
Lugar da delicadeza com o outro e com a própria Liberdade.
Onde se está de acordo com o único modo do humano de ser feliz
Tuesday, April 15, 2008

Wednesday, January 09, 2008
Arquivo Clarice Lispector -Museu de Literatura Brasileira. Fundação Casa de Rui Barbosa.
Saber constituir minha própria "Erfahrung" ("Experiência"). Materialista? Que seja. Se era um texto de juventude, publicado em 1913, é completamente altual; "A Criança, o Brinquedo, a Educação". Também sei desse hoje. E seu "Narrador" se parece com o meu.
Misturar a "Erfahrung" com a "Erlebnis". Característica também em mim, com minha experiência vivida, eu solitária que sou. Eu que necessito urgentemente reconstruir para garantir minha memória e minha palavra comum.
A minha experiência e narratividade estão se espalhando feito grãos de areias com o vento. Não faço mais parte de uma organização social comunitária centrada no artesanato. Ou agora que faço, o que faço?
Para Benjamin é assim: "O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história" (Tese 3)
E "denuncia" o golpe de gênio de Proust; "Está em ele não ter escrito "memórias", mas, justamente, uma "busca", uma busca das analogias e das semelhanças entre o passado e o presente. PRoust não reencontra o passado em si - que talvez fosse bastante insosso -, mas a presença do passadono presente e o presente que já está lá, prefigurado no passado, ou seja, uma semelhança profunda, mais forte do que o tempo que passa e que se esvai 9daí meu sentimento areia) sem que possamos segurá-lo".
E continua:
"A tarefa do escritor não é, portanto, simplesmente relembrar os acontecimentos, mas "subtraí-los às contingências do tempo em uma metáfora".
Poderei eu um dia? "Se Proust personifica a força salvadora da memória, Kafka faz-nos entrar no domínio do esquecimento, tema chave da leitura benjaminiana. Poderíamos dizer, também, que se Proust representa a tentativa - árdua - de uma rememoração integral, Kafka instalou-se sem tropeços e sem lágrimas na ausência de memória e na deficiência do sentido. É daí que vem, segundo Benjamim, sua extraordinária modernidade, ao mesmo tempo cruel e serena".
Eu continuo em busca do que conto e do que conquisto. Do que quero presente e do passado esquecido. Não me aborrece virar páginas. Lido com o que impregna em mim e vou descascando os sentidos no melhor da minha existência de pele. De fruta. E se pus para dentro, como concha, o grão de areia. Fiz dele, com o passar do tempo, pérola, ainda posso continuar minha caminhada pela praia. Essa lembrança viva (material e física, não materialista!) me acompanha, de certo, mas não pode me fazer parar.
Monday, January 07, 2008
Nascido em 1888 e morto em 5 de julho de 1948, perteceu à mesma linhagem de escritores católicos franceses do século XX que incluiu de Léon Bloy (1846-1917), Paul Claudel (1868-1955) e François Mauriac (1885-1970).
Para o número 33, da Revista Letras: "Georges Bernanos possuía a voz, a franqueza e a inspiração do maledicente que nunca deixou de ser na sua vida de jornalista, polemista e romancista. Uma voz grave que fascinava seus interlocutores tanto quanto o corpo pesado e o rosto maciço, sombrio porém iluminado por um olhar incrivelmente claro que pousava sem compaixão sobre o mundo e os homens. Olhar de um visionário ou de um profeta das desgraças futuras?". O artigo é de Daniel Bermond, Jornalista de Lire.
http://www.ambafrance.org.br/abr/label/label33/lettres/bernanos/bernanos.html)Sobre ele, Clarice declara:
"E um dia desses, abrindo um jornal e lendo um artigo de homem que infelizmente esqueci, deparei com citações de Bernanos que na verdade vêm complementar Thoreau, mesmo que aquele jamais tenha lido este.
...Para Bernanos, dizia o artigo, o maior pecado sobre a terra era a avareza, sob todas as formas. "A avareza e o tédio danam o mundo." "Doia ramos, enfim, do egoísmo", acrescenta o autor do artigo. Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena! Feliz Ano Novo."
Não dá para imaginar saudação melhor para 2008! Viver é correr perigo. E não se morre, senão um pouco todos os dias...
Wednesday, December 26, 2007
A história de Macabéa , uma nordestina de fazer pouca sombra, que é levada para o Rio de Janeiro por uma tia, contada por Clarice é a reprodução - ou pretende ser, como propõe a autora - da imagem refletida em espelho manchado de ferrugem dessa que representa tal segmento da população que insiste em resistir, mesmo ao passar dos anos.
"Parte daquela raça anã teimosa que um dia vai talvez reivindicar o direito ao grito".
Como traduz Eduardo Portella no prefácio "O grito do silêncio", em A Hora da Estrela, Clarice Lispector, Rocco:
"Com emprego de balconista numa grande loja de departamentos para a época, Macabéia é um sujeito - broto do que também podia ser compreendido como estudo da depreciação do humano frente às relações geradas e realidade recriada com o impulsionamento do sistema capitalista."
Nada disso. E tudo isso a um só tempo. Estão ali questões também culturais e de gênero. Como se vê na "dignidade" adquirida pelo namorado de Macabéia por trazer uma morte nas costas. Ainda mais, e principalmente, na escolha de um autor (Rodrigo S.M.) para a obra.
Escolha que merece destaque em análise de Lúcia Helena em Nem Musa Nem Medusa e onde a autora que conviveu com Clarice esclarece:(pag.62)
"Esta máscara subjetiva e masculina chama a atenção do leitor pelo inevitável enclave não só com a biografia da escritora, criada em menina em Alagoas e no Recife, mas também com a "biografia" das duas nordestinas personagens, de modo que uma espécie de dramaturgia da subjetividade vai sendo entramada, espraiando - se por todo o texto, e conduzida por um processo de tecelagem cujos recursos se sustentam com base na ironia, na antítese e na repetição"
É mesmo no "parafuso" que a análise pretende se centra ou girar em seu entorno. Aquele que é o objeto de consumo "apreciado" na vitrine pela personagem. Na vitrine da vida dessa personagem não há jóias ou vestidos bonitos. Mas um parafuso !
Benedito Nunes (O Drama da Linguagem, pag.35) lembra referindo - se a uma leitura de A Cidade Sitiada: " o humor em A Cidade Sitiada neutraliza a realidade dissolvendo - a numa sucessão de aparências equívocas. Maquinais nos sentimentos e cercados de coisas rígidas".
Faz lembrar previsões sobre a conquista do bem - estar (viver mais próximo do feliz) de Condorcet: "o progresso das artes mecânicas trará um novo padrão de conforto e felicidade à massa da humanidade".
Relação entre processo civilizatório e o conceito focado neste estudo em Felicidade, de Eduardo Gianetti. Está no primeiro texto intitulado "A bifurcação pós - iluminista" apresentado pelo personagem Melo, um erudito historiados de idéias que leu em demasia e encontra dificuldade em acreditar no que quer que seja; atualmente desempregado, aos outros três amigos que participam de encontros para entender melhor e discutir a felicidade:
"na terra prometida da razão secular (...) as desigualdades entre os indivíduos e as nações diminuiriam, a paz internacional seria alcançada e a adoção do livre - comércio e de uma língua universal selariam a fraternidade entre os povos. O avanço do saber científico e a difusão da educação popular dissipariam as trevas da superstição e da intolerância. (...) O enredo é familiar: a estrada da razão e da virtude leva ao regaço da felicidade."
É no parafuso ainda solto que Macabéa pode centrar a força de sua formação. Se "felicidade" é uma palavra doida inventada pelas nordestinas que vivem aos montes por aí, a loucura é uma forma solta, sem amarras. Precisa fixar suas bases, reconhecer sua dimensão e formatar seu próprio entendimento para existir.
Trecho do estudo A Felicidade em Clarice Lispector, 2002, Pós-graduação em Letras UFPE, Literatura Brasileira.
Sunday, December 09, 2007
Com o apoio da Prefeitura, do próprio Vice-Prefeito, Luciano Siqueira, admirador da obra da autora, o Recife conclui esse ciclo de homenagens com um recital na Praça onde existe até hoje a casa onde a família Lispector morou. Um grupo de especialistas estudiosos da obra da autora fazem recital com exibição de filmes e fotos, na praça Maciel Pinheiro, a partir das 18 horas desta segunda-feira (amanhã). No grupo estão professores da rede pública municipal e estadual, universidades públicas e privadas, todos especialistas na obra de Clarice.
Roteiro e direção: Geórgia Alves
Produção: Sérgio Montenegro Filho
Fotografia: Marcelo Lordello
Montagem: Marcelo Pedroso
Still: Larissa Alves
Criança: Enrico Mello
Participação especial: Raimundo Carreiro (voz)
Friday, November 16, 2007

Sunday, October 14, 2007
Lembro-me ainda de Jimmy, aquele rapaz de cabelos castanhos e despenteados, encobrindo um crânio alongado de rebelde nato.
Lembro-me de Jimmy, de seus cabelos e de suas idéias. Jimmy achava que nada existe de tão bom quanto a natureza. Que se duas pessoas se gostam nada há a fazer senão amarem-se simplesmente. Que tudo o mais, nos homens, que se afasta dessa simplicidade de princípio de mundo, é cabotinismo, e espuma. Se essas idéias partissem de outra cabeça, eu não toleraria ouvi-las sequer. Mas havia a desculpa do crânio de Jimmy e havia, sobretudo a desculpa de seus dentes claros e de seu sorriso limpo de animal contente.
Jimmy andava de cabeça erguida, o nariz espetado no ar, e, ao atravessar a rua, pegava-me pelo braço com uma intimidade muito simples. Eu me perturbava. Mas a prova de que eu já estava nesse tempo imbuída das idéias de Jimmy e sobretudo do seu sorriso claro, é que eu me repreendia essa perturbação. Pensava, descontente, que evoluíra demais, afastando-me do tipo padrão - animal. Dizia-me que é fútil corar por causa de um braço; nem mesmo de um braço de uma roupa. Mas esses pensamentos eram difusos e se apresentavam com a incoerência que transmito agora ao papel. Na verdade, eu apenas procurava uma desculpa para gostar de Jimmy. E para seguir suas idéia. Aos poucos estava me adaptando à sua cabeça alongada. Que podia eu fazer, afinal?
(...)
Minha avó, uma velhinha amável e lúcida, a quem contei o caso, inclinou a cabecinha branca e explicou-me que os homens costumam construir teorias para si e outras para as mulheres. Mas, acrescentou depois de uma pausa e um suspiro, esquecem-nas exatamente no momento de agir... Retruquei a vovó que eu, que aplicava com êxito a lei das contradições de Hegel, não entendera palavra do que ela disse. Ela riu e explicou-me bem-humorada:
- Minha querida, os homens são uns animais.
Voltávamos, assim ao ponto de partida? Não achei que esse fosse um argumento, mas consolei-me um pouco. Dormi meio triste. Mas acordei feliz, puramente animal. Quando abri as janelas do quarto e olhei o jardim fresco e calmo aos primeiros fios de sol, tive a certeza de que não há mesmo nada a fazer senão viver. Só continuava a me intrigar a mudança de Jimmy. A teoria é tão boa!
*publicado na Folha de Minas. Belo Horizonte, em 24 de dezembro de 1944 - conto antigo reproduzido no jornal sem autorização da autora.
Thursday, October 11, 2007
Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.
O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de "a protetora dos animais". Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la.
E eu sentia o drama social com tanta intensidade que vivia de coração perplexo diante das grandes injustiças a que são submetidas as chamadas classes menos privilegiadas. Em Recife eu ia aos domingos visitar a casa de nossa empregada nos mocambos. E o que eu via me fazia como que me prometer que não deixaria aquilo continuar. Eu queria agir. Em Recife, onde morei até os doze anos de idade, havia muitas vezes nas ruas um aglomerado de pessoas diante das quais alguém discursava ardorosamente sobre a tragédia social. E lembro-me de como eu vibrava e de como eu me prometia que um dia esta seria a minha tarefa: a de defender os direitos dos outros.
No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.
É pouco, é muito pouco.
*Pag. 46, Aprendendo a viver, Rocco. Seleção de crônicas antes publicadas em A descoberta do mundo (Rocco), escolhidas por estarem todas na primeira pessoa, uma não-ficção, discutindo filosofia de vida e a tentativa de compreender o mundo.
Monday, October 01, 2007
Venho apenas dizer da calma que dá compreender. A busca de uma alegria. O caminho para estar e ser feliz. Eliminando com habilidade fronteiras. Veloz, escolher rumos e direcionamentos da vida com firme poder de decisão.
Wednesday, September 26, 2007
Charles Dickens
Buda
Mesmo calma. Sei quem fui. Sei como comecei. Lembrei de mim há pouco. Parece que precisava andar até onde andei me perder da minha alma algumas vezes e me fazer alguém nova de novo. Passou tudo. Perdoei a mim mesma e por motivos firmes, sólidos, eu existo. Estou no mundo para oferecer o melhor para os meus filhos. Fazê-los crescerem felizes, sem qualquer milímetro de dúvida.
E tornar o mundo melhor. O mundo ao meu redor. Sou teu instrumento, meu Anjo divino, e escrevo. E nessa busca, nesse processo de conquista de um mundo melhor tenho certeza que vou encontrar o meu lugar. Mesmo que pareça tão difícil encontrar sei que vou encontrar. Mesmo quando pareça tão difícil, já sei por onde começar.
Sinto-me como três verões e milhares de banhos de mar. Sinto o sal – salgado em espírito! – novamente brilhando ao refletir ao sol. Doce vai ser sempre esse encontro com o Mar que é o que eu preciso. Esse Amor de idas e vindas de um eterno “recomeço” de ondas. Sou do mar. Estou certa disso e não posso afastar-me dele. Faremos parte um do outro. E ele sempre existirá em minha vida. Toda a certeza da beleza da minha vida voltou. Mesmo que eu tenha escolhido caminhos tão diferentes. Tão próprios. Estou feliz agora e calma.
Agradeço aos meus filhos, meu Anjo da Guarda e aos amigos. Assim, com a calma que sinto, vejo-me de volta ao fluxo da vida. E muito feliz por estar mais presente na vida dos meus filhos queridos amados e tão lindos. Cada um com sua beleza seu modo seu jeito, tudo tão particular e novo na descoberta de estar no mundo todos os dias. Do mesmo modo reconheço a rotina dos amigos raros que tenho. Amo-os. Amo com força e intensidade viva, de corpo que sara.
Sunday, September 23, 2007
"The question is: if I become completely still, would next moment ever come? The answer is: ‘no it wouldn’t come, I have to make it’; translated: if I don’t go to the person, would ever the person come to me? The answer: ‘No, if I don’t go to the person to make with her my next moment, nobody will come to me’. Even more translated in term [sic] of the past: ‘nobody at home came to me, I had to ask and beg and caress, and give warmth till the person would give me some attention”*
Clarice Lispector

A enfermeira negra pesava, sem medo de erro, uns setenta quilos… distribuídos em seu um metro de cinqüenta e oito de altura. Muito mais nos quadris e nos seios, que exigem mesmo a palavra tetas, de tão fartos. E não encontrou outro jeito senão usar força a para fazer sair a criança e montou-se na barriga da mãe. Parecia mais envolvida na situação. Dizia: “Força, minha filha. Faça força nos quartos!!! Você vai ter que empurrar aqui, porque é por baixo que vai sair!!!”
E o corpo não respondia àquela voz firme e, ao mesmo tempo, macia. A tensão de músculo ia toda para o pescoço. Como se o aprendizado de uma vida que se viu sempre no grito, só soubesse mesmo acordar a musculatura do pescoço.
No princípio, não gritou. Mas, logo, o obstetra usou o costumeiro truque de “ensinar” com as mãos. O reflexo que faz ir buscar no sentido do que está fora, o ar necessário lá dentro, nos pulmões.
Do outro lado, do corredor da Avenida, não se tratava de maternidade pública. Nem havia uma enfermeira negra. Houve a escolha de introduzir na mulher, ali medida por uma ausência, um gélido metal na abertura por onde estava para sair uma vida inteira. Em meio àqueles quadris, a temperatura era fria. Estourou ele mesmo, o metal, a placenta.
Metal
- Dinheiro é sujo.
- Sujo é quem pega nele
- Mas dinheiro passa em tudo que é mão.. Se pegar em dinheiro: “Lave as mãos”
Há diferença entre pegar e ter dinheiro.
Pontos de Fusão e de Ebulição. Há diferença entre um ponto de fusão e outro. Um ponto de ebulição e outro, explica-se. O mistério está na distância. A distância entre as partículas que formam as substâncias. A distância, a distância, a distância varia. E é de acordo, ou em conformidade. Qual o estado físico em que o material se encontra? Esta é a pergunta a ser feita. Se o estado é sólido as partículas estão mais próximas. Muito mais entre si.
Há o elemento puro. Ele não sofre com a pressão. Quanto maiores são essas forças, mais próximos os átomos permanecem. Esse ao elemento conta com uma estrutura mais compacta e uma densidade maior. Além disso, quanto maiores essas forças, maior é a temperatura necessária para separar os átomos. E isso significa dizer é preciso pontos de fusão e de ebulição maiores, quando maior é a densidade.
A Forma
Preciso de um parafuso. E urge! Um parafuso que vai fixar o centro. Criar o ponto para unir. Então, minha forma não se desfaz. Então, minha forma não desfará. Farei uma festa por isso. Serei eu uma festa em mim e quem me deu o parafuso, vivamente fluirá em minhas formas.
O Toque
Perguntas? o médico prepara o espírito para chegar ao corpo...
- Vamos dar uma olhada... Já conhece a máquina. Já experimentou? Supermoderna. Veio da Inglaterra. O mais avançado tratamento que existe inclusive na Europa. Você fica de cabeça para baixo, enquanto examino...
Ela, sem qualquer surpresa, responde:
- Sim, eu me lembro de quando tive que experimentar, da última vez!
Sem suprimir o impacto:
- Pôxa, é a primeira vez que alguém responde assim... Não entendo porque instrumentos de metal. Tudo é muito primitivo. (E moderno, ao mesmo tempo)
A Lata
As de alumínio permitem aos catadores de lixo alguma renda. E há latas e latas. Umas são para depositar bebidas, lixo. Outras reservam filmes. Conservam obras de arte.
A Pressão
Cunhar uma única moeda. Requer... reservas de mercado?
A Quebra
Para romper a partícula-molécula do metal é preciso que ferva. As partículas quando submetidas às altas temperaturas, elas se agitam.
[1]* Varin, Claire. Línguas de Fogo. Editora Limiar, São Paulo, 2002
Teu olhar misterioso (é azul, verde ou se esfuma?)
Ás vezes terno e sonhador, às vezes cruel,
Reflete a palidez e a indolência do céu
Lembras os dias brancos, mornos e velados,
Que em prantos põem os corações enfeitiçados,
Quando, despertos por uma torção desconhecida,
Os nervos tensos zombam da alma adormecida.
Não raro imitas essas cores vaporosas
Que fulguram aos sóis das estações brumosas...
Como resplendes, horizonte assim molhado
Quando a flama do sol aquece o céu nublado!
Ó mulher perigosa, ó climas sedutores!
Hei de adorar a tua neve e os teus rigores?
E como arrancarei do inverno em que me enterro
Mais agudo prazer que os do gelo e do ferro
(versos de Baudelaire me fazem imaginar o diálogo que teria com Martha Medeiros... Tão gata em teto - fresco - de zinco. Aliás, são metais aqueles que com suas composições têm me ocupado...)
Wednesday, September 12, 2007
Nas palavras G.H., e supõe-se a personagem mais distante do leitor da própria Clarice. E diz-se Xamã no sentido que diz Joseph Campbell; “homem ou mulher, que no final da infância ou no início da juventude, passa por uma experiência psicológica transfiguradora, que a leva a se voltar inteiramente para dentro de si mesma... Experiência xamânica ao longo de todo o caminho que vai da Sibéria às Américas, até a Terra do Fogo”. Desavisado, o jornalista Bill Moyers pergunta: “E o êxtase faz parte dela?” Para a afirmativa de Campbell. Em Clarice, há o êxtase no todo.
Claire Varin, nascida em Montreal, no Quebec embarca na viagem de refazer os lugares por onde esteve Clarice. Conquistou a confiança de Elisa Lispector, a irmã mais velha e também escritora, já falecida. “Clarice não falava outra língua além do português em casa?”. Não, lacônico, é a resposta de Elisa que acaba por revelar, que os pais falavam iídiche em casa e conceder-lhe o manuscrito: “Vivo ‘de ouvido’, vivo de ter ouvido falar”.
De onde pode afirmar que Clarice Lispector “sonha acordada com as palavras”. Prova com trecho do livro Perto do Coração Selvagem em que a personagem Joana confidencia ao seu amante que Lalande é dessas “inventadas”. Diz que gostava de brincar com elas tardes inteiras e que a tal palavra “é como lágrima de anjo” e “é também mar de madrugada, quando nenhum olhar ainda viu a praia, quando o sol nasceu”. Para Varian, Lalande é o lugar de origem da menina que ouvia o iídiche, é “a terra mãe desconhecida, sentida e reconhecida”. Cita, então, “terra” em várias línguas: “land alemã e inglesa, lande francesa onde só crescem certas plantas selvagens e dos land, o pais nomeado na própria língua materna de Clarice”.
Revelação que está na página 27 (fazem bem os atentos aos números) como pedra de toque do seu livro que cita uma a uma os passos e obras de Clarice detalhando datas e outros números, bem mais específicos. A obra de Clarice é composta por oito romances, uma novela e oito livros de contos. “Línguas de Fogo: Ensaio sobre Clarice Lispector” ajuda o leitor a identificar a construção das seis pontas da estrela judaica pela exatidão dos intervalos exigidos para que cada livro seja publicado. Ou mesmo no número de páginas para compor cada conto, muitos com a ajuda de Olga Borelli.
Embora fossem as referências da menina, a escritora ocupou-se em domar a língua portuguesa, para Claire numa ansiedade de estrangeira que emprega a língua de adoção, “exigindo desta o máximo de adequação a seus pensamentos e sentimentos”. Pensamento reiterado nas palavras da própria Clarice; “Tentativa de sensibilizar a língua para que ela trema e estremeça e meu terremoto abra fendas assustadoras nessa língua livre – mas eu preso e em processo de que não tomo consciência e ele segue sem mim”, no livro Um Sopro de Vida. E que o máximo desse “cavalgar”.
O repertório da crítica literária traz análises de todas as obras, explorando trechos de “Perto do coração selvagem”, “Um Sopro de Vida”, “Descoberta do Mundo”, “A paixão segundo G.H.”, “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”, “Água Viva”, “A hora da estrela”, além dos contos. Dedica um capítulo à paixão de Clarice Lispector pelos números. Do testemunho de Olga Borelli de que, ao se tratar de um conto, dizia; “Dê um pouco de espaço para não passar da página 13”. E da ordem dos números na construção de autora que “no espaço entre seu 7º. E seu 17º. Anos amadureceu o primeiro de seus sete romances, numa década, símbolo da criação universal, segundo os pitagóricos”.
Dos dezenove capítulos da vida de Joana que irradiam fora do tempo cronológico, o que Varin explica em nota: A soma dos dois números (1+9) que compõem o número de capítulos é igual a 10, que nos leva novamente à totalidade, ao retorno à unidade após o fechamento do ciclo. Assim o décimo e último capítulo da segunda parte de Perto do Coração Selvagem intitula-se “A Viagem”; mostra-nos Joana ao cabo de um outro círculo de vida, sozinha sobre um barco “forte e bela como um jovem cavalo”.
É espantosa e finamente tensa a relação do detalhamento do texto e contexto de Clarice nas línguas de fogo de Varin. Não é possível evitar a sensação da extrema presença como na obra da escritora e professora da Sorbonne, Hélèlen Cixou, uma das grandes responsáveis pela maior recepção de Clarice nos outros países.
Claire Varin preocupa-se também com o universo ao redor que influencia e é influenciado por Clarice, que vai curando o Brasil do que Autran Dourado chamou de “solidão lingüística”. E que estamos distantes não apenas da Europa e da África, mas separados do resto da América do Sul hispânica. “Clarice não escapou à regra” – “Depois de ter bebido até se saciar nas fontes da cultura do Velho Continente – entre suas paixões literárias: Emily Brontë, Fiodos Dostoievski, Julien Green, Herman Hesse, Katherine Mansfield -, ela põe em destaque a questão das literaturas nacionais,”. Afirma que põe de lado a palavra vanguarda no seu sentido europeu, pensando, por exemplo, se o nosso movimento de 1922 seria considerado vanguarda por outros países.
Friday, August 31, 2007
Carinho da brisa
Estou aqui, ensandecida (de areia?), faz algum tempo. Vem me ocorrendo em sonho, vez por outra, fazer a viagem de bonde que Clarice e família faziam até o mar de Olinda. Sonho que é meu o cabelo fino grudando um no outro por causa do sal. Sinto até os primeiros raios de sol da manhã batendo em meu rosto, que parece bem mais jovem que este que me restou, neste início de novo milênio. Aliás, é para mim um orgulho, mesmo tão feminina, ter nascido no século vinte e no segundo milênio (pós-cristão) da raça humana.
E de fato, venho sonhando assim e sendo interrompida por minha própria incredulidade. Acho, mesmo dormindo, tão surreal tal passeio, que acordo em susto de sentimento da realidade.
Pois agora, será dito: eu desejo, da próxima vez, que o tal sonho me ocorrer, que eu me permita sentir a brisa e os raios de sol tocando no rosto. Velho ou novo, pálido ou rubro, tolo ou firme. Vou apenas me deixar levar pelo sonho...
Permitir-me sentir o carinho da brisa na pele salgada por uma eternidade! E mais, sentir todo prazer em perceber saracotearem, por causa do vento, os meus cabelos cortados. Num buliço de dança. Um meneio que nem a mim cansa! O bonde, o tempo, meu rosto, o desenho, no sol à luz da história. Com uma brisa "lambendo", meus olhos cheios de pestanas, tão sedendos.
Thursday, August 30, 2007
Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.
Houve o grito abafado de um de meus filhos:
- Uma esperança! e na parede bem em cima de sua cadeira! - Emoção dele também que unia em uma só as duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não podia ser.
- Ela quase não tem corpo - queixei-me.
- Ela só tem alma - explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças.
Ela caminhava devagar sobre o fiapo das longas pernas, por entre os quadros da parede. Três vezes tentou renitente uma saída entre dois quadros, três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.
- Ela é burrinha - comentou o menino.
- Sei disso - respondi um pouco trágica.
- Está agora procurando um outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.
- Sei, é assim mesmo.
- Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.
- Sei - continuei mais infeliz ainda.
Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em Roma 0 começo do fogo do lar para que não apagasse.
- Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar devagar assim.
Andava mesmo devagar - estaria por acaso ferida? Ah não, senão de um modo ou de outro escorreria sangue, tem sido sempre assim comigo.
Foi então que farejando o mundo que é comível, saiu detrás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me parecia a aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:
- É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte...
- Mas ela vai esmigalhar a esperança! - respondeu o menino com ferocidade.
- Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros - falei sentindo a frase deslocada e ouvindo um certo cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe diria apenas: você faça o favor de facilitar o caminho da esperança.
O menino, morta a aranha, fez um trocadilho com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo televisão, ouviu e riu de prazer. Não havia dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo.
Mas como é bonito o inseto: mas pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la.
Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: "E essa agora? que devo fazer?" Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. É, acho que não aconteceu nada.
Pois eu encontrei uma esperança maior. Grande, uma espécime que atingiu o tamanho máximo de sua raça. Uma esperança "gigantesca" e bem instalada, de um jeito que se sentiu à vontade de deixar ali "restos", aquilo que não lhe cabia mais...Uma Esperança com É. Assim, maiúsculo e acento nordestino. Uma Esperança amiga que me fez sair de onde eu estava para sentar ao lado dela, durante a viagem. Viagem em coletivo, que me permitiu aumentar o orgulho de levantar e colocar-me ao lado dela, em acento vazio que ninguém no rodante em movimento se atrevia a conviver ou se aproximar. Correr o risco? Pra quê? Se pergutavam essas pessoas, a quem eu respeito ao ponto de comover e lamentar por elas...
Mas seguimos, então, viagem juntas. Eu e a Esperança. Uma ao lado da outra, se entreolhando vez por vez, em curiosidade mútua. Ela se ajeitando de lá, eu ajeitada de cá. Mas ambas, bem instaladas em seus devidos lugares. E essa enorme ESPERANÇA - que já quero chamar em grito de grifo - fez exemplo de condição de inseto capaz de escalar aos poucos em suas perninhas de graveto verdes, bem devagarinho e persistente, as paredes do transporte coletivo. Até chegar no topo. No alto do portal de passagem para o lugar novo, o lugar de chegada. Para onde eu agora me guio nessa força da condição de humano, frágil e resistente a desertos e tempestades. Alegrias e tristezas, aventuras e desventuras - no meu caso já em série - mas um humano que se mantém vivo! E de olhos abertos...
Tuesday, August 28, 2007
É lindo, comovente, fascinante, perdoem, o "modo" como Clarice cita o Recife com enorme carinho, nos seus escritos. Eu, de minha parte, estou cada vez mais encantada com a seleção de "coisas soltas nas gavetas", ajuntadas no livro Aprendendo a Viver (Rocco,2004). São memórias, precisas. E segredo, mantido, do "modo" Clarice. O não dito, de tanto valor. Inclusive com o Recife. Reparem, começa a falar pela viagem de trem em recém-nascida. Da qual não lembra, pela condição do recém-nascimento...


