"Eu sei que ela é uma cor e um som. Se eu pudesse mostrá-la a você! Dormia ali, nua, abraçando as próprias pernas. Eu amava nela a alegria de animal jovem e ao mesmo tempo amava o pressentimento da decomposição, porque ela havia nascido para desfazer-se e eu sentia pena que fôssemos parecidos nisso. Mostrava a pele do ventre, que parecia raspada por um pente de metal. Essa mulher! Alguma snoites saía luz de seu olhos e ela não sabia."Eduardo Galeano
Lugar da delicadeza com o outro e com a própria Liberdade.
Onde se está de acordo com o único modo do humano de ser feliz
Monday, September 22, 2008
Ana Cristina César
Noite de Natal.
Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada
Não sinto nada, mamãe
Esqueci
Menti de dia
Antigamente eu sabia escrever
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída
com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Ireno no céu desmente: deixou de ... aos 45 anos
Entretanto sou moça
Estreando um bico fino que anda feio,
pisa mais que deve,
Me leva indesejável pra perto das
botas pretas
pudera
"NESTAS CIRCUNSTÂNCIAS O BEIJA-FLOR
VEM SEMPRE AOS MILHARES"

A Felicidade
Robert Misrahi
Aristóteles - filósofo grego, discípulo de Platão. Entre os grandes filósofos do mundo. Criou a terminologia da ciência e da filosofia, usadas até os dias atuais.
Obras: Política, Metafísica e Ética. significação existencial da ética
Frase: "A Felicidade consiste em fazer o bem". Ah tá... Aristóteles (384 - 322 a.C.)
O questionamento mais original, mais concreto e mais vasto sobre os sentidos (orientação e significaçã) e conteúdos que queremos dar à nossa vida, à nossa existência é precisamente o que se chama de ética.
por que se apresenta à reflexão essa interrogação ética sobre a ação e a existência?
primeiro é a própria liberdade de ação que justifica a interrogação sobre os fins da ação ("futuro melhor")
"O que é concretamente almejado, através da idéia de uma vida melhor, é a experiência contínua de uma vida substancial" (Felicidade!)
"Essa experiência qualitativa implica ao mesmo tempo à densidade de um prazer espiritual e existencial e à transparência de uma consciência capaz de reflexão que se caracterize pela adesão à sua própria vida e às suas próprias escolhas."
A "experiência qualitativa" que é a da plenitude e do sentido, perderia toda sua 'substancialidade', toda sua espessura existencial e dinâmica se ela fosse apenas passageira. A Felicidade para merecer realmente esse nome, implica a duração e a permanência da experiência que a constituiu.
Essa experiência de ser não é a experiência mística de um ser transcendente que pudéssemos aprender na noite da inteligência e no êxtase da alma; ela não é a experiência do ser, mas sim a experiência de ser.
(good bye Good Autumn)
Tuesday, September 16, 2008
Monday, September 15, 2008
Tuesday, September 09, 2008
Saturday, August 30, 2008
"Dime, ¿de verdad no volveremos a encontrarnos nunca más? ¿No me responderás algún día? Parece que no. Cierto? Aunque tampoco creo que me respondas el cierto".
http://lobosycabritos.blogspot.com/.
Gratas surpresas...
http://lotengoenlapuntadelalengua.blogspot.com/
http://lobosycabritos.blogspot.com/.
Gratas surpresas...
http://lotengoenlapuntadelalengua.blogspot.com/
Monday, August 18, 2008
Monday, August 11, 2008
"A música, os estados de felicidade, a mitologia, os rostos trabalhados pelo tempo, certos crepúsculos e certos lugares querem dizer algo, ou algo disseram que não deveríamos ter perdido, ou estão prestes a dizer algo; essa iminência de uma revelação, que não se produz, é talvez o fato estético"
"A muralha e os livros", em Outras Inquisições, po.cit., p.11
"O prazer da leitura reside, então, nesse núcleo indecifrável da experiência estética que exige uma atitude de entrega do leitor à realidade outra que todo livro encerra ou, em outras palavras, certa ingenuidade que o leve a se aventurar por caminhos deleitáveis."
Por que ler Borges, Ana Cecília Olmos., p.85
Pausa. Chovia pequenos riscos lá fora. Pode olhar pela janela enquanto investigava o mundo e suas redes. Suas simulações. Pausa. Pensou uma segunda vez. Seus colegas que criavam frases e cenas num discorrer franco do pensamento deles. Pausa. Criou aquela pequena coragem de levantar-se da cadeira, perturbando toda imobilidade, para esticar o corpo lá fora.
- Vou dizer olá à chuva!
Não riram. Apenas olharam em silêncio. Arranhando rodinhas no chão liso.
Desceu a escada, espaçosa, no ambiente de pé-direito alto, com posters originais de filmes incríveis, e atravessou a porta. Bastou-lhe o intervalo do pequeno toldo para espichar o corpo, equilibrar-se na ponta dos dedos e tocar a lona. Uma gotinha despretensiosa escorreu por sua mão alongada. Foi o gesto de ligar-se - mesmo que tão suavemente - à cobertura, que fez dela aquela gotinha, depois de percorrer distâncias, chegar até ali.
Logo essa tontura passa. Voltou aos amigos que criavam incansavelmente novos espaços. Voltou-se ao seu espaço real.
Sunday, August 10, 2008

"Da vida literária", outubro de 1937 - Por que ler Borges?
"Uma das coquetteries literárias de nosso tempo é a metódica e ansiosa elaboração de obras de aparência caótica. Simular a desordem, construir deliberadamente um caos, usar a inteligência para obter os efeitos do acaso, essa foi, em seu tempo, a obra de Mallarmé e de James Joyce. A quinta década dos cantos de Pound, que acaba de sair em Londres, continua essa estranha tradição."
Saturday, August 09, 2008
O Amor medido ofereceu-me tudo o que precisava. Dias marcados. Tempo para os filhos e para o trabalho. Tudo de bom e que necessito. A desmedida paixão não.
O outro lado disso é muito insólito. Alguém que chega dizendo, "não! isso não é tudo. Posso dar muito mais. Te dar o mundo...". A palavra não é "pretensão"?. Sim, fragmentada ou inteira.
Tudo tem vários lados. E a intuição às vezes grita no ouvido. É claro que toda hipérbole só merece a comprensão do que de fato é. Se há exagero, na certa há também interesse. Então, o jeito é oferecer uma medida mais exata. Farei treinamento intensivo.
Do que se trata esse reino excessivo das palavras??? Ré médios, mi menores??? Sempre afirmando ter como propósito "um mundo melhor", garantindo paz e harmonia. Não é isso que dá. É outra "impressão" a que oferece todo santo dia. Invariavelmente sempre já virou nunca, ou jamais - em tempo algum - E não se faz de boa lógica. Aliás, tá difícil se cumprir uma vez que seja por lógica. Razão é palavrão que não cabe.
Às vezes, compreendo, que a vontade está tão "adiada" que é preciso executá-la. Outra palavra que corta que nem faca. Tem mesmo dois sentidos. Dois lados. Oh difícil trajetória das almas perdidas, incompletas e intranqüilas. Não há nenhuma poesia nesse tom de tragédia. É horrível. Terrível. Escuro sem luz alguma, sombrio. Um confinamento voluntário motivado pelo preconceito, pela discriminação, muita impáfia e hipocrisia. Disfasia do medo de crescer. Afasia da força de compreender.

Então, tá. Tudo bem, com mais um pouquinho de paciência, vou dizer que mesmo quando nossa natureza é de quem "aceita o melhor", tem uma hora que chega. A alma chega junto, sabe? Mesmo que muito muito insatisfeita com o caminho que nossa persona escolheu. E aí, ahhh, aí basta. É hora de abrir os olhos e fechar o peito. Trancafiar o coração, seguir em frente e aceitar o bom, de territórios mais neutros, perceber que sopram outros ventos.
E não tem nada melhor que a inteligência comum. Nada de pirotecnias ou genialidades. Não. Começa-se abrindo mão das trocas, dos carinhos, do projeto feito, contado, refeito... da presença, do convívio, das qualidades e dos defeitos.
E isso não devia motivar maledicência. O que já é um segundo erro. Sejamos tolos, mas não tanto. Qual afinal o propósito? Se não é preciso que a vida preserve encantos? Que medo é esse de morrer! Será que não há uma missão, uma ordem para se trabalhar por ela? Coisas deixadas por fazer? Alguma pesquisa, sonho bom que ocupe a mente? um movimento que seja mantendo o corpo ativo, caminhando para frente? Um passo, outro passo, outro passo. Um dia, uma noite, outro dia...
Não há mais espaço para sentenças, injustiças, mentiras, vileza e vilipendiência. Nem concupiscência. E haja tolice em medir forças ou domínio junto às outras pessoas. O seu "poder".
De fato há um sem fim de caminhos para escolher. E há, sim, em meio a tantos, sempre um caminho mas sereno. Eu decido deixar ou não aparecer na minha vida. Feliz e tranqüila. Legitimamente caminho. Isso é bom. Bonito quando o Universo "conversa" com a gente! E aí já parece alguém bom de silêncios e de uma busca muito clara. Naturalmente, cheia de luz. Iluminada. Faz mais sentido. Melhor assim.
O tom é mais para cima. Por maior senso de responsabilidade, não dá para se "alimentar" da dor. Isso é para desumanos: quem gosta mesmo de fazer terror, horror. Aí tem é dó. E isso não é bom. Também não intento mais. É demais. Quero menos. Bem menos.
Preciso confessar que meu gênero é comédia, ficção, em alguma hipótese romance. Mesmo que ainda esteja apenas habituada a documentários. Drama só no cinema. Um filme simples e bom, pra si mesmo e para o outro, certamente ganha mais. Nisso não importa ou interessa o que estão vendo alguns críticos.
E muita atenção se estiver vendo justo o que queremos. As coisas são como são e não o que queremos torná-las. Contrariando as circunstâncias, graças à uma força muito divina, tudo vai se arrumando de maneira muito mais humana e positiva. Importam resultados, fotos, fatos, ambientes...E os destinos.
É muito pequeno pensar em exelentes estímulos. Sim? e daí... e o resto? Dá licença de dizer que o mundo tá aí...Dura segundos o lado fulgaz da vida. Passa rápido. Tudo isso dissolve, vira brisa.. Desejos nunca constróem, exceto redemoinhos, furacões, tragédias e misérias.
Sonhos e planos bem elaborados sim. É justo o direito de dedicarmo-nos ao que decidimos e levar a vida a sério, ainda que com o melhor dos humores. Um humor bom, que ofereça uma ação propositiva, que motiva o outro a ir também buscar de volta a sua própria vida depois de se emprestar tanto a uma amizade.
E isso é apenas o jeito, porque já se deu, agora é tarde. Essa é a melhor alternativa. "Quem empresta nem pra si mesmo presta" dizem os provérbios adiantados. Bom, lá vai de novo:
Agora é tarde. Não adianta chorar. Se não decidiu com muita clareza na hora. Mais tarde, vai se cobrar. É preciso pensar antes. Se não, algo vai dar errado. E melhor do que tanta confusão é a satisfação de alguma segurança, todo aprendizado e muita muita sabedoria.
Certeza de recomeçar e que logo todo tumulto passa. E que vai terminar bem. A noite e o dia. Fora isso, tudo mais é pura tolice. Insandice, babaquice, mesmice, leviandade e burrice. Para quê e por quê insistir na dor? Se já tendemos ao caos, dar sorte ao azar é suicídio. E tender ao melodrama, uma chatice. Um suplicio!
Não escolho "isto". Prefiro aquilo. O que está bem longe daqui. E não apenas pelo mérito criativo. É para manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo. Esse é o ponto "g". Da graça, da gentileza, dos gestos, do gosto pela vida. Fico feliz fabulando.
O outro lado disso é muito insólito. Alguém que chega dizendo, "não! isso não é tudo. Posso dar muito mais. Te dar o mundo...". A palavra não é "pretensão"?. Sim, fragmentada ou inteira.
Tudo tem vários lados. E a intuição às vezes grita no ouvido. É claro que toda hipérbole só merece a comprensão do que de fato é. Se há exagero, na certa há também interesse. Então, o jeito é oferecer uma medida mais exata. Farei treinamento intensivo.
Do que se trata esse reino excessivo das palavras??? Ré médios, mi menores??? Sempre afirmando ter como propósito "um mundo melhor", garantindo paz e harmonia. Não é isso que dá. É outra "impressão" a que oferece todo santo dia. Invariavelmente sempre já virou nunca, ou jamais - em tempo algum - E não se faz de boa lógica. Aliás, tá difícil se cumprir uma vez que seja por lógica. Razão é palavrão que não cabe.
Às vezes, compreendo, que a vontade está tão "adiada" que é preciso executá-la. Outra palavra que corta que nem faca. Tem mesmo dois sentidos. Dois lados. Oh difícil trajetória das almas perdidas, incompletas e intranqüilas. Não há nenhuma poesia nesse tom de tragédia. É horrível. Terrível. Escuro sem luz alguma, sombrio. Um confinamento voluntário motivado pelo preconceito, pela discriminação, muita impáfia e hipocrisia. Disfasia do medo de crescer. Afasia da força de compreender.
Então, tá. Tudo bem, com mais um pouquinho de paciência, vou dizer que mesmo quando nossa natureza é de quem "aceita o melhor", tem uma hora que chega. A alma chega junto, sabe? Mesmo que muito muito insatisfeita com o caminho que nossa persona escolheu. E aí, ahhh, aí basta. É hora de abrir os olhos e fechar o peito. Trancafiar o coração, seguir em frente e aceitar o bom, de territórios mais neutros, perceber que sopram outros ventos.
E não tem nada melhor que a inteligência comum. Nada de pirotecnias ou genialidades. Não. Começa-se abrindo mão das trocas, dos carinhos, do projeto feito, contado, refeito... da presença, do convívio, das qualidades e dos defeitos.
E isso não devia motivar maledicência. O que já é um segundo erro. Sejamos tolos, mas não tanto. Qual afinal o propósito? Se não é preciso que a vida preserve encantos? Que medo é esse de morrer! Será que não há uma missão, uma ordem para se trabalhar por ela? Coisas deixadas por fazer? Alguma pesquisa, sonho bom que ocupe a mente? um movimento que seja mantendo o corpo ativo, caminhando para frente? Um passo, outro passo, outro passo. Um dia, uma noite, outro dia...
Não há mais espaço para sentenças, injustiças, mentiras, vileza e vilipendiência. Nem concupiscência. E haja tolice em medir forças ou domínio junto às outras pessoas. O seu "poder".
De fato há um sem fim de caminhos para escolher. E há, sim, em meio a tantos, sempre um caminho mas sereno. Eu decido deixar ou não aparecer na minha vida. Feliz e tranqüila. Legitimamente caminho. Isso é bom. Bonito quando o Universo "conversa" com a gente! E aí já parece alguém bom de silêncios e de uma busca muito clara. Naturalmente, cheia de luz. Iluminada. Faz mais sentido. Melhor assim.
O tom é mais para cima. Por maior senso de responsabilidade, não dá para se "alimentar" da dor. Isso é para desumanos: quem gosta mesmo de fazer terror, horror. Aí tem é dó. E isso não é bom. Também não intento mais. É demais. Quero menos. Bem menos.
Preciso confessar que meu gênero é comédia, ficção, em alguma hipótese romance. Mesmo que ainda esteja apenas habituada a documentários. Drama só no cinema. Um filme simples e bom, pra si mesmo e para o outro, certamente ganha mais. Nisso não importa ou interessa o que estão vendo alguns críticos.
E muita atenção se estiver vendo justo o que queremos. As coisas são como são e não o que queremos torná-las. Contrariando as circunstâncias, graças à uma força muito divina, tudo vai se arrumando de maneira muito mais humana e positiva. Importam resultados, fotos, fatos, ambientes...E os destinos.
É muito pequeno pensar em exelentes estímulos. Sim? e daí... e o resto? Dá licença de dizer que o mundo tá aí...Dura segundos o lado fulgaz da vida. Passa rápido. Tudo isso dissolve, vira brisa.. Desejos nunca constróem, exceto redemoinhos, furacões, tragédias e misérias.
Sonhos e planos bem elaborados sim. É justo o direito de dedicarmo-nos ao que decidimos e levar a vida a sério, ainda que com o melhor dos humores. Um humor bom, que ofereça uma ação propositiva, que motiva o outro a ir também buscar de volta a sua própria vida depois de se emprestar tanto a uma amizade.
E isso é apenas o jeito, porque já se deu, agora é tarde. Essa é a melhor alternativa. "Quem empresta nem pra si mesmo presta" dizem os provérbios adiantados. Bom, lá vai de novo:
Agora é tarde. Não adianta chorar. Se não decidiu com muita clareza na hora. Mais tarde, vai se cobrar. É preciso pensar antes. Se não, algo vai dar errado. E melhor do que tanta confusão é a satisfação de alguma segurança, todo aprendizado e muita muita sabedoria.
Certeza de recomeçar e que logo todo tumulto passa. E que vai terminar bem. A noite e o dia. Fora isso, tudo mais é pura tolice. Insandice, babaquice, mesmice, leviandade e burrice. Para quê e por quê insistir na dor? Se já tendemos ao caos, dar sorte ao azar é suicídio. E tender ao melodrama, uma chatice. Um suplicio!
Não escolho "isto". Prefiro aquilo. O que está bem longe daqui. E não apenas pelo mérito criativo. É para manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo. Esse é o ponto "g". Da graça, da gentileza, dos gestos, do gosto pela vida. Fico feliz fabulando.
Saturday, August 02, 2008

De Luís Fernando Veríssimo: Clarice!
Em 1953 meu pai foi dirigir o Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana, ligada à Organização dos Estados Americanos.
Fomos morar em Wahington, uma aborrecida cidade burocrática, no começo da era Eisenhower. O diplomata Mauri Gurgel Valente e sua mulher Clarice estavam lá com os dois filho, Pedro e Paulo, e foram os primeiros brasileiros a dar as boas-vindas aos recém-chegados. Eles seriam os melhores amigos dos meus pais nos quatro anos em que ficamos em Washington. Clarice e minha mãe, que não poderiam ter personalidades mais diferentes, tornaram-se amigas de infância. E sem que houvesse qualquer cerimônia, meus pais foram designados padrinhos extra-oficiais do filho mais moço dos Valente, o Paulo.
(Uma vez fui levar a Clarice e os dois meninos em casa de carro na chegada o Paulinho perguntou: "Não quer entrar para tomar um cafezinho?" Grande surpresa. Ele mal começara a falar, era provavelmente a primeira frase inteira que dizia.) Várias fotografias da Clarice, inclusive algumas que têm saído na imprensa, foram tiradas pelo meu pai durante o convívio dos dois casais naqueles anos americanos. Também houve uma designação do meu pai como fotógrafo exclusivo extra-oficial da Clarice.
Eu tinha 16 anos quando chegamos a Washington e a minha primeira impressão da Clarice foi a de todo mundo: fascinação. Com a sua beleza eslava, os olhos meio asiáticos, o erre carregado que dava um mistério especial à sua fala, e ao mesmo tempo com seu humor, e seu jeito de garotona ainda desacostumada com o tamanho do próprio corpo. O fato de que aquela Clarice era a Clarice Lispector não me dizia muito. Eu sabia que era uma escritora meio complicada, nunca tinha lido nada dela. Só quando voltamos ao Brasil li O Lustre, Perto do Coração Selvagem e, depois, os contos, extraordinários. "A Legião Estrangeira", "Amor", "Uma Galinha", "Macacos", "Laços de Família", "Festa de Aniversário" e tantos outros, e o melhor conto que conheço em língua portuguesa, "A Menor Mulher do Mundo". Em 1962 saí de Porto Alegre e fui morar com a minha tia, no Rio. A Clarice, que então já estava separada do Mauri, era sua vizinha no Leme e pude conviver, e me fascinar, um pouco mais com ela.
Agora, folheando alguns livros da Clarice antes de escrever isto, dei com uma dedicatória dela em A Maçã no Escuro para "meus queridos Erico e Mafalda".
Uma dedicatória brincalhona, datada de julho de 1961, em que ela destaque que o preço do livro nas livrarias é de 980 cruzeiros e que portanto está lhes dando um presente valiosíssimo, e recomenda que ele seja protegido com uma capa colante, do tipo que gruda na mão e "prende" o leitor. No fim há um adendo que eu ainda não tinha visto: "Luís Fernando, considere este livro seu também, por favor. Divida 980 por três e você terá preciosa parte. Sua Clarice." A lembrança da Clarice vale bem mais do que 980 cruzeiros, mesmo com todas as correções monetárias acumuladas em 47 anos.

"Não há felicidade sem virtude"
Denis Diderot
"Gallione, irmão meu, todos os homens desejam a felicidade mas nenhum consegue perceber o que faz a vida tornar-se feliz. É meta tão difícil de conseguir que, em se tornando o caminho errado, quanto maior a pressa, maior a distância do objetivo. Quando o caminho conduz à direção diversa, a velocidade amplia a distância."
E cada gesto apressado nós afasta do rumo certo metros...Como é delicado e como exige tanta atenção viver bem! Como, na vida, tudo é tão precioso e merece que nossa ação seja cuidadosa e medida, pensada. É preciso nunca esquecer de inverter a lógica do espelho, que reflete sem pensar. A vida de quem é real é tão mais simples, que rezo todos os dias porque tive a chance de conhecer essa simplicidade. De conviver com ela e estar junto. Posso não parecer mesmo alguém feliz. E, claro, sofri e sofro com muitas desiluções nessa vida. Tenho, ainda, com todo esforço e dedicação, muita tristeza em mim... Mas, sim, estou sempre acordando um estado dessa simples e terna felicidade de uma vida mesmo real. Sendo uma pessoal real.
Sim, tenho sonhos e planos. E quem arrisca olhar de fora não pode ter tão logo a pretensão de conhecê-los. Muito menos de "refazê-los" a seu modo. Não, não sou muito firme. Oscilo muito. E sim, perco o equilíbrio, embora haja em mim tanta força e motivos para ser dedicada e feliz. Tenho um mundo inteiro de tanto amor de verdade. De um jeito menina e de um jeito menino. Essa é a mais completa das felicidades numa vida para uma mulher de verdade. O amor verdadeiro de homem já é pedir demais. Ainda assim, na medida do que foi e é possível, percebo que não pode haver em mim qualquer queixa, reclame ou sentimento não lúcido, o que seria muito amargo.
Querer provar do sal tem sua dignidade. Se ocupar das coisas que não são assim "tão boas" ou que à primeira vista não parecem "mesmo divinas" é de algum mérito, se me permite opiniar. Bom, é isso o que eu penso. E ao meu modo, venho existindo. Resistindo. E vivendo. Bem. Ao meu modo. Real.
Thursday, July 31, 2008

Dança da Solidão
[Intro:] AmA7 Dm
[Intro:] AmA7 Dm
Solidão é lava que cobre tudo
E7 Am B7 E7
Amargura em minha boca, sorri seus dentes de chumbo
Am A7 Dm
Solidão palavra cavada no coração
Am E7 Am
Resignado e mudo no compasso da desilusão
Dm E7 A7
Desilusão, desilusão
Dm
Danço eu dança você
E7 Am
Na dança da solidão
E7 Am
Caméllia ficou viúva, Joana se apaixonou
A7 Dm
Maria tentou a morte, por causa do seu amor
Bm7(b5) E7 Am
Meu pai sempre me dizia, meu filho tome cuidado
E7 Am
Quando eu penso no futuro,
não esqueço o meu passado
Quando vem a madrugada, meu
pensamento vagueia
Corro os dedos na viola,
contemplando a lua cheia
Apesar de tudo existe,
uma fonte de água pura
Quem beber daquela água,
não terá mais amargura
- " Santo meu Deus! Batman, como andas escrevendo ultimamente..."
- "E o que é pior, Robin: dizendo absolutamente nada".
Tenho, às vezes, o impulso leve de soltar esses pensamentos apenas em caderninhos. O que seria muito muito muito mais sensato. E então, algum outro instante fluido me faz abrir, paginar folhinhas e vir até aqui.
Se quisesse descrever, como quem descreve um quadro, quais são as cores que usei e escolhi, não poderia resumir em preto e branco. Não. É verdade, sim. Nem sempre sou exata. E percebo que não me comunico. Até me interesso, cada vez mais pela precisão da matemática. No entanto, algum vento tolo sopra "loas" em meu ouvido, e meus dedos respondem. Por quais respostas procuro? Qual é mesmo a minha pergunta? Sofro - momentaneamente, eu espero - do mal daqueles que acham tudo: "uma falta de absurdo". Absurdos não me faltam, não... é. Veja bem... não sou mesmo tão modesta. Mas sim, tudo para mim é de uma enorme "falta de absurdo".
Eu que vejo de tantos lugares, cada pedacinho de justo impulso se habilitar. Cada trejeito de expressão de alma reprimida se manifestar. Sofro sem piedade de mim mesma, de uma tremenda falta de absurdo. Estou tão honesta, ultimamente, que ando lívida. Impávida. Não, não mais me "colosso"... Não "colosso" coisa alguma!!!
Faço mal? é tão triste quanto aparece uma escrita tão honesta e sem "raios fúlgidos". Sem "céu da pátria, nesse instante"? Oh, liberdade, quanta falta de absurdo...Fôlego, fôlego vejo assim, em caixas postais, respondendo visceralmente e de imediato. Será tão pouca a idade que tenho que acabo atraindo os mais puros e jovens desejos?
...

A tanto tempo não escrevia essa palavra, que agora me parece mesmo algo para ser muito secretamente escrito. Devia voltar sim aos caderninhos. Difícil me demover da idéia de não estar nunca mais aqui. Oh liberdade, que fluido. Que mundo tão fluido. Deixe-me levar impulsos outros não. Quero sim dizer sim ao sim. Não ao não. Quero mesmo permitir sintonizar da energia e abrigar cada vez mais palavras e palavras e palavras.
Afinal, por onde passas de trem, há campos floridos rompendo rápidos pela janela? Onde abrigas o teclado onde escreves tantas frases tão felizes e que parecem estar sorrindo a cada novo sinal? É em teu colo que abrigas o instrumento que te liga ao prazer de viajar? Anda assim, tão sozinho?
Tenho lista de perguntas. Tenho força para escrever ainda e ir soltando cada pétala enquanto vejo escorrer feito lágrima minha seiva. Deveria voltar aos caderninhos, mas não vou. Não quero precisar quanto tempo e até onde estar aqui me levou. Vou dizer apenas que a esperança que me alimenta é verde sim. E parece recém-nascida a cada teclar novo. Verde novo. Foi mesmo uma das cores da felicidade pintada aqui.
Monday, July 28, 2008
Per Carla Bruni: C'est un blues...
L'amour, hum hum, pas pour moi,
Tous ces "toujours",
C'est pas net, ça joue des tours,
Ça s'approche sans se montrer,
Comme un traître de velours,
Ça me blesse, ou me lasse, selon les jours
L'amour, hum hum, ça ne vaut rien,
Ça m'inquiète de tout,
Et ça se déguise en doux,
Et ça se déguise en doux,
Quand ça gronde, quand ça me mord,
Alors oui, c'est pire que tout,
Alors oui, c'est pire que tout,
Car j'en veux, hum hum, plus encore,
Pourquoi faire ce tas de plaisirs, de frissons, de caresses, de pauvres promesses ?
A quoi bon se laisser reprendre
Le coeur en chamade,
Ne rien y comprendre,
C'est une embuscade,
L'amour, hum hum, ça ne va pas,
C'est pas du Saint Laurent,
Ça ne tombe pas parfaitement,
Si je ne trouve pas mon style ce n'est pas faute d'essayer,
Et l'amour, hum hum, je laisse tomber!
Et l'amour, hum hum, je laisse tomber!
A quoi bon ce tas de plaisirs, de frissons, de caresses, de pauvres promesses?
Pourquoi faire se laisser reprendre,
Pourquoi faire se laisser reprendre,
Le coeur en chamade,
Ne rien y comprendre,
C'est une embuscade,
L'amour, hum hum, j'en veux pasJ'préfère de temps en tempsJe préfère le goût du vent
Le goût étrange et doux de la peau de mes amants,
Mais l'amour, hum hum, pas vraiment!
Friday, July 25, 2008
É a pergunta quem dá início a tudo...
- Tia, me dá um trocado?
- Tá, mesmo não tendo "idade" para ser sua tia, eu troco com você! Tá aqui uma barra de "leite condensado caramelizado, com flocos crocante, e o delicioso chocolate que não preciso dizer o nome". É seu. Se puder me responder também a uma pergunta: Você sabe guardar um segredo?
Os olhos de um branco destacado na pele tão negra e de uma expressão ainda triste vão se abrindo mais... A cabeça balança afirmativa e a boca, enfim, morde o doce. A próxima pergunta, vinda da pequena, já é outra:
- Que horas são?
- Tia, me dá um trocado?
- Tá, mesmo não tendo "idade" para ser sua tia, eu troco com você! Tá aqui uma barra de "leite condensado caramelizado, com flocos crocante, e o delicioso chocolate que não preciso dizer o nome". É seu. Se puder me responder também a uma pergunta: Você sabe guardar um segredo?
Os olhos de um branco destacado na pele tão negra e de uma expressão ainda triste vão se abrindo mais... A cabeça balança afirmativa e a boca, enfim, morde o doce. A próxima pergunta, vinda da pequena, já é outra:
- Que horas são?

Strange Fruit
Robert Wyatt
The Southern trees bear a strange fruit
Blood on the leaves, and blood at the roots
Black bodies swinging in the Southern breeze
Strange fruit hanging from the poplar trees
Pastoral scene of the 'Gallant South'
The bulging eyes and the twisted mouth
Scent of magnolia, sweet and fresh
Then the sudden smell of burning flesh
Here is a fruit for the crows to pluck
For the rain to gather, for the wind to suck
For the sun to rot, for the tree to drop
Here is a strange and bitter crop...
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