Lispector (2004)

Sunday, June 15, 2008

Pe. Antônio Vieira

"Ora vede: Definindo S. Bernardo o amor fino, diz assim: Amor non quaerit causam, nec fructum: “O amor fino não busca causa nem fruto”. Se amo, porque me amam, tem o amor causa; se amo, para que me amem, tem fruto: o amor fino não há de ter por quê nem para quê. Se amo por que me amam, é obrigação, faço o que devo; se amo para que me amem, é negociação, busco o que desejo. Pois como há de amar o amor para ser fino? Amo, quia amo, como ut amem: amo, porque amo, e amo para amar. Quem ama porque o amam, é agradecido; quem ama, para que o amem, é interesseiro; quem ama, não porque o amam, nem para que o amem, esse só é fino".


da delicada e riquíssima convivência com o Prof. Lourival Holanda.
16 horas - em frente ao Maksoude Plaza. Até onde posso ir? Pra que tanta bagagem? Um café!!! sento observando o prédio. Quanta pompa. Baita "ostentação" diante de olhos tão carentes como os meus. Aqui, como pão a metro. Perfeito para horas de fome. E quilômetros de incerteza. Abuso na medida. É sempre assim. Difícil encontrar medida certa. Equilíbrio. (Já disse que na ponta de uma espada não dá, não tente, vá por mim...)



Vou pedindo desculpas. Morre-se assim a cada dia. Me sinto a pior das criaturas. Ou uma das mais "privilegiadas".

16 horas 20 minutos - chegou o ônibus. Preciso correr. Ninguém ajuda com os pacotes. Eu poste. Vou desequilibrar e cair. Preciso insistir com o bilheteiro: "Um mão?". "Não, obrigado. Não sou parte interessada"... "Tudo bem, tudo bem! Seguro para você essa caixinha de presente". Ele está certo. Três sacolas numa mão, uma mala enorme na outra. Quem mandou ser consumista & feminista?

16 horas 45 minutos - enfim, confortavelmente na poltrona. Tudo aqui é macio e "arcondicionado!". Me vem a cara do taxista, que pensou que eu era turista. Descolado, eu nunca pagaria pelo triplo, sem direito a tudo isso. Janelas maiores e o silêncio... Segurança na estrada.



A viagem vai durar uma hora. Se não houver engarrafamento. Nunca torci tanto por um. Daqueles de parar a via Dutra: 5 km. E lá estão os helicopteros das emissoras de tevê. Só sobrevoando. Mas não foi o que aconteceu. Durou menos de uma hora. Ensaiei uns cochilos. Como se olhos carecessem repouso diante de tanta imagem. Foram oito dias dormindo com buzinadas no juízo. Nada podia ser mais recompensador e tranqüilizante que a borrachinha da janela em atrito. Bom, fim da linha. De novo às malas...

17 horas e 20 minutos - o bilheteiro já me dirige a palavra. Pergunta o nome da companhia aérea. De repente está até curioso. Para que tanta informação? Sua desculpa é que cada porta ou terminal corresponde a uma porção delas. Que bom que me avisou antes.... Tudo bem, São Paulo é mesmo uma cidade grande. E o aeroporto tinha que ser enorme. (Só vamos combinar que "Passaredo" não soa bem em lugar algum).

17 horas e 40 minutos - descobri que cheking só se faz horas antes do vôo. E como são poucos. Vou ter que dormir com um olho aberto?

18 horas - Preciso ir ao banheiro e isso é para hoje! Cometo o pecado de entrar no que é reservado para pessoas com necessidades especiais. Por favor, dá um tempo. Essa sou eu. Eu mesma: "euzinha". Hoje eu estou assim, assim. É O ÚNICO LUGAR QUE DÁ PRA ENTRAR COM ESSA MALA!!! ah, que alívio...

18 horas e 20 minutos - alguém com tantos pacotes quanto eu. Confortavelmente sentado. Deve ser rei. Ou deputado. Consegue até ler esse "gênio"! Tá pesado. Talvez me sente ao lado dele... Dando início aos movimentos necessários, que antecedem uma boa leitura de aeroporto. Confiro as malas e pacotes. Estão firmes no carrinho. O mais próximo possível de mim. Tiro o livro de uma das sacolas, prendo a bolsa na cadeira. Mesmo sem um centavo. Ainda assim é uma alegria reencontrá-la. Fiquei até carinhosa, de repente, com ela. Resolvi abrí-la, olhar por dentro. Bater um papo. Ah, minha bolsa querida... Lá dentro vejo a pasta de dentes e a escova num estojinho. Tudo tão delicado. Graças a essa dupla amiga me livrei do gosto de presunto na boca. Pois é, creme dental é mesmo a solução. Vou olhando os outros elementos na sacolinha transparente de objetos de uso tão pessoal. Só carteira vazia me dá náusea.

18 horas e 39 minutos - Descubro esse bloquinho de anotações. Posso escrever por mais 24 horas. Visto uma blusa cor de prata. A caneta é de alumínio.

19 horas - o fluxo de pessoas é menor. Grupos de negros americanos. Mãe irlandesa com filhinho de uns 3 anos. Homens com a mão no bolso, pensando. Começa a missa das sete. Será que o pároco se incomoda que eu entre? "Não é lugar pra malas". Nunca imaginei que o reencontro com o divino seria num aeroporto.

19 horas e 05 minutos - por que essa voz no alto falante não para?

19 horas e 49 minutos - que bebê bonito. A família passa por mim com dois carrinhos. Na volta só vejo o bebê nos braços. Livraram-se das malas? Quem? Como? Quando? Onde? Nem preciso perguntar por que. Vou pelo caminho trilhado pela simpática grande família. Entrou com bagagens, saiu feliz sem elas. Eu nunca imaginaria. Eum estante com cara de companhia de ônibus. Não parecia serviço de guarda-volumes. Mas é. Que bom que inventaram o "malex".

20 horas - aqueles ali são de "países nórdicos".

20 horas e 08 minutos - portal aberto. Caixa eletrônico. Nada!. Nient! Nothing! Fora do ar. Não remédio que dê jeito numa dor de cabeça dessas. Quando vão inventar uma lei que garanta trabalho remunerado e livre do sistema bancário? É duro.

20 horas e 18 minutos - como tem gente de fora circulando por aqui.

20 horas e 33 minutos - um casal comprando souvenir.

20 horas e 45 minutos - fome começando a apertar. Dá-lhe pão a metro.

20 horas e 59 minutos - no final do corredor tem um restaurante chiquérrimo.

21 horas - melhor conhecer as instalações.

21 horas e 30 minutos - e duas revistas depois. Já sou figurinha conhecida por aqui.

21 horas e 45 minutos - na sala vizinha ao restaurante dá para dormir.

22 horas e 01 minuto - essa risadinha foi comigo...

22 horas e 16 minutos - seria muito pedir para fazerem silêncio.



22 horas e 56 minutos - meu Deus, eu só quero conseguir dormir.

-

05 horas e 17 minutos - acordei, acordei! significa que consegui: dacordafelicidade. Eu preferi estar de acordo! Que emoção. E lá se vão as horas, os dias, os anos. Agora só faltam mais doze...



6 horas - já tem gente na rede. Que bom inventaram Internet.

6 horas e 30 minutos - pausa para um café. Se o sistema eletrônico permitir.

6 horas e 45 minutos - No ar!!! ahhhh, não inventaram cheiro tão bom. Café, café, café!!! Toledo: tirei lição dessa marca. Tomo Santa Clara.

7 horas - pena que os paulistas não conhecem tapioca. Tudo bem, pão de queijo e croissant. Nunca mais pão a metro.

7 horas e 55 minutos - tem um garoto que também durmiu nessa salinha.

8 horas e 10 minutos - fiz meu primeiro amigo na viagem. Paulista sabe ser correto. E frio. Não sei por que, mas gosto muito disso. Em Brasília, foi só o que ouvi. De São Paulo? No espelho, uma elegância paulista.

8 horas e 23 minutos - ganhei minha primeira caixa postal gratuita: georgia_alves@yahoo.com.br. À Rafael Giuliano Leite. Professor de linguagem de surdos mudos.
9 horas e 9 minutos - mais um portal. Atravessei!


(24 horas no Aeroporto Internacional de Garulhos, Cumbica)

- inaugurado em 20 de janeiro de 1985

- primeiro vôo: Boeing 747 da Varing, Vindo de Nova York. Depois um Air bus A-300 da Vasp, so com autoridades do Aeroporto de Congonhas

- responsável pro 30% do tráfico aérea do país

- mais de 171.000 movimentos de aeronaves

- 14 milhões de metros quadrados, 5 milhões de área urbanizada

- duas pistas paralelas para pousos e decolagem

- uma com 3 km de extensão outra 3,7 km

- outra auxiliar com 2 km

- dois terminais: número 1: 75 mil m2. Terminal número 2: 80 mil metros quadrados.

- atividades operacionais: 25 horas por dia

- 44 companhias

- Em 22 anos de existência calculou-se que:

"222,3 milhões de pessoas embarcaram e desembarcaram pelos terminais de passageiros, através de 2,9 milhões de operações de pousos e decolagens que transportaram cerca de 6,9 milhões de toneladas de cargas."

Thursday, June 12, 2008

time



17 hours
25 minutes

time to think?


so you forgot...

to rew or fast forward
life is black & white


















(so much self sure
and you'll never know
what is happen to
an another universe)












thanks Edgar Souza

Wednesday, June 11, 2008


- um chopp?

- não bebo senão entre amigos...

- sou um amigo desconhecido, não serve?

- não para uma bebida descomprometida. Poderia aproveitar a viagem e dar uma boa impressão...

- seria muito egoísmo meu!

- impressão sobre quem não conheceu...

com meus agradecimentos à grafar@gmail.com (grafistas associados do Rio Grande do Sul)
(com fotos de Susana Rocha)

Gilles Deleuze - gracinha de pensador francês - e seu conceito de felicidade (Erva e água clara) me fazem lembrar do tempo em que o silêncio me incomodava. Adolescente, morando em Aldeia, num sítiozinho, cansei de percebê-lo partido apenas pelo criquilhar das cigarras...

Hoje percebo como "não o silêncio não me incomoda mais". Embora nem ele salve - as palavras, já mencionei, há muito não me salvam mais. O silêncio ainda é um dos lugares mais aconchegantes e confortáveis que já conheci. E para mim, muitas vezes, tudo se resume ao lugar. Minha ode ao silêncio do que fiz ou nunca ousei. Meu pedido silencioso e explícito de que repitam em coro versos de Paulinho da Viola, por toda a minha vida:

Quem sabe de tudo, não fale
Quem não sabe nada, se cale
(Se for preciso eu repito, repito, repito, repito...)

Não falem por aí, do que não sabem
Não digam do que não é sua vida
Não cometam a tamanha indelicadeza e deselegância
Por que querer encerrar uma pessoa tão possível em defeitos
Quanto em suas qualidades, em palavras hipócritas, burras, cegas, surdas, próprias???

- sim, porque só se pode falar do seu próprio caráter - não há profundidade na sua fala cara-pálida. Não pode haver em tamanha superficialidade qualquer chance de parecer científico ou de simples precisão.

Ninguém, eu disse ninguém, pode ousar uma definição sobra a vida de outra pessoa ou opinião que seja sobre quem não conviveu, trocou palavras sequer! como pode emitir parecer se nem conhece?

Que dirá falar da vida que essa pessoa leva, das possibilidades que criou ou não criou, das tolices que cometeu e somente ela mesma pode compreender como tolice, burrice, idiotice, canalhice, insandice, visse, visse, visse, visse, visse...

Que vício terrível esse de quem não tem o que fazer e resolver falar do fazer alheio. Que extrema e terrível necessidade de xingar o jeito de ser do outro. Que ouvidos moucos, moucos. Quem são afinal, os seres humanos loucos, loucos...

É sim, a opinião dos outros importa em parte, só a parte que interessa. Porque ninguém tem - em geral - nada de bom ou novo a dizer. São as mesmas falas repetidas de descrédito na polícia, medo da violência, ou das injustiças com seu time. Pior, quando não escolhem um caso escabroso - o que acontece vez por outra - para aterrorizar sentimentos tão frágeis e delicados como laços de companheirismo, amizade, amor, família... Por que será que não se cansam dessa mesma tecla onde está escrito "boicote"? Ou "sabote"? Ou "fricote"?


Difícil. Vou dizer, difícil. Algo mesmo novo e diferente. Suave, positivo, real, interessante, amistoso, condizente... para usar no final uma palavra incompleta. Sim, sim. Tenho todo interesse no novo, no que é lúdico, no belo, no detalhe, no curioso, no que é "excelente" por natureza como a própria natureza ou o silêncio.



Nem sei mais porque escrevo se não sinto o mesmo peso da alma na palavra. Eu falei peso? era para ser de uma imensa leveza esse novo milênio, Calvino...










É somente um instante o que me acolhe em teu guarda-chuva, Bataille. Nem vejo nada mais necessário, mais vital do que isso que é tão simples.



Alguém apague a luz, eu devo estar acordando... Ou então, onde foi parar a Harmonia? por que tudo é tão "produzido", "reproduzido", "induzido"...? Quem sabe me salve "uma narrativa"! Quem sabe me interesse uma corpoeticidade mais descomplicada e ainda assim comprometida. Não desconfio de mais nada. Não tenho tempo a perder com isso. Apenas sei o que não é. Ah, disso eu sei. Pena é perceber como se perdem por um simples viés. Um fio seria capaz de derrotar o Minotauro. Perdeu-se, o fio de lã, o viés. Não verá mais...

Interessa-me mesmo é voltar a Deleuze e seu significado da liberdade (ou escrevi "felicidade"?) diz um amigo meu que se aproxima muito do significado original do termo: a palavra prya, do sânscrito!. Significa aquilo que se ama e que dá prazer e alegria. Que inspirou a origem da palavra "liberdade" em inglês: "free". Prya é muito mais do que se libertar de alguma coisa, como espera ou cabe no termo latino. É, simplesmente, ser feliz!

Friday, June 06, 2008

Tenho ouvido muito, ultimamente, as pessoas dizerem: "eu preciso de dinheiro!". Bom, quem não precisa num mundo capitalista? Todos nós precisamos de dinheiro. O segredo, talvez - desse assunto entendo eu pouco -, esteja no caminho encontrado para "atrair" dinheiro. E dedicar parte expressiva do seu tempo para isso. Depois, de preferência, fazê-lo circular...



Eu - de minha parte - vou contar o que se passa comigo. Na hora de dizer um desses "desabafos", do rosto molhado, da água salgada brotando não sei de onde, concentrei toda energia de vida numa frase diferente. A vontade era outra. Olhei bem pro alto, onde supomos estar o sr. Divino, com alguma força que o espaço amplo, verde e livre desse campus permitiu, gritei como que para fora e para dentro, de um jeito que só desse para ouvir lá de cima: "Eu preciso de um abraço".

























Funciona quando se tem amigos. Ganhei logo dois abraços de duas grandes amigas. Mais um abraço, mesmo que à distância, de uma outra, amiga das antigas. Um abraço longo de uma tia. Outro, de outra. E fui indo de abraço em abraço, até de um "ex-companheiro" a palavra bem dita virou abraço simbólico, aquela "força" que a gente precisa. Ainda tive a chance de descobrir que os bracinhos em crescimento que tenho ao meu lado, na caminhada por essa estrada, além do afeto e do carinho, são capazes de instantes de extrema criatividade que são desses abraços que resgatam a gente, colocando no lugar certo.



E mais, ainda fui surpreendida porque o efeito desse grito seco reservou para mim dois braços fortes, prontos para um abraço de amor...



Claro que não consigo - ainda - pagar as contas. Ou tive a chance de pagar minhas dívidas. Quando o assunto é dinheiro há momentos em que parece impossível simplificar ou entrar num acordo, que dirá num entendimento de abraço... Os bancos precisam de dinheiro, os locatários precisam de dinheiro, os supermercados precisam de dinheiro, as construtoras precisam de dinheiro, os condomínios precisam de dinheiro. Só os trabalhadores não precisam o valor de seu trabalho. Por este motivo, têm cada vez menos chance do acesso ao "dinheiro de verdade". Dinheiro para um bom plano de saúde, uma moto, um carro. Um casa... livros, discos, uma ou outra viagem. Qualidade de vida, melhorias, bens materiais... que dirá um trabalhador autônomo, que é isento até mesmo do imposto de renda. Sim, porque não há sequer ganho de uma renda suficiente para isso! Paciência.

É uma equação impossível. Para mim, pelo menos, tem parecido. Se eu tivesse aprendido matemática ao invés da parte mais filosófica da vida... Dizem, que sempre é tempo de aprender algo novo. Concordo. E estou disposta a começar por uma estrada nova. Mas tem um "quesito" que - pressinto - jamais vou abrir mão: Esse primeiro passo pode vir logo depois de um abraço?

Wednesday, June 04, 2008

A estrada se desloca
A linguagem é a estrada
Escolha de Mia Couto
Mimetiza ... na guerra
Prezo e rezo, dedo solto
olho na tabuada
Mia Couto, em Terra Sonâmbula:

- Lhe vou confessar miúdo. Eu sei que é verdade: não somos nós que estamos a andar. É a estrada.
- Isso eu disse desde há muito tempo.
- Você disse, não. Eu é que digo.

E Tuahir revela: de todas as vezes que ele lhe guiara pelos caminhos era só fingimento. Porque nenhuma das vezes que saíram pelos matos eles se tinham afastado por reais distâncias
- Sempre estávamos aqui pertinho, a reduzidos metros.

(Cap: O SUSPIRO DOS COMBOIOS)

à família.

Tuesday, June 03, 2008

Deserto

se sou terra
onde estão
minhas raízes?

não, não sou árida
apenas me movo
muito
Em Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, Lóri descobre com Ulisses que mesmo quando o Amor lembre nossa morte ou quando não estamos bem, o Amor é também Apesar de:

- Não poderei ir, Ulisses, não estou bem.

Houve uma pausa. Ele afinal perguntou:

- É fisicamente que você não está bem?

Ela respondeu que não tinha nada de físico. Então ele disse:

- Lóri, disse Ulisses, e de repente pareceu grave embora falasse tranqüilo, Lóri: uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. “Mas quero inteira, com a alma também”.

Sunday, May 25, 2008

"Contrariamente a célebre aforismo de Saint-Just, a felicidade nunca foi uma idéia nova na Europa e desde as origens, fiel à sua herança grega, o cristianismo sempre lhe reconheceu a aspiração. Simplesmente colocou-a fora do alcance humano, no Paraíso Terreal ou nos céus (o século XVIII contentar-se-á em devolvê-la aqui para o mundo terreno)".



...



"A esperança da felicidade triunfa sobre o declínio da idéia da salvação e da idéia de grandeza, mediante uma dupla recusa da religião e do heroísmo feudal preferimos ser felizes a ser sublimes ou salvos"



...



"O que muda a partir da renascença é a permanência na terra, no surgimento dos progressos materiais e técnicos, ter deixado de ser considerada como uma penitência ou um fardo".



...



"O mundo pode ser um jardim fértil, deixando para sempre de ser uma tapada estéril, os prazeres são reais e a dor por si só não encerra o conjunto da experiência humana (o que é disto testemunha toda a tradição Utopista desde Thomas Morus e Campanella) sobretudo é necessária a reconciliação com o corpo".



...



"Deixar de ver nele (0 corpo) o efêmero e desgostante revestimento da alma do qual seria preciso que desconfiássemos e nos desprendêssemos: no futuro será um amigo, o nosso único esquive sobre a terra, o nosso mais fiel companheiro que convém envolver, cuidar, tratar através de toda a espécie de leis da medicina e da higiene quando a religião prega a dura submissão, desprezo, esquecimento. Triunfo do conforto: apoteose do estofo, do acolchoado, do cômodo, de tudo o que amortece os choques, garantidas as nossas comodidades".




















KANT: "DEPENDE DE NÓS QUE O PRESENTE CUMPRA A SUA PROMESSA DE FUTURO".



Saturday, May 24, 2008

No livro de Robert Mauzi, L'Idée de bonheur dans la littératura et la pensée fraçaise au XVIIIe. siécle, Albin Michel, 1979, pp. 261/262. Está a seguinte citação que em 1738 Mirabeau faz em carta ao amigo Vauvenargues, sobre os princípios que norteiam a sua conduta:

- desfazer-se de preconceitos,
- preferir a alegria aos humores,
- seguir as suas inclinações... Ao mesmo tempo em que as expurga.

A fora o entusiasmo juvenil, Mirabeau reinventava a felicidade do homem de sua época. Antes dele, outros fizeram muito mais preocupados com a salvação da alma. Vide Santo Agostinho. Como bem descreve Pascal Bruckner em seu A Euforia Perpétua, "no seu tempo... enumerava nada menos que 289 opiniões diferentes sobre o assunto, o século XVIII consagrou-lhe cerca de 50 tratados e nós não cessamos de projetar sobre os tempos antigos ou sobre outras culturas concepções e obsessões que só a nós pertencem."Pascal pontua, desde o início (p.13) os lugares onde nós situamos essa felicidade:

"Tanto existe felicidade na ação como na contemplação, na lama como nos sentidos, na prosperidade como na penúria, na virtude como no pecado." E relembra Diderot:"As teorias sobre a felicidade, mais não explicam que a história daqueles que as elaboram. É uma outra história a que nos interessa: a da vontade de felicidade como paixão própria do Ocidente desde as revoluções Francesa e Americana".

Para logo depois destacar os paradoxos que enfrenta o projeto de ser feliz:

1. Versa sobre um objeto de tal modo fluido que se torna intimidatório dada toda sua imprecisão

2. Desemboca no tédio ou na apatia a partir do momento em que se realiza (no sentido de que a felicidade ideal seria uma felicidade sempre saciada, sempre renascida que evitaria a dupla pena da frustração e da plenitude).

3. Enfim, ilude o sofrimento ao ponto de se encontrar desarmado perante ele a partir do momento em que surge.

Pascal desenvolve cada um desses tópicos: "No primeiro caso a própria abstração da felicidade explica a sua sedução e a angústia que origina. Não somente desconfiamos dos paraísos pré-fabricados como nunca estamos seguros de sermos verdadeiramente felizes. Querer saber se o somos é já sinal de o não sermos.

Daí que a predileção por este estado se encontre também ligada a dois comportamentos, o conformismo e a inveja, as doenças conjuntas da cultura democrática: o alinhamento pelos prazeres majoritários, a atração pelos eleitos que a sorte parece ter favorecido".

O segundo tópico, Bruckner entende o conceito na sua forma laica, mais contemporânea, usando a Europa como ambiente, nominando o efeito de "advento da banalidade":

"esse regime temporal que surgiu com o dealbar dos tempos modernos e viu triunfar a vida profana, reduzida ao seu prosaísmo, após a retirada de Deus.

A banalidade ou a vitória da ordem burguesa: mediocridade, sensaboria, vulgaridade."Finalmente, examina o 3o. Ponto: a dor.

"Por último, tal objetivo, visando eliminar a dor, substitui-a apesar de tudo no âmago do sistema. Ainda que o homem de hoje igualmente sofra por não querer mais sofre, como também se pode adoecer à força de procurar a saúde perfeita.

O nosso tempo conta-nos uma estranha fábula: a de uma sociedade dedicada ao hedonismo, para a qual tudo se torna causa de irritação e de suplício". E sentencia:"A infelicidade não é só a infelicidade: é, ainda pior, o fracasso da felicidade".

Pascal Bruckner conclui então, com o que compreende por "dever de felicidade":"essa ideologia própria da segunda metade do século XX e que conduz a tudo avaliar sob o prisma do prazer e do desagrado, esse convite à euforia que lança no opróbrio e na dor os que não lhe correspondem.

Duplo postulado: por um lado, tirar o melhor partido da vida; pelo outro, afligir-se, penalizar-se por tal não ser conseguido."Além dos múltiplos significados do Bem Supremo e idéias fixados (saúde, riqueza, corpo, conforto, bem-estar e outros "talismãs"), Pascal lembra que "contrariamente ao lugar-comum sem descanso repetido desde Aristóteles não é verdade que todos nós procuraríamos a felicidade, valor ocidental e historicamente datado.

Outros existem como liberdade, justiça, amor, amizade que ganham supremacia sobre ela".E ainda pergunta:"E como saber o que todos os homens procuram desde a origem dos tempos sem cair em generalidades vagas?"

RESPOSTA: "Não se trata de estar contra a felicidade mas sim contra a transformação desse frágil sentimento num pensamento coletivo estupidificante perante o qual todos se deverão inclinar nos aspectos químicos, espirituais, psicológicos, informáticos, religiosos. Os saberes e as ciências mais elaborados devem confessar a sua importância para garantirem a felicidade aos povos e aos indivíduos".

Ao jovem Mirabeau e seus "postulados", segue o recado subversivo: "amo demais a vida para não querer ser feliz!".

caminho sentindo o esforço do músculo. A irrigação deve lhe faltar. Descubro a demora do corpo em esquecer o que aprendeu. Como subverteria uma ordem genética e um aprendizado que não é estanque? por que precisamos do tempo para sair da casca seca? Até a pobre cigarra demora apenas um inverno, cantando sem parar...

...
são camadas que envolvem o fio condutor. Troncos nascidos do endurecimento da pele, do externo. Que bom não ser transparente. E ainda poder mudar de cor! "Você - ouvi - está muito melhor!"... Minha cor volta!!!


não há qualquer engano: não há galhos, somente talos grossos partidos. Estruturas perfeitamentes ceifadas. Como em Hartfort-shire. E os tablóides...
Excelente descoberta no blog de Diana Moura

"Carrego a certeza que a palavra me salvou do aniquilamento, do suicídio, das drogas, das mentiras. Ela fez com que cada fragmento de meu corpo guardasse uma explicação. Não me afastei da vida porque a palavra sempre esteve próxima dela. Quando perdemos o idioma, perdemos o lugar. Narrar é perseguir o passado, comunicá-lo para não se repetir. Não narro para me perdurar. Ter sentido é pouco, fazer sentido é o que busco. EU SOU ATENTO AO QUE FUI, NÃO MELHOR”

FABRÍCIO CARPINEJAR
por Schneider Carpeggiani

Wednesday, May 21, 2008


Pensando bem (por uma vida mais sábia)
texto de Eugenio Mussak (educador e escritor)

tema : vergonha

"Há um tipo de vergonha 'tóxica', que ruboriza a face da pessoa, mesmo que ela não tenha motivos para se envergonhar. Afinal, por que as pessoas sentem vergonha?"

(...) Sempre tem alguém nos perguntando se não temos vergonha de alguma de alguma coisa, nem que seja de sermos nós mesmos.

A expressão "força de ego" é bastante utilizada em psicologia. Refere-se a uma noção freudiana clássica em que o bom funcionamento psicológico das pessoas pode ser avaliado de acordo com a maneira como elas lidam com o conjunto de fatores controladores do meio onde vivem - os códigos sociais e culturais, as regras sociais. Controles sempre existem, e é bom que existam, pois o equilíbrio das relações depende, em grande parte, deles. Se cada um fizesse o que lhe dá na telha, viveríamos em anarquia, o que contraria o princípio da civilização.

Até aí, tudo bem. Eu preciso entender meus limites e respeitar os ditames de bom convívio com os demais. Caso contrário, posso ser acusado de ser anti-social, egoísta, desagradável. Um verdadeiro sem-vergonha. Por isso, na educação de uma criança, faz parte ensinar-lhe os limites, até onde se pode avançar sem ferir o espaço dos outros, seja o espaço físico, seja o moral.

A noção da força do ego está atrelada ao equilíbrio entre o primitivismo dos desejos humanos e a sofisticação das regras sociais. Só que esse equilíbrio é o que, em física, poderia ser chamado de equilíbrio instável. Qualquer esforço ligeiramente maior, de um lado ou do outro, gera o desequilíbrio, a ruptura psicológica, o sofrimento emocional.

A espontaneidade de um menino que mostra seu "pipi" para o médico em uma festa pode se transformar em um trauma com repercussões sexuais se ele for severamente repreendido. E, se não o for, pode colaborar para um comportamento irresponsável no futuro. Mas há outra possibilidade. Um fato como esse também pode ser utilizado como um momento pedagógico sobre normas de conduta, desde que a comunicação usada pela pessoa em que a criança confia seja natural e clara, como a educação em geral deve ser.

O psicólogo alemão Erik Erikson, uma referência quando o tema é infância, adolescência e os reflexos dessas fases na idade adulta, dizia: "Na vida social, a pessoa está completamente exposta e está consciente de que está sendo vista. A vergonha surge quando a pessoa ainda não se sente pronta para ser vista". Como a cobrança social é cada vez maior - em termos de sucesso, realização, estética e posses -, é muito difícil alguém se considerar totalmente pronto para ser visto. E dá-lhe vergonha. Por outro lado, se alguém não demonstra vergonha jamais, pode ser acusado de ser alienado.

Não há vergonha em sentir vergonha. A questão central não é essa, pois a vergonha é normal. O importante é a análise da relação entre a vergonha que sentimos e o motivo que a fez aparecer. Às vezes, a vergonha é desproporcional e pode provocar traumas. O menino que mostra o "pipi" e é repreendido ou humilhado não entende o que há de errado no seu ato. E, pior, poderá envergonhar-se do seu corpo para empre.

Se um garoto sente vergonha de fazer uma pergunta ao professor durante a aula, pois tem medo da violência do controle do meio - no caso, as gozações dos colegas -, pode ser um sinal de que ele se sente inadequado no meio em que está inserido. Ele não se sente pronto para ser visto. Por outro lado, o garoto que desrespeita o professor e os colegas com atitudes de insdisciplina constante pode estar no extremo oposto. É arrogante porque nega o controle social e faz questão de explicitar sua revolta com a autoridade. Ele poderia ser chamado, facilmente, de sem-vergonha. Mais uma vez, estamos lidando com o equilíbrio instável da força do ego.

Sem-vergonha

O tema da vergonha normalmente é analisado sob a ótica da psicologia ou da sociologia, entretanto ele também pode ser visto por outras lentes, como a da biologia. Em seu livro A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, Charles Darwin afirma: "Enrubescer é a mais especial e a mais humana de todas as emoções". E conclui dizendo que sua causa, a vergonha, é a peça-chave para a vida em sociedade.

Enquanto as sociedades de animais são regidas pelos instintos, a sociedade humana é regida por regras construídas intencionalmente. Darwin explica que o rubor é uma conseqüência fisiológica causada pela preocupação com o que os outros pensam de nós mesmos. A função do rubor é embaraçar quem ruboresce e constranger quem observa. E, assim, seguimos na vida, dançando a valsa da humanidade em um salão decorado com as regras da sociedade.

Em seu estado natural, o homem não se envergonha de nada, mas ele só está nese estado na infância. Na própria infância da humanidade, metaforicamente descrita nas escrituras bíblicas, o homem não se envergonha de andar nu. Foi só quando se viu expulso do paraíso que ele tratou de esconder seus genitais, "suas vergonhas". Talvez isso seja apenas um símblolo da vergonha de ter traído a confiança do criador e comido o fruto paoibido. A partir de então, teve iníco a humanidade controlada pela vergonha. Hoje, as religiões e o Estado valem-se do sentimento da vergonha para controlar as pessoas e manter o mínimo de equilíbrio social.

Portanto, a vergonha tem lá sua importância. Está ligada ao equilíbrio social e ao convívio humano. Sendo assim, estamos falando de algo humano, tanto do ponto de vista psicológico, quanto social e até biológico, como vimos. O problema está na vergonha desproporcional, tóxica, descabida, paralisante. Esta pode precisar de apoio profissional, mas pode também ser controlada à medida que o ego vai ganhando força, encontrando seus alicerces na maturidade, no autoconhecimento, na auto-aceitação.

(...)

Vamos concordar que a vida tem de ser vivida intensamente, mas não irresponsavelmente. Tentar ser feliz não é vergonha, a não ser que com sua felicidade você provoque a infelicidade de alguém mais. Mas isso, acredite, não é necessário, absolutamente."

mais do excelente texto no site: http://www.eugeniomussak.com.br/

Interessante observar que mesmo estarmos a apenas meio milênio da baixa Idade Média, onde ainda eram necessárias publicações sobre o mais básico controle de instintos e maneirismos ainda sofremos dessa doença que é a sobreposição dos egos de quem se sente fortalecido pelas vantagens do sistema. Nós, pobres e desfavorecidos mortais, dessa mesma sociedade, fazemos o movimento que fizeram negros, índios e orientais. Submetemo-nos aos horrores. Pressionados por um eterno sentimento apocalíptico. Seja apenas um certo fatalismo descuidado. Ou pior, a vitimização, um sentir-se fraco e sem saída diante de qualquer circunstância, que - mais que problemas - tornam-se "pesadelos".

Essa paralisia da qual o Eugênio Mussak fala é velha conhecida dos consultórios psiquiátricos e sessões de terapia. E em tudo que vejo no texto, só acrescentaria a diferença que faz ter bons amigos. Além dos mais belos sonhos, como já citava Ernesto Guevara.




A Medida Da Paixão
Lenine

Composição: Lenine/dudu Falção

É como se a gente
Não soubesse
Prá que lado foi a vida
Por que tanta solidão?
E não é a dor
Que me entristece
É não ter uma saída
Nem medida na paixão...
Foi!
O amor se foi perdido
Foi tão distraído
Que nem me avisou
Foi!
O amor se foi calado
Tão desesperado
Que me machucou...
É como se a gente
Pressentisse
Tudo que o amor não disse
Diz agora essa aflição
E ficou o cheiro pelo ar
Ficou o medo de ficar
Vazio demais meu coração...
Foi!
O amor se foi perdido
Foi tão distraído
Que nem me avisou
Nem me avisou!
Foi!
O amor se foi calado
Tão desesperado
Que me maltratou...

Tuesday, May 20, 2008


Che


Eu tive um irmão

Não nos vimos nunca

mas não importava.


Eu tive um irmão

que andava na selva

enquanto eu dormia.


O amei ao meu modo,

lhe tomei a voz livre

como a água,


caminhei às vezes

perto de sua sombra


meu irmão desperto

enquanto eu dormia.


Meu irmão mostrando-me

por detrás da noite

a sua estrela eleita.


Júlio Cortázar
(Argentina)


O Nascedor


Por que será que o Che

tem esse perigoso costume

de seguir sempre renascendo?


Quanto mais o insultam,

o manipulam o tradicionam,

mais renasce.


Ele é o mais renascedor de todos!

Não será porque o Che dizia o que pensava,

e fazia o que dizia?


Não será por isso,

que segue sendo tão extraordinário,

num mundo em que as palavras

e os fatos raramente se encontram?


E quando se encontram,

raramente se saúdam,

porque não se reconhecem?


Eduardo Galeno
(Uruguai)
"Lutam melhor os que têm belos sonhos".
Ernesto Guevara de la Serna






















"Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a primavera inteira".

Monday, May 19, 2008

L'Humanité et l'éloge de la simplicité


"L'HUMANITÉ, du réalisateur français Bruno Dumont n'est certes pas passé inaperçu dans les coulisses du cinéma après avoir raflé (à tort ou à raison) le Grand prix du Jury du dernier Festival de Cannes. Créer l'unanimité est peut-être chose impossible, mais jamais dans l'histoire du festival on aura vu telle polémique, tel brouhaha. L'HUMANITÉ est de ce lot qui passa de travers dans la trachée des critiques du monde entier."




"Bruno Dumont queria fazer cinema e enquanto esperava estudou e lecionou filosofia, também trabalhou com publicidade, jornalismo e televisão. Ele escreve seus roteiros, dirige os técnicos, os comediantes, sabe montar, mixar, tudo para os filmes. Ele dirigiu em 1996 seu primeiro longa-metragem, “La Vie de Jésus” que ganhou uma dezena de filmes. Em 1999 ele dirigiu seu décimo longa-metragem, “L’Humanité” que recebeu o Grande Prêmio do Juri e também um prêmio duplo de interpretação no Festival Internacional de Cannes em 1999."




















"Angel talvez seja o filme de Ozon onde suas raízes maneiristas fiquem mais evidentes. É um filme aberto, corajoso ao se arriscar em ser tão franco em sua proposta. Se O Amor em Cinco Tempos era inteiro a construção daquela imagem, Angel é todo essa imagem."




"O mínimo que se pode dizer de Ozon é que ele foi audacioso quando decidiu nos mostrar a história de Angel (a linda Romola Garai, de "Scoop: O Grande Furo") pela ótica da própria personagem. Isso porque ela é uma jovem interiorana na Inglaterra do final do século 19. Uma ingênua, mas determinada a ser uma escritora famosa. Dona de uma imaginação frutífera, Angel vomita histórias melodramáticas e floridas como quem respira. É consciente e convicta de seu talento, e age de forma arrogante sem aliviar no maltrato com quem se mostra provinciano. Na realidade, ela é dura com aqueles que tentam trazer um pouco da realidade do mundo para dentro do seu universo particular de conto de fadas.




"Angelica Deverall (Romola Garai) é uma adolescente mimada, com imaginação fértil e vocação para escrever romances açucarados. Em pouco tempo, ela se torna a autora mais famosa da Inglaterra, fica milionária e se casa com um atormentado pintor (Michael Fassbender). Mas sua vida se transforma em tragédia quando seu casamento entra em crise e seus livros saem de moda. Ao adaptar "Angel" (1957), o romance satírico de Elizabeth Taylor (a escritora, não a atriz), François Ozon conseguiu fazer um filme que se parece com um melodrama antiquado e, ao mesmo tempo, é absolutamente contemporâneo, todo recoberto por uma pátina de ironia."

Rafael Dias (http://www.revistaogrito.com/page/07/03/2008/francois-ozon/)


"O fato de cruzar o Canal da Mancha é só uma metáfora (real) de como este diretor, com estilo autoral perspicaz, vem pavimentando, agora de vez, seu nome além das xenófobas trincheiras francesas. Mais maduro e, claro, mais velho, mantendo-se jovem (acabou de cravar 40 anos, referência etária que, para o mundo do cinema, assim como na literatura, não quer dizer nada, apenas puerilidade), Ozon segue seu próprio caminho, sem pressa, numa trajetória parecida com a do seu colega de divisa, o espanhol Pedro Almodóvar. Mais refinado e precavido, mas nem por isso menos transbordante, assina um cinema audaz e avesso a fórmulas de estilo e forma, melhor a cada ano que passa, como um bom vinho de terroir suave e tanino marcante. No limiar do exagero barroco e da delicadeza."


Sunday, May 18, 2008


"Você acredita que cada lugar tem seu momento do dia, quando se torna verdadeiramente vivo? Não é bem isso o que quero dizer. Na verdade é antes o seguinte: parece existir um instante em que a gente se dá conta, muito por acaso, de que pisou no palco exatamente no momento em que era esperado. Tudo está arranjado para você - espera por você. Ah, o dono da situação! Você fica cheio de si. E ao mesmo tempo sorri, furtivo, malicioso, porque a Vida parece se opor a conceder-lhe essas entradas, na verdade parece empenhada em tirá-las de você, tornando-as impossíveis, segurando-o nos bastidores até que seja tarde demais... Ao menos uma vez você derrotou a velha bruxa.

Tive um desses momentos quando vim aqui pela primeira vez. Imagino que é por isso que volto sempre. Retorno ao cenário de meu triunfo, ou à cena do crime, onde pelo menos uma vez agarrei a velha meretriz pela garganta e fiz com ela o que bem quis.

Pergunta: Por que sou tão amargo em relação à Vida? E por que a vejo como uma mendiga num filme americano, arrastando-se embrulhada num xale imundo com suas velhas garras segurando um cajado?

Resposta: O resultado direto do cinema americano agindo sobre uma mente fraca.

De qualquer modo, "a breve tarde de inverno chegava ao fim", como dizem, e eu andava por aí, indo para casa ou não indo, quando me dei conta de que estava aqui, encaminhando-me para esta mesa do canto.

Dependurei meu casaco inglês e meu chapéu de feltro cinza no cabide atrás de mim e, depois de conceder ao garçom tempo suficiente para que pelo menos vinte fotógrafos registrassem sua imagem até se saciarem, pedi um café.

Ele serviu-me uma taça daquele líquido tão meu conhecido, meio roxo, com reflexos esverdeados suspensos, e afastou-se, arrastando os pés, e eu me sentei apertando as mãos em torno da xícara, porque lá fora o frio estava de amargar.

De repente me dei conta de que mesmo sem querer eu estava sorrindo. Levantei lentamente a cabeça e vi no espelho do outro lado. Sim, lá estava eu sentada, apoiada na mesa, com meu sorriso rasgado e malicioso, tendo diante de mim uma xícara de café com sua vaga pluma de vapor e, ao lado da xícara, um pires branco com dois torrões de açúcar.

Abri bem os olhos. Teria ficado ali por uma eternidade, como me pareceu, e agora por fim voltava à vida..."


























Thank you! K. Mansfield
Prezado Calvino,

Gostaria de correr à janela e gritar: Mas Rambaldo não seria mesmo ele. Não rezaria como "as mulheres pobres e piedosas, para pagar seus pecados!". Faria como Bradamante:

"- Sim, Rambaldo, aqui estou, espere-me, tinha certeza de que você viria, já estou descendo, partiremos juntos!"
...

"Sim, livro. A irmã Teodora, que narrava esta história, e a guerreira Bradamante são a mesma pessoa. Um tanto galopo pelos campos de guerra entre duelos e amores, outro tanto me encerro nos conventos, meditando e escrevendo as histórias que me ocorrem, para tentar entendê-las. Quando vim me trancar aqui estava desesperada de amor por Agilulfo, agora queimo pelo jovem e apaixonado Rambaldo."

...

"Quais fumaças de devastações dos castelos e dos jardins que amava? Quais imprevistas idades de ouro prepara, você, malgovernado, você, precursor de tesouros que custam muito caro, você, meu reino a ser conquistado, futuro..."

Futuro.

Monday, May 12, 2008


Se você ainda não soube da última investida do Diabo, vou contar:

Andava por aí com seu comparsa, de longas datas, quando uma mulher que ia à frente de ambos recolheu algo que estava em seu caminho, e brilhava. A colocou a estrela - que era do que se tratava - em seu peito. O inseparável do Diabo, muito curioso, cuchichou no ouvido de Satanás. Olha lá, cara, no que aquela mulher "tropeçou". Nossa! Como brilha!!! Será que estou vendo direito? É mesmo o que estou pensando?

Ao que o Diabo respondeu, sem espanto:

"Ela acaba de encontrar a liberdade. E soube bem onde guardá-la, colocando a luz da verdade em seu coração".

O parceiro do Diabo não resistiu a um comentário provocador, claro!: "Xii, então tu se deu mal, meu camarada. Isso deve ser um péssimo negócio para você, quando acontece... E agora? Como vai poder obscurecer a verdade e aprisionar essa mulher às tuas intenções?"

Satanás, com toda frieza e um sorriso malicioso no canto da boca, rebateu: "Espera só até ela se deparar com as crenças, sistemas e instituições..>"

Inspirado nos ensinamentos de Jiddem Krishnamurti (1895 - 1985)

Sunday, May 11, 2008

Algumas escolhas são da natureza do humano. Não passam pelas necessidades ou vicissitudes. O destino se constrói assim. Instintivamente. Não há, de fato, "um escrito nas estrelas". Elas aí, são neurônios, conceitos, preceitos e preconceitos. E é a natureza de cada ser humano que vai determinar, ou conduzir a vida. Definir as escolhas, as decisões. O rumo a ser tomado.

É assim que se diz, um dia atrás do outro, a mentira é completa. A paciência é um erro, só não supera em sua estupidez a tolerância. Com a petulência de imaginar que não as as naturezas - seja de constância ou acomodação - que tentam deter o futuro, que é hoje, é agora! É Deus ou o que quer que seja quando se parte de um tiro no escuro.

Tira daqui, bota ali e até que alguém por si mesmo ou por nada decide: "Deixa o Zé Pereira ficar". Afinal, guerreiros com guerreiros fazem zig-zig-zá. Alguém sempre perde no final. E, sendo assim, alguém sempre ganha. O bom é pensar que ambos perdem e ganham. Como ambos são "culpados" ou "responsáveis" por tudo. E o que se ganha e se perde num "jogo" desses vai depender (de novo!) da natureza de cada um. Daquilo que um e outro dão valor. Outros não dão a mínima importância, é verdade... Esses são os melhores. Os que estão no time dos mais fortes.

Tomado pela idéia de não perceber quem está segurando a pedrinha no jogo do vai-e-vem, do toma-lá-da-cá, ganha-se uma "constância" surda. Em parte até cega. Além do que, não muda. Um falso equilíbrio e nenhuma noção dos fatos. Da existência de cada um. Dos atrasos atribuídos ao relógio ou do "pouco tempo" - o tempo é uma constante, ora essa. Nem pouco nem muito. Simplesmente, é.

Dos passados e frustações que guardam e que não estavam ao seu alcance. Das histórias construídas sem noção. Quiçá alguma necessária consciência! Burrinhas, burrinhas... Por que? Porque não tinha muito o que fazer. Ou não se deu para fazer o que tinha e tinha mesmo o descuido consigo mesma de perder tempo e dinheiro. E se perder da própria essência. Da necessidade das coisas. O valor - tão caro! - de viver no exato instante e não num tempo abstrato. Afinal, quem guia?

Saber achar a saída é mistério de fácil e difícil resolução. Fácil porque são muitas as fragilidades e demolições. Buracos há muitos no muro. Perceber que está destruindo a própria vida não é tão enigmático assim. E qualquer uma dessas brechas vai servir para encerrar o caso. De preferência que seja a primeira de todas as tolices. Parar desde o início é um bom começo. Um excelente movimento!

O difícil é vencer a natureza... dessa vez da inércia. Sua própria natureza estranhamente escrava de Jó. Dos conceitos e preconceitos indissolúveis de que está cercada. Todos tão difíceis de partir. "Mais que um átomo". Albert Einstein. Vale, no final, o zá. Como diria Luis Fernando Veríssimo: "rico tem mania de pensar que pobre é burro!". Nada disso é orgânico. É tudo fisiológico...

Friday, May 09, 2008


Nessa avenida não há paradas

Há pontos de partida e chegadas


Antes, via cegos à espera de coletivos.

Agora vejo prédios. Não há abrigos.

Tuesday, May 06, 2008




"A História, disse Dedalus, é um pesadelo do qual procuro acordar."
James Joyce (Ulysses)


A Força das Coisas
O gosto de-cada-uma
O modo do mundo, que gira...

A frase de efeito
O grito que dei
O mudo sentido, que vira...



A fome de tudo
O gelo. Nebulosa a bruma
O mito de ontem, que eu cria...


Se em dois doía, caminho: saída!

Uma nova Utopia
Uma nova Utopia
Um projeto de Vida
Um projeto de Vida

Novo. Movo e ouço:
Vejo e mexo. Desejo.
À Liberdade
À Fraternidade
À Igualdade
Deixo...

É que virou tirania
a condição do homem
Não construía
Não avançava
Mais destruiu em sua anarquia

Foi com gosto, seu moço!
Que, veloz, esqueci o despejo
A figa no bolso
Lampejo em lampejo
Oh, pobre Diógenes!
Eu vejo.

Passará o pesadelo
Por que, Dedalus?
Porque sou eu que escrevo
Meu grande enredo
Sou que escrevo
Com medo de nada
Sou eu que escrevo

Passou, mas doía, doía...
Doía, doía, jazia, jazia...
Sabia, oh, Deus! Sabia.
Caminho: saída

Refaç@ o desejo
A roda que gira
menor e constrita
é minha a moda
é minha a nota
A Vida é minha

A Força das Coisas
o jeito que dei
o voto e a prece
eu me repetia
"carinha do seis" deletei

É minha a noite
É meu o dia
É frio?
É a Normandia!!!



Aprendo com os erros,
Geografia.
Se cria assim?
Não creio.

"Operação Overlord!"
Foi-se feio
Como um bom começo
É mister sair inteiro
Sofro ação do tempo
E a impressão de perdê-lo


Com hora exata, sem zelo
Escolheu bem o dia.
Momento tão árduo da travessia
São mares revoltos

Dor, Morte & Agonia.
Não pelo Amor
Ligou-se na dor
Poder que vicia.

Dois meses de luta
Inútil e Sangrenta

Um dia, enfim,
Sou ovo de novo Paris
Romance meu gênero
Com final verdadeiro
Por isso, feliz.

E se ainda estou viva
Bulindo, a mente a mil...
Sou eu moradora
Em casa construída

Olho pra frente
Sou eu meu presente
E se nômade (aparente)

Porque grande,
por dentro também,
Humana e gente!

Até onde e quando
Quiser e disser
Escolho estar viva
Não como der ou
"Deus" quer.


É preciso poesia
E existe o lugar,
Provo todos os dias

Passeio na praça
Dou passos bem firmes
É certo chegar
Alguém que parece
Estar longe ou ausente

Existe o lugar, existe Ulysses!
E eu? vivo nele.

Sou eu meu lugar.
Provo em dizer que
Habita em mim
O melhor tipo de Amor.

Tuesday, April 15, 2008


“Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].”
C.L.

Wednesday, January 09, 2008

"Nesse momento minha inspiração dói em todo corpo. Mais um instante e ela precisará ser mais do que uma inspiração. E em vez dessa felicidade asfixiante, como um excesso de ar, sentirei nítida a importância de ter mais do que uma inspiração, de ultrapassá-la, de possuir a própria coisa - e ser realmente uma estrela"

Arquivo Clarice Lispector -Museu de Literatura Brasileira. Fundação Casa de Rui Barbosa.

Quero com força. Preciso muito muito de um canal de identificação com Walter Benjamin. Sua juventude e historiografia "progressista". Do seu progresso inevitável e cientificamente previsível. Quero estar nesse "tempo de agora" ("Jetztzeit"), com sua intensidade e brevidade.

Saber constituir minha própria "Erfahrung" ("Experiência"). Materialista? Que seja. Se era um texto de juventude, publicado em 1913, é completamente altual; "A Criança, o Brinquedo, a Educação". Também sei desse hoje. E seu "Narrador" se parece com o meu.

Misturar a "Erfahrung" com a "Erlebnis". Característica também em mim, com minha experiência vivida, eu solitária que sou. Eu que necessito urgentemente reconstruir para garantir minha memória e minha palavra comum.

A minha experiência e narratividade estão se espalhando feito grãos de areias com o vento. Não faço mais parte de uma organização social comunitária centrada no artesanato. Ou agora que faço, o que faço?

Para Benjamin é assim: "O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história" (Tese 3)

E "denuncia" o golpe de gênio de Proust; "Está em ele não ter escrito "memórias", mas, justamente, uma "busca", uma busca das analogias e das semelhanças entre o passado e o presente. PRoust não reencontra o passado em si - que talvez fosse bastante insosso -, mas a presença do passadono presente e o presente que já está lá, prefigurado no passado, ou seja, uma semelhança profunda, mais forte do que o tempo que passa e que se esvai 9daí meu sentimento areia) sem que possamos segurá-lo".

E continua:

"A tarefa do escritor não é, portanto, simplesmente relembrar os acontecimentos, mas "subtraí-los às contingências do tempo em uma metáfora".

Poderei eu um dia? "Se Proust personifica a força salvadora da memória, Kafka faz-nos entrar no domínio do esquecimento, tema chave da leitura benjaminiana. Poderíamos dizer, também, que se Proust representa a tentativa - árdua - de uma rememoração integral, Kafka instalou-se sem tropeços e sem lágrimas na ausência de memória e na deficiência do sentido. É daí que vem, segundo Benjamim, sua extraordinária modernidade, ao mesmo tempo cruel e serena".


Eu continuo em busca do que conto e do que conquisto. Do que quero presente e do passado esquecido. Não me aborrece virar páginas. Lido com o que impregna em mim e vou descascando os sentidos no melhor da minha existência de pele. De fruta. E se pus para dentro, como concha, o grão de areia. Fiz dele, com o passar do tempo, pérola, ainda posso continuar minha caminhada pela praia. Essa lembrança viva (material e física, não materialista!) me acompanha, de certo, mas não pode me fazer parar.

Monday, January 07, 2008

Na crônica Aprendendo a Viver, além do filósofo Thoreau (Desobediência Civil), Clarice cita artigo de Bernanos:

Nascido em 1888 e morto em 5 de julho de 1948, perteceu à mesma linhagem de escritores católicos franceses do século XX que incluiu de Léon Bloy (1846-1917), Paul Claudel (1868-1955) e François Mauriac (1885-1970).

Para o número 33, da Revista Letras: "Georges Bernanos possuía a voz, a franqueza e a inspiração do maledicente que nunca deixou de ser na sua vida de jornalista, polemista e romancista. Uma voz grave que fascinava seus interlocutores tanto quanto o corpo pesado e o rosto maciço, sombrio porém iluminado por um olhar incrivelmente claro que pousava sem compaixão sobre o mundo e os homens. Olhar de um visionário ou de um profeta das desgraças futuras?". O artigo é de Daniel Bermond, Jornalista de Lire.
http://www.ambafrance.org.br/abr/label/label33/lettres/bernanos/bernanos.html)

Sobre ele, Clarice declara:

"E um dia desses, abrindo um jornal e lendo um artigo de homem que infelizmente esqueci, deparei com citações de Bernanos que na verdade vêm complementar Thoreau, mesmo que aquele jamais tenha lido este.
...

Para Bernanos, dizia o artigo, o maior pecado sobre a terra era a avareza, sob todas as formas. "A avareza e o tédio danam o mundo." "Doia ramos, enfim, do egoísmo", acrescenta o autor do artigo. Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena! Feliz Ano Novo."

Não dá para imaginar saudação melhor para 2008! Viver é correr perigo. E não se morre, senão um pouco todos os dias...

Wednesday, December 26, 2007

Centro: "é preciso fixar o parafuso central para que a forma permaneça"

A história de Macabéa , uma nordestina de fazer pouca sombra, que é levada para o Rio de Janeiro por uma tia, contada por Clarice é a reprodução - ou pretende ser, como propõe a autora - da imagem refletida em espelho manchado de ferrugem dessa que representa tal segmento da população que insiste em resistir, mesmo ao passar dos anos.

"Parte daquela raça anã teimosa que um dia vai talvez reivindicar o direito ao grito".


Como traduz Eduardo Portella no prefácio "O grito do silêncio", em A Hora da Estrela, Clarice Lispector, Rocco:

"Com emprego de balconista numa grande loja de departamentos para a época, Macabéia é um sujeito - broto do que também podia ser compreendido como estudo da depreciação do humano frente às relações geradas e realidade recriada com o impulsionamento do sistema capitalista."

Nada disso. E tudo isso a um só tempo. Estão ali questões também culturais e de gênero. Como se vê na "dignidade" adquirida pelo namorado de Macabéia por trazer uma morte nas costas. Ainda mais, e principalmente, na escolha de um autor (Rodrigo S.M.) para a obra.

Escolha que merece destaque em análise de Lúcia Helena em Nem Musa Nem Medusa e onde a autora que conviveu com Clarice esclarece:(pag.62)

"Esta máscara subjetiva e masculina chama a atenção do leitor pelo inevitável enclave não só com a biografia da escritora, criada em menina em Alagoas e no Recife, mas também com a "biografia" das duas nordestinas personagens, de modo que uma espécie de dramaturgia da subjetividade vai sendo entramada, espraiando - se por todo o texto, e conduzida por um processo de tecelagem cujos recursos se sustentam com base na ironia, na antítese e na repetição"

É mesmo no "parafuso" que a análise pretende se centra ou girar em seu entorno. Aquele que é o objeto de consumo "apreciado" na vitrine pela personagem. Na vitrine da vida dessa personagem não há jóias ou vestidos bonitos. Mas um parafuso !

Benedito Nunes (O Drama da Linguagem, pag.35) lembra referindo - se a uma leitura de A Cidade Sitiada: " o humor em A Cidade Sitiada neutraliza a realidade dissolvendo - a numa sucessão de aparências equívocas. Maquinais nos sentimentos e cercados de coisas rígidas".
Faz lembrar previsões sobre a conquista do bem - estar (viver mais próximo do feliz) de Condorcet: "o progresso das artes mecânicas trará um novo padrão de conforto e felicidade à massa da humanidade".

Relação entre processo civilizatório e o conceito focado neste estudo em Felicidade, de Eduardo Gianetti. Está no primeiro texto intitulado "A bifurcação pós - iluminista" apresentado pelo personagem Melo, um erudito historiados de idéias que leu em demasia e encontra dificuldade em acreditar no que quer que seja; atualmente desempregado, aos outros três amigos que participam de encontros para entender melhor e discutir a felicidade:

"na terra prometida da razão secular (...) as desigualdades entre os indivíduos e as nações diminuiriam, a paz internacional seria alcançada e a adoção do livre - comércio e de uma língua universal selariam a fraternidade entre os povos. O avanço do saber científico e a difusão da educação popular dissipariam as trevas da superstição e da intolerância. (...) O enredo é familiar: a estrada da razão e da virtude leva ao regaço da felicidade."

É no parafuso ainda solto que Macabéa pode centrar a força de sua formação. Se "felicidade" é uma palavra doida inventada pelas nordestinas que vivem aos montes por aí, a loucura é uma forma solta, sem amarras. Precisa fixar suas bases, reconhecer sua dimensão e formatar seu próprio entendimento para existir.

Trecho do estudo A Felicidade em Clarice Lispector, 2002, Pós-graduação em Letras UFPE, Literatura Brasileira.
Negociatas

"Depois que descobri em mim mesma como é que se pensa, fazendo comigo mesma negociatas, nunca mais pude acreditar no pensamento dos outros"

Clarice Lispector
Aprendendo a Viver, pág. 74

Sunday, December 09, 2007





Clarice: na data em que ela nasceu celebremos sua obra
em frente à casa onde morou a família Lispector


Amanhã, dia 10 de dezembro, é a data de nascimento de Clarice Lispector. A autora gerada na Ucrânia mas que chegu ao Brasil (Maceió) com dois meses e que morou dez anos no Recife e se dizia tão do Nordeste como sua personagem Macabea, da novela A Hora da Estrela. Há pelo menos uma semana o Recife lembra a importância da autora que há exatos 30 anos morreu.

Com o apoio da Prefeitura, do próprio Vice-Prefeito, Luciano Siqueira, admirador da obra da autora, o Recife conclui esse ciclo de homenagens com um recital na Praça onde existe até hoje a casa onde a família Lispector morou. Um grupo de especialistas estudiosos da obra da autora fazem recital com exibição de filmes e fotos, na praça Maciel Pinheiro, a partir das 18 horas desta segunda-feira (amanhã). No grupo estão professores da rede pública municipal e estadual, universidades públicas e privadas, todos especialistas na obra de Clarice.
Na exibição de filmes haverá: O Recife em mim, produzido por concluíntes do curso de jornalismo da UNICAP, com orientação do professor Alexandre Figueirôa e a atuação da jornalista Stella Maris, como a própria Clarice. Filmes de Jacieneide Travassos, sobre o lado pintora da autora do livro Água Viva. Além de entrevista com professora Fátima Costa, da solidão à condição, exibida pela TVU.

Também do curta-metragem 1o.colocado no concurso Para Amar Clarice, promovido pela Nave de Cultura: O TRIUNFO (PARTICIPAÇÃO DE RAIMUNDO CARRERO - ficha técnica abaixo). Com projeção de fotos de Larissa Alves, still do premiado curta.
Atores: Ana Paula Ferrari e Davison Carvalho
Roteiro e direção: Geórgia Alves
Produção: Sérgio Montenegro Filho
Fotografia: Marcelo Lordello
Montagem: Marcelo Pedroso
Still: Larissa Alves
Criança: Enrico Mello
Participação especial: Raimundo Carreiro (voz)
Apoio: Símio Produções e Trincheira Filmes
O TRIUNFO é inspirado no conto de mesmo nome, primeiro a ser publicado por Clarice Lispector, no semanário pan, no ano de 1940. Onde uma mulher forte, escritora, desperta do enorme choque de despertar, sem a presença do seu amante no apartamento onde viviam juntos. Uma realidade que está para romper na vida da escritora Clarice Lispector, com o reconhecimento conquistado na publicação do livro Perto do Coração Selvagem, primeiro da autora, publicado quatro anos depois (1944), pela Nova Fronteira.






Monday, December 03, 2007




- Onde foi que eu já vi uma lua alta no céu, branca e silenciosa? As roupas lívidas flutuando ao vento. O mastro sem bandeira, erecto e mudo fincado no espaço.... Tudo à espera da meia-noite....




(pág. 68! Perto do Coração Selvagem, Rocco)




Friday, November 16, 2007


"Amar será dar de presente um ao outro a própria solidão?
Pois é a coisa mais última que se pode dar de si."


Clarice Lispector


Às vezes descubro que também a minha solidão é o que tenho para oferecer de melhor. Assim como o silêncio do mundo se afirma na sua respiração contínua, quero me afirmar com o meu mais absoluto aquietar. E se não sei o que fazer da minha felicidade, também sei que não se faz amor sem silêncio. Uma calma vinda de onde geramos a força mais intensa nos faz ficar em silêncio e calar diante da respiração do mundo. Diante da própria força da vida.

Sunday, October 14, 2007

Eu e Jimmy* (trecho)

Lembro-me ainda de Jimmy, aquele rapaz de cabelos castanhos e despenteados, encobrindo um crânio alongado de rebelde nato.

Lembro-me de Jimmy, de seus cabelos e de suas idéias. Jimmy achava que nada existe de tão bom quanto a natureza. Que se duas pessoas se gostam nada há a fazer senão amarem-se simplesmente. Que tudo o mais, nos homens, que se afasta dessa simplicidade de princípio de mundo, é cabotinismo, e espuma. Se essas idéias partissem de outra cabeça, eu não toleraria ouvi-las sequer. Mas havia a desculpa do crânio de Jimmy e havia, sobretudo a desculpa de seus dentes claros e de seu sorriso limpo de animal contente.

Jimmy andava de cabeça erguida, o nariz espetado no ar, e, ao atravessar a rua, pegava-me pelo braço com uma intimidade muito simples. Eu me perturbava. Mas a prova de que eu já estava nesse tempo imbuída das idéias de Jimmy e sobretudo do seu sorriso claro, é que eu me repreendia essa perturbação. Pensava, descontente, que evoluíra demais, afastando-me do tipo padrão - animal. Dizia-me que é fútil corar por causa de um braço; nem mesmo de um braço de uma roupa. Mas esses pensamentos eram difusos e se apresentavam com a incoerência que transmito agora ao papel. Na verdade, eu apenas procurava uma desculpa para gostar de Jimmy. E para seguir suas idéia. Aos poucos estava me adaptando à sua cabeça alongada. Que podia eu fazer, afinal?

(...)

Minha avó, uma velhinha amável e lúcida, a quem contei o caso, inclinou a cabecinha branca e explicou-me que os homens costumam construir teorias para si e outras para as mulheres. Mas, acrescentou depois de uma pausa e um suspiro, esquecem-nas exatamente no momento de agir... Retruquei a vovó que eu, que aplicava com êxito a lei das contradições de Hegel, não entendera palavra do que ela disse. Ela riu e explicou-me bem-humorada:

- Minha querida, os homens são uns animais.

Voltávamos, assim ao ponto de partida? Não achei que esse fosse um argumento, mas consolei-me um pouco. Dormi meio triste. Mas acordei feliz, puramente animal. Quando abri as janelas do quarto e olhei o jardim fresco e calmo aos primeiros fios de sol, tive a certeza de que não há mesmo nada a fazer senão viver. Só continuava a me intrigar a mudança de Jimmy. A teoria é tão boa!

*publicado na Folha de Minas. Belo Horizonte, em 24 de dezembro de 1944 - conto antigo reproduzido no jornal sem autorização da autora.

Thursday, October 11, 2007

"A opinião dos outros interessa em parte. Só a parte que interessa".
eu mesma em 2001


O QUE EU QUERIA TER SIDO*
Clarice Lispector


Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.
O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de "a protetora dos animais". Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la.


E eu sentia o drama social com tanta intensidade que vivia de coração perplexo diante das grandes injustiças a que são submetidas as chamadas classes menos privilegiadas. Em Recife eu ia aos domingos visitar a casa de nossa empregada nos mocambos. E o que eu via me fazia como que me prometer que não deixaria aquilo continuar. Eu queria agir. Em Recife, onde morei até os doze anos de idade, havia muitas vezes nas ruas um aglomerado de pessoas diante das quais alguém discursava ardorosamente sobre a tragédia social. E lembro-me de como eu vibrava e de como eu me prometia que um dia esta seria a minha tarefa: a de defender os direitos dos outros.

No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.
É pouco, é muito pouco.


*Pag. 46, Aprendendo a viver, Rocco. Seleção de crônicas antes publicadas em A descoberta do mundo (Rocco), escolhidas por estarem todas na primeira pessoa, uma não-ficção, discutindo filosofia de vida e a tentativa de compreender o mundo.

Monday, October 01, 2007

Vi um imenso mar azul, ainda de longe. Vi que a indignação está presente em poetas. Ouvi seu canto de silêncio e sorriso. As fronteiras que ultrapassamos com o acelerar do batimento cardíaco são bem maiores que as fronteiras que nos separam. Indignação em canto: de quem chegou ao ponto essencial da compreensão do sentido profundo da dimensão idílica e erótica da vida.

Venho apenas dizer da calma que dá compreender. A busca de uma alegria. O caminho para estar e ser feliz. Eliminando com habilidade fronteiras. Veloz, escolher rumos e direcionamentos da vida com firme poder de decisão.