Lugar da delicadeza com o outro e com a própria Liberdade.

Onde se está de acordo com o único modo do humano de ser feliz

Monday, July 26, 2010

Despertar


Em geral, passarinhos me despertam. Ou é um beija-flor atrevido que faz toc-toc à janela. Dessa vez foi a sintonia fina de uma música rara que trouxe-me até aqui. Romeu do alto de pouco mais de meia dúzia de anos, sentenciou a única ausência da noite.

Para o alto e o arauto

"Por que não tem telescópio? Luneta? Qualquer coisa para gente olhar mais de perto as estrelas?"
Boa pergunta, Romeu. Talvez porque entendi que elas estavam todas ali. Não por isso! Vamos providenciar, Romeu! Para ver estrelas antes que a noite parta E o dia se anuncie...

Afinal, como diria o outro Romeu: "É triste a dor de partir e eu te direi boa noite até que seja dia" ou seria "Boa noite, boa noite, boa noite! A despedida é dor tão doce que ficarei aqui te dizendo boa noite até que seja dia".
Ou seria? Seria: "Estou ouvindo algo! Será o roxinol, o arauto da manhã, ou a cotovia? Rouxinol ou cotovia, o certo é que vem amanhecendo o dia!"
Fico com a certeza de que chegou o arauto da manhã. Embora sempre me permita dizer, anuncio mais uma vez: aqui esteve a manhã da criação.

Thursday, July 22, 2010

João e Maria?
...
Quem sabe vou soltando aos grãos?
Na mesa de cada dia o abandonado pão
Quem sabe até deixo escapar um suspiro?
Ou, de surpresa, um sorriso. Aos pedacinhos...
...
No simples gesto de virar para cima
No ato seguinte, troco o olhar cansado
Por um mais animado, sem incômodos palitos
De fósforo, nas minhas pálpebras ainda apoiados
...
Tenho pra mim em palpite simples que
Se tivesse dançado uma música apenas
Na última festa junina, terias sussurrado

Cantado baixinho em meus ouvidos,
Que melhor que prender passarinho
É vê-los piando e voando felizes.
Pré-postagem



Sinto uma paixão vindo por ti. E como esse amor ocupa meus pensamentos, tudo tem agora um novo significado. É como se devolvesse valores perdidos. Uma paixão somente. 

Embora esteja desenhando em mim um laço. É diferente do real e ao mesmo tempo presente. Isso tem data e nasceu na gentileza. Num aniversário. São todos teus, para mim, os dias do ano. De um jeito que eu...

Seria romântica e tola todas as horas do dia. Alimentaria o gosto por ter mais saúde! Cuidar da casa. do espírito. Como se minha alma, que conheci em ternura de infância, voltasse pra perto de mim.


Enquanto não compreendo o que a afastou tanto de assim não faço mais perguntas sem nenhuma ordem ou sentido, como: Me dá um cigarro. Hoje não. Hoje são flores que trago.
"Quem é você?"
Tente uma resposta...


Não sei do futuro, sou do tipo que não tem seguro, mas sinto o instante presente, como poucos. Até mesmo que aqueles muito muito inteligentes. E não há qualquer vantangem nessa sensibilidade substituir o pensamento lógico, baseado em certas premissas e que requer "sangue frio". É que esse sentir, às vezes, tortura. Mas aprendi a não interferir. Sei conter uma dor ou uma tristeza como aqueles que taxamos de muito muito burrinhos... Embora ainda não consiga conter o movimento das minhas pupilas...

Nunca esqueço uma canção quando solfejam para mim. Estou sempre inteira no tempo presente. Não levo comigo o passado, apenas boas lembranças e o que entendo como parte de mim. É minha grande busca. E preservo os melhores instintos para os momentos de escuridão. Mas serei sempre solar porque choro ao menor sinal de ausência do sol... Respondi?

Saturday, July 17, 2010



Linhazinha


Desembaraço a costura frouxa
Como pude ser tão trouxa?


Bordar não é para menininhas...




Acaso



No Amor não tem planejamento
É coisa de perceber o momento

Pensar no desejo com bom senso
E guardar cada detalhe atento

Tem que deixar correr solto
Sem apostar na sorte ou azar

O universo quem dá as cartas!
Mas também define o morto.





Monday, June 14, 2010

Passarinho e passarão

Uma réstia de sol
Entre os sombreiros
Corpo envolto solteiro
Rede de cor de abóbora
Ela esquecida da hora..

Protegia olhos claros castanhos
Ainda em avesso torpor estranho
Por entre fios espessos trançado farto
Espiava a balançar para folhas e galhos
Numa tarde mansa que desfilava calma

Naquele canto, em seu estado de alma
O vento batia aqui e ali enquanto escutava
Tilintar dos mensageiros, de nome tão meigo
E a tarde, então, se cumpria assim: Vazia.

Agora há pouco tecera um balanço
De cordas brancas e madeiras fininhas
Há instantes estava a paginar o calendário
Contando doze dias do início do ano.

Foi neste momento que ouviu
A cantoria das avezinhas do lugar
Dois passarinhos: um bem-te-vi e um sabiá

Um deles de lá dizia:
Estou daquì a te espiar...
Ao que o outro respondia:
Eu bem sabia! Eu bem sabia!

Friday, June 11, 2010

Móveis em galhos, folhas e charcos. O programa de músicas antigas não consola mais. Derreti n'água. Eu que sempre gostei. Não é tragédia o gênero. Ou drama. Compreenda. Virei nuvem de fumaça lançada pela larva de um vulcão. Não é minha proposta desaquecer o "não visível". Talvez seja desaquecer a mim mesma. E vai ser difícil pensar o mundo longe do calor. Mas a vida é assim e pede um equilíbrio que acaba vindo. Quando menos esperamos. Porque é desse lugar, prezado poeta, que a métrica do esmero se faz. E nesse tempo de ruptura ser dura é ir para frente e não voltar atrás. Nessa rotina de pilhas e pilhas, de folhas e folhas, encontrei minha identidade perdida:

Nome: Mistério
Idade: Aprox. seis anos - dos meus...
Cor: Pelagem branca
Endereço: Marquise
Plano: Sair daqui
Música que toca: "hooome lesss, hapyness my caastle the staaars and the sea..."

Monday, June 07, 2010

Indicação ao prêmio Dardos.


Este selo foi uma criação do Junior Vilanova do blogue Contactos Imediatos e da Olga do blogue Pensamentos, Ideias e Sonhos, e segundo eles - trata-se de um reconhecimento dos valores que cada blogueiro emprega, ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc.

Requisitos a serem cumpridos no recebimento deste selo:

1 - exibir a imagem do selo em seu blogue;
2 - postar um link para o blogue que o escolheu;
3 - escolher outros quinze blogues a quem entregar o prêmio;
4 - avisar aos escolhidos.

Agradeço a Keila Costa que anunciou seus escolhidos:

1 - "Damaria"
2 - "Sabe de uma coisa"
3 - "Specullum"
4 - "Marcas d’água"
5 - "Borboletas de Fevereiro"
6 - "Num Café Pequeno"
7 - "Suprasensorial"
8 - "Eu e mim mesma"
9 - "Rudaricci"
10 - "Sara-evil"
11 - "Da Cor da Felicidade"
12 - "Michelfm"
13 - "Freiregari"
14 - "Curto Circuito Literário"
15 - "Poros"

Aqui estão minhas indicações:

1 - "Raimundo Carrero"
2 - "Estuário"
3 - "Era o Dito"
4 - "O Mundo Circundante"
5 - "Fabrício Carpinejar"
6 - "Entre Lugares"
7 - "Manual de Astronomia"
8 - "NósPós"
9 - "Cronicax"
10 - "Cronópios"
11 - "Escritoras Suicidas"
12 - "Linguagem Guilhotina"
13 - "Rosinha Campos"
14 - "Belas Coisas e Simples"
15 - "Diana Stereo"

Friday, May 28, 2010

As Risadas de Irene

Quando a gente é criança, ainda, algumas memórias parecem grudar. É feito superbond! A imagem, por exemplo, de uma borboleta em seu colorido dacordafelicidade... Mesmo sem saber falar direito, a gente vai arriscando: bo - bo - le - ta. Até o "r" chegar. "R", por esses acasos, de "risada".

Memória que eu tenho, entre as tantas, é da risada de Irene, a levada! Titia Irene era aquela tia que sempre trazia de presente pra gente uma piada nova. Um a tirada dos fatos corriqueiros que ela dizia e a gente ficava. Com a sacada e a risada de Irene. Risada boooa, Sonora! Zunindo no ouvido.

Como quando era chegada a hora do banho da criançada. Ela dizia: "minha filha, vai dar banho na borboleta, não?" E não tinha como não abrir um meio sorriso de surpresa, enquanto ela franzida a sobrancelha, se ria... E a risada zunia enquanto a sugestão se cumpria.

Consigo ouvi-las agora mesmo. As risadas. E lembrá-las. Memoráveis tiradas de Irene. No último dia das mães, ela ali sentada miudinha com seu humor enorme, de repente teve um passamento. O primeiro dia foi de susto. Os outros seguidos de tormento.

Enquanto era levada para o hospital, titia Irene fazia esforço para levantar os olhos e fitar os sobrinhos netos a carregá-la, às pressas. Eles a socorriam e ela recobrava os sentidos. Foi só resgatar-se um pouco e logo que perguntaram "tá melhor tia, tá sentindo alguma dor?". Ela ainda pálida, abatida, respondia: "só no olho do porco. E aquele batimento na perseguida".

Borboleta de Irene, ali estremecida, foi mesmo perseguida por Severino. E acabou sendo por ele "possuída", como dizia titia. Fugiram juntos aos poucos anos de vida. Ali, naquele momento em suspenso, Tio Severino em seus passos lentos fez todos os movimentos na direção de Irene. Corpo espichado, braços e mãos estendidas. Seus olhos pareciam perguntar: "para onde estão levando a minha alegria?" Até que da boca sai a frase afinal: "me levem junto, me levem com Irene".

A cena partiu o coração do parente mais indolente. Enquanto esperava para ser atendida na emergência do hospital Irene se refazia. Mas o humor não perdia: "pra quê tanto sangue seu moço, da veia dessa velha tia? Vai fazer uma cabidela é?" E o enfermeiro - até então absorvido pela correria - se ria: "essa vai sair logo daqui. É só dar um jeito na anemia"... A gente também tinha certeza que irene logo dali sairia, em dois ou três dias. Tempo previsto para exame que - segundo o médico - diria se Irene corria ou não risco de novo infarte.

N'outro lugar do mundo titia Irene não esperava. Mas como foi tudo mesmo por aqui, o tempo que demorou numa cadeira na emergência Irene fez os pacientes esquecerem suas dores e tristes memórias recentes. Se lá vinha mais uma injeção, em seguida vinha mais uma tirada de Irene: "tá bom enfermeiro, não tem mais nem onde furar. Só onde meu velho já passou e aí eu não dôo". E a risada se ouvia. Um instante de alegria feito tábua de salvação naquele rio de dor perene.

Quando foi, finalmente, transferida para um leito na enfermaria, a emergência do hospital, que nem tio Severino, sentiu. Estendeu-se em reclamações por perder as tiradas e as risadas de Irene. Já imaginou? Naquele mundo de espera insólita e barulhos de sirene, que delícia! ouvir as risadas de Irene...

E ela brincando com tudo aqui, dizendo: "Se aperrei não minha gente, é só um pulinho ali nas Europas". A última notícia que tive foi de que precisava de sangue. Nem deu tempo das furadas por agulhas que serveriam a Irene, infelizmente. Minha tia tinha tantas tiradas, mas sangue dos outros, mesmo carecendo, não mais precisava.

Restou agora essa lembrança grudada. Feito superbond. Efeito borboleta. Batendo feito asas no juízo da gente. Em sua vida de gente humilde, sacrificada, titia Irene deixou uma lição que sustente! Faz fazer uma pergunta que já tem resposta: "por que será que entre tantas memómiras sonoras, a risada de Irene é a que mais fica presente?"

Pra dar a resposta sem rodeios, mesmo enxergando do lugar do meio, estou certa do porquê: Irene sempre escolhia em meio às tristezas, aperreios e fatos corridos da vida fazer piada com eles. Tudo sempre foi receita para uma risada nova!

Fico olhando pros filhos, netos, sobrinhos que Irene deixou me perguntando qual deles herdou seu talento? A verdade é que agora que a borboleta de Irene voou, a família ganhou mais uma tirada de Irene. Até na sua retirada partiu vinte anos e um dia depois que a mãe Joaninha. Depois de um passamento em pleno festivo dia das mães.
Refogado

Tremo e não é de frio ou de medo. É de raiva. Sim, pelos sustos que tenho com o mundo... Tremo de frustração e de angústia. É raiva contida. Pelo meu modo simples. Tremo de horror e de revolta. Infantil demais?

Sim. A minha criança anda mesmo muito comigo, ultimamente. E é por tomar, vez por outras, seus olhos emprestados que vejo o mundo em susto e horror. O que enfrentam esses pobros olhinhos infantis nos dias de hoje... Minha criança, por fortúnio, não está sozinha. Anda na companhia do meu adulto. Por isso não há em seus olhos traço de sentimento pior: o abandono.

Mesmo com a voz ainda presa, o adulto fala por ela, quando é necessário. Embora nem sempre seja preciso. Mesmo em espírito deformado, por trêmulo, esse adulto está sempre com ela na lembrança e em sua presença vem socorrê-la. E vice e versa.

Mesmo no caos que se apoderou desse adulto, os pensamentos se organizam pela companhia da criança. Diante de quaisquer sentimentos, os pensamentos se organizam. Com raiva ou desesperança, o adulto se organiza diante desse destempero. Dessa destemperança.

Esse adulto que também sou enfrenta ainda com alguma coragem por estar perto da criança. Os horrores que, por desventura, se atrevem a atravessar em seus caminhos. Para proteger a criança, o adulto se organiza e mentaliza. Age com a mente. Com a razão. A união vai diluindo a raiva e revisa os fatos. A situação é cortada em pedaços feito carne para refogado. Tudo que escapou no momento do enfrentamento é fatiado.

Nesse mesmo instante revejo de um lugar mais alto. O que está mesmo em questão não foi ainda revelado em meio ao picadinho de frases em fúria, mal postas na mesa.

Wednesday, May 19, 2010

Recife Inverno


"Aceita um café? Vou buscar! Talvez tenha adoçado demais...". Bebo em solitude. Às vezes o Recife é tão triste quanto um pão francês dormido e mofado. Ali abandonado em seu saco de papel escuro de quem não serviu a banhar-se em leite e ser tornado fatia parida. Como diriam em mesas de natais; "feito rabanada"! Seu inverno é úmido e abafado.

Não fosse tão úmido e verde escuro estaria agora polvilhado em açúcar e canela. Serveria mais se fosse apenas um Recife duro. Faria sorrindo em rodelas a alegria de meninos e meninas em cafés da manhã de ternura, em festa! Com presença de carinho de mãe no jarro de vidro sobre a mesa.

Mas no seu inverno o Recife não é assim... É cigarro molhado, feito charco de cinco mil substâncias para matar ratos e baratas. Socorrer por baratos o sujeito incauto em beco coberto de marcas. É mais triste que abandono de recifense esquecido na parada pelo último ônibus que passa apressado.

É noite de perigo e o Recife nunca pôde dar abrigo definitivo aos que vão se desmanchando feito papel pelas encostas. Recife nunca pôde se dar de presente em caminhões de lata para crianças que aprendem cedo a brincar com aquilo que mata. Meninos e meninas que guardam seus desejos, sonhos de brinquedos, por minguados que faltam. É overdose de desespero, de pancada, de dor que não passa...

Recife, no inverno, às vezes não vai nem com o café mais adoçado do amigo vigilante que me espia escrevendo em bloquinhos no assento do carro. Não Recife, não bastará teu carnaval para me fazer feliz. Rezo pela cartilha de Neruda que me diz do homem, da mulher, do pão e do vinho. Da mesa, da morada...

Homeless que sou, me abrigo em lugares distintos. Um dia um, n'outro outro. E assisto a seu modo o Recife oferecer um sorriso ao me olhar no rosto, feito reconhecimento, e a um só tempo, me expulsar. Justo em momentos que nos faríamos quites. Não, eu não entendo. É meu amigo vigilante quem vem e consola minha fragilidade de osso exposto. De criatura feita de mola.

Eu que ora sou espicho, ora rolha. Espicho e encolho. Numa hora pingo, mergulho e afogo. Quem dera não tivesse sequer encharcado... Podeira apenas dizer como imagem da minha tristeza que me sinto um desses pássaros capturados, logo de manhãzinha, nas matas atlânticas de teus arredores, Recife.

Cruelmente, esses homens que não têm o que fazer, nem se darão ao trabalho, usam outros canários para atrair suas presas. É assim no sexto e em outros quilômetros da Aldeia. Testemunho em gritos de buzina para espantá-los. Mas a verdade é que não vou conseguir socorrê-los ou fazê-los correr dali. Fugir das arapucas montadas em cercas rentes ao pasto.

Capim que sou só me resta acender esse cigarro molhado, sacar o bloquinho enquanto espero o ônibus. Meu único brinquedo. Eu que perdi meu caminhão de lata... E beber com alguma alegria matutina o café "talvez adoçado demais" do meu amigo vigilante. Para quem agradeço num cumprimento tímido, sem abraço.

Thursday, May 13, 2010

Grão de Razão


É tamanha solidão que expõe ao risco de perder-se. E no entusiasmo semelhante ao de uma criança, na euforia por algo novo mesmo que não seja bom ou real, nisso está a chave de acesso ao perverso.

Sem segredos a vida vira uma sucessão de fatos banais e de atos insólitos. A incredulidade de quem guarda um segredo faz dessa pessoa algo que se pode tocar. Como uma peça de madeira maciça.

A busca que hoje move a existência procura por um espaço onde não enxego palmo de mão diante do nariz porque fixo os olhos no chão. Não compreendo e por isso fui me tornando mais real. Por que há ganhos em não compreender? Quando compreender era ainda tudo o que queria. A intensidade é de um desconhecimento absoluto. Não posso ser atingida senão pelo caminho oposto da razão. São os instintos que me guiam nesse escuro. A luz acessa vai tornando meus sentidos despertos e os instintos desérticos.

Estou terna comigo mesma no dia de hoje porque espero pela aparição de Fátima. Não me obrigo mais ao silêncio. Não há mais imobilidade em mim. DOu-me ao desejo como um reflexo. Repetidas vezes te quero olhar de corpo inteiro. Até a exaustão. Não abandono mais o querer-te.

Meu desejo motor me tira do nada. Do meio do oceano. Do meio da estrada. Caminho certa por entre retrovisores ou navego por entre as ondinas do alto mar. Só desaparecerei por obra de uma tempestade descomunal. Sei que não há recompensa. Há o perigo ou a mansidão. Escolhe o primeiro.

Como um ser humano cheio de necessidades. Necessidades e vicissitudes que não se encontra no mercado. Nem se poderia guardar num armário. Não diminui minha existência. Meu mistério é que não está mais ao alcance de mim. Meu senso de direção foi afastando-me dele. COmo uma bússula confusa. Ao mesmo tempo em que expresso apenas o que está no desejo de compreensão do outro mais abandono a complexidade do pensamento e me aproximo da inteireza da vida. O imenso agora é apenas um grão de areia que machucava a retina. Eu grão de feijão.

A mesma ternura que guardo para meus filhos vem se traduzindo em mim na aceitação do amor. E o que sempre foi meu maior medo transforma-se em minha grande liberdade de viver. O que me causava susto e temor agora me dá asas. Logo elas que me abandonavam no primeiro piscar de olhos da pessoa amada.

A crença na minha inutilidade é o que está me fazendo servir a senhor que antes eu não me atreveria. Se há mesmo um Deus sobre todas as coisas ele não deve apenas escrever certo por linhas tortas como também desenhar seu plano em páginas sobrepostas.

Seu roteiro surpreende os desavisados que confiam sua pena à mão solta do coração. Enquanto estou faminta alimento meu espírito com teu timbre sonoro. Chego a entender a loucura de um maestro que harmoniza tantos instrumentos. Escapou um assovio de pássaro do campo.

Friday, April 16, 2010

A Mala Hora


A esposa ficou olhando serena para a porta que acabara de fechar. O marido se foi. Foi sem lhe "atender" ao pedido de um carinho naquela manhã quente, de lua fértil. Não havia mais o que fazer. Deu de ombros. Vai ver ele se foi porque estava realmente na hora de ir. Costumava ser pontual e intolerante. Um homem, portanto, "coerente", diriam os amigos. Mas a verdade é que não estavam lá muito próximos por estes dias...

Mas, não foi mesmo, por nenhum desafeto que imperou a negativa. Apenas um simulado desprezo. Ficariam à noite, prometeu ele. Hora boa do dia. Hora em que não seriam interrompidos pela chegada da ajudante ou despertar dos niños. Estavam novamente de mudança. Mais uma vez de mudança. Ainda não havia mesinha de cabeceira ao lado da cama, nem móveis nos lugares devidos. Colchões espalhados pela sala. Eletrodomésticos encaixotados. Sossego perdido.

Aos sobressaltos ela notava que havia tempo não paravam para ouvir bossa nova, nem rock 'n roll. Não haveria mais um pingo de Amor? Secaria e depois morreria? Naquela manhã, o medo furou - lhe como um tiro seco.

Ele foi sem culpas. Com a certeza de que poderiam superar sem danos ou perdas, a má hora. Esperando pelo momento ideal. Ela, mesmo levantando para acompanhá - lo até a porta e até despedir - se com um beijo morno. Olhou atenta e achou que suas almas continuavam uma mesma. Por muito tempo ainda estariam ali.

A outra parte da sua preparou-se aos pouco para o desbunde. Boliu - se por alguns instantes. Erguer - se contorcidamente demorou mais que de costume. Durou enquanto lia um clássico, Willian Shakespeare. Depois de instantes levada, imóvel, decidiu! Hora de levantar porque a inércia começava a lhe dar nos nervos.

Tomou uma boa ducha, lavou bem os cabelos. Impregnou - os do cheiro de algas marinhas. Limpou bem a pele do rosto. Olhou - se no espelho liquefeito. Tocou a extensão de cada poro, esfregando com as pontas dos dedos cada centímetro de pernas entre as coxas. Do começo até o fim das costas. Hidratava - se. Por completo. No corpo um creme com o perfume que lhe dedicava às partes mais delicadas. Uma ponta de vaidade. Um pingo em suspiro evaporava do pescoço comprido.

Vestir - se era fácil. O despojamento de sempre. Só. Era assim que se achava bonita. Saiu para reabastecer a casa de coisas que encontraria no mercado... Começou a procurar em meio às folhas. Legumes... Nos mais frescos se deixou levar. Colhidos ali, há pouco. Pensamentos sobravam e soprava uma brisa leve que nem fios de cabelo soltos da cabeça em movimento.

Ventos derrubam casas e pontes até. Já vi tetos desabarem. Alumínio leve é breve e certo. Ventos concêntricos viram furacões. Pés de vento levantam folhas nos parques durante o outuno. O vento levava os cabelos e junto iam pensamentos. Levantava a saia num balanço leve. No mercado, via - se ela levitar por entre balaios de laranjas vibrantes. Um colorido cítrico de mercado vivo.

Ouvia o ruído suspensa em dedilhado de ouvidos, rumores incertos para os quais não tinha sentidos. Parecia estar numa terra distante ouvindo o derramar de água cristalina. Ia esquecendo de tudo... Despertou do devaneio quando um rapaz de alguma idade, que a observava a se rir da graça, como a moça flutuava entre as frutas rotundas. Tão bem distribuídas em seus balaios.

Puxou de assunto, a qualidade das laranjas. Não se podia comparar àquela hora do dia frutas tão vigorosas e ao mesmo tempo maduras. Ao que ela lhe sugeriu que desse importância, além da aparência, ao verdadeiro sabor de cada fruta. O fato é que, àquela altura, as dúzias escolhidas viraram sacolas carregadas, que pelo peso, ela precisaria de ajuda para levar. Só até o final do quarteirão.

Não foi com presteza que ele se ofereceu, mas com naturalidade, a mesma que se estivesse ali para aquilo. Ela não havia chegado aos quarenta. Pedir ajuda fazia se imaginar aos setenta. Mas não viu, dessa vez, qualquer ameça à sua solitária rotina. em aceitar a gentileza. Sem dar muito espaço para os cuidados que denunciam os culpados levaram - se pelo caminho em conversas sobre frutas frescas até onde o carro estava estacionado.

Coincidência, a casa dele ficava ali ao lado. O rapaz fazia pesca submarina e não era do contexto do mercado. Ofereceu - se ao peso das sacolas e por estar capturado pela "corrente azul" que nela balançava. Ao ouvir isso, uma corrente submarina invadiu-a de imediato. A moça aceitou dessa vez o gentil convite "quer conhecer meu quarto?"

- Aceita uma água ?
- Gelada!, ela respondeu sem nem pressentir que não demorava. Embora o rosto já estivesse aquecido em maçãs. Vermelhas. Na boca ia um gosto antecipado de fruta madura... Foi também pela simples palavra dita e os lábios delicados do moço balbuciando qualquer que fosse a frase.

E aquele calor que não a abandonava, agora perseguia. Em geral não escolhia começar porque o primeiro piscar de lábios puxava outros seguidos. E a dificuldade traduzida em capítulos inteiros do romance inglês, agora era energia que fluida simples e líquida. Feito água aquecida. No copo abraçado com as mãos e na passagem estreita prima-irmã dessa rima. Ela virou pesca submarina. Repetia sem parar no pensamento. Ele retrucava sem medo que de pesquisar o mundo marítimo seu universo se faria.

Esqueciam - se das horas, e volte e meia desembalavam frutas ouvindo o barulho do mar. Quietos, em silêncio profundo. Céu inteiro lá em cima, sol em frestas. Mergulho absoluto em cantos de sereia. Ao passar dos anos foram vindo vozes sobre o barulho bom: Ray...Peyroux...Nina... Holiday.

Ela fruta colhida, doce. Feito Mimo. Ele, aos bagos. Comiam-se em dias corridos. Sucessivos. Com o passar de noites, contadas em mil e uma. Quando somente, então, foram descobrindo que há mistérios no mar e dissabores delicados na fruta.

Thursday, March 11, 2010

Amora

Já viu como nasce uma amora? Tal qual um pequeno rato desprovido de sua cor e pelagem. Aos poucos ultrapassa aquele branco pálido, quase transparente. O vermelho lhe aparece quando da metade do processo de amadurecimento. Só então vai depois tornar-se roxa. Intensa e completa em sua força de cor. Poucos se apercebem ao encontrar essa árvore pelo caminho. Uma amoreira tem folhas enormes. Enquanto seu fruto é miúdo. Os galhos são tão finos que não combinam com a idéia que fazemos ao ouvir a expressão "pé de amora". Frágil assim mesmo a especiaria vinda da China, dizem por aí, é ainda reguladora dos hormônios. Imagine tal poder está guardado em segredo ou falta de conhecimento mesmo entre tantas de nós. Apenas com ingesta do delicado fruto e nós diariamente estaríamos livres dos 'desastres ecológicos' tal qual furacões ou tormentas que nos ocorrem vez enquando...

Tem crescido em mim o carinho e admiração por essa fruta. Por sua delicadeza, seu disfarce de nascer assim tão pálida e até feia posso dizer. E ainda por sua força. Sua missão. Por muito que já oferecesse em nos presentear com algum equilíbrio e ainda, dizem os especialistas, tem vinte e duas vezes mais cálcio que o leite. ALém de potássio, magnésio, ferro natural, proteína, fibra, zinco e levedura.

Podiam até reinventá-la como alimento para recém-nascidos e frequentadores do bar de costume. Adoraria erguer copos em sua cor. Lembrando o vinho extraído de uma prima muito distante, batizada uva. São tantos os mistérios da vida. E os da amora ainda tão pouco conhecidos como os que lhe olham pela pimeira vez em sua palidez horrenda não conseguem imaginar a formosura de seu ato final. Da forma para qual foi gerada. E os motivos para ser assim nascida me parecem mais ensinamento da natureza sobre a beleza das coisas...


Monday, March 08, 2010

Minhas Amigas,

Parabéns por todos os dias do ano e em especial por esse dia. Porque foi para isso que a gente inventou o calendário. Você vira a folhinha e "está lá". Oito de março de 2010. Inventamos também o celular e despertador. Começa tocando às cinco e cinquenta e cinco da manhã e você depois de uma insônia braba, que começou às três da manhã, olha aqueles números pequeninos e aposta!: "só mais cinco minutinhos...".

O passo seguinte é ferver a água do café e porque só vai despertar os sentidos depois que o cheiro do pó coado invadir as narinas. Até a hora boa de acordar os filhos. O café da manhã já à mesa. "Tapioca quentinha meus queridos. Vamos levantar?". Proposta com nenhum espaço para negociação. Outra estratégia que uso é o cheiro do pão de queijo mineiro. Infalível.

"Mais um dia de aula, mais um dia de aula". Responde ainda meio torpe a versão criativa de Nemo em seus nove anos completos. Escapa aquele sorriso cúmplice, um beijo nele e na filha de seus quatorze. Para ela ainda não cabe, por completa, a frase que dedico a vocês desde o início do texto. Embora saiba que este é um dos projetos em sua vida, dos maiores e mais desafiadores como bem sabemos, tal qual foi nas nossas vidas.

Ela já caminha sozinha até a escola. Um beijo mais demorado com o silêncio contendo a frase no pensamento. Nessa hora, penso comigo que se ela tivesse pouco mais de idade eu inventaria de brincar em checar que lembrou, não apenas do lanche, mas também do protetor solar ... Cai como uma luva para esses tempos quentes e de tanta radiação solar, se é que me explico. Aliás, taí outra invenção necessária. O protetor solar. Nem precisar perguntar ao Bial.

Para vocês a frase vai inteira e cheia de outros pensamentos e reflexões. Completa nas lembranças de cada momento da história compartilhada. Dos terríveis espartilhos, aos cintos de castidade até nossos moderníssimos amigos do peito. Só mesmo as magazines queimam em suas liquidações. Nós não. Dedicamos uma gaveta para muitas versões dessa invenção. Não queimamos mais os sutiãs. Não é preciso. Nossas metáforam são outras. Acendemos velinhas perfumadas em noites mais românticas ou sopramos a do bolo de aniversário com primeiro pedaço dedicado a quem bem entendemos.

Ainda neste fim de semana vi um namorado chateado porque uma de nós dedicou o primeiro pedação ao melhor amigo. Afinal, o recém-chegado não compartilhou dos momentos difíceis, ora essa. É assim nos tempos modernos. Chaplin bem que avisou. Ajeite rejeita o automatismo porque sabe o valor da amizade. E como a vida ficaria tão impossível sem ela. Na nossa versão são muitas folhinhas viradas em calendários. Oito, quinze, vinte, trinta anos! Mudamos tantos hábitos. Dedicando lixo perecível para a compostagem e o reciclável para doação a escola. Essa rotina ainda mais frequente em nossas vidas que as conversas nos cafés ou no bar de sempre.

Esse dia-a-dia que nos ocupa tanto e muitas vezes diminui a frequência dos nossos encontros. Nossas conversas e análises bebidas em pequenos ou grandes goles desse vinho. Temos fotas digitais em nossas comunidades que mostram. Estivemos aqui e ali e continuamos. Vamos indo. Porque a mentira pregada tantas vezes de que mulheres não sabem ser amigas não grudou em nós. Passou direto por nossos ouvidos. Ficou retida no nosso detector como tantas outras tão convenientes, exceto para gente. Continuamos fazendo diferente - ao nosso modo - a diferença valer de um jeito mais construtivo e amoroso.

Sem as violências de antes, embora elas não tenham desaparecido do planeta. Mas que já são julgadas de outra forma. Sob outra ótica. Inclusive por nós mesmas. Afinal ainda somos e seremos sempre, eu suspeito, quem vai parir e amamentar ou alimentar nos branços contra o peito os recém chegados ao planeta. Não apenas com o leite e o aconchego da nossa voz terna, do nosso cheiro. Mas principalmente com as nossas idéias que definitivamente mudaram. E transformam cada vez mais este mundo.

Wednesday, February 24, 2010

Até as minhas veias suportarem, acenderei esse ponto de pólvora. Tenho um extintor como ouvinte. Neste pequeno muro erguido em frente à minha porta. Eu e minha escuta diminuta. Minha escrita torta. Por que me pergunto tanto sobre o amor e seus vazios? Por que nunca me parece preencher todos os espaços? Como posso olhar para tua ternura, se a minha escapa por esta alma fragmentada? É, ao final, um sentimento de bicho, de felina, que me faz subir no muro. Talvez porque queira olhar um pouco mais do alto.

Então subo na árvore e você deseja que quebre uma perna. Deseje-me sorte apenas. Como eu alimento por ti os melhores desejos. Os mais positivos. De sucesso e glória. Em busca da força que ainda credito a mim mesma, vou acendendo esse ponto de pólvora, até as minhas veias suportarem.

Tuesday, February 16, 2010

Respirava profundamente aquele ambiente que criaram no momento do encontro. O cheiro tão próprio da junção de dois corpos. Aspirava para impregnar em si mesma aquele lugar tão vasto. Uma seara. E ele emitia espécie de barulho que reproduzo. Um urro para o alto. Que nela reverberou em resposta: Uau...
Subiu no caminhão. Tinha pressa. Queria chegar logo para encontrar um tudo novo. Tinha tanta pressa que subiu. Para amainar o ambiente da cabine pergunta sobre a carga para o caminhoneiro. "São sapatos", respondeu. Era sua carga. De sapatos ficaria em algum lugar. Ela e quem o aguardava em sua pressa.

Anjo Caído


Noite dos tambores silenciosos. Luzes se apagam. Fogos são arremessados para o alto e aquele anjo caído bodeja em meu ouvido. Seu tom de voz, sob efeito de "drag-and-drop". Ele sussurrando dizia-me do desejo de beber-me inteira, ali mesmo, em meio aos corpos suados.

Foi com muita coragem que enfrentei o anjo. E contive seu desejo por mim. Deu a si mesmo um nome tão áspero que emudeci. Mas encarei sem medo seus olhos verdes e vivos. Tão vivo era o anjo caído quanto suas mãos quentes e graúdas. Inquietas.

É pequeno o meu corpo inteiro para as tais mãos... E ele continuo com o seu grunido em meu ouvido, dizendo coisas que Deuses não duvidariam porque assim o conheceram. Antes de perder suas asas e descer ao mundo dos homens, este anjo cumpria missão abissal no Olympo. Entre todos os supremos seres divinos ele era responsável pela segurança da grande Hera. E se perdeu no convívio forçado. Perdeu a confiança do grande Zeus, irmão e marido da figura de mulher marcada pelo ciúme e pelo uso abusivo do poder a ela investido.

A este anjo não foi dado o perdão. Nem notoriedade a seus atos condenáveis. Silenciosamente foi enviado para outra dimensão onde ninguém jamais teria notícia do acontecido e mesmo da sua existência. E assim, naquela noite de tambores, ensurdecido e ainda torpe por suas perdas, o anjo deu-se ao Pátio de São Pedro. Fixou sua força em meus olhos e me tomou nos braços como quisesse vingar mal que não cometi. Confundiu-me com Hera em minha força de genitora e por uso da pena e quis passar seu destino a limpo.

Enfeitiçado que estava ainda pela imagem da Deus rixosa confundiu-me sem que houvesse tempo para esclarecer o mal entendido. Tomou-me nos braços fortes feito grandes troncos de árvores e apertou seus lábios contra meus ouvidos. Naquele momento exato de fogos ao alto ele mesmo explodia e por tudo queria depositar em meu corpo seu apelo de gozo. Erguia-me roçando meus seios, umbigo e coxas por seu dorso desejando com força beber-me ali. Eu suspensa já, com os pés fora do alcance do chão, erguida pelo anjo caído segurei seu desejo com meus olhos frágeis num apelo mudo de sorte outra que não aquela da troca. De tão inútil sentimento de vingança em outro corpo por pura troca.

Foi com coragem firme que enfrentei o anjo caído e seus olhos verdes vivos que despiam-me desde o primeiro instante que me fitaram. O encontro exalou um cheiro estranho entre aqueles outros corpos suados e despertou ali no meio do pátio um luminosidade vermelha de entranhas de cabra. Tingiu o lugar perfumando o entorno, deixando naquele carnaval uma centelha de fogo eterno acesa.