Lugar da delicadeza com o outro e com a própria Liberdade.

Onde se está de acordo com o único modo do humano de ser feliz

Tuesday, October 13, 2015

De uma paz domada a gás


O objeto dançante que estava diante dos meus olhos felizes era feito daquele mesmo material elástico, que causava tanto asco na infância. Meu corpo estava exaurido, embora tranquilo pelo dever cumprido. O espírito ainda retomando um fôlego de reencontro com a alma. Calma. Sim, é preciso muita calma em todas as horas da vida. Eu respirava do mesmo ar que preenchera o balão para buscar de volta minha alma. Ela ficara para trás diante da velocidade impressa e necessária à caminhada. Os olhos, ainda que felizes, também estavam exautos, mas não prescindiram da visão do balão branco, dançando na avenida, livrando-se dos carros em indiferente velocidade. Pensei logo que aquele objeto era eu em poesia concreta traduzida pela imagem em movimento. 

Você deve ter vivido momentos assim. Momentos em que até parece que aquele detalhe, alheio à sua narrativa, distante dos compromissos, rotinas e leituras, vem dizer justo o que precisava entender e estava difícil. Aquilo que nenhuma frase conseguiu dizer, chegando-lhe até os ouvidos. Sim, são nestes detalhes alheios que enxergamos uma expressão do Deus de Espinosa, que é também o meu. O divino que está no detalhe da dedicação e da delicadeza em que narramos nossa história. O que o balão branco vinha me dizer, é que nem mesmo a velocidade dos carros poderia atingir sua superfície lisa. Seu natureza e forma não seriam fatalmente confrontadas aos faróis ou pneus. Nada daquilo viria a lhe causar o mais terrível dos danos: Explodir. Estourar, como também bem poderia acontecer a um dos pneus daqueles carros. Para um ou outro objeto o verbo, que nem pede complemento, seria de uma fatalidade irreversível. Mais ainda no caso do balão branco, que dos pneus tão noite quanto pretos. 

Aquilo que vi na dança do balão, ele mesmo ainda mais indiferente que os motoristas que guiavam os faróis e pneus. Preciso dizer que havia ruído naquele atrito gravitacional dos veículos contra o asfalto. O que aprendi com o balão branco é que ele não temia sua explosão tomada como certa por meu olhos e por meu coração aflito. Não. O balão continuou com seu balé concreto, desfilando na avenida, sem qualquer pressentimento do fim como o que me atormentava e afligia. Finalmente, entendi, apenas observando o espetáculo do balão, que também devo me comportar assim. Sem medo de ser fatalmente atingida. Mesmo em meio a carros velozes, minha superfície lisa vai me salvar do impacto e do iminente atrito. Eu posso atravessar a avenida em meu balé feliz, sem render meus impulsos à ira. Manter-me no estágio criança e não regressar aos outros estágios de vida. Por trás do recado, uma frase gritava no meu pensamento. Espalhe o bem por aí. Somente depois descobri que  também estava escrita, num desses gritos de luz,
ao longo da avenida.

Friday, August 21, 2015

Que horas?

Que horas são?

Era tarde ainda. Edith esperava pelo ônibus depois de sair do trabalho. Era gerente da loja. Gostava de gerenciar e ensinar quem se interessava em aprender tudo sobre pedras precisosas. As candidatas a vendedoras chegavam sempre dispersas, cheias de sonhos, fantasias. Não sabiam que para permanecer ali era preciso organização mental, foco e supremacia de modos. Disciplina para ganhar poder e agradar pessoas muito ricas. Confiantes e desconfiadas.

Não era raro uma recém – contratada pondo se a chorar escondido. Porque fizera pergunta tola e fora indiscreta. O tom mais humilde para elogios soava invasivo, incorreto. Em geral eram dizimadas como bichos peçonhentos com olhares de repúdio ou desprezo. Cabia a Edith escolher e orientar para que não passassem por isso ou teria ela mesma que corrigir, agir de imediato. Caso contrário, na semana seguinte estaria à procura de uma nova candidata. Edith não era indelicada com elas. Mas era seca, sem falsas delicadezas.

Era dura, nunca cometera uma só descompostura na altura na voz, o tom era sempre o mesmo. Contido e até suave, veludo. Não tinha predileções, mas sabia pelo jeito delas andarem quem duraria mais tempo. Às vezes faltava paciência, ela metia um analgésico ou dois para dentro, massageava com o pulso como orientou aquele vizinho zen budista e pronto. Nunca fora vista com qualquer expressão triste ou alegre, era sempre Edith. Não rimava com palavras como "emoção" ou "discontração". 

Era de um profissionalismo impecável. Consciente das obrigações, do seu papel que sempre conseguia cumprir da melhor forma possível. Quase tive um troço quando soube que morreu de um câncer. O que mais me lembrava Edith era sua máxima: "É a pergunta quem dá início a tudo". Não esqueço uma tarde de setembro. Meu aniversário. Não sei, ao certo, por que Edith havia me escolhido, mas lá estava eu, vendedora da joalheria. Uma garota faminta cruzou a porta. Para sorte dela, não havia clientes. Edith já ia interceptá-la, quando mais rápida, ela perguntou com dengo e carisma:

- Tia, me dá um trocado? - Disse quase miando.

- Não tenho idade para ser sua tia, e para sempre vou trocar algo com você. Em minha bolsa há uma barra de chocolate, com leite e flocos crocantes. É seu, se responder à seguinte pergunta: Sabe guardar um segredo?

O branco dos olhos na pele negra iluminados. Mesmo conhecendo há anos, Edith, fiquei pasma com a velocidade com aquela menina aprendeu. Na pergunta seguinte já era outra:

- Pode me dizer que horas são?


Eu mesma aprendi muito trabalhando com Edith numa joalheiria da Rua Nova.

Friday, March 27, 2015

O dia em que li Galera



A experiência de abrir um livro de Daniel Galera pode ser comparada a um soco no estômago. Para Machado como definição, o bom do conto. O fato de "O dia em que o cão morreu" ser do gênero romance, não mudou a sensação. 

A capacidade despretensiosa de envolver, a trama casual do casal, depois de Galera, como narrador, me abandonar,  propositadamente, no seu momento conclusivo não evitou a explosão, Sou do tempo de quem morre, mas não diz o final. Que preserva o leitor da entrega do creme do creme.

Não sei, até agora,  se contar o final da história de "O dia em que o cão morreu" pouparia algum leitor desavisado (ou espectador, já que pode ser conferida também em forma de filme). Aposto que não.

De São Geraldo a Leônia.


"A vitimização dificilmente humaniza suas vítimas. Ser vítima não garante um lugar nos píncaros da moral". Zygmunt Bauman

Como essa regra se aplica na cidade de São Geraldo, inventada por Clarice? O que entendemos por felicidade? Na cidade de Clarice, “Tudo que se via se tornava real”. Em carta à irmã Tânia, de Berna, na Suíça, falou sobre este que considerou o livro, que começou a ganhar forma no mês de julho do ano de 1948,  “mais difícil de escrever”, sob a explicação de que “existe uma exegese que eu não sou capaz de fazer. É um livro... eu estava perseguindo uma coisa e não tinha quem me dissesse o que é que estava perseguindo”.  Essa leitura minuciosa da intenção original não será mesmo feita por Clarice.

Segundo relato da biógrafa Nádia Battella Gotlib, de início não foi bem recebido. Mas alguns críticos que não gostaram dele logo, depois mudaram de opinião. Cita na biografia “Uma vida que se conta”, Santiago Dantas, que entende por relato da própria Clarice abriu o livro, leu e pensou – Coitada de Clarice! Ah! Caiu muito! Meses depois – ele teria contado a Nádia – considerou-o um dos melhores da autora.

Denso, fechado. Trata da formação de uma cidade, da formação de um ser humano dentro da cidade. Um subúrbio, em processo de crescimento. Ainda movido a cavalos. Por outro lado, onde se construiu uma ponte, se construiu o todo, de modo a não ser mais um subúrbio. Que é justo quando a personagem dá o fora.

Porque daria o fora o personagem quando a cidade cresceu e modificou. Justo quando não estava mais detida graças à presença das pontes? Porque o ser humano parte? E se exclui de um processo de crescimento num lugar para o qual foi destinado? Para Zygmunt Bauman “A derradeira sanção do poder soberano moderno resultou no direito de exclusão da humanidade”. Ele explica que poucos anos depois de Kant publicar suas conclusões sobre os destinos guiados pela razão, produziu um documento, mais curto, chamado a “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”.

Zygmunt lembra que Giorgio Agamben foi quem observou duzentos anos depois, “não estar claro se “os dois termos – homem e cidadão – deveriam identificar duas realidades distintas” ou se, em vez disso, o primeiro deles sempre quis dizer “já contido no segundo “ – ou seja, o portador dos direitos era o homem que também fosse (ou na medida em que fosse) um cidadão. Hannah Arendt também teria identificado a falta de clareza e suas consequência, num mundo que “rapidamente se enchia de pessoas deslocadas”;

Será que não é justo sobre o sentimento de exclusão e de “estar deslocado” que trata o livro “A Cidade Sitiada”. Clarice conta na carta do dia 06 daquele julho de 48 que precisa que o livro saia dali:

“Você dê ao Lúcio Cardoso para ler. Ele talvez arranje editora para mim. Se não arranjar não tem importância. O que quero é que este livro saia daqui. Melhorá-lo é impossível para mim. E, além disso, preciso com urgência me ver livre dele. Quando você der o livro ao Lúcio, não fale para ele arranjar editora. Eu mesma escreverei talvez uma carta dizendo. Nem tenho coragem de pedir a você que o leia. Ele é tão cacete, sinceramente. E você talvez sofra em me dizer que não gosta e que tem pena de me ver literariamente perdida.... Enfim, faça o que você quiser, o que lhe custar menos. Espero um dia poder sair deste círculo vicioso em que minha “alma caiu”.

A história de Lucrécia Neves começa em São Geraldo, mas inclui um deslocamento.  Ela, filha de Ana, e ambas, tem por ofício o bordado e a costura. Ela, amiga de Perseu, sairá daqui porque vai casar com o estrangeiro Mateus. Escreve Clarice:

Suponho que a ligação de Perseu com o resto é que ele não precisava, como Lucrécia, de procurar a realidade – porque ele era a realidade, ele fazia parte da verdade”.

O livro ainda tem outros personagens como o pai, o médico Lucas, Efigênia. E uma que aparecerá depois: a mulher de preto. Que bem poderia ser a própria Lucrécia Neves, ao retornar a São Geraldo. Num reencontro com o amigo Perseu. 

Ainda na carta, Clarice relata: “A mulher de preto sentiu que ele era assim, e que era inalcançável por isso, como uma criança. Perseu era o que Lucrécia não conseguiu ser”.

A pesquisa de Nádia Battella ainda aponta para a análise que a autora faz da personagem dela, Efigênia. Pela qual Clarice manifesta entusiasmo dado traço de personalidade que lhe é caro: a personagem é. Em vez de pensar.

“Quanto ao fato de Efigênia ser invejada como pessoa, apesar de ser rústica – é mesmo pelo fato de ela não tomar parte no progresso de São Geraldo que ela adquire importância aos olhos dos outros. Os outros sentiam o perigo em São Geraldo progressista, e já tinham um pouco a nostalgia da volta à rusticidade. 

O trecho em destinado a Efigênia, além do mais, serve como preparação ao que vai se seguir: é um exemplo de uma pessoa que é a realidade, em vez de pensa-la. Ser a realidade é o máximo de espiritualidade, é "o único modo de como o espírito pode viver”.

Ora, uma percepção lógica da condição óbvia de que a vida para ser real, ela precisa ser vivida e não pensada. Hannah Arendt também cita Edmund Burke e sua antiga premonição, genuinamente profética, de que o maior perigo para a humanidade era a abstrata nudez de “não ser nada além de humana”.

O que a cidade de Leônia tem a ver com São Geraldo? Leônia, uma das cidades invisíveis de Ítalo Calvino, entre os seus habitantes, ergue-se sobre a lógica de que a paixão comum é “desfrutar coisas novas e diferentes”. Lucrécia, em São Geraldo, vive apenas de olhar as coisas. Mas essa forma de vida será rompida por um fato novo e marcante. Um casamento que salvará a família da falência e a levará para longe de São Geraldo.

Antes que isso lhe aconteça, e a obrigue a viver dessa decisão, e da paralisação que se segue, e que a levará a procurar o doutor Lucas, usava o próprio olhar para modificar as coisas. Fazia com a loja do pai, o primeiro andar, a fonte no centro da Praça de São Geraldo. “As coisas pareciam só desejar: aparecer – e nada mais. “Eu vejo” – Era apenas o que se podia dizer.

“Gostava de ficar na própria coisa: é alegre o sorriso alegre, é grande a cidade grande, é bonita a cara bonita – e era assim que se provava ser claro apenas o seu modo de ver. Até que, uma vez ou outra, via ainda mais perfeito: a cidade é a cidade. Faltava-lhe ainda, ao espírito grosseiro, a apuração final para poder ver apenas como se dissesse: cidade”.

Wednesday, October 16, 2013

Dos textos que mais sinto falta:

Na cabeça, um chapéu

     Ali no canto esquerdo, ao lado da janela, Sabrina começava o dia. Ainda quase sem roupa, levanta da cama, estica o braço e pega o chapéu preto, de listras brancas e laço vermelho. No lugar das idéias que a reprimiam, vai o chapéu. Enfeitado. Sabrina charmosa baixa o olhar, o rosto fica enigmático. Puxa a aba um pouco mais para o lado.
     - Alguém tem que ceder para que haja mais espaço.
     Sabrina nunca mais quer saber de soluções prontas, prêmios, loterias, mudanças, inclusive de novos hábitos que evitem o caos em sua vida. Sabrina prefere o caos aos engessamentos, compulsões, desesperos de quem faz de tudo, mesmo sabendo que não vai ser feliz nessa vida. Disso tudo, Sabrina não quer nem ouvir falar. Muito menos conviver com pessoas que funcionam assim, sempre em moeda de troca. Não dão porque querem, mas por interesse. E não perguntam se você quer nem te dão o direito de escolher pelo que vai trocar.
     Sabrina pôs seu chapéu agora e vai até o mercado comprar flores, porque hoje está um dia lindo. Um sol maravilhoso. Sabrina é solteira, maior de idade, trabalha, lê muito, desde menina. Sabe cozinhar, gosta de filmes lentos e difíceis, de um jeito que não consegue nem piscar. Não anda cuidando bem da saúde, mas esperou a idade adulta para começar a fumar ou beber.  Sabrina não tem satisfações a dar. Nem ao porteiro, nem ao padeiro, nem ao cozinheiro, muito menos aos que se dizem seus amigos e fazem perguntas para lhe desagradar.
     Sabrina adora cuspidor de fogo. Vai para o circo vez enquanto porque acha inusitada a sensação de estar sob uma lona, mas nem presta muita atenção nos espetáculos cansados. Passa a maior parte do tempo olhando para cima. A lona repuxada pelos furos deixa Sabrina ver as estrelas! O céu ali como pano de fundo por trás da lona repuxada é o quadro que mais interessa a Sabrina.

     Ela fica ali aqueles minutos debaixo da lona do circo só para ter a certeza da felicidade que vai sentir quando reencontrar o descampado. Sabrina não precisa de lona. Não quer se proteger da chuva. Detesta sombrinhas. Tudo que Sabrina precisa está na cabeça: O céu e o chapéu.

Wednesday, October 09, 2013

Silêncio versus fala

O silêncio, enquanto sinônimo de sabedoria, tornou-se um problema para mim. Por exemplo, preciso de muitas horas a mais de sono para dizer aquilo que ficou guardado durante um dia difícil. Um desaforo, não dito aqui, outro ali, vêm me obrigando a sonhar, e continuar na cama me obrigando a dormir, por muito mais tempo que o normal. Este parece ser o único jeito que arrumei para me livrar das palavras presas. Retidas na boca.

Na minha infância, não era diferente. Tinha sempre algo a dizer sobre o que percebia que não estava correto, e não encontrava as palavras. Não sabia me expressar. Não deve ter sido por acaso que, com um pouco mais de conhecimento sobre a vida, troquei todo um talento por organização de espaços e o desejo de cursar Arquitetura, pelo ingresso na faculdade de Jornalismo.

Precisava aprender a me expressar. Até mesmo nas horas mais definitivas, as palavras não vinham. Nem com reza forte e muito esforço de concentração. Escrever sempre foi salvação para minha lavoura. Porque aquilo que não era bem formulado na fala, quando virava palavra escrita, ganhava outra estrutura lógica, outra perspectiva, e me oferecia outra condição, mesmo em situação desfavorável.

Esta é uma memória que me levará ao céu, Silvina Ocampo? Ou ao inverno? Não parece com leite quente. Mas faz efeitos na garganta do mesmo modo. Ardendo. Foram tantas palavras contidas, engolidas, deglutidas. No café da manhã, almoço, jantar. Muitas vezes sentia como quem quer andar e não tem pernas.

Só porque não tinha as palavras certas. E ficava tudo entalado. Pesando no peito. Ainda tinha uma natural tendência acusatória de quem deveria torcer e cuidar de mim. O que me fez reagir elegendo uma expressão recorrente, desde bem pequena: Não é justo! Era tudo que conseguia dizer. Nem lembro mais onde aprendi. Talvez vendo televisão, ainda em preto e branco.

Então descobri que se pode ferir com palavras. Na primeira oportunidade, vinguei injustiças e acusações levianas. Estava ela a criticar a casa do meu tio, que visitara àquela tarde. E que não tinha arrumação, isso ou aquilo.

- Mas tem televisão a cores – disse num impulso vendo pela primeira vez o silêncio atingir os lábios adultos, que tanto me encarceravam.

Pois é isso. Qual é mesmo a sabedoria em calar palavras? O que há de sábio nisso? Talvez seja preciso ensinar a escolhê-las bem, o melhor que pudermos, desde cedo. Embora muito antes seja necessário ensinar também um senso de ética, justiça e convivência, que estão muito além das palavras. Entranhados difusamente no emaranhado dos gestos e rotinas das famílias.

Sunday, September 22, 2013

A fórmula de Nietzsche

"increscunt animi, virescit volnere virtus"*
         Friedrich Nietzsche


Para viver sozinho é preciso ser um animal ou um Deus - diz Aristóteles - Ainda falta a terceira alternativa: é preciso ser os dois ao mesmo tempo - Filosofo... - completou Nietzsche. Em "Crepúsculo dos Ídolos (ou como filosofar com um martelo)", O alemão mais universal, mesmo que qualquer presidente do país, faz reflexões sobre o assunto que nós, mortais, entendemos menos que qualquer outra criatura nessa esfera terrestre: o apogeu. Algum estado superior que só atingem aqueles que, extraordinariamente "transvaloram" ao confrontar os valores. 

Melhor que tudo, então, é reproduzir o estudo que se encerrou numa data que bem podia ser celebrada como marco e que se aproxima: 30 de Setembro de 1888, em Turim. Dia em que Friedrich entregava suas conclusões escritas sobre a "Transvaloração de todos os valores". Segue o prefácio:

"Conservar a sua serenidade frente a algo sombrio, que requer responsabilidade além de toda a medida não é algo que exige pouca habilidade: e, no entanto, o que seria mais necessário do que a serenidade? Nada chega efetivamente a vingar, sem que a altivez aí tome parte. Somente um excedente de força é demonstração de força. - Uma transvaloração de todos os valores, este ponto de interrogação tão negro, tão monstruoso, que chega até mesmo a lançar sombras sobre quem o instaura - um tal destino de tarefa nos obriga a todo instante a correr para o sol, a sacudir de nós mesmos uma seriedade que se tornou pesada, por demais pesada. Qualquer meio para tanto é correto, qualquer "caso", um golpe de sorte. Sobretudo a guerra. A guerra sempre foi a grande prudência de todos os espíritos que se tornaram por demais ensimesmados, por demais profundos; a força curadora está no próprio ferimento. Uma sentença, cuja origem mantenho oculta frente à curiosidade douta em sido meu lema: 

"increscunt animi, virescit volnere virtus"*

Uma outra convalescença que sob certas circunstâncias é para mim ainda mais desejável, consiste em auscultar os ídolos.... Há mais ídolos do que realidade no mundo: este é meu "mau olhado" em relação a esse mundo, bem como meu "mau ouvido"... Há que se colocar aqui, ao menos uma vez, questões com o martelo, e, talvez, escutar como resposta célebre aquele som oco, que fala de vísceras intumescidas - que encanto para aquele que possui orelhas por detrás das orelhas! - para mim velho psicólogo e caçador de ratos que precisa fazer falar em voz alta exatamente o que gostaria de permanecer em silêncio...

Também este escrito - o título o denuncia - é antes de tudo um repouso, um feixe de luz solar, uma escorregadela para o seio do ócio de um psicólogo. Talvez mesmo uma nova guerra? E novos ídolos são auscultados?... Este pequeno escrito é uma grande declaração de guerra; e no que concerne à ausculta dos ídolos, é importante ressaltar que os que estão em jogo, os que são aqui tocados com o martelo como com um diapasão, não são os ídolos em voga, mas os eternos; - em última análise, não há de forma alguma ídolos mais antigos, mais convencidos, mais insuflados... Também não há de forma alguma ídolos mais ocos... Isto não impede, que eles sejam aqueles em que mais se acredita; diz-se também, sobretudo no caso mais nobre, : que eles não são de modo algum ídolos...

*"Os valores crescem e a virtude floresce, à medida que é ferida". 

"Mesmo o mais corajoso de nós poucas vezes tem coragem para o que propriamente sabe..."

Há mais de quarenta frases - pérolas. Inclusive dirigidas às mulheres. O que não é de se espantar diante do que passou Friedrich na convivência (e paixão) por Salomé, ao mesmo ao lado da irmã e da mãe dominadora. O texto completo: http://www.espacoetica.com.br/midia/livros/idolos.pdf

Perder o quê?

Amanda. Não sei por que uma pessoa pode ser chamada assim. Por que se escolhe um nome, que é feito para que os outros saibam sobre você, que pode dizer logo tanto do que a pessoa tem que deveria estar no lugar mais escondido. Mas este era o nome da menina: Amanda. Que tinha vocação para ser várias coisas, inclusive todas ao mesmo tempo. E que, por hora, deixou-se apenas ser Jardineira.

E Amanda tinha tudo que uma pessoa precisa na vida: um regador chamado "Coragem". Um leão de pelúcia batizado "Impulso" e um abanador, produzido com palha seca, a quem deu nome de "Entusiasmo". Nos dias frios e cor de cinza, o regador de Amanda precisava apenas de uma faísca de luz, uma chama acessa, para refletir, pelo metal tão bem polido, algum brilho. Logo espantava a preguiça e animava a manhã mais invernosa.

Então, Amanda se ponha cedo para fora da cama e ia, sorrindo, regar as flores do jardim, que ela entendia, não eram delas. Estavam ali para que fossem cuidadas por ela. Como se o Universo tivesse destinado a ela a missão de aguá-las todos os dias. Com aquela alegria tola de Amanda, de quem não enxerga os perigos e tem vocação para escolher palavras que despertam o melhor ânimo. Assim fez com cada petúnia, frésia, gérbera ou magnólia que brotara ali. Flores a quem Amanda insistiu em dar acento, porque bem lhe cabiam. Mesmo quando alguma delas, sem avisá-la, fazia-se chamar sem circunflexo, agudo ou crase.

Nos dias de muito sol, e da iminência da chegada da música nas ruas, por celebração da farta colheita, Amanda comemorou e vibrou pelo tanto de flores nas ruas. Fez tudo que estava ao seu alcance, e até mesmo além dele, para vê-las nos palcos, floreando. Amanda, na companhia de seu leão mais que querido, assistiu a tudo se reconfortando.

Impulso era um bichinho alto, com a juba espessa, loira, que parecia pendões de trigo balançando ao sabor da brisa ou do vento mais forte. Era como um girassol, de tantas pétalas, voltando sua corola para a estrela maior da via láctea. E, por uma inexplicável mágica, os caminhos abarrotados de gente, pelas ruas estreitas da cidade, festejando e dançando, se abriam num simples movimento de Amanda e seu leãozinho.

Outono e primavera passaram sem que Amanda sequer percebesse que as estações mudavam. A companhia da mascote preenchia os dias de forma que Amanda não sentia falta sequer das flores. Até que, de repente, num dia de vendaval, pois era o mês de Agosto, afinal. Amanda recebeu a visita de um carteiro. Uma estranha sensação invadiu o coração de Amanda. Os olhos do carteiro estavam voltados para o chão. E não se ergueram sequer para enxergar se as mãos dele miravam direito onde estavam as mãos de Amanda, para as quais a carta estava destinada.

Amanda não sabia o que fazer. A carta estava endereçada a ela, com seu nome e endereço, mas o que poderia conter de tão trágico ali? O carteiro seguiu o caminho de volta ao portão, sem sequer olhar para o jardim cultivado por Amanda. A menina, que já era moça a esta altura, segurou a carta com uma leve taquicardia. Antes de abrir, pegou seu espanador, espanou bem a poeira da estrada e desprendeu o lacre que, superficialmente, prendia a aba do envelope vermelho.

De dentro, saiu uma nuvem escura, cor de chumbo, carregada de tristeza. A carta dizia que aquele jardim não deveria mais ser cuidado por Amanda. Que tem este nome e nem ela mesma sabe por que ou para quê. Para que serve um nome que já diz de você, aquilo que deveria estar mais em segredo?

Amanda juntou todas as coisas que tinha. Que era tudo o que uma pessoa precisa: um regador, chamado "Coragem". Um leão de pelúcia batizado "Impulso" e um abanador, de palha seca, a quem ela deu nome de "Entusiasmo". E seguiu sua viagem até outro lugar. Outro jardim que se queira cultivar por Amanda.

Além do que a gente já sabe que Amanda tem, ela, às vezes, esquece que ganhou do universo, quando nasceu, a mania de perder. Amanda perde tudo que se pode pegar com as mãos. Então, perdeu aquela carta também. O que mais intriga, até os dias de hoje, já uma mulher, é que a vocação para perder lhe deu a ausência do medo. E isso é difícil de entender. Afinal, onde se abrigar nos dias frios? Sob que teto acolher pensamentos amadores, como estes, pertencentes à Amanda? Pode ter escapado um detalhe: Se perdeu o que tinha, embora reste o que alguém precisa ter, não há motivo para temer.

O fato é que, a mania de perder, tirou tanta coisa de Amanda, tirou tudo! Inclusive o que nem chega a ser bom conselheiro. Agora, que não tem mais motivo, Amanda terá coragem, impulso e entusiasmo para viver a própria vida? Quem sabe o extraordinário seja demais? E Amanda, finalmente aprendeu que o necessário faz viver em paz? Talvez troque flores por livros, e deixe de lado o ordinário e o extra. O que Amanda só entendeu com esta perda é que, para muita gente no mundo, é preciso estar em guerra, permanente, contra quem ama. E isso, está no nome de Amanda. Tem como evitar?




Saturday, July 06, 2013

Por empréstimo a Lorca

Pego, por empréstimo, 
palavras de Lorca, 
traduzidas por Oscar Mendes, 
por me faltarem faz tempo,
como água em regiões do Sertão. 
Na minha filosofia, é de direito
até a palavra alheia 
socorrer o cidadão e a cidadão 
do padecimento tísico 
da abstinência úmida:


Gazel do Amor Imprevisto


O perfume ninguém compreendia
 da escura magnólia de teu ventre. 
Ninguém sabia que martirizavas 
entre os dentes um colibri de amor. 

Mil pequenos cavalos persas dormem 
na praça com luar de tua fronte, 
enquanto eu enlaçava quatro noites, 
inimiga da neve, a tua cinta. 

Entre gesso e jasmins, o teu olhar 
era um pálido ramo de sementes. 
Procurei para dar-te, no meu peito, 
as letras de marfim que dizem sempre, 

sempre, sempre; jardim em que agonizo, 
teu corpo fugitivo para sempre, 
teu sangue arterial em minha boca, 
tua boca já sem luz para esta morte. 

Federico García Lorca, in 'Divã do Tamarit' 
Tradução de Oscar Mendes

Tuesday, December 18, 2012

Um pequeno trecho da página 28, do romance A Maçã no Escuro, faz refletir sobre quem são os personagens da trama de Clarice:

"O pássaro tremia todo (no parágrafo anterior confessara que seria negro e estava pousado num ramo baixo, à altura de seus olhos) na concha da mão sem ousar piar. O homem olhou com uma curiosidade grosseira e indiscreta a coisa na sua mão como se tivesse aprisionado um punhado de asas vivas. Aos poucos o pequeno corpo dominado deixou de tremer e os olhos miúdos se fecharam com uma doçura de fêmea".

O parágrafo continua. Mas eu precisava vê-lo encerrando aqui. Mas continua:

"Agora, contra os dedos extremamente auditivos do homem, somente a batida diminuta e célere do coração indicou que a ave não morrera e que o aconchego a resignara enfim a descansar".

Mais ainda. Sempre para o alto:

"Espantado com a perfeição automática do que lhe estava acontecendo, o homem rosnou olhando para o pequeno bicho - a satisfação fê-lo rir alto, com a cabeça inclinada para trás, o que fez sua cara defrontar o grande sol. Depois deixou de rir como se isso tivesse sido uma heresia".

Certo. Estou acompanhando serenamente:

"E compenetrado com sua tarefa, a mão semicerrada deixando de fora apenas a cabeça dura e aguda da ave, o homem recomeçou a andar com muita força tomando conta do companheiro. A única coisa que nele pensava era o ruído dos próprios sapatos ecoando na cabeça que o sol agora tranquilamente incendiava".

Se não estar a pensar na plenitude do ser. Na completude do espírito, sobre o quê Clarice está a perscrutar?

"E em breve, com a sequência dos passos, de novo o gosto físico de estar andando começou a tomá-lo, e também um prazer mal discernido como se ele tivesse ingerido uma droga afrodisíaca que o fizesse querer não uma mulher, mas responder ao tremor do sol".

Vamos compreender agora o valor que está no humano e para além do humano:

"Nunca estivera tão perto do sol, e andava cada vez mais depressa segurando à frente de si a ave como se fosse levá-la antes que o correio fechasse. A vaga missão o inebriava. A leveza que vinha da sede, de repente tomou-o em êxtase:

- É, sim! disse alto e sem sentido, e parecia cada vez mais glorioso como se fosse cair morto".

Já na página 29, sinto que brinca comigo:

"Então repetiu com inesperada certeza: "é sim!" Cada vez que dizia essas palavras estava convencido de que aludia a alguma coisa. Fez mesmo um gesto de generosidade e largueza com a mão que segurava o passarinho, e magnânimo pensou: "eles não sabem a que estou me referindo".

(riu Clarice - risos)

Monday, December 03, 2012

Reflexo dos Górgias (Editora Paés, 2012)


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Górgias e a Retórica (por Sócrates)


IV — Sócrates — Então, comecemos. Já que te apresentas como entendido na arte da retórica e também como capaz de formar oradores: em que consiste particularmente a arte da retórica? Assim, por exemplo, a arte do tecelão se ocupa com o preparo das roupas, não é verdade?
Górgias — Sim.
Sócrates — E a música, com a composição do canto?
Górgias — Sim.
Sócrates  — Por Hera, Górgias! Tuas respostas me agradam; mais concisas não poderiam ser.
Górgias — Eu também, Sócrates, acho que estou respondendo como é preciso.
Sócrates — Dizes bem. Então, responde -me da mesma forma a respeito da retórica: Qual é o objeto particular do seu conhecimento?
Górgias — Os discursos.
Sócrates  — De que discursos, Górgias? Porventura os que indicam aos doentes o regime a ser seguido para sararem?
Górgias — Não.
Sócrates — Logo, a retórica não diz respeito a todos os discursos.
Górgias — É claro que não.
Sócrates — No entanto, ela ensina a falar.
Górgias — Sim.
Sócrates — E, por conseguinte, também a compreender os assuntos sobre que ensina a falar.
Górgias — Como não?
Sócrates — E a medicina, a que nos referimos há pouco, não deixa também os doentes capazes de pensar e de falar?
Górgias — Necessariamente.
Sócrates — Sendo assim, a medicina, ao que parece, também se ocupa com discursos?
Górgias — Sim.
Sócrates — Os que se referem às doenças?
Górgias — Exatamente.Sócrates — E a ginástica, não se ocupará também com discursos relativos à boa ou má disposição do corpo?
Górgias — Sem dúvida.
Sócrates — O mesmo se dá com as demais artes,  Górgias, ocupando-se cada uma com
discursos relativos ao objeto de que seja propriamente arte.
Górgias — É evidente.
Sócrates — Então, por que não dás o nome de retó rica às outras artes, se todas ela s se
ocupam com discursos, e chamas à retórica arte dos discursos?
Górgias — É porque nas outras artes, Sócrates, todo o conhecimento, por assim dizer,
diz respeito a trabalhos manuais ou a práticas do mesmo tipo, ao passo que a retórica nada
tem que ver com a atividade das mãos, sendo alcançados por meio de discursos todos os seus
atos e realizações. E por isso que eu considero a retórica arte do discurso, e com razão,
segundo penso.

(...)


Górgias — O fato de por meio da palavra poderem convencer os juízes no tribunal, os senadores no conselho e os cidadãos nas assembléias ou em toda e qualquer reunião política. Com semelhante poder, farás do médico teu escravo, e do pedótriba teu escravo, tornando-se manifesto que o tal economista não acumula riqueza para si próprio, mas para ti, que sabes falar e convencer as multidões.

VIII — Sócrates — Quer parecer-me, Górgias, que explicaste suficientemente o em que consiste para ti a arte da retórica. Se bem te compreendi, afirmaste ser a retórica a mestra da persuasão, e que todo o seu esforço e exclusiva finalidade visa apenas a esse objetivo. Ou tens mas alguma coisa a acrescentar sobre o poder da retórica, além de levar a persuasão à alma dos ouvintes?

Fonte: http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/gorgias.pdf

Thursday, August 23, 2012

A espera e a recompensa


Dia de sol é injeção de ânimo. A alma, quando percebe toda a luz e energia brilhante que se espalha lá fora das quatro paredes onde se mora, fica acesa e iluminada também. Então sai assim. Colorida, com os ombros de fora, hidratei e protegi a pele para a caminhada até o de trabalho. Blusa branca, esvoaçante, espécie de mini vestido, sobre o jeans surrado. Sapatos confortáveis, cabelos soltos e brincos de palhinha dourada. Um mimo. E eu tão alegre a tagarelar tolices.

Feliz por entender estar construindo algo novo. Um sonho de novo lar, com mais espaço, mais história, mais tons que o preto e branco de agora. Cometi um erro apenas. Uma bobagem: Tão confiante que estava na harmonia promovida pelos raios solares. Crente de que todos os outros seres humanos estariam também investidos dessa energia positiva. De tanta fé na vida, não escondi o entusiasmo por estar viva.

Para minha surpresa, não havia explicação para as esquisitices que sucederiam, já a partir da primeira esquina: Um passarinho morto, de asas fechadas, na calçada em que caminhava. Como pode um ser que voa, que habitualmente se encontra nos céus ou galhos de árvores, ali no chão, como algo empalhado. Talvez tenha sido pelo eletrocutado ao pousar distraído na fiação de alta tensão. Estranha comunicação aquela do Universo. O que Deus estaria querendo dizer com aquilo?

Logo depois, uma senhora, de idade, cabelos grisalhos, numa distinção de sabedoria negra, fazia repetidas vezes o sinal da cruz voltada para a Estrada do Encanamento. Debaixo da sombra das árvores do Sítio da Trindade. Como poderia decifrar, ainda estava sob efeito do espanto, a desconexão entre seres tão livres quanto pássaros, embora mortos, e o sincretismo religioso daquela senhora negra como a noite mais feliz?

O fato seguinte, foi abordagem de um senhor de olhar confuso, perguntou sobre acesso ao "Espinhadeiro". Seria o bairro do Espinheiro? Questionei sem esperanças, na expectativa de poder ajudar tola e superficialmente indicando trajeto à Tamarineira, impregnada pelo efeito da palavra e pela confusão que vi nos olhos dele. Se as letras estavam trocadas, imagine quantas ideias o confundiam. A forma de perguntar foi tão pouco convidativa, com mãos e braços exasperados em minha direção, para voluntária ajuda a um estranho, que dessa vez não parei. Com medo e a certeza do fracasso, desculpei a mim mesma porque não ter a informação.

Continuei caminhando refletindo sobre a tal quinta-feira tão ensolarada e, ao mesmo tempo. treze. Carregada de símbolos que não compreendia, nem decifro agora mesmo. Depois do que achei, seria tudo, três homens queriam tomar de assalto, sobre o viaduto. A construção liga o bairro do Parnamanirim à Torre e onde foi erguida para favorecer supermercado de nome francês. Dou a eles ouvidos moucos, talvez porque levava comigo  a única máquina que restou nos últimos anos de trabalho. Nela mais de 300 textos, contra três míseros homens? Barbada. Não pensei duas vezes. Nem hesitei em atravessar o lugar reservado aos carros. Não dei não a bolsa.

Dei de ombros àquela ordem com um desdém danado, dizendo "dou nada" e expressando a minha fúria com uma deselegante exibição do meu dedo de dimensão máxima. Arrisquei sim, durante o ocorrido, por duas vezes, a vida e o resultado de tantos anos de dedicação e escrita talhada em teclas suaves, num teclado como este, circunscritas. Primeiro por ter cruzando a pista, sem olhar se os carros vinham. Depois pela ousadia de chegar tão perto, tentando apressando o passo deles com o barulho de um jornal sobre a mão ora aberta ora fechada.

O que eu sabia, e eles nem desconfiavam, é que ali, naquela bolsa, estava a década que não foi perdida. Um dos homens, achando que eu temeria uma frase, praguejou: "vai morrer atropelada". Não foi dessa vez. Não morri porque não me usurparam ali, no viaduto, sob o sol das dez da manhã, de uma quinta treze linda, a máquina e o celular com infinidade de contatos irrecuperáveis e mensagens guardadas. Voltei pra casa. Acomodei em local mais seguro a bolsa com a máquina. Renascida e motivada pela violência, voltei a escrever. Depois de estar tão morta por meses, que pareceram anos, pelo menos para mim.

O final desta história é ainda mais feliz e justo ao saber que eles ficaram esperando que eu atravessasse novamente o viaduto, para na segunda vez bem suceder no assalto. Vão esperar para sempre, porque o medo de encontrá-los novamente, fez afinal minha mente se convencer de abrir mão das caminhadas em quintas-feiras ensolaradas e descobrir horário e ponto de partida do coletivo que diariamente faz viagens  com passageiros talvez mais avisados do que eu, com o mesmo destino que escolhi. Se não descobri isso antes, foi por impaciência mesmo. Porque se as empresas divulgassem o trajeto dos ônibus e horários certos da passagem pelas paradas, tudo seria bem mais simples. E seguro.

Tuesday, June 19, 2012

Sobre o amor    
                            
O fato é que é preferível a verdade, faça sofrer ou não, que qualquer "bem intencionada" mentira. Até mesmo porque o Amor só existirá no instante depois. Pelo menos é o que preferimos nós filósofos. Sobre o amor, Barthes já observava: o amor é um assunto mais obsceno, para nossos contemporâneos, do que o sexo. Mais incômodo. Mais íntimo. Mais difícil de dizer, de mostrar, de pensar. Digamos que a sexualidade tornou-se uma espécie de regra, à qual não há como não se submeter. O amor seria antes uma exceção. A sexualidade faz parte de nossa saúde. O amor seria antes uma doença, em todo caso um distúrbio. A sexualidade é uma força. O amor seria antes uma fraqueza, uma fragilidade, uma ferida. A sexualidade é uma evidência; o amor, um problema ou um mistério. Pode-se duvidar, inclusive, de sua existência ou, no mínimo, de sua verdade: e se fosse apenas um sonho, uma ilusão,uma mentira? Se por toda parte existisse apenas o sexo e o egoísmo?

Se o amor só existisse, como sugeria La Rochefoucauld , na medida em que falássemos dele? (…) Amar é poder desfrutar ou regozijar-se de algo ou de alguém. É, portanto, também poder sofrer, já que prazer e alegria dependem aqui, por definição, de um objeto exterior, que pode estar presente ou ausente, dar-se ou recusar-se. “Em relação a um objeto que não é amado, escreve Espinosa, nenhuma querela nascerá; não sentiremos tristeza se vier a perecer, nem ciúmes se cair em mãos de outro, nem temor, nem ódio, nem perturbação da alma…”, Estamos longe disso, e basta dizer que o amor nos prende como a ele nos prendemos. Se nada amássemos, nem nós mesmos, nossa vida seria mais tranqüila do que é. Mas é que também já estaríamos mortos.

Não se pode viver sem amor, explica Espinosa, já que é o amor que faz viver: “Em razão da fragilidade de nossa natureza, sem algo de que gozemos, a que estejamos unidos e por que sejamos fortalecidos, não poderíamos existir.” O amor é uma potência – potência de gozar e de regozijar-se – mas limitada. Por isso ele marca também nossa fraqueza, nossa fragilidade, nossa finitude. Poder gozar e poder sofrer caminham juntos, como a alegria e a tristeza, e é o que significa e ao temor, ao gozo e à falta, enfim ao trágico e à insatisfação. (…) O que é o amor? Espinosa dá esta bela definição: “O amor é uma alegria acompanhada da idéia de uma causa exterior.” Amar é regozijar-se de. Mas, e se a causa faltar? Resta, então, apenas a mágoa ou a falta. É onde se pode pensar a relação entre duas definições do amor, que dominam toda a história da filosofia.

Há a de Espinosa, que já era, no essencial, a de Aristóteles: “Amar, dizia este último, é regozijar-se.” E há em seguida a de Platão, que parece dizer bem o contrário. O amor, para Platão, não é primeiramente um alegria. O amor é falta, frustração, sofrimento: O que não temos, o que não somos, o que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor.” São dois amores diferentes, que os gregos designavam por duas palavras diferentes: philia, para a alegria de amar, e eros, para a falta.(…) A falta e a alegria, Eros e philia, não são menos diferentes um do outro. Eros é primeiro, claro, já que a falta é primeira: vejam o recém-nascido que busca o seio, que chora quando lho retiram. É o amor que toma, o amor que quer possuir e guardar, o amor egoísta, o amor passional; e toda paixão devora. Te amo: te quero. Como este amor seria feliz? É preciso amar o que não temos, e sofrer com essa falta; ou então ter o que não falta mais (já que o temos) e que por isso amamos cada vez menos (já que só sabemos amar o que falta). Sofrimento da paixão, tédio dos casais. Ou então é preciso amar de outra maneira: não mais na falta, mas na alegria, não mas na paixão mas na ação – não mais em Platão mas em Espinosa.

André Comte-Sponville descreve longamente, sobre o amor, deseperadamente: "Te amo: sinto-me feliz porque existes". Todo casal feliz, e apesar de tudo existem alguns, é uma refutação do platonismo. Eros é a falta e a paixão amorosa: é o amor que prende ou quer prender. Philia é a potência e a alegria duplicada pelas do outro: é o amor que regozija e compartilha. Olhem a mãe e o filho. O filho toma o seio: é Eros, o amor que toma, é a própria vida. E a mãe dá o seio: é philia, o amor que dá, graças ao qual tudo continua e muda. Pois a mãe foi primeiro um filho: como todos, começou tomando. Mas aprendeu a dar, pelo menos a seus filhos, e é o que se chama um adulto. No início existe apenas Eros (há apenas o isso, como diz Freud), e talvez disso não escapemos: cada um começa tomando e não pára nunca. Mas, enfim, trata-se de aprender a dar, ao menos um pouco, ao menos à vezes, ao menos àqueles que amamos àqueles que nos fazem bem ou nos regozijam (…) Dar sem tomar? Regozijar-se sem querer possuir nem guardar?

Seria philia liberada de Eros, seria o amor liberado do eu, a alegria da falta, e foi o que os primeiros cristãos- quando foi preciso traduzir para o grego a mensagem do Cristo – chamaram ágape, que pode ser traduzido indiferentemente por amor ou caridade. É o amor liberado do eu, e por isso sem fronteira, sem margem, sem limite. Que deles sejamos capazes, duvido muito. Mas, enfim, isso indica pelo menos uma direção, que é a do amor: o amor não é o contrário do egoísmo; é seu efeito, sua foz - como um rio se lança no mar -, enfim seu remédio ou, como diria Espinosa, sua salvação. Vais passar toda tua vida a buscar um seio, ou a querer guardá-lo, ou a dele sentir saudades, quando há um mundo inteiro a ser amado? Nunca se ama demais. Ama-se mal e mesquinhamente. O amor é falta ou plenitude?"

Amor e demência




      Amor é uma espécie de demência. É preciso abstrair opiniões sobre fatos para amar alguém. Porque a pessoa não virá em constituição de leis, artigos, emendas. Ela virá incompleta e imperfeita, sem seguir qualquer regra, por mais disciplinada que seja. Porque demência, ao pé da letra, quer dizer diminuição da mente. Perda progressiva da capacidade cognitiva. E, pelas anotações que faço, por puro reflexo condicionado, posso identificar que é contagioso. Sempre que sinto, mesmo sem querer, repasso.

     Porque amar é um estágio de demência. Ele passa, mas enquanto dura pode fazer tudo funcionar ao contrário do esperado. Vide Romeu e Julieta. Não entendeu? Eu explico, acompanhe comigo: É provável que o objeto amado ganhe mais nuances em cores berrantes das imperfeições ou incompletudes do que almeja, justo porque seu olhar sobre ele seja assim rigoroso e atento a tão mínimos e pequenos detalhes. Por isso que, quando se quer amar a mesma pessoa, é preciso sentir, mas quando vir, não olhar. Expliquei ou falei do contrário? Será que estou por amores a você?

     Amar exige essa espécie de demência. Porque o demente não percebe o ambiente em tudo que ele representa. Talvez atenha, inclusive, a um detalhe que lhe agrada e amplie na tela como se faz agora com polegar e indicador juntos nos aparelhos mais espertos. Tem que olhar a ética que o outro inventou para ele. e suportar, aceitar. Mas isso já não seria amar. Porque se amor é admiração, como se pode amar sem admirar? Então a gente quer opinar, corrigir e isso já não é mais amor. Não quando se quer mudar. Fazer ouvido de mercador - para negociar depois - às frases extremistas, radicais, invertidas, subversivas, carregadas de boicotes em si mesmas. Tem que fazer vista grossa aos maus humores. Talvez por isso interesse você, que eu amo, nem gostar de mim.

     Amar amar mesmo, em dedicação contínua de atenção, exige um bocado de demência, de limitação. Acredito por leitura, e opinião amalgamada por experiência e conveniência, que tenha mesmo apenas três anos de duração esse efeito. As reações químicas por todo o cérebro e corpo não duram para sempre. Agora, que passou um ano, posso dizer que amor é o tipo de demência que se instala na pessoa e sai quando quer, porque não entende qualquer ordem ou obediência. Amar é uma demência. Que seja passageira. Porque amor mesmo, é o que vem depois.

Um bom vinho

Ali na prateleira estava seu sonho. Seu vinho português preferido: Carcavelos. Não por acaso, produzido numa das menores regiões demarcadas de Portugal. Ainda, localizada na costa de Estoril, próxima da Foz do Tejo. Ex – Costa do Sol. Distante apenas dez quilômetros de Lisboa. Tudo na história daquela garrafa interessava a Marta.
Interessava, por exemplo, que Carcavelos fora demarcada em 1908, que fora o Marquês de Pombal seu principal defensor. Seu modo de estar, plenamente, rodeada de urbanizações. Mas, principalmente, pelo fato de produzir um vinho generoso. Feito em bica - aberta. Tal como outras regiões esta corre sérios riscos de extinção.
Marta era uma mulher severa e muito sozinha. Tinha hábitos que remetiam as pessoas mais antigas. De uma organização simples, quase franciscana. Mas com este requinte. Gostar de origens. Ter um apego às coisas com significados e tradições. E coincidências como datas. Quer saber uma que pegou Marta? Ela nasceu no mesmo dia em que a região de Carcavelos foi demarcada. Exatos dois séculos depois que o Marquês do Pombal, enviou vinho da sua quinta Oeiras, para a corte de Pequim, na China.
Isso foi em 1752. Ela se pergunta se, naquela época, era mais fácil conseguir uma garrafa. Por ser uma região ocupada pela vinha muito pequena, e, por esta razão, o Carcavelos dificilmente se encontrar no mercado. Para que todos entendam melhor a grande afeição de Marta, preciso dizer que trata-se de vinho licoroso, de graduação alcoólica com variação de 18º a 20º e que alguém já tomou como melhor indicado enquanto aperitivo ou vinho de sobremesa, pelo grau de doçura.
Assim como é a própria Marta, que produz mais pensamentos livres de impurezas que doçura, em suas dores caladas. Por empenho e força de buscar as infindáveis características da bebida preferida feita em uvas pisadas. Sobre seu vinho, costuma dizer para amigos que carrega suavidade em tema e paladar aveludado. Só esconde saber do seu envelhecimento rápido. Pelo tempo de dois anos em casco, bastante para introdução da rolha e para que seja engarrafado. Selado. Identificado por uma família com rótulo. Para, então, ser comercializado.
Carcavelos vem com ligeiro tanino e é rico em álcool natural. Tudo que aprendi com Marta. Que conheceu Carlos, por intermédio de Fátima, depois de Marta lhe apresentar ao vinho. Formam, hoje, dois casais. Completos em suas essenciais parcerias para todo o sempre.           
Como no último final de semana em que estivam juntos. Marta, Carlos, Fátima e uma rara garrafa de Carcavelos. Conversaram muito, ajudando a compreender seus mistérios. A preencher seus vazios. Reviram aflições que só solidões despertam. Numa daquelas interações de seres mais completos. Foram duas noites indescritíveis. Como fossem pintadas por Monet. Uma bela lua, vento soprando cabelos na varanda. Até o vinho Carcavelos, presente fisicamente em todos. Nos copos e nos corpos, deixaram espreguiçadeiras balançando, em direção à leve noite de sono. Em abraço ampliado.
No sonho de Fátima, sem qualquer explicação, estava a imagem de Carlos. Não como o amigo de sempre, porque nunca esteve interessada amorosa ou sexualmente nele. Marta despertou estranhando a sim mesma. E serviu um café da manhã, mais forte que o de costume, para existências agora incompletas e confusas, espectros difusos.
Chegou à conclusão de que, embora gostasse muito da amiga Fátima, naquela troca, tomaram muitas liberdades. E que agora, o melhor mesmo seria uma amizade à distância. Para que o vazio deixado, Fátima fará que seja preenchido por novos parceiros. Escolhidos para a ocasião, como vestidos, ou como são, por Fátima, os vinhos. Ambas sentem falta de ponderações ajuizadas em cumplicidades de amizade de tão longa data. Mas, ao mesmo tempo, tanto para Marta quanto para Fátima ficou a lição, de que não se pode ter tudo, ao mesmo tempo na vida. Ou bem um homem, ou bem um bom vinho.

Saturday, June 16, 2012


Bloomsday!!: 


Para além dos Dublinenses, livro pouco comentado de Joyce, no Brasil, é a coletânea de contos, pela Coleção de Clássicos Modernos, da Ediouro, com tradução de Hamilton Trevisan. Apenas quatro deles apenas: A pensão, Os Mortos, Eveline e Arábia. 

O mais comovente e envolvente, na minha opinião, é mesmo o primeiro, sobre o drama da personagem Polly, filha de madame Mooney, ex-mulher do açougueiro e dona da pensão. Mas neste dia, gostaria de ressaltar trecho do segundo conto. E destacar da história trecho da conversa entre dois personagens do animado e controverso grupo participante da quadrilha - dança típica irlandesa. Molly havia-se dito "envergonhada" ao descobrir de quem se tratava o pseudônimo G.C. E, em tom sério, toma satisfações sobre o amigo de longa data escrever para um jornal "anglófilo": 

"Gabriel estava perplexo. Era verdade que escrevia a resenha literária semanal do Daily Express recebendo para isso quinze xelins. Mas, por certo, não fazia dele um traidor. Os livros que recebia para comentar davam-lhe muito mais prazer que o ínfimo cheque. Gostava de sentir as capas e virar as páginas dos livros acabados de imprimir.

(...) 

Não sabia com enfrentar aquele ataque. Queria dizer que a literatura estava acima da política, mas eram amigos a muitos e muitos anos e suas carreiras - primeiro na Universidade, depois como professores - tinham sido paralelas: não poderia arriscar uma frase grandiosa com ela. Continuou a piscar os olhos," 

(Contos, Os Mortos, James Joyce, tradução: Hamilton Trevisan). Boa leitura!


Nota de rodapé: na foto, que bem serviria para anunciar o dia de homenagens a James Joyce, é um instantâneo (anterior ao instagram) de autoria de João Valadares, na companhia do amigo de longa data, também jornalista, não colaborador de algum jornal "anglófilo", que eu saiba, Lula Portela. http://www.ufrgs.br/proin/versao_2/joyce/index.html