Lugar da delicadeza com o outro e com a própria Liberdade.

Onde se está de acordo com o único modo do humano de ser feliz

Wednesday, July 23, 2008

por André Comte-Sponville

Que fazer? Como escapar desse ciclo da frustração e do tédio, da esperança e da decepção? Há várias estratégias possíveis.
Em primeiro lugar, o esquecimento, a diversão, como diz Pascal. Pensemos rápido em outra coisa! Façamos como todo o mundo: finjamos ser felizes, finjamos não nos entediar, finjamos não morrer...
Não vou me deter nisso.
É uma estratégia não-filosófica, pois em filosofia, trata-se justamente de não fingir.
Segunda estratégia possível: o que chamarei de fuga para a frente, de esperanças em esperanças. Mais ou menos como esses jogadores da loto, que todas as semanas se consolam de terem perdido com a esperança de que ganharão na semana seguinte.... Se isso os ajuda a viver, não sou eu quem vai criticá-los. Mas, aqui também, vocês hão de convir que isso não é filosofia, e muito menos sabedoria.
A terceira estratégia prolonga a precedente, mas mudando de nível. Já não é uma fuga para a frente, de esperanças em esperanças, mas antes um salto, como diria Camus, numa esperança absoluta, religiosa, que não é suscetível, acredita-se, de ser decepcionada (já que, se não há vida depois da morte, não haverá mais ninguém para percebê-lo). No fundo, é a estratégia de Pascal.
O mesmo Pascal que explica tão bem que, "dispondo-nos sempre a ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos", é o que escreve em outro fragmento dos Pensamentos:
"Só há bem, nesta vida na esperança de outra vida."
É o salto religioso: espera a felicidade para depois da morte. Ou em termos teológicos: passar da esperança (como paixão) à esperança (como virtude teologal: porque ela tem Deus mesmo por objeto). Essa estratégia tem suas cartas de nobreza filosófica...
Mas é preciso, além do mais, ter fé, e vocês sabem que não a tenho.
Ou estar disposto a apostar a vida, como diria Pascal, e a isso eu me recuso: o pensamento deve se submeter ao mais verdadeiro, ou ao mais verossímil, e não ao mais vantajoso.
Portanto tive de tentar inventar, ou reinventar, outra estratégia. Não mais o esquecimento ou a diversão, não mais a fuga para a frente de esperanças em esperanças, não mais o salto numa esperança absoluta, mas ao contrário, uma tentativa de nos libertar desse ciclo da esperança e da decepção, da angústia e do tédio, uma tentativa - já que toda esperança é sempre decepcionada - de nos libertar da própria esperança.
É o que me leva a meu segundo ponto...
(A Felicidade desesperadamente)
Madeleine Peyroux
Look down, look down
That lonesome road
Before you travel on
Look up, look up
And seek your maker
Before Gabriel blows his horn
I'm weary of toting, such a heavy load
Trudging down, that lonesome road
Look down, look down
That lonesome road
Before you travel on
I'm weary of toting, such a heavy load
Trudging down, that lonesome road
Look down, look down
That lonesome road

Before you travel on
Before you travel on

"Penso que um escritor deve ser ético, no sentido de que se narra um sonho, se narra uma fábula, se narra um conto fantástico ou um conto de ficção científica, deve acreditar nesse sonho. Quero dizer, ele sabe que isso que narra historicamente não é real, mas tem de ser algo que sua imaginação aceite; e o leitor também percebe se sua imaginação aceita isso ou não, já que um leitor descobre imediatamente as insinceridades em uma obra: penso que quando alguém lê algo, percebe se o autor o imaginou, ou se simplesmente está brincando com palavras; penso que isso se sente imediatamente se você é um bom leitor. Tenho certeza de que não sou um bom escritor, mas acredito ser um bom leitor, o que é mais importante, já que, bem, dedicamos pouca parte de nosso tempo à escritura e muito à leitura".


Reencuentro. Diálogos inéditos, Jorge Luís Borges e Osvaldo Ferrari, 1999.

Thursday, July 17, 2008


Sim o amor é líqüido. E ele transporta...
Como um rio por onde se pode chegar desse a outro lugar. É fluido. É possível em qualquer forma, em qualquer canto do mundo, em qualquer difícil estreita passagem.


"O amor é como a água, pois consegue se amoldar a tudo, ultrapassar barreiras, encontrar brechas por onde escapa".

Ingrid Betancourt (de Carol: Flores!)


A Cartomante
Machado de Assis


Hamlet obesrva a Horácio que há mais cosas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.


- Ria, ria. Os homens são assim: não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa...". Confessei que sim, e então ela continuou a botas as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...


- Errou! interrompeu Camilo, rindo.


- Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa... Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...


Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casa. Vilela podia sabê-lo e depois...


- Qual saber! Tive muita cautela, ao entrar na casa.


- Onde é a casa?


- Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.


Camilo riu outra vez:


- Tu crês deveras nessas coisas?, perguntou-lhe.





Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita coisa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.


Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirma, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.





Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo não só o estava mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu, pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.





Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura, e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.





- É o senhor?, exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do senhor.





Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.





Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.





Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela; era a sua enfermeira moral quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; ela mal, ele, para lhe se agradável, pouco menos mal. Até aí as coisas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as coisas que o cercam.

Wednesday, July 16, 2008


"Enquanto passava sobre o longo caminho elevado aberto com a estrada de ferro através da campina, deparava-me com muitos ventos roncando e crestando de frio, pois em nenhum outro lugar gozam de mais liberdade; e quando a geada me esbofeteava numa face, apesar de não se cristão, voltava-lhe a outra. A situação não era melhor na estrada para carros que partiam da colina, de Brister. Pois, feito um índio bem disposto, eu me dirigia à cidade quando toda a neve dos vastos campos abertos se acumulara de um lado e outro nos taludes da estrada de Walden,"

(...)


Henry D. Thoreau

A vida nos bosques

Monday, July 14, 2008


A escritora Silvina Ocampo nasceu em Buenos Aires nasceu em 1906 e morreu em 1993. Ainda nos anos 40, conheceu Jorge Luís Borges e por intermédio dele, o homem que viria a ser seu marido. O também escritor Adolfo Bioy Casares. "Rezam lendas" que Silvina foi responsável por escolher músicas que inspiravam o momento de criação de ambos, na produção de obras como "histórias policiais". Dali sairiam "instantes" que contribuíram para a concepção da realidade literária latino-americana. Ainda atual. Silvina foi aluna do pintor Giorgio de Chirico e conviveu com outras figuras do meio literário. É dela o texto, livremente, traduzido a seguir:


"Quando morreres, os demônios e os anjos, que são igualmente ávidos, sabendo que estás adormecido, um pouco neste mundo e um pouco em qualquer outro, chegarão disfarçados em teu leito e, acariciando tua cabeça, te darão a chance de escolher entre as coisas que preferiste ao longo de tua vida.


Abrindo todo o leque de opções vão mostrar-te tua sorte. A princípio, eles ensinarão as coisas elementares. Se te ensinarem o sol, a lua ou as estrelas, tu verás em uma esfera de cristal pintada e vais crer que essa esfera de cristal é o mundo. Se te mostrarem o mar ou as montanhas, tu verás uma pedra e vais crer que essa pedra é o mar e as montanhas; se te mostrarem um cavalo, mesmo que seja uma miniatura, tu acreditarás que aquele é um verdadeiro cavalo. Os anjos e os demônios distrairão teu ânimo com retratos de flores, frutas abrilhantadas e bombons fazendo-te crer que és, todavia, uma criança, te sentarão num acento de mãos, chamada também de acento do rei ou acento de ouro, e desse modo te levarão em mãos entrelaçadas, por aqueles corredores ao centro da tua vida, onde moram tuas preferências.


Tens cuidado: se elegeres mais coisas do inferno que do céu, iras talvez ao céu, do contrário, se elegeres mais coisas do céu que do inferno, corres o risco de ir ao inferno, pois teu amor pelas coisas celestiais denotará mera concupiscência. As leis do céu e do inferno são "voláteis". Depende de um ínfimo detalhe que vás de um lugar a outro. Conheço pessoas que por uma chave girada numa gaiola de vime foram ao inferno e outras que por papel de diário ou um copo de leite, ao céu".

Saturday, July 12, 2008


"Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes.
Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios.
Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa.
Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é a angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa.
Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses.
Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos.
Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade com que se escapa da peste, Lóri, e esperarei até você também estar mais pronta."

Wednesday, July 09, 2008

vejo folhinhas que crescem

broto estou eu mesma

depois que afundei.

E foi mergulho tão doce,

que deu-se em câmera lenta

em água limpa prateada

nem era noite de lua

e

eu

saí

vendo

a pele da cor
de jóia tão rara...

Saturday, July 05, 2008

A cada minuto
um pequeno suicídio

Outro dia, recebi convite
Figura respeitável e inteligente
Me chamou

Sim. Eu quero fazer parte
Assinar meu nome em espaço crítico,
Excelente. Ousado. Criativo

sim. Sou parte morta
Escrita torta? quem se importa...
Viro e mexo pelo avesso

Eu enxergo
São dez horas e
Ainda há crianças nas ruas
No escuro.

Seus olhos vazios,
não dizem mais nada
Doce infância?
Vida amarga!

Vejo-as por baixo de papelões
No meio da rua e passo não à pé
Mas por rodas cedidas e apressadas

pequenos suicidas
todos juntos sob a carroça
Sua única casa

Nenhuma entrada ou saída
Não é labirinto
É afogar-se na bacia

Lamento, só. E tanta
gente medíocre a dizer nada,
nada!

Vulgar é pensar só em si mesmo
Oh repertório ruim. Haja defeito!

Modinha que não tem jeito,
nenhum ou qualquer apreço
nem por si mesmos?

cor nenhuma
forma tão triste
pobre de espírito
de graça

que perda de tempo!

oh mundinho tão injusto e imundo

Foi. Perdi a veia, o jeito, a paciência. Tudo.
Ando sem esperança
Fé? nem sei mais no quê
O que vale a pena,
estou ainda para ter...
se a distância deixar

continuo balançando
folhinhas
tolinhas...

Do que eu sei, hoje
sou natureza morta
suicido em minha porta
Tranco e perco a chave
E toda lógica

Eu mesma cancelo o elo
sofro e não vejo "positivo"
nem quero mais perguntar:
por que? vai dar? pra quê?

quisera saber
menos que eu sei
ver bem menos

flagraram
meu par de olhos
fininhos
espremidos

É.

Estava acordando
um estado de felicidade
mas dá para chorar

no inverno?
afinal, já chove
lágrimas?
no molhado
ninguém vai perceber...

um raiozinho de Sol
me faria ver
outra vez o arco-íris?
as possibilidades da arte



homens da Pré-História fazem arte rupestre

desenhos representando lembranças, imagens feitas em cavernas



homens da idade média

fizeram a arte barroca

horas sadias outras moucas



homens iluminados

foram atenuando contornos

de um surrealismo e de cores



Fizeram no Renascimento

Uma arte em conceitos:

pintura, literatura, música,

Escultura e Arquitetura


Na modernidade

Disseram: retos. Estreitos de ...


Já na pós-modernidade

Escorremos por entre seus dedos


Wednesday, June 25, 2008


há espaços que só bons amantes conquistam
silêncio.. toques quase mudos.

Veludo.

Pausas para os encontros.
E então, os corpos guardam da ausência, a presença do outro

Flor da pele.

O ritmo intenso "da vida"
O mudo propósito do trabalho

Há os que ainda cumprem missões...

Acreditam no que fazem
Realizam desejos pelo único
motivo de tê-los consigo
por mais tempo

Crêem naquilo que planejam

Eles têm fé no que fazem
E a certeza de chegar

Do destino, do lugar

Depois, repousam mansinho
onde uma brisa leve sopra no ouvido...
- Foi um suspiro!
(...)

Monday, June 23, 2008


No entanto, é preciso que a equação da conquista da felicidade se resolva, mesmo na sua impossibilidade e contradição. Pois se quando o é, passa no momento seguinte a desfazer - se em tédio (ou a projetar - se em outro desejo). E, portanto, não sendo mais satisfeita. E sim conquistada.

A Felicidade em Clarice Lispector (2004)

Sunday, June 15, 2008

Pe. Antônio Vieira

"Ora vede: Definindo S. Bernardo o amor fino, diz assim: Amor non quaerit causam, nec fructum: “O amor fino não busca causa nem fruto”. Se amo, porque me amam, tem o amor causa; se amo, para que me amem, tem fruto: o amor fino não há de ter por quê nem para quê. Se amo por que me amam, é obrigação, faço o que devo; se amo para que me amem, é negociação, busco o que desejo. Pois como há de amar o amor para ser fino? Amo, quia amo, como ut amem: amo, porque amo, e amo para amar. Quem ama porque o amam, é agradecido; quem ama, para que o amem, é interesseiro; quem ama, não porque o amam, nem para que o amem, esse só é fino".


da delicada e riquíssima convivência com o Prof. Lourival Holanda.
16 horas - em frente ao Maksoude Plaza. Até onde posso ir? Pra que tanta bagagem? Um café!!! sento observando o prédio. Quanta pompa. Baita "ostentação" diante de olhos tão carentes como os meus. Aqui, como pão a metro. Perfeito para horas de fome. E quilômetros de incerteza. Abuso na medida. É sempre assim. Difícil encontrar medida certa. Equilíbrio. (Já disse que na ponta de uma espada não dá, não tente, vá por mim...)



Vou pedindo desculpas. Morre-se assim a cada dia. Me sinto a pior das criaturas. Ou uma das mais "privilegiadas".

16 horas 20 minutos - chegou o ônibus. Preciso correr. Ninguém ajuda com os pacotes. Eu poste. Vou desequilibrar e cair. Preciso insistir com o bilheteiro: "Um mão?". "Não, obrigado. Não sou parte interessada"... "Tudo bem, tudo bem! Seguro para você essa caixinha de presente". Ele está certo. Três sacolas numa mão, uma mala enorme na outra. Quem mandou ser consumista & feminista?

16 horas 45 minutos - enfim, confortavelmente na poltrona. Tudo aqui é macio e "arcondicionado!". Me vem a cara do taxista, que pensou que eu era turista. Descolado, eu nunca pagaria pelo triplo, sem direito a tudo isso. Janelas maiores e o silêncio... Segurança na estrada.



A viagem vai durar uma hora. Se não houver engarrafamento. Nunca torci tanto por um. Daqueles de parar a via Dutra: 5 km. E lá estão os helicopteros das emissoras de tevê. Só sobrevoando. Mas não foi o que aconteceu. Durou menos de uma hora. Ensaiei uns cochilos. Como se olhos carecessem repouso diante de tanta imagem. Foram oito dias dormindo com buzinadas no juízo. Nada podia ser mais recompensador e tranqüilizante que a borrachinha da janela em atrito. Bom, fim da linha. De novo às malas...

17 horas e 20 minutos - o bilheteiro já me dirige a palavra. Pergunta o nome da companhia aérea. De repente está até curioso. Para que tanta informação? Sua desculpa é que cada porta ou terminal corresponde a uma porção delas. Que bom que me avisou antes.... Tudo bem, São Paulo é mesmo uma cidade grande. E o aeroporto tinha que ser enorme. (Só vamos combinar que "Passaredo" não soa bem em lugar algum).

17 horas e 40 minutos - descobri que cheking só se faz horas antes do vôo. E como são poucos. Vou ter que dormir com um olho aberto?

18 horas - Preciso ir ao banheiro e isso é para hoje! Cometo o pecado de entrar no que é reservado para pessoas com necessidades especiais. Por favor, dá um tempo. Essa sou eu. Eu mesma: "euzinha". Hoje eu estou assim, assim. É O ÚNICO LUGAR QUE DÁ PRA ENTRAR COM ESSA MALA!!! ah, que alívio...

18 horas e 20 minutos - alguém com tantos pacotes quanto eu. Confortavelmente sentado. Deve ser rei. Ou deputado. Consegue até ler esse "gênio"! Tá pesado. Talvez me sente ao lado dele... Dando início aos movimentos necessários, que antecedem uma boa leitura de aeroporto. Confiro as malas e pacotes. Estão firmes no carrinho. O mais próximo possível de mim. Tiro o livro de uma das sacolas, prendo a bolsa na cadeira. Mesmo sem um centavo. Ainda assim é uma alegria reencontrá-la. Fiquei até carinhosa, de repente, com ela. Resolvi abrí-la, olhar por dentro. Bater um papo. Ah, minha bolsa querida... Lá dentro vejo a pasta de dentes e a escova num estojinho. Tudo tão delicado. Graças a essa dupla amiga me livrei do gosto de presunto na boca. Pois é, creme dental é mesmo a solução. Vou olhando os outros elementos na sacolinha transparente de objetos de uso tão pessoal. Só carteira vazia me dá náusea.

18 horas e 39 minutos - Descubro esse bloquinho de anotações. Posso escrever por mais 24 horas. Visto uma blusa cor de prata. A caneta é de alumínio.

19 horas - o fluxo de pessoas é menor. Grupos de negros americanos. Mãe irlandesa com filhinho de uns 3 anos. Homens com a mão no bolso, pensando. Começa a missa das sete. Será que o pároco se incomoda que eu entre? "Não é lugar pra malas". Nunca imaginei que o reencontro com o divino seria num aeroporto.

19 horas e 05 minutos - por que essa voz no alto falante não para?

19 horas e 49 minutos - que bebê bonito. A família passa por mim com dois carrinhos. Na volta só vejo o bebê nos braços. Livraram-se das malas? Quem? Como? Quando? Onde? Nem preciso perguntar por que. Vou pelo caminho trilhado pela simpática grande família. Entrou com bagagens, saiu feliz sem elas. Eu nunca imaginaria. Eum estante com cara de companhia de ônibus. Não parecia serviço de guarda-volumes. Mas é. Que bom que inventaram o "malex".

20 horas - aqueles ali são de "países nórdicos".

20 horas e 08 minutos - portal aberto. Caixa eletrônico. Nada!. Nient! Nothing! Fora do ar. Não remédio que dê jeito numa dor de cabeça dessas. Quando vão inventar uma lei que garanta trabalho remunerado e livre do sistema bancário? É duro.

20 horas e 18 minutos - como tem gente de fora circulando por aqui.

20 horas e 33 minutos - um casal comprando souvenir.

20 horas e 45 minutos - fome começando a apertar. Dá-lhe pão a metro.

20 horas e 59 minutos - no final do corredor tem um restaurante chiquérrimo.

21 horas - melhor conhecer as instalações.

21 horas e 30 minutos - e duas revistas depois. Já sou figurinha conhecida por aqui.

21 horas e 45 minutos - na sala vizinha ao restaurante dá para dormir.

22 horas e 01 minuto - essa risadinha foi comigo...

22 horas e 16 minutos - seria muito pedir para fazerem silêncio.



22 horas e 56 minutos - meu Deus, eu só quero conseguir dormir.

-

05 horas e 17 minutos - acordei, acordei! significa que consegui: dacordafelicidade. Eu preferi estar de acordo! Que emoção. E lá se vão as horas, os dias, os anos. Agora só faltam mais doze...



6 horas - já tem gente na rede. Que bom inventaram Internet.

6 horas e 30 minutos - pausa para um café. Se o sistema eletrônico permitir.

6 horas e 45 minutos - No ar!!! ahhhh, não inventaram cheiro tão bom. Café, café, café!!! Toledo: tirei lição dessa marca. Tomo Santa Clara.

7 horas - pena que os paulistas não conhecem tapioca. Tudo bem, pão de queijo e croissant. Nunca mais pão a metro.

7 horas e 55 minutos - tem um garoto que também durmiu nessa salinha.

8 horas e 10 minutos - fiz meu primeiro amigo na viagem. Paulista sabe ser correto. E frio. Não sei por que, mas gosto muito disso. Em Brasília, foi só o que ouvi. De São Paulo? No espelho, uma elegância paulista.

8 horas e 23 minutos - ganhei minha primeira caixa postal gratuita: georgia_alves@yahoo.com.br. À Rafael Giuliano Leite. Professor de linguagem de surdos mudos.
9 horas e 9 minutos - mais um portal. Atravessei!


(24 horas no Aeroporto Internacional de Garulhos, Cumbica)

- inaugurado em 20 de janeiro de 1985

- primeiro vôo: Boeing 747 da Varing, Vindo de Nova York. Depois um Air bus A-300 da Vasp, so com autoridades do Aeroporto de Congonhas

- responsável pro 30% do tráfico aérea do país

- mais de 171.000 movimentos de aeronaves

- 14 milhões de metros quadrados, 5 milhões de área urbanizada

- duas pistas paralelas para pousos e decolagem

- uma com 3 km de extensão outra 3,7 km

- outra auxiliar com 2 km

- dois terminais: número 1: 75 mil m2. Terminal número 2: 80 mil metros quadrados.

- atividades operacionais: 25 horas por dia

- 44 companhias

- Em 22 anos de existência calculou-se que:

"222,3 milhões de pessoas embarcaram e desembarcaram pelos terminais de passageiros, através de 2,9 milhões de operações de pousos e decolagens que transportaram cerca de 6,9 milhões de toneladas de cargas."

Thursday, June 12, 2008

time



17 hours
25 minutes

time to think?


so you forgot...

to rew or fast forward
life is black & white


















(so much self sure
and you'll never know
what is happen to
an another universe)












thanks Edgar Souza

Wednesday, June 11, 2008


- um chopp?

- não bebo senão entre amigos...

- sou um amigo desconhecido, não serve?

- não para uma bebida descomprometida. Poderia aproveitar a viagem e dar uma boa impressão...

- seria muito egoísmo meu!

- impressão sobre quem não conheceu...

com meus agradecimentos à grafar@gmail.com (grafistas associados do Rio Grande do Sul)
(com fotos de Susana Rocha)

Gilles Deleuze - gracinha de pensador francês - e seu conceito de felicidade (Erva e água clara) me fazem lembrar do tempo em que o silêncio me incomodava. Adolescente, morando em Aldeia, num sítiozinho, cansei de percebê-lo partido apenas pelo criquilhar das cigarras...

Hoje percebo como "não o silêncio não me incomoda mais". Embora nem ele salve - as palavras, já mencionei, há muito não me salvam mais. O silêncio ainda é um dos lugares mais aconchegantes e confortáveis que já conheci. E para mim, muitas vezes, tudo se resume ao lugar. Minha ode ao silêncio do que fiz ou nunca ousei. Meu pedido silencioso e explícito de que repitam em coro versos de Paulinho da Viola, por toda a minha vida:

Quem sabe de tudo, não fale
Quem não sabe nada, se cale
(Se for preciso eu repito, repito, repito, repito...)

Não falem por aí, do que não sabem
Não digam do que não é sua vida
Não cometam a tamanha indelicadeza e deselegância
Por que querer encerrar uma pessoa tão possível em defeitos
Quanto em suas qualidades, em palavras hipócritas, burras, cegas, surdas, próprias???

- sim, porque só se pode falar do seu próprio caráter - não há profundidade na sua fala cara-pálida. Não pode haver em tamanha superficialidade qualquer chance de parecer científico ou de simples precisão.

Ninguém, eu disse ninguém, pode ousar uma definição sobra a vida de outra pessoa ou opinião que seja sobre quem não conviveu, trocou palavras sequer! como pode emitir parecer se nem conhece?

Que dirá falar da vida que essa pessoa leva, das possibilidades que criou ou não criou, das tolices que cometeu e somente ela mesma pode compreender como tolice, burrice, idiotice, canalhice, insandice, visse, visse, visse, visse, visse...

Que vício terrível esse de quem não tem o que fazer e resolver falar do fazer alheio. Que extrema e terrível necessidade de xingar o jeito de ser do outro. Que ouvidos moucos, moucos. Quem são afinal, os seres humanos loucos, loucos...

É sim, a opinião dos outros importa em parte, só a parte que interessa. Porque ninguém tem - em geral - nada de bom ou novo a dizer. São as mesmas falas repetidas de descrédito na polícia, medo da violência, ou das injustiças com seu time. Pior, quando não escolhem um caso escabroso - o que acontece vez por outra - para aterrorizar sentimentos tão frágeis e delicados como laços de companheirismo, amizade, amor, família... Por que será que não se cansam dessa mesma tecla onde está escrito "boicote"? Ou "sabote"? Ou "fricote"?


Difícil. Vou dizer, difícil. Algo mesmo novo e diferente. Suave, positivo, real, interessante, amistoso, condizente... para usar no final uma palavra incompleta. Sim, sim. Tenho todo interesse no novo, no que é lúdico, no belo, no detalhe, no curioso, no que é "excelente" por natureza como a própria natureza ou o silêncio.



Nem sei mais porque escrevo se não sinto o mesmo peso da alma na palavra. Eu falei peso? era para ser de uma imensa leveza esse novo milênio, Calvino...










É somente um instante o que me acolhe em teu guarda-chuva, Bataille. Nem vejo nada mais necessário, mais vital do que isso que é tão simples.



Alguém apague a luz, eu devo estar acordando... Ou então, onde foi parar a Harmonia? por que tudo é tão "produzido", "reproduzido", "induzido"...? Quem sabe me salve "uma narrativa"! Quem sabe me interesse uma corpoeticidade mais descomplicada e ainda assim comprometida. Não desconfio de mais nada. Não tenho tempo a perder com isso. Apenas sei o que não é. Ah, disso eu sei. Pena é perceber como se perdem por um simples viés. Um fio seria capaz de derrotar o Minotauro. Perdeu-se, o fio de lã, o viés. Não verá mais...

Interessa-me mesmo é voltar a Deleuze e seu significado da liberdade (ou escrevi "felicidade"?) diz um amigo meu que se aproxima muito do significado original do termo: a palavra prya, do sânscrito!. Significa aquilo que se ama e que dá prazer e alegria. Que inspirou a origem da palavra "liberdade" em inglês: "free". Prya é muito mais do que se libertar de alguma coisa, como espera ou cabe no termo latino. É, simplesmente, ser feliz!

Friday, June 06, 2008

Tenho ouvido muito, ultimamente, as pessoas dizerem: "eu preciso de dinheiro!". Bom, quem não precisa num mundo capitalista? Todos nós precisamos de dinheiro. O segredo, talvez - desse assunto entendo eu pouco -, esteja no caminho encontrado para "atrair" dinheiro. E dedicar parte expressiva do seu tempo para isso. Depois, de preferência, fazê-lo circular...



Eu - de minha parte - vou contar o que se passa comigo. Na hora de dizer um desses "desabafos", do rosto molhado, da água salgada brotando não sei de onde, concentrei toda energia de vida numa frase diferente. A vontade era outra. Olhei bem pro alto, onde supomos estar o sr. Divino, com alguma força que o espaço amplo, verde e livre desse campus permitiu, gritei como que para fora e para dentro, de um jeito que só desse para ouvir lá de cima: "Eu preciso de um abraço".

























Funciona quando se tem amigos. Ganhei logo dois abraços de duas grandes amigas. Mais um abraço, mesmo que à distância, de uma outra, amiga das antigas. Um abraço longo de uma tia. Outro, de outra. E fui indo de abraço em abraço, até de um "ex-companheiro" a palavra bem dita virou abraço simbólico, aquela "força" que a gente precisa. Ainda tive a chance de descobrir que os bracinhos em crescimento que tenho ao meu lado, na caminhada por essa estrada, além do afeto e do carinho, são capazes de instantes de extrema criatividade que são desses abraços que resgatam a gente, colocando no lugar certo.



E mais, ainda fui surpreendida porque o efeito desse grito seco reservou para mim dois braços fortes, prontos para um abraço de amor...



Claro que não consigo - ainda - pagar as contas. Ou tive a chance de pagar minhas dívidas. Quando o assunto é dinheiro há momentos em que parece impossível simplificar ou entrar num acordo, que dirá num entendimento de abraço... Os bancos precisam de dinheiro, os locatários precisam de dinheiro, os supermercados precisam de dinheiro, as construtoras precisam de dinheiro, os condomínios precisam de dinheiro. Só os trabalhadores não precisam o valor de seu trabalho. Por este motivo, têm cada vez menos chance do acesso ao "dinheiro de verdade". Dinheiro para um bom plano de saúde, uma moto, um carro. Um casa... livros, discos, uma ou outra viagem. Qualidade de vida, melhorias, bens materiais... que dirá um trabalhador autônomo, que é isento até mesmo do imposto de renda. Sim, porque não há sequer ganho de uma renda suficiente para isso! Paciência.

É uma equação impossível. Para mim, pelo menos, tem parecido. Se eu tivesse aprendido matemática ao invés da parte mais filosófica da vida... Dizem, que sempre é tempo de aprender algo novo. Concordo. E estou disposta a começar por uma estrada nova. Mas tem um "quesito" que - pressinto - jamais vou abrir mão: Esse primeiro passo pode vir logo depois de um abraço?