Lugar da delicadeza com o outro e com a própria Liberdade.

Onde se está de acordo com o único modo do humano de ser feliz

Sunday, September 22, 2013

A fórmula de Nietzsche

"increscunt animi, virescit volnere virtus"*
         Friedrich Nietzsche


Para viver sozinho é preciso ser um animal ou um Deus - diz Aristóteles - Ainda falta a terceira alternativa: é preciso ser os dois ao mesmo tempo - Filosofo... - completou Nietzsche. Em "Crepúsculo dos Ídolos (ou como filosofar com um martelo)", O alemão mais universal, mesmo que qualquer presidente do país, faz reflexões sobre o assunto que nós, mortais, entendemos menos que qualquer outra criatura nessa esfera terrestre: o apogeu. Algum estado superior que só atingem aqueles que, extraordinariamente "transvaloram" ao confrontar os valores. 

Melhor que tudo, então, é reproduzir o estudo que se encerrou numa data que bem podia ser celebrada como marco e que se aproxima: 30 de Setembro de 1888, em Turim. Dia em que Friedrich entregava suas conclusões escritas sobre a "Transvaloração de todos os valores". Segue o prefácio:

"Conservar a sua serenidade frente a algo sombrio, que requer responsabilidade além de toda a medida não é algo que exige pouca habilidade: e, no entanto, o que seria mais necessário do que a serenidade? Nada chega efetivamente a vingar, sem que a altivez aí tome parte. Somente um excedente de força é demonstração de força. - Uma transvaloração de todos os valores, este ponto de interrogação tão negro, tão monstruoso, que chega até mesmo a lançar sombras sobre quem o instaura - um tal destino de tarefa nos obriga a todo instante a correr para o sol, a sacudir de nós mesmos uma seriedade que se tornou pesada, por demais pesada. Qualquer meio para tanto é correto, qualquer "caso", um golpe de sorte. Sobretudo a guerra. A guerra sempre foi a grande prudência de todos os espíritos que se tornaram por demais ensimesmados, por demais profundos; a força curadora está no próprio ferimento. Uma sentença, cuja origem mantenho oculta frente à curiosidade douta em sido meu lema: 

"increscunt animi, virescit volnere virtus"*

Uma outra convalescença que sob certas circunstâncias é para mim ainda mais desejável, consiste em auscultar os ídolos.... Há mais ídolos do que realidade no mundo: este é meu "mau olhado" em relação a esse mundo, bem como meu "mau ouvido"... Há que se colocar aqui, ao menos uma vez, questões com o martelo, e, talvez, escutar como resposta célebre aquele som oco, que fala de vísceras intumescidas - que encanto para aquele que possui orelhas por detrás das orelhas! - para mim velho psicólogo e caçador de ratos que precisa fazer falar em voz alta exatamente o que gostaria de permanecer em silêncio...

Também este escrito - o título o denuncia - é antes de tudo um repouso, um feixe de luz solar, uma escorregadela para o seio do ócio de um psicólogo. Talvez mesmo uma nova guerra? E novos ídolos são auscultados?... Este pequeno escrito é uma grande declaração de guerra; e no que concerne à ausculta dos ídolos, é importante ressaltar que os que estão em jogo, os que são aqui tocados com o martelo como com um diapasão, não são os ídolos em voga, mas os eternos; - em última análise, não há de forma alguma ídolos mais antigos, mais convencidos, mais insuflados... Também não há de forma alguma ídolos mais ocos... Isto não impede, que eles sejam aqueles em que mais se acredita; diz-se também, sobretudo no caso mais nobre, : que eles não são de modo algum ídolos...

*"Os valores crescem e a virtude floresce, à medida que é ferida". 

"Mesmo o mais corajoso de nós poucas vezes tem coragem para o que propriamente sabe..."

Há mais de quarenta frases - pérolas. Inclusive dirigidas às mulheres. O que não é de se espantar diante do que passou Friedrich na convivência (e paixão) por Salomé, ao mesmo ao lado da irmã e da mãe dominadora. O texto completo: http://www.espacoetica.com.br/midia/livros/idolos.pdf

Perder o quê?

Amanda. Não sei por que uma pessoa pode ser chamada assim. Por que se escolhe um nome, que é feito para que os outros saibam sobre você, que pode dizer logo tanto do que a pessoa tem que deveria estar no lugar mais escondido. Mas este era o nome da menina: Amanda. Que tinha vocação para ser várias coisas, inclusive todas ao mesmo tempo. E que, por hora, deixou-se apenas ser Jardineira.

E Amanda tinha tudo que uma pessoa precisa na vida: um regador chamado "Coragem". Um leão de pelúcia batizado "Impulso" e um abanador, produzido com palha seca, a quem deu nome de "Entusiasmo". Nos dias frios e cor de cinza, o regador de Amanda precisava apenas de uma faísca de luz, uma chama acessa, para refletir, pelo metal tão bem polido, algum brilho. Logo espantava a preguiça e animava a manhã mais invernosa.

Então, Amanda se ponha cedo para fora da cama e ia, sorrindo, regar as flores do jardim, que ela entendia, não eram delas. Estavam ali para que fossem cuidadas por ela. Como se o Universo tivesse destinado a ela a missão de aguá-las todos os dias. Com aquela alegria tola de Amanda, de quem não enxerga os perigos e tem vocação para escolher palavras que despertam o melhor ânimo. Assim fez com cada petúnia, frésia, gérbera ou magnólia que brotara ali. Flores a quem Amanda insistiu em dar acento, porque bem lhe cabiam. Mesmo quando alguma delas, sem avisá-la, fazia-se chamar sem circunflexo, agudo ou crase.

Nos dias de muito sol, e da iminência da chegada da música nas ruas, por celebração da farta colheita, Amanda comemorou e vibrou pelo tanto de flores nas ruas. Fez tudo que estava ao seu alcance, e até mesmo além dele, para vê-las nos palcos, floreando. Amanda, na companhia de seu leão mais que querido, assistiu a tudo se reconfortando.

Impulso era um bichinho alto, com a juba espessa, loira, que parecia pendões de trigo balançando ao sabor da brisa ou do vento mais forte. Era como um girassol, de tantas pétalas, voltando sua corola para a estrela maior da via láctea. E, por uma inexplicável mágica, os caminhos abarrotados de gente, pelas ruas estreitas da cidade, festejando e dançando, se abriam num simples movimento de Amanda e seu leãozinho.

Outono e primavera passaram sem que Amanda sequer percebesse que as estações mudavam. A companhia da mascote preenchia os dias de forma que Amanda não sentia falta sequer das flores. Até que, de repente, num dia de vendaval, pois era o mês de Agosto, afinal. Amanda recebeu a visita de um carteiro. Uma estranha sensação invadiu o coração de Amanda. Os olhos do carteiro estavam voltados para o chão. E não se ergueram sequer para enxergar se as mãos dele miravam direito onde estavam as mãos de Amanda, para as quais a carta estava destinada.

Amanda não sabia o que fazer. A carta estava endereçada a ela, com seu nome e endereço, mas o que poderia conter de tão trágico ali? O carteiro seguiu o caminho de volta ao portão, sem sequer olhar para o jardim cultivado por Amanda. A menina, que já era moça a esta altura, segurou a carta com uma leve taquicardia. Antes de abrir, pegou seu espanador, espanou bem a poeira da estrada e desprendeu o lacre que, superficialmente, prendia a aba do envelope vermelho.

De dentro, saiu uma nuvem escura, cor de chumbo, carregada de tristeza. A carta dizia que aquele jardim não deveria mais ser cuidado por Amanda. Que tem este nome e nem ela mesma sabe por que ou para quê. Para que serve um nome que já diz de você, aquilo que deveria estar mais em segredo?

Amanda juntou todas as coisas que tinha. Que era tudo o que uma pessoa precisa: um regador, chamado "Coragem". Um leão de pelúcia batizado "Impulso" e um abanador, de palha seca, a quem ela deu nome de "Entusiasmo". E seguiu sua viagem até outro lugar. Outro jardim que se queira cultivar por Amanda.

Além do que a gente já sabe que Amanda tem, ela, às vezes, esquece que ganhou do universo, quando nasceu, a mania de perder. Amanda perde tudo que se pode pegar com as mãos. Então, perdeu aquela carta também. O que mais intriga, até os dias de hoje, já uma mulher, é que a vocação para perder lhe deu a ausência do medo. E isso é difícil de entender. Afinal, onde se abrigar nos dias frios? Sob que teto acolher pensamentos amadores, como estes, pertencentes à Amanda? Pode ter escapado um detalhe: Se perdeu o que tinha, embora reste o que alguém precisa ter, não há motivo para temer.

O fato é que, a mania de perder, tirou tanta coisa de Amanda, tirou tudo! Inclusive o que nem chega a ser bom conselheiro. Agora, que não tem mais motivo, Amanda terá coragem, impulso e entusiasmo para viver a própria vida? Quem sabe o extraordinário seja demais? E Amanda, finalmente aprendeu que o necessário faz viver em paz? Talvez troque flores por livros, e deixe de lado o ordinário e o extra. O que Amanda só entendeu com esta perda é que, para muita gente no mundo, é preciso estar em guerra, permanente, contra quem ama. E isso, está no nome de Amanda. Tem como evitar?




Saturday, July 06, 2013

Por empréstimo a Lorca

Pego, por empréstimo, 
palavras de Lorca, 
traduzidas por Oscar Mendes, 
por me faltarem faz tempo,
como água em regiões do Sertão. 
Na minha filosofia, é de direito
até a palavra alheia 
socorrer o cidadão e a cidadão 
do padecimento tísico 
da abstinência úmida:


Gazel do Amor Imprevisto


O perfume ninguém compreendia
 da escura magnólia de teu ventre. 
Ninguém sabia que martirizavas 
entre os dentes um colibri de amor. 

Mil pequenos cavalos persas dormem 
na praça com luar de tua fronte, 
enquanto eu enlaçava quatro noites, 
inimiga da neve, a tua cinta. 

Entre gesso e jasmins, o teu olhar 
era um pálido ramo de sementes. 
Procurei para dar-te, no meu peito, 
as letras de marfim que dizem sempre, 

sempre, sempre; jardim em que agonizo, 
teu corpo fugitivo para sempre, 
teu sangue arterial em minha boca, 
tua boca já sem luz para esta morte. 

Federico García Lorca, in 'Divã do Tamarit' 
Tradução de Oscar Mendes

Tuesday, December 18, 2012

Um pequeno trecho da página 28, do romance A Maçã no Escuro, faz refletir sobre quem são os personagens da trama de Clarice:

"O pássaro tremia todo (no parágrafo anterior confessara que seria negro e estava pousado num ramo baixo, à altura de seus olhos) na concha da mão sem ousar piar. O homem olhou com uma curiosidade grosseira e indiscreta a coisa na sua mão como se tivesse aprisionado um punhado de asas vivas. Aos poucos o pequeno corpo dominado deixou de tremer e os olhos miúdos se fecharam com uma doçura de fêmea".

O parágrafo continua. Mas eu precisava vê-lo encerrando aqui. Mas continua:

"Agora, contra os dedos extremamente auditivos do homem, somente a batida diminuta e célere do coração indicou que a ave não morrera e que o aconchego a resignara enfim a descansar".

Mais ainda. Sempre para o alto:

"Espantado com a perfeição automática do que lhe estava acontecendo, o homem rosnou olhando para o pequeno bicho - a satisfação fê-lo rir alto, com a cabeça inclinada para trás, o que fez sua cara defrontar o grande sol. Depois deixou de rir como se isso tivesse sido uma heresia".

Certo. Estou acompanhando serenamente:

"E compenetrado com sua tarefa, a mão semicerrada deixando de fora apenas a cabeça dura e aguda da ave, o homem recomeçou a andar com muita força tomando conta do companheiro. A única coisa que nele pensava era o ruído dos próprios sapatos ecoando na cabeça que o sol agora tranquilamente incendiava".

Se não estar a pensar na plenitude do ser. Na completude do espírito, sobre o quê Clarice está a perscrutar?

"E em breve, com a sequência dos passos, de novo o gosto físico de estar andando começou a tomá-lo, e também um prazer mal discernido como se ele tivesse ingerido uma droga afrodisíaca que o fizesse querer não uma mulher, mas responder ao tremor do sol".

Vamos compreender agora o valor que está no humano e para além do humano:

"Nunca estivera tão perto do sol, e andava cada vez mais depressa segurando à frente de si a ave como se fosse levá-la antes que o correio fechasse. A vaga missão o inebriava. A leveza que vinha da sede, de repente tomou-o em êxtase:

- É, sim! disse alto e sem sentido, e parecia cada vez mais glorioso como se fosse cair morto".

Já na página 29, sinto que brinca comigo:

"Então repetiu com inesperada certeza: "é sim!" Cada vez que dizia essas palavras estava convencido de que aludia a alguma coisa. Fez mesmo um gesto de generosidade e largueza com a mão que segurava o passarinho, e magnânimo pensou: "eles não sabem a que estou me referindo".

(riu Clarice - risos)

Monday, December 03, 2012

Reflexo dos Górgias (Editora Paés, 2012)


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Górgias e a Retórica (por Sócrates)


IV — Sócrates — Então, comecemos. Já que te apresentas como entendido na arte da retórica e também como capaz de formar oradores: em que consiste particularmente a arte da retórica? Assim, por exemplo, a arte do tecelão se ocupa com o preparo das roupas, não é verdade?
Górgias — Sim.
Sócrates — E a música, com a composição do canto?
Górgias — Sim.
Sócrates  — Por Hera, Górgias! Tuas respostas me agradam; mais concisas não poderiam ser.
Górgias — Eu também, Sócrates, acho que estou respondendo como é preciso.
Sócrates — Dizes bem. Então, responde -me da mesma forma a respeito da retórica: Qual é o objeto particular do seu conhecimento?
Górgias — Os discursos.
Sócrates  — De que discursos, Górgias? Porventura os que indicam aos doentes o regime a ser seguido para sararem?
Górgias — Não.
Sócrates — Logo, a retórica não diz respeito a todos os discursos.
Górgias — É claro que não.
Sócrates — No entanto, ela ensina a falar.
Górgias — Sim.
Sócrates — E, por conseguinte, também a compreender os assuntos sobre que ensina a falar.
Górgias — Como não?
Sócrates — E a medicina, a que nos referimos há pouco, não deixa também os doentes capazes de pensar e de falar?
Górgias — Necessariamente.
Sócrates — Sendo assim, a medicina, ao que parece, também se ocupa com discursos?
Górgias — Sim.
Sócrates — Os que se referem às doenças?
Górgias — Exatamente.Sócrates — E a ginástica, não se ocupará também com discursos relativos à boa ou má disposição do corpo?
Górgias — Sem dúvida.
Sócrates — O mesmo se dá com as demais artes,  Górgias, ocupando-se cada uma com
discursos relativos ao objeto de que seja propriamente arte.
Górgias — É evidente.
Sócrates — Então, por que não dás o nome de retó rica às outras artes, se todas ela s se
ocupam com discursos, e chamas à retórica arte dos discursos?
Górgias — É porque nas outras artes, Sócrates, todo o conhecimento, por assim dizer,
diz respeito a trabalhos manuais ou a práticas do mesmo tipo, ao passo que a retórica nada
tem que ver com a atividade das mãos, sendo alcançados por meio de discursos todos os seus
atos e realizações. E por isso que eu considero a retórica arte do discurso, e com razão,
segundo penso.

(...)


Górgias — O fato de por meio da palavra poderem convencer os juízes no tribunal, os senadores no conselho e os cidadãos nas assembléias ou em toda e qualquer reunião política. Com semelhante poder, farás do médico teu escravo, e do pedótriba teu escravo, tornando-se manifesto que o tal economista não acumula riqueza para si próprio, mas para ti, que sabes falar e convencer as multidões.

VIII — Sócrates — Quer parecer-me, Górgias, que explicaste suficientemente o em que consiste para ti a arte da retórica. Se bem te compreendi, afirmaste ser a retórica a mestra da persuasão, e que todo o seu esforço e exclusiva finalidade visa apenas a esse objetivo. Ou tens mas alguma coisa a acrescentar sobre o poder da retórica, além de levar a persuasão à alma dos ouvintes?

Fonte: http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/gorgias.pdf

Thursday, August 23, 2012

A espera e a recompensa


Dia de sol é injeção de ânimo. A alma, quando percebe toda a luz e energia brilhante que se espalha lá fora das quatro paredes onde se mora, fica acesa e iluminada também. Então sai assim. Colorida, com os ombros de fora, hidratei e protegi a pele para a caminhada até o de trabalho. Blusa branca, esvoaçante, espécie de mini vestido, sobre o jeans surrado. Sapatos confortáveis, cabelos soltos e brincos de palhinha dourada. Um mimo. E eu tão alegre a tagarelar tolices.

Feliz por entender estar construindo algo novo. Um sonho de novo lar, com mais espaço, mais história, mais tons que o preto e branco de agora. Cometi um erro apenas. Uma bobagem: Tão confiante que estava na harmonia promovida pelos raios solares. Crente de que todos os outros seres humanos estariam também investidos dessa energia positiva. De tanta fé na vida, não escondi o entusiasmo por estar viva.

Para minha surpresa, não havia explicação para as esquisitices que sucederiam, já a partir da primeira esquina: Um passarinho morto, de asas fechadas, na calçada em que caminhava. Como pode um ser que voa, que habitualmente se encontra nos céus ou galhos de árvores, ali no chão, como algo empalhado. Talvez tenha sido pelo eletrocutado ao pousar distraído na fiação de alta tensão. Estranha comunicação aquela do Universo. O que Deus estaria querendo dizer com aquilo?

Logo depois, uma senhora, de idade, cabelos grisalhos, numa distinção de sabedoria negra, fazia repetidas vezes o sinal da cruz voltada para a Estrada do Encanamento. Debaixo da sombra das árvores do Sítio da Trindade. Como poderia decifrar, ainda estava sob efeito do espanto, a desconexão entre seres tão livres quanto pássaros, embora mortos, e o sincretismo religioso daquela senhora negra como a noite mais feliz?

O fato seguinte, foi abordagem de um senhor de olhar confuso, perguntou sobre acesso ao "Espinhadeiro". Seria o bairro do Espinheiro? Questionei sem esperanças, na expectativa de poder ajudar tola e superficialmente indicando trajeto à Tamarineira, impregnada pelo efeito da palavra e pela confusão que vi nos olhos dele. Se as letras estavam trocadas, imagine quantas ideias o confundiam. A forma de perguntar foi tão pouco convidativa, com mãos e braços exasperados em minha direção, para voluntária ajuda a um estranho, que dessa vez não parei. Com medo e a certeza do fracasso, desculpei a mim mesma porque não ter a informação.

Continuei caminhando refletindo sobre a tal quinta-feira tão ensolarada e, ao mesmo tempo. treze. Carregada de símbolos que não compreendia, nem decifro agora mesmo. Depois do que achei, seria tudo, três homens queriam tomar de assalto, sobre o viaduto. A construção liga o bairro do Parnamanirim à Torre e onde foi erguida para favorecer supermercado de nome francês. Dou a eles ouvidos moucos, talvez porque levava comigo  a única máquina que restou nos últimos anos de trabalho. Nela mais de 300 textos, contra três míseros homens? Barbada. Não pensei duas vezes. Nem hesitei em atravessar o lugar reservado aos carros. Não dei não a bolsa.

Dei de ombros àquela ordem com um desdém danado, dizendo "dou nada" e expressando a minha fúria com uma deselegante exibição do meu dedo de dimensão máxima. Arrisquei sim, durante o ocorrido, por duas vezes, a vida e o resultado de tantos anos de dedicação e escrita talhada em teclas suaves, num teclado como este, circunscritas. Primeiro por ter cruzando a pista, sem olhar se os carros vinham. Depois pela ousadia de chegar tão perto, tentando apressando o passo deles com o barulho de um jornal sobre a mão ora aberta ora fechada.

O que eu sabia, e eles nem desconfiavam, é que ali, naquela bolsa, estava a década que não foi perdida. Um dos homens, achando que eu temeria uma frase, praguejou: "vai morrer atropelada". Não foi dessa vez. Não morri porque não me usurparam ali, no viaduto, sob o sol das dez da manhã, de uma quinta treze linda, a máquina e o celular com infinidade de contatos irrecuperáveis e mensagens guardadas. Voltei pra casa. Acomodei em local mais seguro a bolsa com a máquina. Renascida e motivada pela violência, voltei a escrever. Depois de estar tão morta por meses, que pareceram anos, pelo menos para mim.

O final desta história é ainda mais feliz e justo ao saber que eles ficaram esperando que eu atravessasse novamente o viaduto, para na segunda vez bem suceder no assalto. Vão esperar para sempre, porque o medo de encontrá-los novamente, fez afinal minha mente se convencer de abrir mão das caminhadas em quintas-feiras ensolaradas e descobrir horário e ponto de partida do coletivo que diariamente faz viagens  com passageiros talvez mais avisados do que eu, com o mesmo destino que escolhi. Se não descobri isso antes, foi por impaciência mesmo. Porque se as empresas divulgassem o trajeto dos ônibus e horários certos da passagem pelas paradas, tudo seria bem mais simples. E seguro.

Tuesday, June 19, 2012

Sobre o amor    
                            
O fato é que é preferível a verdade, faça sofrer ou não, que qualquer "bem intencionada" mentira. Até mesmo porque o Amor só existirá no instante depois. Pelo menos é o que preferimos nós filósofos. Sobre o amor, Barthes já observava: o amor é um assunto mais obsceno, para nossos contemporâneos, do que o sexo. Mais incômodo. Mais íntimo. Mais difícil de dizer, de mostrar, de pensar. Digamos que a sexualidade tornou-se uma espécie de regra, à qual não há como não se submeter. O amor seria antes uma exceção. A sexualidade faz parte de nossa saúde. O amor seria antes uma doença, em todo caso um distúrbio. A sexualidade é uma força. O amor seria antes uma fraqueza, uma fragilidade, uma ferida. A sexualidade é uma evidência; o amor, um problema ou um mistério. Pode-se duvidar, inclusive, de sua existência ou, no mínimo, de sua verdade: e se fosse apenas um sonho, uma ilusão,uma mentira? Se por toda parte existisse apenas o sexo e o egoísmo?

Se o amor só existisse, como sugeria La Rochefoucauld , na medida em que falássemos dele? (…) Amar é poder desfrutar ou regozijar-se de algo ou de alguém. É, portanto, também poder sofrer, já que prazer e alegria dependem aqui, por definição, de um objeto exterior, que pode estar presente ou ausente, dar-se ou recusar-se. “Em relação a um objeto que não é amado, escreve Espinosa, nenhuma querela nascerá; não sentiremos tristeza se vier a perecer, nem ciúmes se cair em mãos de outro, nem temor, nem ódio, nem perturbação da alma…”, Estamos longe disso, e basta dizer que o amor nos prende como a ele nos prendemos. Se nada amássemos, nem nós mesmos, nossa vida seria mais tranqüila do que é. Mas é que também já estaríamos mortos.

Não se pode viver sem amor, explica Espinosa, já que é o amor que faz viver: “Em razão da fragilidade de nossa natureza, sem algo de que gozemos, a que estejamos unidos e por que sejamos fortalecidos, não poderíamos existir.” O amor é uma potência – potência de gozar e de regozijar-se – mas limitada. Por isso ele marca também nossa fraqueza, nossa fragilidade, nossa finitude. Poder gozar e poder sofrer caminham juntos, como a alegria e a tristeza, e é o que significa e ao temor, ao gozo e à falta, enfim ao trágico e à insatisfação. (…) O que é o amor? Espinosa dá esta bela definição: “O amor é uma alegria acompanhada da idéia de uma causa exterior.” Amar é regozijar-se de. Mas, e se a causa faltar? Resta, então, apenas a mágoa ou a falta. É onde se pode pensar a relação entre duas definições do amor, que dominam toda a história da filosofia.

Há a de Espinosa, que já era, no essencial, a de Aristóteles: “Amar, dizia este último, é regozijar-se.” E há em seguida a de Platão, que parece dizer bem o contrário. O amor, para Platão, não é primeiramente um alegria. O amor é falta, frustração, sofrimento: O que não temos, o que não somos, o que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor.” São dois amores diferentes, que os gregos designavam por duas palavras diferentes: philia, para a alegria de amar, e eros, para a falta.(…) A falta e a alegria, Eros e philia, não são menos diferentes um do outro. Eros é primeiro, claro, já que a falta é primeira: vejam o recém-nascido que busca o seio, que chora quando lho retiram. É o amor que toma, o amor que quer possuir e guardar, o amor egoísta, o amor passional; e toda paixão devora. Te amo: te quero. Como este amor seria feliz? É preciso amar o que não temos, e sofrer com essa falta; ou então ter o que não falta mais (já que o temos) e que por isso amamos cada vez menos (já que só sabemos amar o que falta). Sofrimento da paixão, tédio dos casais. Ou então é preciso amar de outra maneira: não mais na falta, mas na alegria, não mas na paixão mas na ação – não mais em Platão mas em Espinosa.

André Comte-Sponville descreve longamente, sobre o amor, deseperadamente: "Te amo: sinto-me feliz porque existes". Todo casal feliz, e apesar de tudo existem alguns, é uma refutação do platonismo. Eros é a falta e a paixão amorosa: é o amor que prende ou quer prender. Philia é a potência e a alegria duplicada pelas do outro: é o amor que regozija e compartilha. Olhem a mãe e o filho. O filho toma o seio: é Eros, o amor que toma, é a própria vida. E a mãe dá o seio: é philia, o amor que dá, graças ao qual tudo continua e muda. Pois a mãe foi primeiro um filho: como todos, começou tomando. Mas aprendeu a dar, pelo menos a seus filhos, e é o que se chama um adulto. No início existe apenas Eros (há apenas o isso, como diz Freud), e talvez disso não escapemos: cada um começa tomando e não pára nunca. Mas, enfim, trata-se de aprender a dar, ao menos um pouco, ao menos à vezes, ao menos àqueles que amamos àqueles que nos fazem bem ou nos regozijam (…) Dar sem tomar? Regozijar-se sem querer possuir nem guardar?

Seria philia liberada de Eros, seria o amor liberado do eu, a alegria da falta, e foi o que os primeiros cristãos- quando foi preciso traduzir para o grego a mensagem do Cristo – chamaram ágape, que pode ser traduzido indiferentemente por amor ou caridade. É o amor liberado do eu, e por isso sem fronteira, sem margem, sem limite. Que deles sejamos capazes, duvido muito. Mas, enfim, isso indica pelo menos uma direção, que é a do amor: o amor não é o contrário do egoísmo; é seu efeito, sua foz - como um rio se lança no mar -, enfim seu remédio ou, como diria Espinosa, sua salvação. Vais passar toda tua vida a buscar um seio, ou a querer guardá-lo, ou a dele sentir saudades, quando há um mundo inteiro a ser amado? Nunca se ama demais. Ama-se mal e mesquinhamente. O amor é falta ou plenitude?"

Amor e demência




      Amor é uma espécie de demência. É preciso abstrair opiniões sobre fatos para amar alguém. Porque a pessoa não virá em constituição de leis, artigos, emendas. Ela virá incompleta e imperfeita, sem seguir qualquer regra, por mais disciplinada que seja. Porque demência, ao pé da letra, quer dizer diminuição da mente. Perda progressiva da capacidade cognitiva. E, pelas anotações que faço, por puro reflexo condicionado, posso identificar que é contagioso. Sempre que sinto, mesmo sem querer, repasso.

     Porque amar é um estágio de demência. Ele passa, mas enquanto dura pode fazer tudo funcionar ao contrário do esperado. Vide Romeu e Julieta. Não entendeu? Eu explico, acompanhe comigo: É provável que o objeto amado ganhe mais nuances em cores berrantes das imperfeições ou incompletudes do que almeja, justo porque seu olhar sobre ele seja assim rigoroso e atento a tão mínimos e pequenos detalhes. Por isso que, quando se quer amar a mesma pessoa, é preciso sentir, mas quando vir, não olhar. Expliquei ou falei do contrário? Será que estou por amores a você?

     Amar exige essa espécie de demência. Porque o demente não percebe o ambiente em tudo que ele representa. Talvez atenha, inclusive, a um detalhe que lhe agrada e amplie na tela como se faz agora com polegar e indicador juntos nos aparelhos mais espertos. Tem que olhar a ética que o outro inventou para ele. e suportar, aceitar. Mas isso já não seria amar. Porque se amor é admiração, como se pode amar sem admirar? Então a gente quer opinar, corrigir e isso já não é mais amor. Não quando se quer mudar. Fazer ouvido de mercador - para negociar depois - às frases extremistas, radicais, invertidas, subversivas, carregadas de boicotes em si mesmas. Tem que fazer vista grossa aos maus humores. Talvez por isso interesse você, que eu amo, nem gostar de mim.

     Amar amar mesmo, em dedicação contínua de atenção, exige um bocado de demência, de limitação. Acredito por leitura, e opinião amalgamada por experiência e conveniência, que tenha mesmo apenas três anos de duração esse efeito. As reações químicas por todo o cérebro e corpo não duram para sempre. Agora, que passou um ano, posso dizer que amor é o tipo de demência que se instala na pessoa e sai quando quer, porque não entende qualquer ordem ou obediência. Amar é uma demência. Que seja passageira. Porque amor mesmo, é o que vem depois.

Um bom vinho

Ali na prateleira estava seu sonho. Seu vinho português preferido: Carcavelos. Não por acaso, produzido numa das menores regiões demarcadas de Portugal. Ainda, localizada na costa de Estoril, próxima da Foz do Tejo. Ex – Costa do Sol. Distante apenas dez quilômetros de Lisboa. Tudo na história daquela garrafa interessava a Marta.
Interessava, por exemplo, que Carcavelos fora demarcada em 1908, que fora o Marquês de Pombal seu principal defensor. Seu modo de estar, plenamente, rodeada de urbanizações. Mas, principalmente, pelo fato de produzir um vinho generoso. Feito em bica - aberta. Tal como outras regiões esta corre sérios riscos de extinção.
Marta era uma mulher severa e muito sozinha. Tinha hábitos que remetiam as pessoas mais antigas. De uma organização simples, quase franciscana. Mas com este requinte. Gostar de origens. Ter um apego às coisas com significados e tradições. E coincidências como datas. Quer saber uma que pegou Marta? Ela nasceu no mesmo dia em que a região de Carcavelos foi demarcada. Exatos dois séculos depois que o Marquês do Pombal, enviou vinho da sua quinta Oeiras, para a corte de Pequim, na China.
Isso foi em 1752. Ela se pergunta se, naquela época, era mais fácil conseguir uma garrafa. Por ser uma região ocupada pela vinha muito pequena, e, por esta razão, o Carcavelos dificilmente se encontrar no mercado. Para que todos entendam melhor a grande afeição de Marta, preciso dizer que trata-se de vinho licoroso, de graduação alcoólica com variação de 18º a 20º e que alguém já tomou como melhor indicado enquanto aperitivo ou vinho de sobremesa, pelo grau de doçura.
Assim como é a própria Marta, que produz mais pensamentos livres de impurezas que doçura, em suas dores caladas. Por empenho e força de buscar as infindáveis características da bebida preferida feita em uvas pisadas. Sobre seu vinho, costuma dizer para amigos que carrega suavidade em tema e paladar aveludado. Só esconde saber do seu envelhecimento rápido. Pelo tempo de dois anos em casco, bastante para introdução da rolha e para que seja engarrafado. Selado. Identificado por uma família com rótulo. Para, então, ser comercializado.
Carcavelos vem com ligeiro tanino e é rico em álcool natural. Tudo que aprendi com Marta. Que conheceu Carlos, por intermédio de Fátima, depois de Marta lhe apresentar ao vinho. Formam, hoje, dois casais. Completos em suas essenciais parcerias para todo o sempre.           
Como no último final de semana em que estivam juntos. Marta, Carlos, Fátima e uma rara garrafa de Carcavelos. Conversaram muito, ajudando a compreender seus mistérios. A preencher seus vazios. Reviram aflições que só solidões despertam. Numa daquelas interações de seres mais completos. Foram duas noites indescritíveis. Como fossem pintadas por Monet. Uma bela lua, vento soprando cabelos na varanda. Até o vinho Carcavelos, presente fisicamente em todos. Nos copos e nos corpos, deixaram espreguiçadeiras balançando, em direção à leve noite de sono. Em abraço ampliado.
No sonho de Fátima, sem qualquer explicação, estava a imagem de Carlos. Não como o amigo de sempre, porque nunca esteve interessada amorosa ou sexualmente nele. Marta despertou estranhando a sim mesma. E serviu um café da manhã, mais forte que o de costume, para existências agora incompletas e confusas, espectros difusos.
Chegou à conclusão de que, embora gostasse muito da amiga Fátima, naquela troca, tomaram muitas liberdades. E que agora, o melhor mesmo seria uma amizade à distância. Para que o vazio deixado, Fátima fará que seja preenchido por novos parceiros. Escolhidos para a ocasião, como vestidos, ou como são, por Fátima, os vinhos. Ambas sentem falta de ponderações ajuizadas em cumplicidades de amizade de tão longa data. Mas, ao mesmo tempo, tanto para Marta quanto para Fátima ficou a lição, de que não se pode ter tudo, ao mesmo tempo na vida. Ou bem um homem, ou bem um bom vinho.

Saturday, June 16, 2012


Bloomsday!!: 


Para além dos Dublinenses, livro pouco comentado de Joyce, no Brasil, é a coletânea de contos, pela Coleção de Clássicos Modernos, da Ediouro, com tradução de Hamilton Trevisan. Apenas quatro deles apenas: A pensão, Os Mortos, Eveline e Arábia. 

O mais comovente e envolvente, na minha opinião, é mesmo o primeiro, sobre o drama da personagem Polly, filha de madame Mooney, ex-mulher do açougueiro e dona da pensão. Mas neste dia, gostaria de ressaltar trecho do segundo conto. E destacar da história trecho da conversa entre dois personagens do animado e controverso grupo participante da quadrilha - dança típica irlandesa. Molly havia-se dito "envergonhada" ao descobrir de quem se tratava o pseudônimo G.C. E, em tom sério, toma satisfações sobre o amigo de longa data escrever para um jornal "anglófilo": 

"Gabriel estava perplexo. Era verdade que escrevia a resenha literária semanal do Daily Express recebendo para isso quinze xelins. Mas, por certo, não fazia dele um traidor. Os livros que recebia para comentar davam-lhe muito mais prazer que o ínfimo cheque. Gostava de sentir as capas e virar as páginas dos livros acabados de imprimir.

(...) 

Não sabia com enfrentar aquele ataque. Queria dizer que a literatura estava acima da política, mas eram amigos a muitos e muitos anos e suas carreiras - primeiro na Universidade, depois como professores - tinham sido paralelas: não poderia arriscar uma frase grandiosa com ela. Continuou a piscar os olhos," 

(Contos, Os Mortos, James Joyce, tradução: Hamilton Trevisan). Boa leitura!


Nota de rodapé: na foto, que bem serviria para anunciar o dia de homenagens a James Joyce, é um instantâneo (anterior ao instagram) de autoria de João Valadares, na companhia do amigo de longa data, também jornalista, não colaborador de algum jornal "anglófilo", que eu saiba, Lula Portela. http://www.ufrgs.br/proin/versao_2/joyce/index.html

Tuesday, May 29, 2012

Que verdade inventar?



É preciso maestria ao inventar uma verdade. Mesmo agora, que espero apenas reconhecer incompletudes do mundo, a verdade precisa ser completa e escolher para que lado vai caminhar. O mais preenchedor de todos, de preferência. Fico incomoda por demais quando sou dada a tolices, como desperdiçar o tempo na companhia de pessoas que não são de verdade. Aquelas que contentam com superfícialidades e querem tornar o mundo mais parecido com elas, porque não sabem nadar, não entendem de mergulhos e querem que a conversa se dê sempre no nível mais raso, porque temem se afogar. Não há nada mais mesquinho que querer tocar uma verdade apenas para torná-la uma mentira. Mesquinhez é sinônimo de desconfiança, sabia? Outra coisa que não tenho mais idade, nem paciência para lidar são as inversões. Prefiro as imersões.


Quando a  invenção é egoísta e precária não merece atenção. É tudo tão imediato e vai morrer, sucumbir tão rápido, que não vale a pena dar atenção. Ainda mais porque há outro fato que incomoda, como nota dissonante, soa falso. Tanto que promove um nervosismo de fazer rir. É vergonha alheia. Lamento, porque é triste dar ao trabalho tão grande de inventar uma verdade que não convence. Por outro lado, me pergunto o que é uma verdade completa e que faz bem? Onde está o contrário dos egoísmos tão visíveis, como impulsos naturais, animais. Como é que faz com arte a invenção de uma verdade completa, não apenas uma parte?

Monday, May 28, 2012


Salve Samuel

     Samuel está muito preocupado. Esteve insone durante toda a noite. Está cheio de conjecturas e preocupa-se muito com a paz mundial. Samuel gosta de falar em bravuras. É dado a bravatas. Brigas internas, no trabalho e em casa. Discutiu com toda a família. Nem com o pai ou a mãe mais fala. Mas ele está muito preocupado com a paz mundial.

     Samuel é um rapaz generoso. Pensa em todos. Preocupa-se com todos. E preventivamente se afasta quando julga que pode magoar alguém. Não gosta de ferir ou ser ferido. Por isso prefere uma distância regulamentar. Por segurança. E para não prejudicar ainda mais a frágil estrutura da paz mundial.

     Samuel é um moço bom e dedicado. Disciplinado. É capaz de estudar os mais difíceis pensadores para chegar a conclusões que ajudem a melhorar o mundo. Quer transformar a todo custo. E se empenha para entender o que ninguém ainda enxergou.


    É capaz de mover montanhas para salvar uma vila da enxurrada. Mas não levantará um dedo para resolver os próprios problemas como ter casa, comida e roupa lavada. Samuel sou eu em minha paz mundial.

Tuesday, May 22, 2012

Espectroscopia


Do ultravioleta ao infravermelho. Nem toda transferência de energia é cheia de força e cor. Há o momento de um filamento incolor. Ainda mais quando fragmentamos e foi exaustivo o dia. Nossa luz interna se modifica e na emissão ficamos de uma forma mais neutra, você entende? Talvez nem eu mesma entenda. Li e absorvi por aqui informações sobre espectroscopia. Sempre me intriga tanto o surgimento do arco-íris. Ainda mais imaginar que já desenvolvemos uma máquina capaz de encontrar o logaritmo de uma taxa que pode medir a quantidade de absorbância. A intensidade de um feixe e outro. E tantas outras coisas sobre a luz visível e os raios UV. Mas tudo não passa de uma troca não é mesmo? E da transformação das substâncias - às vezes apenas em suas superfícies - pela troca. 

Imagine que ainda trocamos sem nem perceber que estão ali outras microondas, raios x e gama, ondas de rádio e tevê. Claro, tem mais ainda o celular. Talvez, o mais importante da Espectroscopia seja perceber que alguns materiais são ultrapassados, outros modificam no contato e que para luz UV é preciso invólucro de quartzo, porque o vidro e o plástico modificam. Nunca gostei mesmo de plástico. Outra premissa, para entender essa carta, é que essa luz atravessa mundo e rompe distâncias infinitas. Talvez nem existam mais as estrelas que enxergamos hoje. O que importa é que elas estarão para sempre, de alguma forma, em nós. E que o essencial não é invisível a todos os olhos. Assim como já há como escolher da cartela de cores do infravermelho à ultravioleta. Não sou boa conselheira, como você. Mas sinto que perder a verdade em si mesmo é uma fragmentação dispensável. Talvez só para medir a intensidade, pode-se usar uma máquina, não um ser humano.

Agora que está nas alturas, a decolar, tudo parece um pouco triste. Estaremos mais distantes um do outro. Depois, quando voltar ao lugar, estará tudo de volta ao material de antes. De alguma forma, mesmo que modificado e buscando outra intensidade de energia. Então, esse momento nas alturas será o melhor de todos. Para perceber o que faz bem. O que dá sorte e o que nos recupera em essência, depois de tantas transformações e análises.


Monday, May 21, 2012

Mau humores. Assim como os rumores.
Começo de ano deixa mesmo este sentimento na gente: Um quê de quem avalia. Fecha para balanço. Olha em detalhes, vê em minúcias. Eu analiso. Foi um ano cheio. E promissor. Fiz tanta coisa. Tudo aquilo que decidi fazer. Porque a gente só realiza quando faz assim.
Muita coisa pode mudar em pouco tempo. O cheiro do café já não é mais o mesmo. Porque escolho o melhor pó do mercado. Como num ritual sagrado. Já plantei os grãos, colhi e torrei eu mesma. Café semeado para, depois de moído, ser torrado. O cheiro agora anima toda a vila, tempera minha vida. Acompanhando tapioca e  pão italiano assado. Bebo o preto das minhas lembranças.

Monday, May 14, 2012

Felicidade sem espera





"Se o filósofo puder optar entre uma verdade e uma felicidade - felizmente, o problema nem sempre se coloca nesses termos, só às vezes - ele só será filósofo, ou será digno de sê - lo, se optar pela verdade. Mais vale uma verdadeira tristeza do que uma falsa alegria."


A felicidade, desesperadamente
André Comte - Sponville

Leio há dez anos sobre a felicidade, o amor, a paixão, a filosofia e temas correlatos que interessam ao pensamento que busca respostas mais essenciais. Que, na minha opinião, é o justo o que alimenta mais no ser humano o seu espírito natural e divino. Esse substrato do pequeno livro da Martins Fontes sempre me intrigou um pouco. Por isso, talvez, precise reler em momentos diferentes da vida para entrar num acordo com um autor e comigo mesma.

Invariavelmente, o que ela provoca em mim, é um sentimento de que, não tenho tão fácil aceitação de uma tristeza, mesmo que ame a verdade, e conheça a transcendência alcançada com a mesma. O fato é que a falsa alegria está mesmo fora de cogitação, a ela tenho chamado de tolerância impraticável, porque só nos aproxima mesmo é do sofrimento, da subordinação a sentimentos tolos, difusos e que, em geral, serão nos cobrados depois tal qual um ato movido pela cegueira, pela burrice, ou por quem desconhece seus limites, e, como um infante, precisa se lançar no obscurecido pela necessidade de experimentar.

Acredito, com o tanto de reflexão que tenho empenhado ao confrontar esse pensamento com os sentimentos formados em mim, que acabo sempre envolvendo a esperança e o desejo de transformação da falsa alegria em alguma verdade, embora saiba da força dos fatos e das naturezas imutáveis. A minha natureza quer transformação. O que gera outro dilema: atinar para a valorização do desejo. Porque não há nada mais ingênuo que sobrepor a fantasia à realidade. Não se trata disso. Menos ainda de empregar inúmeros esforços para modificar ambientes com identidade distinta àquela projetada.

O que André Comte - Sponville chama de "felicidade malograda", ou "armadilhas da esperança", quando se está submetido ao desejo de felicidade como um enforcado. Usando para explicar com as palavras de Pascal que "todo homem busca a felicidade. Até mesmo o que vai se enforcar". Não se trata de subverter valores, como que dando ouvido às rebeldias, para encontrar explicação e motivação para aproximar tanto na falsa alegria quanto na vedadeira tristeza algum elemento que caracterize "uma sabedoria da felicidade, da ação e do amor". E estará mesmo apenas quando a felicidade for compreendida como meta da filosofia e não norma.

Precisamos ainda superar a sensação da dialética entre desejo e sofrimento, segundo Schopenhauer. Porque "quando desejo o que não tenho, é a falta, a frustração, o sofrimento. E quando o desejo é satisfeito, não é sofrimento, já que não há falta, embora não seja felicidade, uma vez que já não há desejo". É o tédio. Então, como que nos encaminhando para uma armadinha confeccionada com propriedade, nos dirigimos para a incompletude do vazio. O único modo de compreender e valorizar a alegria que está incompleta pela ausência de verdade é oferecer a ela os elementos para que transponha o lugar onde está.

Da mesma forma que compreender a tristeza vai exigir empenho de formação para aceitação prévia ou alguma compreensão do fato que vai aprisioná - lo porque gera a dor. Talvez seja necessário descobrir que não se alcançará a divindade ou a beatificação senão como os antigos deuses gregos, a exemplo de Hércules, Odisseu, Perseu. O bando de eus. O entorpecimento não está em questão aqui. Embora compreendido como bálsamo da vida moderna, não há, nessa consideração, abstração do que pode significar a inadequação dessas palavras enquanto relato significante da realidade. Já não quero mais falar tão a sério sobre o assunto. Apenas ler um pouco mais e seguir adiante.   

Saturday, May 12, 2012

O beija - flor voltou. Veio acompanhado agora. Não belisca mais o vidro da janela. Pousa na tela de proteção da varanda vizinha. Minha varanda não tem disso. Então, o beija - flor, enquanto brinca com seu amor, de soslaio me olha. No sítio vizinho, outro tipo de passarinho, bica um cacho de bananas amarelinhas.