Lugar da delicadeza com o outro e com a própria Liberdade.

Onde se está de acordo com o único modo do humano de ser feliz

Tuesday, April 05, 2011

Eslováquia






- Eslováquia!!! Eslováquia!!! Eslováquia!!!

Ela gritava numa alegria de ensurdecer.

- Eslováquia!!! Eslováquia!!! Eslováquia!!!


Não é tão simples explicar a euforia dessa moça. Tento sem qualquer certeza de que poderia traduzir usando apenas algumas palavras nesse espaço em branco. Já ruborizei agora mesmo pensando no bem estar dela. De manter apenas bons olhares sobre ela.

- Bratislava. Sim, claro. Bratislava!!! Vejamos... Europa Central. Fronteiras com a República Checa, Áustria, Polônia, Ucrânia e Hungria... Ah, sim. Tudo agora faz sentido. Como poderia sem você Clarice? Da França tudo bem. Embora seja tão pouca a comunicação. Quase nenhuma há mais. No entanto, jamais esperaria por esse número: seis! Apenas neste mês. Seis silenciosas visitas. Muito grata.



Olho com certa compaixão essa mulher tão simples. Que quer ser vista. Ser olhada. Ser lida. Como se expusesse aos palpites de cartomantes em decifrar linhas das mãos. Sua euforia tirou-a de mais uma manhã difícil. Poupou-lhe de alguns cigarros a mais. Soltou-a das amarras que se impôs. Agora cada vez mais firmes. Seu prazer é saber que suas ideias podem ser partilhadas. Como que ouvidas em diálogos mudos. E quando se depara com o fato de atravessar mundos, dialetos, culturas... Não. Tem motivos para toda essa festa.


Vou deixa-la curtir mais à vontade.
- Eslováquia!!! Eslováquia!!! Tchá tchá tchá. Eslováquia !!! Eslováquia!!! Hei hei hei. Será que agora está muito frio por lá? Será que você gostaria de um chocolate quente? Que idade tem? Quais foram seus momentos mais felizes? Sofreu decepções como eu? Esqueceu? Qual livro de Clarice gostou mais? Será que eu saberia dizer "Olá" em eslovaco?

"Ahoj!!!" Qual a sua comida preferida? "Dobrý deň, aké je vaše obľúbené jedlo?". Vou repetir: "obľúbené jedlo; "obľúbené jedlo"...Aká radosť!



Desculpe se interrompo, mas antes de partir, gostaria de saber: Conhece alguém que foi morar lá?

- Não que eu saiba. Meu palpite é que se deve à minha terna Clarice. Pode dizer. Se foi ou não. Olhe, já posso até imaginar apresentar-lhe o Brasil. Comer uma boa feijoada, uma caldeirada, camarão no alho e azeite. Acompanhado de uma boa cerveja na praia e muito protetor solar. Um passeio pela Rua da Aurora. De minha parte, gostaria de provar os famosos bunhuelos. Que tal um "bryndzove halusky"? Hum.... queijo de ovelha frito e bacon também frito.  Depois conheceria a kapustnica, deve ser uma fantástica sopa: repolho, presunto defumado, salsichas, cogumelos e maçãs!!! Como nunca pensei nisso? Sempre adorei caldos com maçã. E como é Páscoa, tempo de renovação, encerraria com palacinky de chocolate...

Monday, April 04, 2011

O disparo à queima roupa não calou aquele menino. 
Que fez gentileza ao policial, que acertou-lhe a bala. 
Apesar dos tiros, conseguiu ficar vivo. E injustiça cala? 
Para que eliminar somente o menino?
Quem disse que matá-lo é lutar contra o crime?


Prezado senhor policial, agora ficou bem claro? 
Não é bom companheiro o erro ou o desatino.
Como poderia ameaçá-lo? Você em grupo.
Ele desarmado... Foi vontade de ouvir estalo?


Conclusão disso tudo é que o menino estava sozinho.
Enquanto isso, como o senhor , seu guarda, há muitos...
Quantos continuarão assim? A morrer sem mover moinho.

Saturday, April 02, 2011

Condicionamento



Joana está tão apegada, tão presa ao que espera da própria coerência, disciplina, pontualidade e cumprimento das obrigações que acaba se desorganizando. Condicionada a fazer o certo de uma forma tão pesada, que faz errado por exaustão. Agora a pouco perdeu o tino e a vontade de, por exemplo, fazer aquela faxina na casa. Não suporta lavar pratos e todos os dias abrir a torneira de cara com aquela antipática pia. A montanha de roupas no tanque cresce diante dos olhos de Joana como se fosse um Monte Everest.

Não sente vontade de nada. Apenas necessidades básicas. O prazer em fazer as coisas dissolve como pastilha efervescente em contato com o suor da mão pesada. Mãe da obrigação e de olhar crítico. Quando criança era sempre levada para benzedeira. Diagnóstico: mau olhado. Sua criatividade travava com tudo. Não relaxava a menina um só minuto. “É como se tivesse perdido a chave do cadeado com que trancou a imaginação”, arrisca palpite meu filho com a mesma idade que tinha Joana.

Ainda hoje, até no instante em que respira ou se permite uma pausa para o café e aquela cervejinha com camarão suspira de angústias. Condicionada e viciada num mesmo modo igual. Sempre parece ter como propósito mexer uma ferida aberta por tédio e na pressa de vê-la cicatrizar, catuca. Joana está presa pelo tempo que não capturou em seus preciosos instantes da coisa.

 
Melancólica, entediada, fraca. Não há nela força nem ânimo para se reinventar em coisas simples como a roupa ou o sapato e a bolsa. É tudo tão previsível, sobre forte controle e rigidez de espírito que  Joana sente fortes dores de cabeça novamente. Mesmo depois de tratar do labirinto com medicação, ininterrupta. Coisa que durou quarenta longos dias. Imaginar que poderia trocar isso por uma viagem de descanso. Está apenas se levando e carregando a vida de todo dia. Precisou várias vezes mudar de casa, destruir-se para reconstruir. E implodir tudo que poderia ter sido se não estivesse tão determinada a sê-lo.

Joana quer força e sentido demais. E erra a mão. Porque não quer nada o tempo todo e quando quer não tem controle. Porque controlou o desejo todo o tempo. Não planejou com carinho, curtindo cada etapa. Cada instante.

“Estou cansada de mim mesma e de rodopiar no pilar do mesmo conflito”, diz Joana. “Exauri minhas forças querendo chegar longe e acabei não indo a lugar nenhum. Tudo que tenho hoje são lembranças”.

Situação pesada. Grande fardo o de Joana. Até a morte ficou parecendo mais leve, solução para o caso de imediato. Mas Joana não vai morrer agora. Muito provavelmente. Embora fume todos os dias, talvez para isso, não vá nunca ao médico e pareça lutar com afinco. Às vezes sai para beber com os amigos como se não houvesse amanhã. Aí, o outro dia chega, e Joana não sabe o que fazer, parece , no entanto, perdida por estar viva ainda. Levanta mais exaurida e desorganizada.

Garrafas d’água e caçambas de fazer gelo para encher. O almoço por fazer, casa por limpar, pratos por lavar, o lixo – tão maior que do dia anterior – para recolher. Sem falar na montanha de roupas crescendo. E aquela pia antipática à sua frente. Observando-a todos os dias, quando ficam cara a cara. Na terapia, Joana descobriu que busca no caos proteção. Talvez para manter distância de si mesma. Dos terríveis condicionamentos.

Thursday, March 24, 2011

foto: Julia Margeret Cameron


Perdão

Não gaste essa palavra. Entre nós não pode haver sentimento de culpa. Desculpas. Não há pelo que pedir perdão. Há de haver inteireza no pensamento e nos sentimentos que dispomos de um para o outro. É que por mais misteriosa que seja a flor do amor, é regando e convivendo com sua inusitada existência que aprendemos dia a dia e compreendemos noite após noite a relevante presença em nossa vida a euforia do amor se faz na velocidade do encontro dos corpos carentes. Necessitados do toque.

- Quero tuas mãos em todo o meu corpo. Desperta cada célula condicionada à retração pela violência do mundo que enfrento quase moribundo.

A fração do tempo de que dispomos foi o tempo preciso do acender a chama que já ardia e ainda queima em nossos corpos. O peito pleno pela esperança de um novo encontro. Um outro momento a sós. Aquecendo mutuamente nossas peles endurecidas pelo sol a pino. De existências onde não nos poupamos. Não evitamos sequer o risco de nos expor à morte silenciosa. Muda e invisível a outros olhos. O pequeno intervalo da espera de juntar nossas carcaças suadas e cansadas deve-se apenas ao envolvimento apaixonado promovido por nosso livre pensar. Nossas semelhanças em idéias sobre o mundo. Avanços e conquistas do nosso entendimento sobre tudo.

- Estava até esquecida de como é bom sentir-me aquecida que não por esses lençóis frágeis onde me faço a cada noite um casulo de borboleta colorida. Estou completamente envolta agora no leve e doce despertar de conhecer-te. Do que vislumbramos na imensa trajetória a nos reservada nessa busca de descobrirmos um outro.

- Nós que somos tão diferentes. Eu tão diferente de ti quanto de tu de mim. Eu que tanto desconheço meu próprio eu. Como é provável aconteça da mesma forma contigo. Já sinto que estamos em igual desejo de querer um ao outro.

- Mais e mais e mais e mais...

- Vem assim. Sempre. Inteira. Mesmo que a ti pareça que eu não queira. Vem assim. Assim e assim e assim... Porque  por mais misteriosa que seja a flor do amor, será apenas regando-a que a faremos vibrante. Viva! Será apenas convivendo com sua inusitada existência que aprendemos dia a dia e compreendemos noite após noite a relevante presença dessa que desabrocha em nossa vida.

- Saiba também você que tem liberdade franqueada no meu coração. Em teus sim's e teus não's. Porque está aqui presente o desejo e já é fatal a voluptuosa mistura dos nossos corpos. A inexorável e incontrolável afeição de nossas mentes. Até então dormentes para os sentimentos mais plenos provocados pela emoção dessa paixão que agora nos ocupa e preenche.

- É incontestável. Impossível ater-se a outra crença que não se pode dizer sim à vida que se faz a partir de agora. Viver só faz algum sentido se for intenso. Real é aquilo que tornamos fatos com palavras e atos na direção do amor. É inevitável. Imperdoável, se não for assim.

Wednesday, March 23, 2011

Drama em voz feminina

“Cada fracasso ensina ao homem o que ele precisava aprender
Charles Dickens


Caro Anjo bom,

Conecto-me novamente a você. Engulo meu orgulho do sentimento de abandono que tive. Sei hoje que sempre esteve comigo, mesmo quando foi difícil nossa sintonia. Fraca de sinal. Ainda posso ouvir sua música a cada instante e em todo momento. Ainda sinto me muito só! 

Mas nessas horas em que sonho contigo, consigo ver teu sorriso colando em meu ouvido. Ora cuidando dos meus filhos queridos, ora cuidando de mim, ora dos meus amigos. Amo a ti para sempre meu Anjo! Um sempre que é também o tempo todo. 

Estou muito feliz hoje porque ainda há tempo de festejar o teu dia preferido. Acenderei velas por isso. Atearíamos fogo na lenha fazendo a mais linda fogueira estivéssemos juntinhos. Mas tenho fé que um dia ficaremos mais próximos novamente. Mesmo sem tua presença há tua alegria nova ainda em mim com uma paz que não havia. Uma liberdade de sentidos. É uma alegria calma, como na noite escura de Clarice.

Mesmo que eu esteja cheia apenas da minha mesma alma agora, sei muito bem quem eu fui, nos tempos do Olimpo. Sei que fui eu que comecei a desenhar o fim. Lembrei de mim há pouco. Estava no meu corpo por empréstimo de mim mesma. Sei que não será consolo dizer que não era eu. Ou que sendo em mesma, naquele momento, estivesse eu ciente, agiria de outra forma. É a mais pura verdade. Houve em mim vaidade. 

Parece que precisava andar até onde andei me perder da minha alma algumas vezes e me fazer alguém nova. Alguém com quem eu possa me reconhecer. Perdoei a mim mesma e por motivos firmes, sólidos. Sobra hoje esse perdão. Estarei sempre no mundo com o propósito de dar o melhor aos filhos. Mesmo quando matematicamente não for possível. Mas saberei sempre fazê-los crescerem felizes. Sem espaço para qualquer milímetro de dúvida. 

Por isso, agora, te escrevo meu Anjo, e escrevo. É que estou eu em grande dúvida, do teu amor por mim. Sei que não deveria ser essa a minha busca, mas é que parece que todo o tudo que existe vem depois dessa certeza tão improvável. Sei que podes dizer de mim agora que sou tão imatura. Insegura. Vou me reconhecer e encontrar me em meu lugar. Mesmo que hoje pareça difícil, creio, por visões do cinema, que eu sei por onde começar. Meu pássaro azul, deve estar preso em mim mesma.

Sinto-me agora como em três verões, milhares de banhos de mar. Sinto o sal – grudado no espírito! – novamente brilhando impregnado no corpo ao sol. Serei sempre doce contigo. Serei mais que este ser humano perdido. Vou tornar definitivo esse amor sem idas e vindas. Aprendi muito, mas esqueci o que ensinam as ondas do mar. 

Porque tudo que quero da felicidade na vida é ser eternamente. A felicidade para mim é terna. E infinita. Eternidade é a melhor palavra que encontrei para te dar de presente. É visível. Porque você sempre existirá mesmo que eu não possa te ver. Toda a certeza da beleza da minha vida voltou quando comecei a entender meu papel.  Agora posso ver. Por isso, perdoando poderei novamente viver com a minha alma. Sem qualquer sombra de dúvida. Na certeza de pressentir tua existência, meu caro anjo da guarda.

Friday, March 18, 2011

"A nuvem radiotiativa de uma usina nuclear fica contida no raio de trinta quilômetros da área atingida". 


A gente acredita. 


Do que eu posso entender, o homem não precisa inventar guerras e usinas como remédio contra o tédio. Os desastres naturais ocupam mais. Cuidar do que restou, satisfaz?

Thursday, March 10, 2011

Esses olhos alimentam a fantasia. 
Olhar sem poesia diferença faria?

Sunday, February 27, 2011

Respondo

Empenho no que sobrou desse tempo esforço danado em ser responsável pelo meu e pelo sentimento. Porque seduzir é mesmo uma compulsão, às vezes. Mais força demonstro ao resistir. Pelo menos é real. E não reflexo em céu aberto, por espelho da água da chuva onde encontro com precisão imagem de mim mesma que inventei. Como na fotografia citada que revela o inconsciente ótico do fotógrafo. Soube quando a psicanálise revelou o inconsciente pulsional e mostrou o que eu não via.

Friday, February 25, 2011

Carnavália

Parem, por favor, por todos os Deuses, o tempo do todo poderoso "passionato amore". Peçam, por caridade, para que toda água que caia seja da chuva ou de uma lágrima rara. Essa alegria danada, esse impulso de contentamento fácil, está me doendo no corpo. Fantasias sem limites, imediatices, quantas palavras ternas tornadas tolices.

Parei com a celebração por Momo. Ouvi sua risada sonora em seu trono. Ria-se todo, de corpo e alma, por minha tontura aceita com tanta calma. Veja agora se não estala em meu ouvido mais um desses apitos e zunidos. Não quero mais esse ensurdecedor estrondo de milhares de quilowatts. Tantos instrumentos tocados sem alento. Apenas com impulso de quem nem está mais atento.

Não se enganem em imaginar que peço pelo fim da fantasia. Por mim, impera o reino da alegria com alguma magia. Alguma espera e meninice. Toda certeza que está na constância e natureza das coisas, nas similitudes da vida. Promoverá tamanha euforia pensar assim o carnaval de modo a fazer dos outros dias do ano uma certeza de Amor mais plural.

Para tod@s,

Tuesday, February 08, 2011

Uma aprendizagem ou os livros que despertam o prazer de ler

A menina tem doze anos e já leu 5.386 páginas do fenômeno Harry Potter, da encantadora senhora J.K. Rowling. Sem falar em todos os livros propostos pela escola como Os miseráveis, de Victor Hugo e O nariz, de Luís Fernando Veríssimo e outros. Em média tem devorado de quatro a cinco livros, no período das férias.  Inclusive os de Ágatha Christie.

Circular naquele espaço - chamado de bienal – para ela que observa tudo com atenção de leitora desperta, mostrou-se apenas a insuficiente sensação de estar pouco mais próxima das editoras com seus símbolos nos exemplares que costuma adquirir. Viu escritores ali circulando e falando nos auditórios, mas para ela pareceu estarem em situação de algum desconforto.   Não pelas palavras que escolhiam certificando suas opiniões, como nos livros. Mas pelo ambiente tão seco de montagem passageira e pouco convidativo. Faltou juntar o ambiente das ideias a uma decoração mais cativante às mentes tão criativas.

E na ausência de algum mistério o sonho, a imaginada tarde em meio aos livros tal qual um Visconde de Sabugosa esquecido na biblioteca da simpática Dona Benta se desfaz em quarenta minutos feito bolha de sabão. “Mãe, agora já podemos ir para casa. Acho que já vi tudo". É fato, ela não andou todos os metros quadrados de alcatifas surradas e empoeiradas. Mas já viu tudo que podia. E basta.

Sua fala é uma reação imediata também ao momento “livros didáticos”, em derrame de tinta sobre papel em modo duro. Sem limites para erros e mau gosto. Não é o que a menina gostaria de ver. Tocar. Achou legal a invenção de uma gráfica que imprime livros rápidos e o anfiteatro onde alunos e professores interagiam com autores. Também aquela cozinha especialmente preparada para tornar-se ponto de encontro, o mais agradável, na hora do café.

O cansaço dos olhos da menina está na poeira do que é tornar feira ambiente onde esquece que o modo de pensar também elabora o modo de desejar. E quem procura por uma boa literatura e conhece lindas livrarias. Não contenta. Melhor fazer como fizeram num outro Estado, soube. Uma árvore com livros pendurados e fios enormes para permitir ao leitor o inenarrável prazer para o qual nasceu. Ler debaixo de uma frondosa árvore com a brisa leve soprando seu rosto enquanto viaja pelas páginas que transpõe uma a uma.

Viu muitos lançamentos, a menina. A própria escola adotou edição especial de uma editora paulista por sugestão dela. Os livros estimulam o pensamento e firmeza de opiniões. Desenvolve a capacidade de ter segurança em alguma iniciativa. A menina sabe do empenho necessário para vender livros, por histórias que conhece na família.

Foi a palavra “originalidade” que buliu rápido com a percepção dela. Talvez porque é diferente sua velocidade de pensamento, ao perceber em alguns corredores o ataque direto, frontal para um tipo de produto que entristece a cabeça da menina à espera de algo mais. Já acostumada ao assédio dos shoppings, para ela, não há nisso nenhuma novidade.

O mérito de um evento assim continua sendo a reunião de cabeças pensantes e boas propostas em realizar o grande desejo de um bom leitor. Mistério parecido com o do coelho pensante, de nariz cor-de-rosa que mesmo de barriga cheia, quer ir em busca de mais comida. Escapando do seu lugar ou para ele reservado.

Ali, por exemplo, uma das grandes livrarias teve a boa idéia de destacar obra completa de Ziraldo usando as cores do universo de Flicts. A menina não precisou de muito tempo para perceber que ali queria ficar. Porque nada interessa mais e desperta seus instintos de boa, curiosa e voraz leitora do que ler nas entrelinhas, e isso inclui a palavra "feira".

Monday, January 31, 2011

Nas asas da borboleta

No bater de asas da pequena borboleta teve início o tufão do outro lado do mundo. O terrível incidente, episódio da natureza, faz crer até hoje - em princípio - a tendência ao caos. As interrelações. Madeleine McCann está agora em algum outro lugar por um motivo simples que fez seus pais a deixarem com os irmãos gêmeos. Kate e Gerry foram absolvidos. Os gêmeos também.  

Que nas asas dessa pequena borboleta esteja a alegria de saber do fim em si mesmo. Cuidados com os filhos. Crianças vivendo ingenuidades, não negligências. Sem as naturais maldades a apavorá-las. As tragédias. Que impere a vontade de conhecer melhor o amor criando uma nova onda. Não caótica. Positiva no pensar.

Sei que o pessimista pode ser apenas um otimista com experiência. Mas um otimista pode criar uma nova realidade. Hoje somos capazes de construir tudo. Tudo no ambiente virtual. Então vamos recriar no universo real de boas possibilidades. É mais do que pensar. É crer. Acreditar. E alimentar ondas positivas. Nas asas da borboleta fazer vibrar universo mais justo. De bons impulsos. Ondas positivas em sua dimensão.

Há uma aposta alta que faço agora. Aposto com você todo o amor que dedico e bons pensamentos podemos transformar. É um ruflar colorido. Positivo. E que ninguém dedique seu olhar a outro ser humano senão de contemplação positiva. Mas do que crítica. Contemplar justo. Admirado e terno. Como ensinou Aristóteles. É profundo compreender o mundo.

Esse ruflar pode desencadear algo novo, além do espelho onde descrevemos a terra no centro do universo. Ou o humano adulto. Há outros centros. Pode haver um novo modo. Imprevisível e positivo. De criação contemplativa. Asas de borboleta, como no olhar de Julia Margeret Cameron, infância de asas e flores. Anunciação. Suave ruflar a recriar nosso pensamento.

Monday, January 24, 2011

Fotografia de tio

Olho para a janela do quarto e lá está ele. Em sua hospedaria dos Tempos Perdidos. Esse tio me ensinou a amar os livros, além do amor que já estava em mim. Ensinou-me o primeiro sentido sobre a leitura. Concordo ao ler seu amigo com nome que lembra “coquetel” escrever sobre sua cadência. Um escritor que se submete apenas à noite e ao mel. Com um desejo de felicidade cego, insensato e frenético. Que ora soa como hino, ora como elegia. Este é meu tio!

Em sua escrita identifico a sua busca por uma canção suprema. Sem precedentes. Um auge de beatitude. Em outros instantes percebo que se doz de forma a ensinar o valor da dor. Do empenho, do trabalho árduo, do sofrimento. A felicidade que só brota do grande esforço da semente e desabrocha como um poema lírico a invadir a floresta encantada da recordação.

Seu duplo impulso de felicidade ligou – me ao essencial. Conectou – me ao mais profundo da compreensão daquilo que pode habitar o pensamento em sentimentos humanos de suas próprias memórias. Descreve a alegria de esconder –se por trás da página até ouvir sentenças como “feche o livro, é hora do jantar”. O mesmo sentimento de grande esforço me invadia. Eu me escondia, meu querido tio. Procurava a árvore mais esquecida, subia nela. Ou ia até a torre erguida no terreno da casa e deixava que chamassem meu nome.

Como sua escrita como um biscoito agora, ao ouvir suas histórias de cocheiro e bebo o vinho tinto quente que quase derrama em meu colo no vai e vem da carruagem. Atravesso em sua companhia a ponte do nosso sonho em comum. Não é idêntico, mas semelhante.

Suas palavras em textos tecidos são a manta que me aquece agora. Nessa noite fria de nenhuma outra parecida. Não canso de preencher minha mochila de boas leituras como as tuas. Tecer bonitos bordados das melhores lembranças desenhadas por ti. Chego a sentir novamente o sabor do vinho quente com biscoitos que me ofereceste tão ternamente em noites frias.

Enquanto chacoalha a diligência que guias em terreno de sobressaltos sacode meu raciocínio e fico às voltas com o reconhecimento da ausência de um número. Sua paixão pelas figuras mais ternas também não me escapa. Não são comensais, mas as mais penetrantes e íntimas estruturas humanas que se confundem com as folhagens dos palacetes. Hipnotiza – me com a descrição dos ambientes em que diverte –se com o gosto por cerimônias e outros lazeres em suas colocações irônicas.

Seu apreço por descrever os prazeres desse grupo pequeno e organizado. Duro e simples em sua lógica dominante, que meu querido tio critica e analisa de forma verdadeira porque identifica seus defeitos e preconceitos em esnobismo. A tolice dos seus pressupostos. Amo sua liberdade e seu esforço de resistir à falta de fôlego. Suas crenças, sua atitude isenta em desenhar revelando o que está por dentro de todo esse ambiente em que viveu e reproduziu.

Deu – me a chance de mergulhos profundos em seus momentos de reminiscências de belas imagens. Quando também pude comer até o caroço de suas lembranças como a uma fruta doce que saboreei até o grão.

Castanha do pé de caju do sítio onde morei em tenra idade. Suas imagens me levaram a Paris várias vezes. Tanto que impregnaram em minha imagem e muitos me reconhecem como alguém que já havia estado na cidade. Até hoje ainda duvidam quando afirmo conhecer bem meu país. Foram os cenários que tão bem descreveste e comi. E impregnaram em mim.

Como cheiros e perfumes. Bebi como um recém – nascido bebe o leite saído do peito da mãe. Gostoso inesquecível a alimentar minha vida, então, tão insípida e abstraída de outros prazeres. Queira entender de tais prazeres e odores e a aura de abstração criada por ti encaixava em mim. Como uma manta me aquecer e cobrir meu corpo de menina aos onze anos.

Partilho hoje da tua falta de fôlego, meu terno tio. Porque, apesar de tudo, também me ergui e amei nessa vida. Também me dei aos tombos, aos valores perdidos de palpitações sinceras. Frases pensadas e não menos legítimas. Quanto pensar contigo aprendi. Ao ingressar no teu universo de dedicação ao indizível aprendi a conter a respiração e segurar pelo tempo que pudesse.

Tudo para recriar a realidade dos homens. Comungo da certeza de que também o fôlego me faltará no instante da morte. Também meus pulmões e todo meu sistema respiratório. Meu corpo inteiro não poderá conter o sopro intenso do desejo de recriação do mundo.  

Wednesday, January 05, 2011

Idade da razão


Chaleira fervendo sobre a mesa. O que mais aquece nesse Recife Inverno? Não pondero opiniões e suspeito dos não erros de quem só vai direto ao ponto. Sem desconto. Concerto do meu soneto. Calço as sandálias que perdera no caminho. Sei hoje quanto mereço. Vejo pouco menos com os olhos e pouco mais com o que sinto do entorno. Avisto na Boa Vista notas musicais saindo do asfalto. Palavras completas acompanhando os carros em velocidade. Vibro com o andar da carruagem.  

Muito ainda precisa ser feito. Diogo vendia doces ontem à noite nos bares. A mãe é carroceira. Ela está tirando um cochilo ali no 13 de Maio. Recebe bolsa família. Mas precisa de mais trocados. Explica o galego de cabelos não cortados. Não pode dormir tarde. E o horário da escola? Moça, eu estou de férias. Por isso, trabalho. A senhora vai ou não vai comprar o confeito ou me dar um trocado?

Posso fazer isso não, Diogo. Mas sente aí, coma alguma coisa. Depois você explica a sua mãe que criança na rua é perigo. À noite mais ainda. E que você ainda não tem idade para trabalhar desse jeito. E Diogo se espanta comigo. Eu já tenho 9 anos!!! Reagiu, indignado... Talvez pareça muito porque você já está cansado, não?  Não é isso dona. É que lá onde eu moro é muito pior do que aqui. E mesmo assim me safo. Não foi ninguém que mandou eu vender. Sou eu mesmo que quero. Prefiro muitas vezes estar aqui.

Diogo me deixou sem palavras. Enquanto ele comia, eu não sabia o que dizer.

Monday, January 03, 2011

Mel de abelha

O que é a compulsão por leitura? Por que não se pára de querer mais e mais ler quando se consegue entender o que está escrito? Outro dia, andava pela rua Dom Bosco, no bairro da Boa Vista e vi uma frase escrita no muro do lado direito. Estava escrito: “Corno é assim mesmo, lê tudo que vê”. É. Aceito. Corno deve vir do grego “Cornus”. Como no caso da palavra “unicórnio”. Um único chifre. Chifre que é cornus em grego. Fiquei pensando nisso. Pois chego à conclusão de que pode virar corno quem não lê. Acho que essa idéia de poder a ter chifres deixou as cabeças mais pesadas ao circular por aí. É como cabelo procurar cabelo em sapo. E todo mundo sabe que quem procura acha.

Vou tentar explicar minha teoria. Outro dia um amigo doutor em literatura, que está agora em Nova York, aconselhou me a deixar um pouco os livros e ir viver. Nesses impulsos de estar sem sair a muito tempo e carente de alguma atenção, quase que por distração, fazia nascer cornos em alguém que nem conheço. É. O mundo é assim e não é de agora. Mas ainda acho que quem lê não tem como ganhar esse adereço. Desde que aprenda a ler. A língua do outro. Não um outro como nesse não casa que quase me punha a bancar a decoradora. Mas a língua de quem está com você. Difícil é perceber e conter a tristeza diante da decisão do outro.

Quando o outro já quer, mesmo se você sabe ler, você vai virar corno. E quando lê, não pode mesmo evitar esse sofrer. Mas vai que o outro percebe sua excessiva atenção e tem algum coração. Aprender a ler pode fazer você evitar que um avião em pleno vôo aterrisse e deixe o outro a navios ver. Mas acho melhor ter mais preocupações com o que vai dentro da cabeça.  Ainda mais agora que até presidenta a gente já tem. 

Ao invés de perder tempo em frases como: “corno, ser ou não ser?”. Melhor mesmo é aprender a ler. Porque relembrou a mineira agora comandante do nosso barco, inesquecíveis mesmo são as palavras de Guimarães Rosa. Porque "o correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem". E ler, ler, ler e ler.

E se deixar nessa compulsão levar para outra dimensão. O que me faz lembrar uma amiga assim. Ela lê: bula de remédio, manual de instrução, composição de produto limpeza ou higiene pessoal. Lê gibi, revista, jornal, carta, enciclopédia, dicionário e livro.

Ela lê de tudo e faz da leitura diária um abrigo. Não sai de casa antes de ler o jornal. Não compra um produto antes de ler o que está na embalagem. Lê cada item descrito no manual, afinal saber do óbvio não faz mal. Revisa textos de jornal, cartaz de artigo feminino e até artigo científico. Lê as placas nas ruas para os filhos, mesmo que idades não tenham pra isso. O resultado é que um deles perguntou aos quatro anos, antes de alfabetizado, por que farmácia tem acento e o mesmo não acontece com supermercado? Deu provas de ser super dotado? Na opinião apenas estava esse menino acostumado a ouvir tantas palavras por sua mãe já ter tanto falado.

Mas essa minha amiga, chamada Débora, de abelha ou agora abelhuda, talvez, na sua visão, tem mania de olhar os classificados e só assim ficou sabendo do fim de um noivado. Viu o apartamento dos amigos recém-casados ali anunciado. Mas, voltando ao tema do texto, se corno é aquele que lê tudo o que vê ou se aquele que faz isso pode um dia corno vir a ser. Acho que prefiro o risco de ser corno, o que qualquer um de nós está vida inteira a correr, do que parar de ler. No entanto, na pior das hipóteses a minha amiga Débora que lê tudo, vai ser a primeira saber. Na pior das hipóteses.

Wednesday, December 01, 2010

Só porque sou criança, não pode rir de mim....

Sunday, October 03, 2010

Abrigo


Está ficando tarde. E há algo que eu preciso te dizer: tanta coisa mudou em nossas vidas. Somente o Amor que sinto continua preso em mim. É preciso que saia. Que brote. Vou com a espada em punho, abrir a fenda que separa blocos maciços. Pôr com cautela sua lâmina. Para que abra caminho com todo zelo, todo cuidado. E para que nenhuma das pedras, por sobre eles, caiam em nossas cabeças. Esse jeito que procuro te revela apenas a primeira prova do valor que tem. A dimensão. Nem um fio de luz consegue passar hoje por essa brecha. Desejo iluminar esse lugar tão hermeticamente isolado por camadas espessas de areia e calcário. É noite ainda. Espero amanhecer para que ação seja exata. Precisa, porque necessária.  

Não houve palavras entre nós. Houve um número. Houve a ausência de paredes. De espaço próprio. Um filete de tempo. Dez deles. Dias dias. Foi do que precisava. Mas este silêncio e a distância que prescindo agora poderia torná-los meses. Mais de dez semanas se passaram. Reencontramos nossas lendas. Isolados como o ambiente por nós protegido. O sonho é de construção tão sólida quanto a matéria de que somos feitos. Há um ar rarefeito nessa caverna neste exato momento. É mister que se ventile o lugar. Que se ilumine. Que você se aninhe. Que eu me encontre também aninhada no teu peito. Erguida por teus braços de árvore altiva. Macieira no jardim. Tu alimento que me salvou de uma fome sem nome e sem fim.

Nosso segredo ultrapassará anos. Mil anos. O que sinto é terno. De um enlace igual e permeado por definição de nós mesmos. O sentimento de segurança que é tão raro e que antes compreendíamos estar em outro lugar. Agora que esse tempo passou, não é sincero abandonar o tesouro da criação do mundo em ambiente tão frio. Tão sem luz ou calor. Ao abrir essa fenda, com a precisão de abrir caminho por entre as muralhas firmes em atrito, será descoberto um novo universo. Um novo abrigo. Um lugar de onde brota água limpa e pura. Ergo punhos em direção ao encontro dos blocos. É tua a espada que carrego. E vejo agora em sua lâmina reluzir o primeiro raio de sol. É a manhã que chega. Abri.

Monday, August 30, 2010

Espero por uma compreensão de mim mesma que seja como diegese*. Eu obra, tu a linguagem que me narra e lê, que me traduz como presença sonora que partilha a cena com o eu personagem.

*Diegese é um conceito de narratologia, estudos literários, dramatúrgicos e de cinema que diz respeito à dimensão ficcional de uma narrativa. A diegese é a realidade própria da narrativa ("mundo ficcional", "vida fictícia"), à parte da realidade externa de quem lê (o chamado "mundo real" ou "vida real"). O tempo diegético e o espaço diegético são, assim, o tempo e o espaço que decorrem ou existem dentro da trama, com suas particularidades, limites e coerências determinadas pelo autor.

Em Cinema e outras linguagens audiovisuais, diz-se que algo é diegético quando ocorre dentro da ação narrativa ficcional do próprio filme. Por exemplo, uma música de trilha sonora incidental que acompanha uma cena faz parte do filme, mas é externa à diegese, pois não está inserida no contexto da ação. Já a música que toca se um personagem está escutando rádio, por exemplo, é diegética, uma vez que faz parte do contexto ficcional.

Tuesday, August 24, 2010

João e Maria?


...

Quem sabe vou soltando grãozinhos?

Na mesa de cada dia o abandonado pão

Quem sabe até deixo escapar um suspiro?

Ou, de surpresa, um sorriso. Aos pedacinhos...

...

No simples gesto de virar para cima

Passo seguinte, troco o olhar cansado

Por um mais animado, sem os incômodos palitos

De fósforo, nas minhas pálpebras ainda apoiados

...

Tenho pra mim, em palpite simples, que

Se tivesse dançado uma música apenas

Na última festa junina, terias sussurrado


Cantado baixinho em meus ouvidos,

Que melhor que prender passarinho

É vê-los piando e voando felizes.

Friday, August 20, 2010

Uma criatura dada a perfeições, que só enxerga defeitos nos outros e nunca em si mesma, depois de romper uma amizade antiga enfrenta um dia inteiro no Aeroporto Internacional de São Paulo, Cumbica. Seu enredo faz com que mergulhe de cabeça na trama de um dos livros de Kafka. Será que o episódio vai melhorar seus modos?

24 horas passageiras

05h05. Em frente ao Maksoud Plaza. No Hotel informam que o próximo ônibus para o Aeroporto passa em 15 minutos. Sabia que o brinde da última coletiva no Banco do Brasil, um dia ia servir. Primeira folha do bloquinho! Essa despedida antecipada não estava nos planos. A noite passada foi estranha! Tudo tão confuso que é melhor não processar agora. 05h10. Difícil conseguir pensar. Só com café. Expresso, de preferênicia. A essa hora da manhã consigo um pretinho forte, amigo?
05h07. O moço parou uns segundos para entender a frase. Até que o olhar perdido desapareceu quando enxergou meus dois dedinhos naquele gesto clássico que a propaganda de alguma marca de café ajudou a eternizar.
05h10. Chic não? Pensar que meus pais se hospedaram aqui e eu já era nascida. Contaram com riqueza de detalhes: entre os hóspedes o humorista Juca Chaves em seus chinelos e camisão branco. A atriz Sônia Braga. "Pequeninha ela. E na tela a gente sempre via aquele mulherão", comentário da minha mãe. Foi café com croissant. Podia ser a despedida. Dali ia fazer mais o quê? Aquela dificuldade de raciocinar direito de novo. Nada. Pago logo a conta.
05h20. Preciso correr. Como assim? Embarco no ônibus (posso dizer isso?). Ninguém ajuda com os pacotes. Eu poste. Vou desequilibrar e cair. Preciso insistir com o bilheteiro: "Uma mão?". "Não, obrigado. Não sou parte interessada...Tudo bem, tudo bem! Seguro para você essa caixinha de presente". Ele está certo. Três sacolas numa mão, uma mala enorme na outra. Quem mandou ser consumista? Preciso voltar pro Recife. Como se a frase pudesse apressar o relógio..
05h25. Paulista é pontual. Isso eu aprendi. E rápido. O mínimo dizer que a expressão "vamos em boa hora", que a gente transformou em "vamos embora", eles minimalisticamente tornaram "vamu!". E eu fui. Pro Aeroporto numa distância de apenas mais algumas paradas. Até ali, em dez dias, não tinha aberto os livros que levei. Foram exposições, lojas de design, passeio na Praça Benedito Calixto. Uma loucura a FNAC! A Rua 25 de Março, o Ibirapuera. As fotos!? Tudo aqui.
05h30. Abro o primeiro deles. "O Processo", de Kafka. Aquele começo... Com todo o existencialismo Sartreano e a ajuda das frases de Beauvoir, minha querida Simone, antes parecia confuso. Agora não.
Vou devorando cada página e me envolvendo na trama e no drama de K. Difícil é começar, mas depois que as linhas se cruzam e vão engendrando você a angústia é maior, o ceticismo também. E os sustos simplismente desaparecem. Nada sobressalta mais. Atravessei aquela porta.
06h20. "Chegou moça! Não vai descer". O motorista do ônibus já gritando. Quase em transe, numa espécie de andar mais alto, despenquei caindo na real e descendo os degraus em tropeço. Agora que notei como essa mala pesa.
06h40. Meu Deus é caótico. Não era. Sempre acreditei na sorte. No Divino Espírito Santo. E agora, com esse materialismo todo que me é jogado na cara, onde vou encontrar algum perdão? Continuo. Não consigo mesmo parar. Deve ter um lugar para guardar essa mala. Basta o tanto que minha cabeça já pesa.
06h49. Que bebê bonito! A família passa por mim com dois carrinhos. Na volta só vejo o bebê nos braços. Livraram-se das malas? Quem? Como? Quando? Onde? Volto pelo caminho de onde veio aquela família. Que bom que inventaram o "malex".
06h50. "Sim senhorita. Temos um guarda volumes no primeiro andar. A taxa é R$7,00". O cidadão do serviço de informações é bem mais gentil. Embora as últimas palavras soaram mais duras: "A senhorita só tem que perguntar lá por quantas horas". Pensei que fosse pelo dia todo. Imagina quanto não cobram de pernoite no estacionamento! Conhecer uma cidade grande tem seu preço. Agora não é só a cabeça. A idéia de sair do apartamento daquela ex-amiga pesa também no bolso. Lá vai de novo o cartão de crédito na maquininha...
07h00. Uma da tarde preciso voltar aqui. Vou ter descansado as costas. Tirado um cochilo e aí carrego a mala comigo. Um cyber, lógico. Com jeitão bem paulista. Todo moderno. Básico. O último cenário colorido foi na Benedito Calixto. Deu pra checar caixa de e-mail do yahoo e arrumar tudo em pastinhas. E não sai muito em conta a distração. Melhor voltar pro livro. Daqui a pouco vou sentir outra fome.
08h00. Voltam todos os conflitos de K. Cada detalhe do seu cenário. Do quarto de onde foi detido. A sala dos jurados. O clima denso e frio do livro. Engraçado... A frase pareceu grudar no entorno. Foi como se tivesse sido feita para aquele local onde todos estavam de passagem, exceto eu, o cara da limpeza, do balcão de informações, a moça do banheiro feminino. E todos aqueles garçons e garçonetes das lanchonetes com feições tão tristes. Ao menos não arriscavam palpites sobre de onde eu vim pela completa ausência em mim de algum sotaque. Sei que ainda posso morrer afogada por isso como adverte aquela piada das antigas.
09h00. Eu pedindo desculpas por nada. Morre-se assim a cada dia. Sinto-me a pior das criaturas. Ainda dizem que sou uma "privilegiada".
09h40. Descobri que cheking só se faz horas antes do vôo. Agora somos poucos por aqui. Vou ter que dormir com um olho aberto?
10h00. Preciso ir ao banheiro e isso é para hoje! Cometo o pecado de entrar no que é reservado para pessoas com necessidades especiais. Eu não sou assim. Nunca desrespeito uma regra, mas era o único que dava pra entrar com a mala e as sacolas e tudo. Que alívio...
10h20. Alguém com tantos pacotes quanto eu. Confortavelmente sentado. Deve ser rei. Ou deputado. Consegue até ler esse "gênio"! Tá pesado. K. do meu lado. Confiro as malas e pacotes. Firmes no carrinho. O mais próximo possível. Abro livro de uma das sacolas. Fecho a bolsa prefiro para não olhar para a cadeira. Sinto náusea.
10h39. Descubro um jeito de trocar de roupa. Visto uma blusa cor de prata. Na boca, caneta de alumínio.
11h00 - O fluxo de pessoas é menor. Grupos de negros americanos. Mãe irlandesa com filhinho de uns 3 anos. Homens com a mão no bolso, pensando. Começa uma missa. Será que o pároco se incomoda que eu entre? "Não é lugar pra malas". Nunca imaginei que o reencontro com o divino seria num aeroporto. E interrompido pelo excesso de malas.
12h00. Por que essa voz no alto falante não para? Volto a ler "O Processo". Náusea de novo. É cedo e tudo vai ficando escuro. Deve ser (blackout). Fome. Lembrei que não comi.
13h00. Cumprimento um outro casal "países nórdicos" com um bebezinho. Outra família... As malas!
14h08. Portal aberto. Caixa eletrônico. Nada!. Nient! Nothing! Fora do ar. Não tem remédio que dê jeito numa dor de cabeça dessas. É duro. É Kafka.
15h18. Como o mundo é cheiro de gente. Quantos circulam por aqui? "222 milhões 300 mil pessoas
embarcaram e desembarcaram pelos terminais".
16h33. Um casal comprando souvenir. Se leva um pedaço de algum lugar?
17h45. Fome começando a apertar. Dá-lhe pão a metro.
18h59. No final do corredor tem um restaurante para abastardos. Melhor nem olhar muito.
19h00. Vamos conhecer as instalações...
21h30. Duas revistas devoradas. Para tirar da cabeça as imagens tristes de Kafka. Virei figurinha conhecida. Alguns já acenam.
22h00. Na sala vizinha ao restaurante dá para dormir. Um cachorro entra na igreja. Porque a porta estava aberta.
23h01. Aquela risadinha foi comigo...
22h16. Seria muito pedir para fazerem silêncio.
23h56. Meu Deus, K. foi embora. Pode voltar para embalar meu sono. Só quero conseguir dormir.
00h00 - Tem gente na rede. Que bom inventaram Internet!!!
01h30. Pausa para um café. Se o sistema eletrônico permitir.
02h44. No ar!!! Não inventaram cheiro tão bom. Café, café, café!!! Toledo: tirei lição dessa marca.
03h00 - Pena que os paulistas não conhecem tapioca. Tudo bem, pão de queijo e croissant. Nunca mais pão a metro.
04h55. Tem um garoto que também durmiu nessa salinha.
05h10. Fiz meu primeiro amigo na viagem. Paulista sabe ser correto. E simples. Não sei por que, mas gosto muito disso. Em Brasília, os dois taxistas perguntaram pra mim: A senhora é Paulista? Não mais "moça", não mais "senhorita". Senhora vendo no espelho alguma elegância paulista.
06h06. Faltam treze minutos. Contagem regressiva para o avião.
06h36 Atravessei!?

 (24 horas no Aeroporto Internacional de São Paulo, Cumbica)

Thursday, August 12, 2010

Doce Retorno


No cantinho ao lado do quarto encostei com vista para a janela meu sofá, que agora é branco. Branco como os outros móveis: da tevê, das roupas, do escritório, a palhinha das cadeiras (a mesa é de vidro)... e lá está em branco: a adega de vinhos. Brancos são o quadro de Rosinha, da série "as cidades" e daquela famosa fotografia de David Allen, uma homenagem às operárias queimadas. Chama-se Women on the Rise. Também a estante de livros, a torre de cds e as prateleiras, inclusive uma maior que ampara a outra janela onde estão porta retratos e o calendário, o de folhinhas prateadas...

Alguns detalhes são coloridos. Com uma rara predominância em celebração de azul. Uma ararinha de madeira, um oratório com Nossa Senhora da Conceição, minha Nossa Senhora azul, num chão de miçangas como o mar, azul! e a foto de uma grande diva... Em preto e branco são as xilografias que ganhei de Jota Borges, Antônio Filho e Dani Acioli.

Hoje falta um jardim, de inverno claro. Porque jardinzinho zen já faz tempo que eu tenho. Esse outro vai ter vasos branquinhos de cerâmica perfeita. E um aparador verde com jarrinhos verdes com salsa, coentro, cebolinha, hortelã, manjericão e outras folhinhas.

Mas voltando ao prateado, ele está na cozinha e deve ficar. Penso até em substituir o fogão por um top clean chef, porque cozinho pouco. Raramente ouso uma boa massa. É que depois da sanduicheira e forninho tudo ficou tão mais fácil!

A geladeira é uma relíquia: uma brastemp série prata, antiga como eu ... com um congelador enorme, ela toda tem quase dois metros de altura! E um pinguim lá no alto. Ah, ela é também uma espécie de vitrine para duas tops prateadas como os amuletos presente do Mestre Galdino.


Fácil compreendê-los. Muito mais que as manequins de meio corpo. (Escapou um sorriso), com toda graça são lembranças de um tempo de saraus com música e moda. Como a carranca e os quadros em preto, vermelho e amarelo. Lembram postais antigos. Na verdade são gravuras da Collezione Bellé Epóque, com senhorinhas num Caffé Espresso Servizio Istantaneo e una Distillerie Italiane Sezione Apparechi Milano Via Torino e Apparecchi a Gas D'Alcool, que avisa: Economia sul petrolio. É preciso dizer que chegando em casa numa quinta feira típica desta cidade que só sabe chover, ainda me chama a atenção a gravura com uma inesquecível bailarina. Garota propaganda mais antiga de uma cervejaria. Vez por outra vejo que ela dança sobre a torneira da pia de um fortíssimo jato d'água...

Sunday, August 08, 2010

Em nome do pai


Abraço e café, só forte! Seja de homem ou mulher. Desta ou das próximas e passadas gerações. Aos nossos guardados e aos nossos guardiões. Porque força, a gente cria, quando o olhar do outro copia. 


p.s: O post vai numa homenagem a Pesqueira, ao poeta Dinaldo, alguém que vez por outra pousa os olhos para essa janela. Que tem agora, em nome do pai, proteção divina. De certa forma, faço por ele a homenagem ao meu também distante.

Saturday, August 07, 2010

Espaço Real

Pausa. Chovia pequenos riscos lá fora. Pode olhar pela janela enquanto investigava o mundo e suas redes. Suas simulações. Pausa. Pensou uma segunda vez. Seus colegas que criavam frases e cenas num discorrer franco do pensamento deles. Pausa. Criou aquela pequena coragem de levantar-se da cadeira, perturbando toda imobilidade, para esticar o corpo lá fora.

- Vou dizer olá à chuva!

Não esbolçaram reação. Nem riram, como esperava... Apenas olharam em silêncio. Arranhando rodinhas no chão liso afastando as cadeiras, abrindo espaço.

Desceu a escada, espaçosa, no ambiente de pé-direito alto, com posters originais de filmes incríveis, e atravessou a porta. Bastou-lhe o intervalo do pequeno toldo para espichar o corpo, equilibrar-se na ponta dos dedos e tocar a lona. Uma gotinha despretensiosa escorreu por sua mão alongada. Foi o gesto de ligar-se - mesmo que tão suavemente - à cobertura, que fez dela aquela gotinha, depois de percorrer distâncias, chegar até ali.

Logo essa tontura passa. Voltou aos amigos que criavam incansavelmente novos espaços. Voltou-se ao seu espaço real.

Thursday, August 05, 2010

Atire*




- Atire! Bem aqui. – E abriu o plexo, apontando para o peito.

O assaltante congelou. Por um segundo reviu todas as mortes de sua autoria... Todos os dias milhares morrem assim. Ela era só mais uma. A diferença é que essa aí, na sua frente, queria.

- Por favor, eu lhe peço, aperte logo o gatilho... Meta logo. Vamos com isso!

Um movimento de dedo apenas e ela cairia estendida. Não respondeu. Não quis dessa vez.

- Lapa de doida... Onde já se viu? Passava vinte reais. Dá vinte pedras, sabia? Disse o comparsa.

- Matar a pedido sai mais caro, dona. – E foi baixando o cano.

- E por que não mata? Vai ser menos um jornalista.

- Até matava de graça. Mas já que a senhora pediu, só pagando.

- Vamos embora daqui. – Olhou para ela como quem reconhecia – É aquela mulher da televisão... Deixa pra outro. Ela é cana certa.

- Covardes!

- E a senhora é lá corajosa...?

Ironia. Foram embora não sem olhar para ela nos olhos.

...

- Não levaram sequer os vinte reais?

- Era tudo o que tinha. Dinheiro, aliás, que acabamos de beber depois de mais essa cerveja...

Já estava na mesa do bar de sempre e repassava o episódio entre conhecidos. Sua ‘mesura’ não saia da cabeça. Onde foram parar as ligações que tinha. O amor que sentia pelos filhos adolescentes, ainda, e pais em idade avançada? Não sabia. Tudo que sabia é que não conseguia voltar para casa. O dinheiro era para o taxi. E não mais o tinha. Não teria também onde morar dali a dois meses. Morar na casa dos pais nessa idade? E todos os horários de colégio, atividade extraclasse, terapia...?

Estava n’outro beco sem saída muito pior que aquele de onde os assaltantes evadiram. Onde sua morte não se deu. E não virou notícia de pé de página de algum jornal da cidade. Ainda não compreendera o desprendimento, tamanho desapego e aquela ousadia... O certo é que funcionou errado. Diferente do que queria. Ia ter que enfrentar a mudança. As contas e o imposto de renda até o final do mês que nunca soube mesmo, no seu caso, para que servia.

Nenhum bem. O carro vendeu para pagar outras dívidas há uns de sete anos. Divorciada. Porque é mais chic que ser separada. Dois filhos e uma coleção de relações desastrosas. Findas em noites de discussões descabidas. Ainda tinha que terminar de empacotar os livros. Depois de dez caixas preenchidas, havia mais. Discos, um mesa, um computador. Uma tevê dos bons tempos. Um guarda-roupa novo, do ponto vermelho. Fogão e geladeira da época do casamento. E uma tuia de quadros, fotos, álbuns, recortes de jornal e coleções de revistas de moda e decoração. Fortuna nenhuma. Poupança nenhuma! Esperava pelo seguro desemprego e pela primeira vez estava há quatro meses sem nenhum ‘trampo’. Nenhum ‘freela’. Nada que pagasse a subsistência. E se pintasse algum talvez sobrasse para pôr comida na dispensa, pagasse a conta da luz e os cigarros que cada vez consumia mais e mais.

Em outras épocas, depois de uma situação daquelas, loucamente ligaria para os filhos. Diria: “Como estão meus amores, mainha pensa muito em vocês”. E com a voz disfarçando o medo, segurava o choro e o desespero porque no fundo queria mesmo estar viva para vê-los formados, trabalhando no que escolheram. Quem sabe até encontrando um amor de verdade. Vestiria azul nos quinze anos da filha. Ou calçaria havaianas na festa de enlace que fariam à beira mar em homenagem a Lorelai. Não pensou em nada disso.

- Vamos logo com isso. – Lembrou que insistiu.

- Ia precisar de algumas sessões de terapia para compreender seu impulso. Seu desapego chegara nesse nível? Por quê? Quais os motivos? Não deveria ser uma questão isolada. Se fosse, teria assumido essa dimensão na sua vida para querer dar fim a ela? Não justifica reagir a um assalto... Quanto mais pedir para ser morta. Ainda bem que estava sozinha. Não comprometera a vida de ninguém mais. Alguém que, certamente, nunca a perdoaria.

- O que torna tão difícil estar viva?

A terapeuta perguntava sem grandes entusiasmos pela aventura que a paciente acabara de contar.

- Ou ainda, do que você está querendo fugir?

- Não sei mais o que pode dignificar ou corresponder ao que já fui um dia.

- Não me diga que não tem mais nenhum sonho. Não preparou seu plano?

- Talvez não. Talvez seja um sonho de brasileiro mediano. Como esperar pelo carnaval e pintar o rosto. Talvez pintar a cara da morte na minha cara triste.

- Não me parece totalmente triste. Sua ousadia é destrutiva, um bocado, mas isso é porque acha que pode. É sua aposta. Muito alta, mas é uma aposta.

- Não foi por empáfia. Saiu como um bicho de dentro de mim. Um animal sem controle.

- Embora isso tenha lhe oferecido o controle da situação...

- Ainda não havia pensado por este lado. Daí dizerem que os humilhados serão exaltados. Ação e reação e direito de réplica, tréplica...

- A ofensa é movida pela descrença na reação do outro.

- Talvez esteja também ansiosa?

- Posso saber pelo quê? Se o desejo era a morte, o que estaria esperando?

...

Saudade do futuro? Desejo de reencontrar o passado. Perder a linha é como ser devorado por seu próprio Minotauro.

- Por que, às vezes, o que era estrada vira labirinto? Não minto que deixei para depois. E fui ficando sem o olhar que é meu mesmo. Adotei o do outro, que nem sempre compreende. Atire-se, deveria ter sido a frase. Ao invés disso...

- Atiro-me!



*texto que espero ver publicado no portal http://www.interpoetica.com/

Tuesday, August 03, 2010

Espelhos


Sempre me perguntam, quando sabem da minha afeição pelos escritos de Clarice, se li também Cecília. Sim, bem menos do que gostaria, é verdade, mas fiquei pálida e opaca muitas vezes diante de suas franquezas. É límpida, para dizer o mínimo. E inspira.

Gosto, em particular, da idéia de não se reconhecer diante do espelho e das crônicaas "Ilusões do Mundo":
Moça procura emprego em particular.

"A história (que) começa no sertão com um casamento de amor. O homem é um ingrato, na verdade, mas é a fina flor da elegância e da sedução jamais desabrochada léguas e léguas em redor... Dessa perfeição de homem lhe nascem muitos filhos, dos quais sobram apenas uns dois ou três barrigudinhos, que ela não pode alimentar nem vestir, porque o pai não se considera responsável pelas despesas da casa. O que ganha gasta consigo, pois é pessoa muito exigente: só anda de terno branco, muito bem engomado, chapéu Panamá, sapatos de camurça e óculos ray-ban..."

E continua:

"Um tipo irresistível. As mocinhas correm atrás dele, desfolham-se aos seus pés. Ninguém acredita que não seja rapaz solteiro".

Vamos com essa franqueza até na conclusão do perfil da personagem em questão.

"Mas esse homem fabuloso, que até parece um artista de cinema, é injusto e desigual: fora de casa, todo açúcar, fala tão bonito que parece um doutor. Dentro de casa, espanca a mulher e os filhos que, afinal, apavorados, mal o vêem assomar ao longe, pulam a janela para se esconderem no mato".

E vaí por aí, nessa simplicidade, o enredo da tal moça que cansa dos saltos, entrega as crianças a avó e passagem num caminham. Acaba indo pro Rio, onde consta há empregos para todo mundo e arranha-céus de graça para os pobres. Que ela não encontra para si, mas lugar um moço da sua terra, muito bonzinho e não tão elegante, mas que trabalha de dia num bar e estuda numa escola noturna. Casa à moda dos pobres, sem papéis ou cerimônia. Por derradeiro tem como qualidade aceitar os filhos do outro.

Mais que motivo para ela botar dinheiro em casa. Consegue contando sua história a ajuda de uma dona que aposta na sua sinceridade e devoção aos barrigudinhos e de quem não quer abusar da bondade do marido. Logo descobre que tudo naquela terra difere do seu sertão de onde adquiriu o costume de ir "munida de um embrulhinho amarrotado, com a sua farrinha-d'água: como se fosse para uma expedição. Só não traz a carne de cabrito 'ainda pulante' porque não é coisa que se encontre por aqui". Enquanto trabalha comendo sua "bendita farinha" dá-se a quebrar bicos de bules e asas de xícaras, beiras de copos epratos...". Ainda tem por defeito, no auge do entusiasmo, assoviar... Resultado:

No fim do mês já penas em pedir férias pois está morta de saudade. Passaram-se somente duas semanas e tudo está mudado... "A carne de cabrito já não era pulante; o café sabia a ferrugem; a farinha

"Só as crianças continuavam amarelas e barrigudinhas. A velhota muito cansada. E o marido, a viajar pelos sertões, namorando sempre, à sombra do chapéu e dos seus óculos..."

Ao final, Cecília, nessa simplicidade e franqueza conclui descrevendo que segue a vida voltando ao serviço pensando em ir para a escola noturna aprender a ler melhor, e arranjar um emprego público. Todos lhe dizem que é o emprego melhor e mais fácil do Brasil!

Esta é a doce e terna professora Cecília.

Monday, August 02, 2010

Republicando. Dessa vez sem a foto de Henri Cartier Bresson...

O indizível

Reflexo na água da chuva. Do outro lado da rua, dois homens carregando o espelho onde reflito minha sombra. São sobras de mim. "Do meu túmulo, falo". Não sei mais sentir. Não é apenas o medo. Habituei à dor.

Quer que eu reflita: E se eu desaparecesse? Se a água da chuva derretesse minhas moléculas frágeis de açúcar. Piada! São sempre duas moléculas de Hidrogênio para uma de oxigênio. Conheço essas pausas... Já fui dada a passes de mágica. Ia compreender. E se era uma armadilha para tentar me entender, complicou ainda mais.

Não quer dizer que não queira chegar a algum lugar. Ou a lugar nenhum... Como na canção dos Beatles. Significa apenas que entendo de passes de mágica e de mais a mais, é comigo que sei conviver. Com você descobriria - usei um passado sem querer - o que é difícil, porque requer aprender. Deve ser porque meu sol está na 12a casa que permite o Aprendizado... Tão terna C.L. que brota da liberdade em experimentar os fenômenos da Natureza.

E as duas feras estão duelando agora em mim. Diferente do sonho de Sabino, as minhas têm nome: solidão e liberdade. Essa coragem louca de continuar olhando para frente. Sempre. Isso que também pode ser chamado de força e de "uma alegria difícil, mas que chama - se Alegria", querida Clarice. Força que José Castello acredita estar no sol desse cantinho mais ao Nordeste do país. Ah... O sol.

Não preciso entender de nuances da dor. Conheço-a em toda sua ausência de cor e estorvo é pior que duelo de titãs. Acredito tanto no direito que tenho de ser feliz que não duvido de mim. Nem me peça qualquer coisa que esteja relacionada a sentimento de culpa. Essa palavra horrível que aboli aos 30 e nem consigo repetir.

Era isso que você esperava? Que eu bradasse, esperneasse, xingasse até tirar um fio de cabelo meu do lugar pelo seu sentimento. Isso eu não sei fazer. Empenho um esforço danado em ser responsável e isso já é muito. Pelo menos é real. Tem palavra que não digo porque só faz esvaziar a verdade do sentimento. O que se sente é o que é. Pronto e ponto. Parágrafo....

...Na outra linha. No outro lado da rua enxergo meu refúgio. Meu canto. Eu canto sabia. Toda vez que sinto o vento soprando notícia eu canto. E danço entre as paredes do meu quarto. Minha música é suave e repousa meus ouvidos cansados de discursos antigos.

Nada é novo debaixo do sol desse país tão tropical onde chove. E se na música dos Beatles você e eu usamos capas de chuva e deitamos sozinhos ao sol, num solo triste, à noite, o guarda - chuva curioso e transparente se torna abrigo para a dúvida e a certeza de quem jogou. Jogou mal. É difícil suportar uma verdade. Mas impossível mesmo é construir algum sentimento que seja plantando palavra que não arrisco escrever...

Monday, July 26, 2010

Despertar


Em geral, passarinhos me despertam. Ou é um beija-flor atrevido que faz toc-toc à janela. Dessa vez foi a sintonia fina de uma música rara que trouxe-me até aqui. Romeu do alto de pouco mais de meia dúzia de anos, sentenciou a única ausência da noite.

Para o alto e o arauto

"Por que não tem telescópio? Luneta? Qualquer coisa para gente olhar mais de perto as estrelas?"
Boa pergunta, Romeu. Talvez porque entendi que elas estavam todas ali. Não por isso! Vamos providenciar, Romeu! Para ver estrelas antes que a noite parta E o dia se anuncie...

Afinal, como diria o outro Romeu: "É triste a dor de partir e eu te direi boa noite até que seja dia" ou seria "Boa noite, boa noite, boa noite! A despedida é dor tão doce que ficarei aqui te dizendo boa noite até que seja dia".
Ou seria? Seria: "Estou ouvindo algo! Será o roxinol, o arauto da manhã, ou a cotovia? Rouxinol ou cotovia, o certo é que vem amanhecendo o dia!"
Fico com a certeza de que chegou o arauto da manhã. Embora sempre me permita dizer, anuncio mais uma vez: aqui esteve a manhã da criação.

Thursday, July 22, 2010

João e Maria?
...
Quem sabe vou soltando aos grãos?
Na mesa de cada dia o abandonado pão
Quem sabe até deixo escapar um suspiro?
Ou, de surpresa, um sorriso. Aos pedacinhos...
...
No simples gesto de virar para cima
No ato seguinte, troco o olhar cansado
Por um mais animado, sem incômodos palitos
De fósforo, nas minhas pálpebras ainda apoiados
...
Tenho pra mim em palpite simples que
Se tivesse dançado uma música apenas
Na última festa junina, terias sussurrado

Cantado baixinho em meus ouvidos,
Que melhor que prender passarinho
É vê-los piando e voando felizes.
Pré-postagem



Sinto uma paixão vindo por ti. E como esse amor ocupa meus pensamentos, tudo tem agora um novo significado. É como se devolvesse valores perdidos. Uma paixão somente. 

Embora esteja desenhando em mim um laço. É diferente do real e ao mesmo tempo presente. Isso tem data e nasceu na gentileza. Num aniversário. São todos teus, para mim, os dias do ano. De um jeito que eu...

Seria romântica e tola todas as horas do dia. Alimentaria o gosto por ter mais saúde! Cuidar da casa. do espírito. Como se minha alma, que conheci em ternura de infância, voltasse pra perto de mim.


Enquanto não compreendo o que a afastou tanto de assim não faço mais perguntas sem nenhuma ordem ou sentido, como: Me dá um cigarro. Hoje não. Hoje são flores que trago.
"Quem é você?"
Tente uma resposta...


Não sei do futuro, sou do tipo que não tem seguro, mas sinto o instante presente, como poucos. Até mesmo que aqueles muito muito inteligentes. E não há qualquer vantangem nessa sensibilidade substituir o pensamento lógico, baseado em certas premissas e que requer "sangue frio". É que esse sentir, às vezes, tortura. Mas aprendi a não interferir. Sei conter uma dor ou uma tristeza como aqueles que taxamos de muito muito burrinhos... Embora ainda não consiga conter o movimento das minhas pupilas...

Nunca esqueço uma canção quando solfejam para mim. Estou sempre inteira no tempo presente. Não levo comigo o passado, apenas boas lembranças e o que entendo como parte de mim. É minha grande busca. E preservo os melhores instintos para os momentos de escuridão. Mas serei sempre solar porque choro ao menor sinal de ausência do sol... Respondi?

Saturday, July 17, 2010



Linhazinha


Desembaraço a costura frouxa
Como pude ser tão trouxa?


Bordar não é para menininhas...




Acaso



No Amor não tem planejamento
É coisa de perceber o momento

Pensar no desejo com bom senso
E guardar cada detalhe atento

Tem que deixar correr solto
Sem apostar na sorte ou azar

O universo quem dá as cartas!
Mas também define o morto.





Monday, June 14, 2010

Passarinho e passarão

Uma réstia de sol
Entre os sombreiros
Corpo envolto solteiro
Rede de cor de abóbora
Ela esquecida da hora..

Protegia olhos claros castanhos
Ainda em avesso torpor estranho
Por entre fios espessos trançado farto
Espiava a balançar para folhas e galhos
Numa tarde mansa que desfilava calma

Naquele canto, em seu estado de alma
O vento batia aqui e ali enquanto escutava
Tilintar dos mensageiros, de nome tão meigo
E a tarde, então, se cumpria assim: Vazia.

Agora há pouco tecera um balanço
De cordas brancas e madeiras fininhas
Há instantes estava a paginar o calendário
Contando doze dias do início do ano.

Foi neste momento que ouviu
A cantoria das avezinhas do lugar
Dois passarinhos: um bem-te-vi e um sabiá

Um deles de lá dizia:
Estou daquì a te espiar...
Ao que o outro respondia:
Eu bem sabia! Eu bem sabia!

Friday, June 11, 2010

Móveis em galhos, folhas e charcos. O programa de músicas antigas não consola mais. Derreti n'água. Eu que sempre gostei. Não é tragédia o gênero. Ou drama. Compreenda. Virei nuvem de fumaça lançada pela larva de um vulcão. Não é minha proposta desaquecer o "não visível". Talvez seja desaquecer a mim mesma. E vai ser difícil pensar o mundo longe do calor. Mas a vida é assim e pede um equilíbrio que acaba vindo. Quando menos esperamos. Porque é desse lugar, prezado poeta, que a métrica do esmero se faz. E nesse tempo de ruptura ser dura é ir para frente e não voltar atrás. Nessa rotina de pilhas e pilhas, de folhas e folhas, encontrei minha identidade perdida:

Nome: Mistério
Idade: Aprox. seis anos - dos meus...
Cor: Pelagem branca
Endereço: Marquise
Plano: Sair daqui
Música que toca: "hooome lesss, hapyness my caastle the staaars and the sea..."

Monday, June 07, 2010

Indicação ao prêmio Dardos.


Este selo foi uma criação do Junior Vilanova do blogue Contactos Imediatos e da Olga do blogue Pensamentos, Ideias e Sonhos, e segundo eles - trata-se de um reconhecimento dos valores que cada blogueiro emprega, ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc.

Requisitos a serem cumpridos no recebimento deste selo:

1 - exibir a imagem do selo em seu blogue;
2 - postar um link para o blogue que o escolheu;
3 - escolher outros quinze blogues a quem entregar o prêmio;
4 - avisar aos escolhidos.

Agradeço a Keila Costa que anunciou seus escolhidos:

1 - "Damaria"
2 - "Sabe de uma coisa"
3 - "Specullum"
4 - "Marcas d’água"
5 - "Borboletas de Fevereiro"
6 - "Num Café Pequeno"
7 - "Suprasensorial"
8 - "Eu e mim mesma"
9 - "Rudaricci"
10 - "Sara-evil"
11 - "Da Cor da Felicidade"
12 - "Michelfm"
13 - "Freiregari"
14 - "Curto Circuito Literário"
15 - "Poros"

Aqui estão minhas indicações:

1 - "Raimundo Carrero"
2 - "Estuário"
3 - "Era o Dito"
4 - "O Mundo Circundante"
5 - "Fabrício Carpinejar"
6 - "Entre Lugares"
7 - "Manual de Astronomia"
8 - "NósPós"
9 - "Cronicax"
10 - "Cronópios"
11 - "Escritoras Suicidas"
12 - "Linguagem Guilhotina"
13 - "Rosinha Campos"
14 - "Belas Coisas e Simples"
15 - "Diana Stereo"