Lugar da delicadeza com o outro e com a própria Liberdade.

Onde se está de acordo com o único modo do humano de ser feliz

Friday, August 20, 2010

Uma criatura dada a perfeições, que só enxerga defeitos nos outros e nunca em si mesma, depois de romper uma amizade antiga enfrenta um dia inteiro no Aeroporto Internacional de São Paulo, Cumbica. Seu enredo faz com que mergulhe de cabeça na trama de um dos livros de Kafka. Será que o episódio vai melhorar seus modos?

24 horas passageiras

05h05. Em frente ao Maksoud Plaza. No Hotel informam que o próximo ônibus para o Aeroporto passa em 15 minutos. Sabia que o brinde da última coletiva no Banco do Brasil, um dia ia servir. Primeira folha do bloquinho! Essa despedida antecipada não estava nos planos. A noite passada foi estranha! Tudo tão confuso que é melhor não processar agora. 05h10. Difícil conseguir pensar. Só com café. Expresso, de preferênicia. A essa hora da manhã consigo um pretinho forte, amigo?
05h07. O moço parou uns segundos para entender a frase. Até que o olhar perdido desapareceu quando enxergou meus dois dedinhos naquele gesto clássico que a propaganda de alguma marca de café ajudou a eternizar.
05h10. Chic não? Pensar que meus pais se hospedaram aqui e eu já era nascida. Contaram com riqueza de detalhes: entre os hóspedes o humorista Juca Chaves em seus chinelos e camisão branco. A atriz Sônia Braga. "Pequeninha ela. E na tela a gente sempre via aquele mulherão", comentário da minha mãe. Foi café com croissant. Podia ser a despedida. Dali ia fazer mais o quê? Aquela dificuldade de raciocinar direito de novo. Nada. Pago logo a conta.
05h20. Preciso correr. Como assim? Embarco no ônibus (posso dizer isso?). Ninguém ajuda com os pacotes. Eu poste. Vou desequilibrar e cair. Preciso insistir com o bilheteiro: "Uma mão?". "Não, obrigado. Não sou parte interessada...Tudo bem, tudo bem! Seguro para você essa caixinha de presente". Ele está certo. Três sacolas numa mão, uma mala enorme na outra. Quem mandou ser consumista? Preciso voltar pro Recife. Como se a frase pudesse apressar o relógio..
05h25. Paulista é pontual. Isso eu aprendi. E rápido. O mínimo dizer que a expressão "vamos em boa hora", que a gente transformou em "vamos embora", eles minimalisticamente tornaram "vamu!". E eu fui. Pro Aeroporto numa distância de apenas mais algumas paradas. Até ali, em dez dias, não tinha aberto os livros que levei. Foram exposições, lojas de design, passeio na Praça Benedito Calixto. Uma loucura a FNAC! A Rua 25 de Março, o Ibirapuera. As fotos!? Tudo aqui.
05h30. Abro o primeiro deles. "O Processo", de Kafka. Aquele começo... Com todo o existencialismo Sartreano e a ajuda das frases de Beauvoir, minha querida Simone, antes parecia confuso. Agora não.
Vou devorando cada página e me envolvendo na trama e no drama de K. Difícil é começar, mas depois que as linhas se cruzam e vão engendrando você a angústia é maior, o ceticismo também. E os sustos simplismente desaparecem. Nada sobressalta mais. Atravessei aquela porta.
06h20. "Chegou moça! Não vai descer". O motorista do ônibus já gritando. Quase em transe, numa espécie de andar mais alto, despenquei caindo na real e descendo os degraus em tropeço. Agora que notei como essa mala pesa.
06h40. Meu Deus é caótico. Não era. Sempre acreditei na sorte. No Divino Espírito Santo. E agora, com esse materialismo todo que me é jogado na cara, onde vou encontrar algum perdão? Continuo. Não consigo mesmo parar. Deve ter um lugar para guardar essa mala. Basta o tanto que minha cabeça já pesa.
06h49. Que bebê bonito! A família passa por mim com dois carrinhos. Na volta só vejo o bebê nos braços. Livraram-se das malas? Quem? Como? Quando? Onde? Volto pelo caminho de onde veio aquela família. Que bom que inventaram o "malex".
06h50. "Sim senhorita. Temos um guarda volumes no primeiro andar. A taxa é R$7,00". O cidadão do serviço de informações é bem mais gentil. Embora as últimas palavras soaram mais duras: "A senhorita só tem que perguntar lá por quantas horas". Pensei que fosse pelo dia todo. Imagina quanto não cobram de pernoite no estacionamento! Conhecer uma cidade grande tem seu preço. Agora não é só a cabeça. A idéia de sair do apartamento daquela ex-amiga pesa também no bolso. Lá vai de novo o cartão de crédito na maquininha...
07h00. Uma da tarde preciso voltar aqui. Vou ter descansado as costas. Tirado um cochilo e aí carrego a mala comigo. Um cyber, lógico. Com jeitão bem paulista. Todo moderno. Básico. O último cenário colorido foi na Benedito Calixto. Deu pra checar caixa de e-mail do yahoo e arrumar tudo em pastinhas. E não sai muito em conta a distração. Melhor voltar pro livro. Daqui a pouco vou sentir outra fome.
08h00. Voltam todos os conflitos de K. Cada detalhe do seu cenário. Do quarto de onde foi detido. A sala dos jurados. O clima denso e frio do livro. Engraçado... A frase pareceu grudar no entorno. Foi como se tivesse sido feita para aquele local onde todos estavam de passagem, exceto eu, o cara da limpeza, do balcão de informações, a moça do banheiro feminino. E todos aqueles garçons e garçonetes das lanchonetes com feições tão tristes. Ao menos não arriscavam palpites sobre de onde eu vim pela completa ausência em mim de algum sotaque. Sei que ainda posso morrer afogada por isso como adverte aquela piada das antigas.
09h00. Eu pedindo desculpas por nada. Morre-se assim a cada dia. Sinto-me a pior das criaturas. Ainda dizem que sou uma "privilegiada".
09h40. Descobri que cheking só se faz horas antes do vôo. Agora somos poucos por aqui. Vou ter que dormir com um olho aberto?
10h00. Preciso ir ao banheiro e isso é para hoje! Cometo o pecado de entrar no que é reservado para pessoas com necessidades especiais. Eu não sou assim. Nunca desrespeito uma regra, mas era o único que dava pra entrar com a mala e as sacolas e tudo. Que alívio...
10h20. Alguém com tantos pacotes quanto eu. Confortavelmente sentado. Deve ser rei. Ou deputado. Consegue até ler esse "gênio"! Tá pesado. K. do meu lado. Confiro as malas e pacotes. Firmes no carrinho. O mais próximo possível. Abro livro de uma das sacolas. Fecho a bolsa prefiro para não olhar para a cadeira. Sinto náusea.
10h39. Descubro um jeito de trocar de roupa. Visto uma blusa cor de prata. Na boca, caneta de alumínio.
11h00 - O fluxo de pessoas é menor. Grupos de negros americanos. Mãe irlandesa com filhinho de uns 3 anos. Homens com a mão no bolso, pensando. Começa uma missa. Será que o pároco se incomoda que eu entre? "Não é lugar pra malas". Nunca imaginei que o reencontro com o divino seria num aeroporto. E interrompido pelo excesso de malas.
12h00. Por que essa voz no alto falante não para? Volto a ler "O Processo". Náusea de novo. É cedo e tudo vai ficando escuro. Deve ser (blackout). Fome. Lembrei que não comi.
13h00. Cumprimento um outro casal "países nórdicos" com um bebezinho. Outra família... As malas!
14h08. Portal aberto. Caixa eletrônico. Nada!. Nient! Nothing! Fora do ar. Não tem remédio que dê jeito numa dor de cabeça dessas. É duro. É Kafka.
15h18. Como o mundo é cheiro de gente. Quantos circulam por aqui? "222 milhões 300 mil pessoas
embarcaram e desembarcaram pelos terminais".
16h33. Um casal comprando souvenir. Se leva um pedaço de algum lugar?
17h45. Fome começando a apertar. Dá-lhe pão a metro.
18h59. No final do corredor tem um restaurante para abastardos. Melhor nem olhar muito.
19h00. Vamos conhecer as instalações...
21h30. Duas revistas devoradas. Para tirar da cabeça as imagens tristes de Kafka. Virei figurinha conhecida. Alguns já acenam.
22h00. Na sala vizinha ao restaurante dá para dormir. Um cachorro entra na igreja. Porque a porta estava aberta.
23h01. Aquela risadinha foi comigo...
22h16. Seria muito pedir para fazerem silêncio.
23h56. Meu Deus, K. foi embora. Pode voltar para embalar meu sono. Só quero conseguir dormir.
00h00 - Tem gente na rede. Que bom inventaram Internet!!!
01h30. Pausa para um café. Se o sistema eletrônico permitir.
02h44. No ar!!! Não inventaram cheiro tão bom. Café, café, café!!! Toledo: tirei lição dessa marca.
03h00 - Pena que os paulistas não conhecem tapioca. Tudo bem, pão de queijo e croissant. Nunca mais pão a metro.
04h55. Tem um garoto que também durmiu nessa salinha.
05h10. Fiz meu primeiro amigo na viagem. Paulista sabe ser correto. E simples. Não sei por que, mas gosto muito disso. Em Brasília, os dois taxistas perguntaram pra mim: A senhora é Paulista? Não mais "moça", não mais "senhorita". Senhora vendo no espelho alguma elegância paulista.
06h06. Faltam treze minutos. Contagem regressiva para o avião.
06h36 Atravessei!?

 (24 horas no Aeroporto Internacional de São Paulo, Cumbica)

Thursday, August 12, 2010

Doce Retorno


No cantinho ao lado do quarto encostei com vista para a janela meu sofá, que agora é branco. Branco como os outros móveis: da tevê, das roupas, do escritório, a palhinha das cadeiras (a mesa é de vidro)... e lá está em branco: a adega de vinhos. Brancos são o quadro de Rosinha, da série "as cidades" e daquela famosa fotografia de David Allen, uma homenagem às operárias queimadas. Chama-se Women on the Rise. Também a estante de livros, a torre de cds e as prateleiras, inclusive uma maior que ampara a outra janela onde estão porta retratos e o calendário, o de folhinhas prateadas...

Alguns detalhes são coloridos. Com uma rara predominância em celebração de azul. Uma ararinha de madeira, um oratório com Nossa Senhora da Conceição, minha Nossa Senhora azul, num chão de miçangas como o mar, azul! e a foto de uma grande diva... Em preto e branco são as xilografias que ganhei de Jota Borges, Antônio Filho e Dani Acioli.

Hoje falta um jardim, de inverno claro. Porque jardinzinho zen já faz tempo que eu tenho. Esse outro vai ter vasos branquinhos de cerâmica perfeita. E um aparador verde com jarrinhos verdes com salsa, coentro, cebolinha, hortelã, manjericão e outras folhinhas.

Mas voltando ao prateado, ele está na cozinha e deve ficar. Penso até em substituir o fogão por um top clean chef, porque cozinho pouco. Raramente ouso uma boa massa. É que depois da sanduicheira e forninho tudo ficou tão mais fácil!

A geladeira é uma relíquia: uma brastemp série prata, antiga como eu ... com um congelador enorme, ela toda tem quase dois metros de altura! E um pinguim lá no alto. Ah, ela é também uma espécie de vitrine para duas tops prateadas como os amuletos presente do Mestre Galdino.


Fácil compreendê-los. Muito mais que as manequins de meio corpo. (Escapou um sorriso), com toda graça são lembranças de um tempo de saraus com música e moda. Como a carranca e os quadros em preto, vermelho e amarelo. Lembram postais antigos. Na verdade são gravuras da Collezione Bellé Epóque, com senhorinhas num Caffé Espresso Servizio Istantaneo e una Distillerie Italiane Sezione Apparechi Milano Via Torino e Apparecchi a Gas D'Alcool, que avisa: Economia sul petrolio. É preciso dizer que chegando em casa numa quinta feira típica desta cidade que só sabe chover, ainda me chama a atenção a gravura com uma inesquecível bailarina. Garota propaganda mais antiga de uma cervejaria. Vez por outra vejo que ela dança sobre a torneira da pia de um fortíssimo jato d'água...

Sunday, August 08, 2010

Em nome do pai


Abraço e café, só forte! Seja de homem ou mulher. Desta ou das próximas e passadas gerações. Aos nossos guardados e aos nossos guardiões. Porque força, a gente cria, quando o olhar do outro copia. 


p.s: O post vai numa homenagem a Pesqueira, ao poeta Dinaldo, alguém que vez por outra pousa os olhos para essa janela. Que tem agora, em nome do pai, proteção divina. De certa forma, faço por ele a homenagem ao meu também distante.

Saturday, August 07, 2010

Espaço Real

Pausa. Chovia pequenos riscos lá fora. Pode olhar pela janela enquanto investigava o mundo e suas redes. Suas simulações. Pausa. Pensou uma segunda vez. Seus colegas que criavam frases e cenas num discorrer franco do pensamento deles. Pausa. Criou aquela pequena coragem de levantar-se da cadeira, perturbando toda imobilidade, para esticar o corpo lá fora.

- Vou dizer olá à chuva!

Não esbolçaram reação. Nem riram, como esperava... Apenas olharam em silêncio. Arranhando rodinhas no chão liso afastando as cadeiras, abrindo espaço.

Desceu a escada, espaçosa, no ambiente de pé-direito alto, com posters originais de filmes incríveis, e atravessou a porta. Bastou-lhe o intervalo do pequeno toldo para espichar o corpo, equilibrar-se na ponta dos dedos e tocar a lona. Uma gotinha despretensiosa escorreu por sua mão alongada. Foi o gesto de ligar-se - mesmo que tão suavemente - à cobertura, que fez dela aquela gotinha, depois de percorrer distâncias, chegar até ali.

Logo essa tontura passa. Voltou aos amigos que criavam incansavelmente novos espaços. Voltou-se ao seu espaço real.

Thursday, August 05, 2010

Atire*




- Atire! Bem aqui. – E abriu o plexo, apontando para o peito.

O assaltante congelou. Por um segundo reviu todas as mortes de sua autoria... Todos os dias milhares morrem assim. Ela era só mais uma. A diferença é que essa aí, na sua frente, queria.

- Por favor, eu lhe peço, aperte logo o gatilho... Meta logo. Vamos com isso!

Um movimento de dedo apenas e ela cairia estendida. Não respondeu. Não quis dessa vez.

- Lapa de doida... Onde já se viu? Passava vinte reais. Dá vinte pedras, sabia? Disse o comparsa.

- Matar a pedido sai mais caro, dona. – E foi baixando o cano.

- E por que não mata? Vai ser menos um jornalista.

- Até matava de graça. Mas já que a senhora pediu, só pagando.

- Vamos embora daqui. – Olhou para ela como quem reconhecia – É aquela mulher da televisão... Deixa pra outro. Ela é cana certa.

- Covardes!

- E a senhora é lá corajosa...?

Ironia. Foram embora não sem olhar para ela nos olhos.

...

- Não levaram sequer os vinte reais?

- Era tudo o que tinha. Dinheiro, aliás, que acabamos de beber depois de mais essa cerveja...

Já estava na mesa do bar de sempre e repassava o episódio entre conhecidos. Sua ‘mesura’ não saia da cabeça. Onde foram parar as ligações que tinha. O amor que sentia pelos filhos adolescentes, ainda, e pais em idade avançada? Não sabia. Tudo que sabia é que não conseguia voltar para casa. O dinheiro era para o taxi. E não mais o tinha. Não teria também onde morar dali a dois meses. Morar na casa dos pais nessa idade? E todos os horários de colégio, atividade extraclasse, terapia...?

Estava n’outro beco sem saída muito pior que aquele de onde os assaltantes evadiram. Onde sua morte não se deu. E não virou notícia de pé de página de algum jornal da cidade. Ainda não compreendera o desprendimento, tamanho desapego e aquela ousadia... O certo é que funcionou errado. Diferente do que queria. Ia ter que enfrentar a mudança. As contas e o imposto de renda até o final do mês que nunca soube mesmo, no seu caso, para que servia.

Nenhum bem. O carro vendeu para pagar outras dívidas há uns de sete anos. Divorciada. Porque é mais chic que ser separada. Dois filhos e uma coleção de relações desastrosas. Findas em noites de discussões descabidas. Ainda tinha que terminar de empacotar os livros. Depois de dez caixas preenchidas, havia mais. Discos, um mesa, um computador. Uma tevê dos bons tempos. Um guarda-roupa novo, do ponto vermelho. Fogão e geladeira da época do casamento. E uma tuia de quadros, fotos, álbuns, recortes de jornal e coleções de revistas de moda e decoração. Fortuna nenhuma. Poupança nenhuma! Esperava pelo seguro desemprego e pela primeira vez estava há quatro meses sem nenhum ‘trampo’. Nenhum ‘freela’. Nada que pagasse a subsistência. E se pintasse algum talvez sobrasse para pôr comida na dispensa, pagasse a conta da luz e os cigarros que cada vez consumia mais e mais.

Em outras épocas, depois de uma situação daquelas, loucamente ligaria para os filhos. Diria: “Como estão meus amores, mainha pensa muito em vocês”. E com a voz disfarçando o medo, segurava o choro e o desespero porque no fundo queria mesmo estar viva para vê-los formados, trabalhando no que escolheram. Quem sabe até encontrando um amor de verdade. Vestiria azul nos quinze anos da filha. Ou calçaria havaianas na festa de enlace que fariam à beira mar em homenagem a Lorelai. Não pensou em nada disso.

- Vamos logo com isso. – Lembrou que insistiu.

- Ia precisar de algumas sessões de terapia para compreender seu impulso. Seu desapego chegara nesse nível? Por quê? Quais os motivos? Não deveria ser uma questão isolada. Se fosse, teria assumido essa dimensão na sua vida para querer dar fim a ela? Não justifica reagir a um assalto... Quanto mais pedir para ser morta. Ainda bem que estava sozinha. Não comprometera a vida de ninguém mais. Alguém que, certamente, nunca a perdoaria.

- O que torna tão difícil estar viva?

A terapeuta perguntava sem grandes entusiasmos pela aventura que a paciente acabara de contar.

- Ou ainda, do que você está querendo fugir?

- Não sei mais o que pode dignificar ou corresponder ao que já fui um dia.

- Não me diga que não tem mais nenhum sonho. Não preparou seu plano?

- Talvez não. Talvez seja um sonho de brasileiro mediano. Como esperar pelo carnaval e pintar o rosto. Talvez pintar a cara da morte na minha cara triste.

- Não me parece totalmente triste. Sua ousadia é destrutiva, um bocado, mas isso é porque acha que pode. É sua aposta. Muito alta, mas é uma aposta.

- Não foi por empáfia. Saiu como um bicho de dentro de mim. Um animal sem controle.

- Embora isso tenha lhe oferecido o controle da situação...

- Ainda não havia pensado por este lado. Daí dizerem que os humilhados serão exaltados. Ação e reação e direito de réplica, tréplica...

- A ofensa é movida pela descrença na reação do outro.

- Talvez esteja também ansiosa?

- Posso saber pelo quê? Se o desejo era a morte, o que estaria esperando?

...

Saudade do futuro? Desejo de reencontrar o passado. Perder a linha é como ser devorado por seu próprio Minotauro.

- Por que, às vezes, o que era estrada vira labirinto? Não minto que deixei para depois. E fui ficando sem o olhar que é meu mesmo. Adotei o do outro, que nem sempre compreende. Atire-se, deveria ter sido a frase. Ao invés disso...

- Atiro-me!



*texto que espero ver publicado no portal http://www.interpoetica.com/

Tuesday, August 03, 2010

Espelhos


Sempre me perguntam, quando sabem da minha afeição pelos escritos de Clarice, se li também Cecília. Sim, bem menos do que gostaria, é verdade, mas fiquei pálida e opaca muitas vezes diante de suas franquezas. É límpida, para dizer o mínimo. E inspira.

Gosto, em particular, da idéia de não se reconhecer diante do espelho e das crônicaas "Ilusões do Mundo":
Moça procura emprego em particular.

"A história (que) começa no sertão com um casamento de amor. O homem é um ingrato, na verdade, mas é a fina flor da elegância e da sedução jamais desabrochada léguas e léguas em redor... Dessa perfeição de homem lhe nascem muitos filhos, dos quais sobram apenas uns dois ou três barrigudinhos, que ela não pode alimentar nem vestir, porque o pai não se considera responsável pelas despesas da casa. O que ganha gasta consigo, pois é pessoa muito exigente: só anda de terno branco, muito bem engomado, chapéu Panamá, sapatos de camurça e óculos ray-ban..."

E continua:

"Um tipo irresistível. As mocinhas correm atrás dele, desfolham-se aos seus pés. Ninguém acredita que não seja rapaz solteiro".

Vamos com essa franqueza até na conclusão do perfil da personagem em questão.

"Mas esse homem fabuloso, que até parece um artista de cinema, é injusto e desigual: fora de casa, todo açúcar, fala tão bonito que parece um doutor. Dentro de casa, espanca a mulher e os filhos que, afinal, apavorados, mal o vêem assomar ao longe, pulam a janela para se esconderem no mato".

E vaí por aí, nessa simplicidade, o enredo da tal moça que cansa dos saltos, entrega as crianças a avó e passagem num caminham. Acaba indo pro Rio, onde consta há empregos para todo mundo e arranha-céus de graça para os pobres. Que ela não encontra para si, mas lugar um moço da sua terra, muito bonzinho e não tão elegante, mas que trabalha de dia num bar e estuda numa escola noturna. Casa à moda dos pobres, sem papéis ou cerimônia. Por derradeiro tem como qualidade aceitar os filhos do outro.

Mais que motivo para ela botar dinheiro em casa. Consegue contando sua história a ajuda de uma dona que aposta na sua sinceridade e devoção aos barrigudinhos e de quem não quer abusar da bondade do marido. Logo descobre que tudo naquela terra difere do seu sertão de onde adquiriu o costume de ir "munida de um embrulhinho amarrotado, com a sua farrinha-d'água: como se fosse para uma expedição. Só não traz a carne de cabrito 'ainda pulante' porque não é coisa que se encontre por aqui". Enquanto trabalha comendo sua "bendita farinha" dá-se a quebrar bicos de bules e asas de xícaras, beiras de copos epratos...". Ainda tem por defeito, no auge do entusiasmo, assoviar... Resultado:

No fim do mês já penas em pedir férias pois está morta de saudade. Passaram-se somente duas semanas e tudo está mudado... "A carne de cabrito já não era pulante; o café sabia a ferrugem; a farinha

"Só as crianças continuavam amarelas e barrigudinhas. A velhota muito cansada. E o marido, a viajar pelos sertões, namorando sempre, à sombra do chapéu e dos seus óculos..."

Ao final, Cecília, nessa simplicidade e franqueza conclui descrevendo que segue a vida voltando ao serviço pensando em ir para a escola noturna aprender a ler melhor, e arranjar um emprego público. Todos lhe dizem que é o emprego melhor e mais fácil do Brasil!

Esta é a doce e terna professora Cecília.

Monday, August 02, 2010

Republicando. Dessa vez sem a foto de Henri Cartier Bresson...

O indizível

Reflexo na água da chuva. Do outro lado da rua, dois homens carregando o espelho onde reflito minha sombra. São sobras de mim. "Do meu túmulo, falo". Não sei mais sentir. Não é apenas o medo. Habituei à dor.

Quer que eu reflita: E se eu desaparecesse? Se a água da chuva derretesse minhas moléculas frágeis de açúcar. Piada! São sempre duas moléculas de Hidrogênio para uma de oxigênio. Conheço essas pausas... Já fui dada a passes de mágica. Ia compreender. E se era uma armadilha para tentar me entender, complicou ainda mais.

Não quer dizer que não queira chegar a algum lugar. Ou a lugar nenhum... Como na canção dos Beatles. Significa apenas que entendo de passes de mágica e de mais a mais, é comigo que sei conviver. Com você descobriria - usei um passado sem querer - o que é difícil, porque requer aprender. Deve ser porque meu sol está na 12a casa que permite o Aprendizado... Tão terna C.L. que brota da liberdade em experimentar os fenômenos da Natureza.

E as duas feras estão duelando agora em mim. Diferente do sonho de Sabino, as minhas têm nome: solidão e liberdade. Essa coragem louca de continuar olhando para frente. Sempre. Isso que também pode ser chamado de força e de "uma alegria difícil, mas que chama - se Alegria", querida Clarice. Força que José Castello acredita estar no sol desse cantinho mais ao Nordeste do país. Ah... O sol.

Não preciso entender de nuances da dor. Conheço-a em toda sua ausência de cor e estorvo é pior que duelo de titãs. Acredito tanto no direito que tenho de ser feliz que não duvido de mim. Nem me peça qualquer coisa que esteja relacionada a sentimento de culpa. Essa palavra horrível que aboli aos 30 e nem consigo repetir.

Era isso que você esperava? Que eu bradasse, esperneasse, xingasse até tirar um fio de cabelo meu do lugar pelo seu sentimento. Isso eu não sei fazer. Empenho um esforço danado em ser responsável e isso já é muito. Pelo menos é real. Tem palavra que não digo porque só faz esvaziar a verdade do sentimento. O que se sente é o que é. Pronto e ponto. Parágrafo....

...Na outra linha. No outro lado da rua enxergo meu refúgio. Meu canto. Eu canto sabia. Toda vez que sinto o vento soprando notícia eu canto. E danço entre as paredes do meu quarto. Minha música é suave e repousa meus ouvidos cansados de discursos antigos.

Nada é novo debaixo do sol desse país tão tropical onde chove. E se na música dos Beatles você e eu usamos capas de chuva e deitamos sozinhos ao sol, num solo triste, à noite, o guarda - chuva curioso e transparente se torna abrigo para a dúvida e a certeza de quem jogou. Jogou mal. É difícil suportar uma verdade. Mas impossível mesmo é construir algum sentimento que seja plantando palavra que não arrisco escrever...

Monday, July 26, 2010

Despertar


Em geral, passarinhos me despertam. Ou é um beija-flor atrevido que faz toc-toc à janela. Dessa vez foi a sintonia fina de uma música rara que trouxe-me até aqui. Romeu do alto de pouco mais de meia dúzia de anos, sentenciou a única ausência da noite.

Para o alto e o arauto

"Por que não tem telescópio? Luneta? Qualquer coisa para gente olhar mais de perto as estrelas?"
Boa pergunta, Romeu. Talvez porque entendi que elas estavam todas ali. Não por isso! Vamos providenciar, Romeu! Para ver estrelas antes que a noite parta E o dia se anuncie...

Afinal, como diria o outro Romeu: "É triste a dor de partir e eu te direi boa noite até que seja dia" ou seria "Boa noite, boa noite, boa noite! A despedida é dor tão doce que ficarei aqui te dizendo boa noite até que seja dia".
Ou seria? Seria: "Estou ouvindo algo! Será o roxinol, o arauto da manhã, ou a cotovia? Rouxinol ou cotovia, o certo é que vem amanhecendo o dia!"
Fico com a certeza de que chegou o arauto da manhã. Embora sempre me permita dizer, anuncio mais uma vez: aqui esteve a manhã da criação.

Thursday, July 22, 2010

João e Maria?
...
Quem sabe vou soltando aos grãos?
Na mesa de cada dia o abandonado pão
Quem sabe até deixo escapar um suspiro?
Ou, de surpresa, um sorriso. Aos pedacinhos...
...
No simples gesto de virar para cima
No ato seguinte, troco o olhar cansado
Por um mais animado, sem incômodos palitos
De fósforo, nas minhas pálpebras ainda apoiados
...
Tenho pra mim em palpite simples que
Se tivesse dançado uma música apenas
Na última festa junina, terias sussurrado

Cantado baixinho em meus ouvidos,
Que melhor que prender passarinho
É vê-los piando e voando felizes.
Pré-postagem



Sinto uma paixão vindo por ti. E como esse amor ocupa meus pensamentos, tudo tem agora um novo significado. É como se devolvesse valores perdidos. Uma paixão somente. 

Embora esteja desenhando em mim um laço. É diferente do real e ao mesmo tempo presente. Isso tem data e nasceu na gentileza. Num aniversário. São todos teus, para mim, os dias do ano. De um jeito que eu...

Seria romântica e tola todas as horas do dia. Alimentaria o gosto por ter mais saúde! Cuidar da casa. do espírito. Como se minha alma, que conheci em ternura de infância, voltasse pra perto de mim.


Enquanto não compreendo o que a afastou tanto de assim não faço mais perguntas sem nenhuma ordem ou sentido, como: Me dá um cigarro. Hoje não. Hoje são flores que trago.
"Quem é você?"
Tente uma resposta...


Não sei do futuro, sou do tipo que não tem seguro, mas sinto o instante presente, como poucos. Até mesmo que aqueles muito muito inteligentes. E não há qualquer vantangem nessa sensibilidade substituir o pensamento lógico, baseado em certas premissas e que requer "sangue frio". É que esse sentir, às vezes, tortura. Mas aprendi a não interferir. Sei conter uma dor ou uma tristeza como aqueles que taxamos de muito muito burrinhos... Embora ainda não consiga conter o movimento das minhas pupilas...

Nunca esqueço uma canção quando solfejam para mim. Estou sempre inteira no tempo presente. Não levo comigo o passado, apenas boas lembranças e o que entendo como parte de mim. É minha grande busca. E preservo os melhores instintos para os momentos de escuridão. Mas serei sempre solar porque choro ao menor sinal de ausência do sol... Respondi?

Saturday, July 17, 2010



Linhazinha


Desembaraço a costura frouxa
Como pude ser tão trouxa?


Bordar não é para menininhas...




Acaso



No Amor não tem planejamento
É coisa de perceber o momento

Pensar no desejo com bom senso
E guardar cada detalhe atento

Tem que deixar correr solto
Sem apostar na sorte ou azar

O universo quem dá as cartas!
Mas também define o morto.





Monday, June 14, 2010

Passarinho e passarão

Uma réstia de sol
Entre os sombreiros
Corpo envolto solteiro
Rede de cor de abóbora
Ela esquecida da hora..

Protegia olhos claros castanhos
Ainda em avesso torpor estranho
Por entre fios espessos trançado farto
Espiava a balançar para folhas e galhos
Numa tarde mansa que desfilava calma

Naquele canto, em seu estado de alma
O vento batia aqui e ali enquanto escutava
Tilintar dos mensageiros, de nome tão meigo
E a tarde, então, se cumpria assim: Vazia.

Agora há pouco tecera um balanço
De cordas brancas e madeiras fininhas
Há instantes estava a paginar o calendário
Contando doze dias do início do ano.

Foi neste momento que ouviu
A cantoria das avezinhas do lugar
Dois passarinhos: um bem-te-vi e um sabiá

Um deles de lá dizia:
Estou daquì a te espiar...
Ao que o outro respondia:
Eu bem sabia! Eu bem sabia!

Friday, June 11, 2010

Móveis em galhos, folhas e charcos. O programa de músicas antigas não consola mais. Derreti n'água. Eu que sempre gostei. Não é tragédia o gênero. Ou drama. Compreenda. Virei nuvem de fumaça lançada pela larva de um vulcão. Não é minha proposta desaquecer o "não visível". Talvez seja desaquecer a mim mesma. E vai ser difícil pensar o mundo longe do calor. Mas a vida é assim e pede um equilíbrio que acaba vindo. Quando menos esperamos. Porque é desse lugar, prezado poeta, que a métrica do esmero se faz. E nesse tempo de ruptura ser dura é ir para frente e não voltar atrás. Nessa rotina de pilhas e pilhas, de folhas e folhas, encontrei minha identidade perdida:

Nome: Mistério
Idade: Aprox. seis anos - dos meus...
Cor: Pelagem branca
Endereço: Marquise
Plano: Sair daqui
Música que toca: "hooome lesss, hapyness my caastle the staaars and the sea..."

Monday, June 07, 2010

Indicação ao prêmio Dardos.


Este selo foi uma criação do Junior Vilanova do blogue Contactos Imediatos e da Olga do blogue Pensamentos, Ideias e Sonhos, e segundo eles - trata-se de um reconhecimento dos valores que cada blogueiro emprega, ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc.

Requisitos a serem cumpridos no recebimento deste selo:

1 - exibir a imagem do selo em seu blogue;
2 - postar um link para o blogue que o escolheu;
3 - escolher outros quinze blogues a quem entregar o prêmio;
4 - avisar aos escolhidos.

Agradeço a Keila Costa que anunciou seus escolhidos:

1 - "Damaria"
2 - "Sabe de uma coisa"
3 - "Specullum"
4 - "Marcas d’água"
5 - "Borboletas de Fevereiro"
6 - "Num Café Pequeno"
7 - "Suprasensorial"
8 - "Eu e mim mesma"
9 - "Rudaricci"
10 - "Sara-evil"
11 - "Da Cor da Felicidade"
12 - "Michelfm"
13 - "Freiregari"
14 - "Curto Circuito Literário"
15 - "Poros"

Aqui estão minhas indicações:

1 - "Raimundo Carrero"
2 - "Estuário"
3 - "Era o Dito"
4 - "O Mundo Circundante"
5 - "Fabrício Carpinejar"
6 - "Entre Lugares"
7 - "Manual de Astronomia"
8 - "NósPós"
9 - "Cronicax"
10 - "Cronópios"
11 - "Escritoras Suicidas"
12 - "Linguagem Guilhotina"
13 - "Rosinha Campos"
14 - "Belas Coisas e Simples"
15 - "Diana Stereo"

Friday, May 28, 2010

As Risadas de Irene

Quando a gente é criança, ainda, algumas memórias parecem grudar. É feito superbond! A imagem, por exemplo, de uma borboleta em seu colorido dacordafelicidade... Mesmo sem saber falar direito, a gente vai arriscando: bo - bo - le - ta. Até o "r" chegar. "R", por esses acasos, de "risada".

Memória que eu tenho, entre as tantas, é da risada de Irene, a levada! Titia Irene era aquela tia que sempre trazia de presente pra gente uma piada nova. Um a tirada dos fatos corriqueiros que ela dizia e a gente ficava. Com a sacada e a risada de Irene. Risada boooa, Sonora! Zunindo no ouvido.

Como quando era chegada a hora do banho da criançada. Ela dizia: "minha filha, vai dar banho na borboleta, não?" E não tinha como não abrir um meio sorriso de surpresa, enquanto ela franzida a sobrancelha, se ria... E a risada zunia enquanto a sugestão se cumpria.

Consigo ouvi-las agora mesmo. As risadas. E lembrá-las. Memoráveis tiradas de Irene. No último dia das mães, ela ali sentada miudinha com seu humor enorme, de repente teve um passamento. O primeiro dia foi de susto. Os outros seguidos de tormento.

Enquanto era levada para o hospital, titia Irene fazia esforço para levantar os olhos e fitar os sobrinhos netos a carregá-la, às pressas. Eles a socorriam e ela recobrava os sentidos. Foi só resgatar-se um pouco e logo que perguntaram "tá melhor tia, tá sentindo alguma dor?". Ela ainda pálida, abatida, respondia: "só no olho do porco. E aquele batimento na perseguida".

Borboleta de Irene, ali estremecida, foi mesmo perseguida por Severino. E acabou sendo por ele "possuída", como dizia titia. Fugiram juntos aos poucos anos de vida. Ali, naquele momento em suspenso, Tio Severino em seus passos lentos fez todos os movimentos na direção de Irene. Corpo espichado, braços e mãos estendidas. Seus olhos pareciam perguntar: "para onde estão levando a minha alegria?" Até que da boca sai a frase afinal: "me levem junto, me levem com Irene".

A cena partiu o coração do parente mais indolente. Enquanto esperava para ser atendida na emergência do hospital Irene se refazia. Mas o humor não perdia: "pra quê tanto sangue seu moço, da veia dessa velha tia? Vai fazer uma cabidela é?" E o enfermeiro - até então absorvido pela correria - se ria: "essa vai sair logo daqui. É só dar um jeito na anemia"... A gente também tinha certeza que irene logo dali sairia, em dois ou três dias. Tempo previsto para exame que - segundo o médico - diria se Irene corria ou não risco de novo infarte.

N'outro lugar do mundo titia Irene não esperava. Mas como foi tudo mesmo por aqui, o tempo que demorou numa cadeira na emergência Irene fez os pacientes esquecerem suas dores e tristes memórias recentes. Se lá vinha mais uma injeção, em seguida vinha mais uma tirada de Irene: "tá bom enfermeiro, não tem mais nem onde furar. Só onde meu velho já passou e aí eu não dôo". E a risada se ouvia. Um instante de alegria feito tábua de salvação naquele rio de dor perene.

Quando foi, finalmente, transferida para um leito na enfermaria, a emergência do hospital, que nem tio Severino, sentiu. Estendeu-se em reclamações por perder as tiradas e as risadas de Irene. Já imaginou? Naquele mundo de espera insólita e barulhos de sirene, que delícia! ouvir as risadas de Irene...

E ela brincando com tudo aqui, dizendo: "Se aperrei não minha gente, é só um pulinho ali nas Europas". A última notícia que tive foi de que precisava de sangue. Nem deu tempo das furadas por agulhas que serveriam a Irene, infelizmente. Minha tia tinha tantas tiradas, mas sangue dos outros, mesmo carecendo, não mais precisava.

Restou agora essa lembrança grudada. Feito superbond. Efeito borboleta. Batendo feito asas no juízo da gente. Em sua vida de gente humilde, sacrificada, titia Irene deixou uma lição que sustente! Faz fazer uma pergunta que já tem resposta: "por que será que entre tantas memómiras sonoras, a risada de Irene é a que mais fica presente?"

Pra dar a resposta sem rodeios, mesmo enxergando do lugar do meio, estou certa do porquê: Irene sempre escolhia em meio às tristezas, aperreios e fatos corridos da vida fazer piada com eles. Tudo sempre foi receita para uma risada nova!

Fico olhando pros filhos, netos, sobrinhos que Irene deixou me perguntando qual deles herdou seu talento? A verdade é que agora que a borboleta de Irene voou, a família ganhou mais uma tirada de Irene. Até na sua retirada partiu vinte anos e um dia depois que a mãe Joaninha. Depois de um passamento em pleno festivo dia das mães.
Refogado

Tremo e não é de frio ou de medo. É de raiva. Sim, pelos sustos que tenho com o mundo... Tremo de frustração e de angústia. É raiva contida. Pelo meu modo simples. Tremo de horror e de revolta. Infantil demais?

Sim. A minha criança anda mesmo muito comigo, ultimamente. E é por tomar, vez por outras, seus olhos emprestados que vejo o mundo em susto e horror. O que enfrentam esses pobros olhinhos infantis nos dias de hoje... Minha criança, por fortúnio, não está sozinha. Anda na companhia do meu adulto. Por isso não há em seus olhos traço de sentimento pior: o abandono.

Mesmo com a voz ainda presa, o adulto fala por ela, quando é necessário. Embora nem sempre seja preciso. Mesmo em espírito deformado, por trêmulo, esse adulto está sempre com ela na lembrança e em sua presença vem socorrê-la. E vice e versa.

Mesmo no caos que se apoderou desse adulto, os pensamentos se organizam pela companhia da criança. Diante de quaisquer sentimentos, os pensamentos se organizam. Com raiva ou desesperança, o adulto se organiza diante desse destempero. Dessa destemperança.

Esse adulto que também sou enfrenta ainda com alguma coragem por estar perto da criança. Os horrores que, por desventura, se atrevem a atravessar em seus caminhos. Para proteger a criança, o adulto se organiza e mentaliza. Age com a mente. Com a razão. A união vai diluindo a raiva e revisa os fatos. A situação é cortada em pedaços feito carne para refogado. Tudo que escapou no momento do enfrentamento é fatiado.

Nesse mesmo instante revejo de um lugar mais alto. O que está mesmo em questão não foi ainda revelado em meio ao picadinho de frases em fúria, mal postas na mesa.

Wednesday, May 19, 2010

Recife Inverno


"Aceita um café? Vou buscar! Talvez tenha adoçado demais...". Bebo em solitude. Às vezes o Recife é tão triste quanto um pão francês dormido e mofado. Ali abandonado em seu saco de papel escuro de quem não serviu a banhar-se em leite e ser tornado fatia parida. Como diriam em mesas de natais; "feito rabanada"! Seu inverno é úmido e abafado.

Não fosse tão úmido e verde escuro estaria agora polvilhado em açúcar e canela. Serveria mais se fosse apenas um Recife duro. Faria sorrindo em rodelas a alegria de meninos e meninas em cafés da manhã de ternura, em festa! Com presença de carinho de mãe no jarro de vidro sobre a mesa.

Mas no seu inverno o Recife não é assim... É cigarro molhado, feito charco de cinco mil substâncias para matar ratos e baratas. Socorrer por baratos o sujeito incauto em beco coberto de marcas. É mais triste que abandono de recifense esquecido na parada pelo último ônibus que passa apressado.

É noite de perigo e o Recife nunca pôde dar abrigo definitivo aos que vão se desmanchando feito papel pelas encostas. Recife nunca pôde se dar de presente em caminhões de lata para crianças que aprendem cedo a brincar com aquilo que mata. Meninos e meninas que guardam seus desejos, sonhos de brinquedos, por minguados que faltam. É overdose de desespero, de pancada, de dor que não passa...

Recife, no inverno, às vezes não vai nem com o café mais adoçado do amigo vigilante que me espia escrevendo em bloquinhos no assento do carro. Não Recife, não bastará teu carnaval para me fazer feliz. Rezo pela cartilha de Neruda que me diz do homem, da mulher, do pão e do vinho. Da mesa, da morada...

Homeless que sou, me abrigo em lugares distintos. Um dia um, n'outro outro. E assisto a seu modo o Recife oferecer um sorriso ao me olhar no rosto, feito reconhecimento, e a um só tempo, me expulsar. Justo em momentos que nos faríamos quites. Não, eu não entendo. É meu amigo vigilante quem vem e consola minha fragilidade de osso exposto. De criatura feita de mola.

Eu que ora sou espicho, ora rolha. Espicho e encolho. Numa hora pingo, mergulho e afogo. Quem dera não tivesse sequer encharcado... Podeira apenas dizer como imagem da minha tristeza que me sinto um desses pássaros capturados, logo de manhãzinha, nas matas atlânticas de teus arredores, Recife.

Cruelmente, esses homens que não têm o que fazer, nem se darão ao trabalho, usam outros canários para atrair suas presas. É assim no sexto e em outros quilômetros da Aldeia. Testemunho em gritos de buzina para espantá-los. Mas a verdade é que não vou conseguir socorrê-los ou fazê-los correr dali. Fugir das arapucas montadas em cercas rentes ao pasto.

Capim que sou só me resta acender esse cigarro molhado, sacar o bloquinho enquanto espero o ônibus. Meu único brinquedo. Eu que perdi meu caminhão de lata... E beber com alguma alegria matutina o café "talvez adoçado demais" do meu amigo vigilante. Para quem agradeço num cumprimento tímido, sem abraço.

Thursday, May 13, 2010

Grão de Razão


É tamanha solidão que expõe ao risco de perder-se. E no entusiasmo semelhante ao de uma criança, na euforia por algo novo mesmo que não seja bom ou real, nisso está a chave de acesso ao perverso.

Sem segredos a vida vira uma sucessão de fatos banais e de atos insólitos. A incredulidade de quem guarda um segredo faz dessa pessoa algo que se pode tocar. Como uma peça de madeira maciça.

A busca que hoje move a existência procura por um espaço onde não enxego palmo de mão diante do nariz porque fixo os olhos no chão. Não compreendo e por isso fui me tornando mais real. Por que há ganhos em não compreender? Quando compreender era ainda tudo o que queria. A intensidade é de um desconhecimento absoluto. Não posso ser atingida senão pelo caminho oposto da razão. São os instintos que me guiam nesse escuro. A luz acessa vai tornando meus sentidos despertos e os instintos desérticos.

Estou terna comigo mesma no dia de hoje porque espero pela aparição de Fátima. Não me obrigo mais ao silêncio. Não há mais imobilidade em mim. DOu-me ao desejo como um reflexo. Repetidas vezes te quero olhar de corpo inteiro. Até a exaustão. Não abandono mais o querer-te.

Meu desejo motor me tira do nada. Do meio do oceano. Do meio da estrada. Caminho certa por entre retrovisores ou navego por entre as ondinas do alto mar. Só desaparecerei por obra de uma tempestade descomunal. Sei que não há recompensa. Há o perigo ou a mansidão. Escolhe o primeiro.

Como um ser humano cheio de necessidades. Necessidades e vicissitudes que não se encontra no mercado. Nem se poderia guardar num armário. Não diminui minha existência. Meu mistério é que não está mais ao alcance de mim. Meu senso de direção foi afastando-me dele. COmo uma bússula confusa. Ao mesmo tempo em que expresso apenas o que está no desejo de compreensão do outro mais abandono a complexidade do pensamento e me aproximo da inteireza da vida. O imenso agora é apenas um grão de areia que machucava a retina. Eu grão de feijão.

A mesma ternura que guardo para meus filhos vem se traduzindo em mim na aceitação do amor. E o que sempre foi meu maior medo transforma-se em minha grande liberdade de viver. O que me causava susto e temor agora me dá asas. Logo elas que me abandonavam no primeiro piscar de olhos da pessoa amada.

A crença na minha inutilidade é o que está me fazendo servir a senhor que antes eu não me atreveria. Se há mesmo um Deus sobre todas as coisas ele não deve apenas escrever certo por linhas tortas como também desenhar seu plano em páginas sobrepostas.

Seu roteiro surpreende os desavisados que confiam sua pena à mão solta do coração. Enquanto estou faminta alimento meu espírito com teu timbre sonoro. Chego a entender a loucura de um maestro que harmoniza tantos instrumentos. Escapou um assovio de pássaro do campo.

Friday, April 16, 2010

A Mala Hora


A esposa ficou olhando serena para a porta que acabara de fechar. O marido se foi. Foi sem lhe "atender" ao pedido de um carinho naquela manhã quente, de lua fértil. Não havia mais o que fazer. Deu de ombros. Vai ver ele se foi porque estava realmente na hora de ir. Costumava ser pontual e intolerante. Um homem, portanto, "coerente", diriam os amigos. Mas a verdade é que não estavam lá muito próximos por estes dias...

Mas, não foi mesmo, por nenhum desafeto que imperou a negativa. Apenas um simulado desprezo. Ficariam à noite, prometeu ele. Hora boa do dia. Hora em que não seriam interrompidos pela chegada da ajudante ou despertar dos niños. Estavam novamente de mudança. Mais uma vez de mudança. Ainda não havia mesinha de cabeceira ao lado da cama, nem móveis nos lugares devidos. Colchões espalhados pela sala. Eletrodomésticos encaixotados. Sossego perdido.

Aos sobressaltos ela notava que havia tempo não paravam para ouvir bossa nova, nem rock 'n roll. Não haveria mais um pingo de Amor? Secaria e depois morreria? Naquela manhã, o medo furou - lhe como um tiro seco.

Ele foi sem culpas. Com a certeza de que poderiam superar sem danos ou perdas, a má hora. Esperando pelo momento ideal. Ela, mesmo levantando para acompanhá - lo até a porta e até despedir - se com um beijo morno. Olhou atenta e achou que suas almas continuavam uma mesma. Por muito tempo ainda estariam ali.

A outra parte da sua preparou-se aos pouco para o desbunde. Boliu - se por alguns instantes. Erguer - se contorcidamente demorou mais que de costume. Durou enquanto lia um clássico, Willian Shakespeare. Depois de instantes levada, imóvel, decidiu! Hora de levantar porque a inércia começava a lhe dar nos nervos.

Tomou uma boa ducha, lavou bem os cabelos. Impregnou - os do cheiro de algas marinhas. Limpou bem a pele do rosto. Olhou - se no espelho liquefeito. Tocou a extensão de cada poro, esfregando com as pontas dos dedos cada centímetro de pernas entre as coxas. Do começo até o fim das costas. Hidratava - se. Por completo. No corpo um creme com o perfume que lhe dedicava às partes mais delicadas. Uma ponta de vaidade. Um pingo em suspiro evaporava do pescoço comprido.

Vestir - se era fácil. O despojamento de sempre. Só. Era assim que se achava bonita. Saiu para reabastecer a casa de coisas que encontraria no mercado... Começou a procurar em meio às folhas. Legumes... Nos mais frescos se deixou levar. Colhidos ali, há pouco. Pensamentos sobravam e soprava uma brisa leve que nem fios de cabelo soltos da cabeça em movimento.

Ventos derrubam casas e pontes até. Já vi tetos desabarem. Alumínio leve é breve e certo. Ventos concêntricos viram furacões. Pés de vento levantam folhas nos parques durante o outuno. O vento levava os cabelos e junto iam pensamentos. Levantava a saia num balanço leve. No mercado, via - se ela levitar por entre balaios de laranjas vibrantes. Um colorido cítrico de mercado vivo.

Ouvia o ruído suspensa em dedilhado de ouvidos, rumores incertos para os quais não tinha sentidos. Parecia estar numa terra distante ouvindo o derramar de água cristalina. Ia esquecendo de tudo... Despertou do devaneio quando um rapaz de alguma idade, que a observava a se rir da graça, como a moça flutuava entre as frutas rotundas. Tão bem distribuídas em seus balaios.

Puxou de assunto, a qualidade das laranjas. Não se podia comparar àquela hora do dia frutas tão vigorosas e ao mesmo tempo maduras. Ao que ela lhe sugeriu que desse importância, além da aparência, ao verdadeiro sabor de cada fruta. O fato é que, àquela altura, as dúzias escolhidas viraram sacolas carregadas, que pelo peso, ela precisaria de ajuda para levar. Só até o final do quarteirão.

Não foi com presteza que ele se ofereceu, mas com naturalidade, a mesma que se estivesse ali para aquilo. Ela não havia chegado aos quarenta. Pedir ajuda fazia se imaginar aos setenta. Mas não viu, dessa vez, qualquer ameça à sua solitária rotina. em aceitar a gentileza. Sem dar muito espaço para os cuidados que denunciam os culpados levaram - se pelo caminho em conversas sobre frutas frescas até onde o carro estava estacionado.

Coincidência, a casa dele ficava ali ao lado. O rapaz fazia pesca submarina e não era do contexto do mercado. Ofereceu - se ao peso das sacolas e por estar capturado pela "corrente azul" que nela balançava. Ao ouvir isso, uma corrente submarina invadiu-a de imediato. A moça aceitou dessa vez o gentil convite "quer conhecer meu quarto?"

- Aceita uma água ?
- Gelada!, ela respondeu sem nem pressentir que não demorava. Embora o rosto já estivesse aquecido em maçãs. Vermelhas. Na boca ia um gosto antecipado de fruta madura... Foi também pela simples palavra dita e os lábios delicados do moço balbuciando qualquer que fosse a frase.

E aquele calor que não a abandonava, agora perseguia. Em geral não escolhia começar porque o primeiro piscar de lábios puxava outros seguidos. E a dificuldade traduzida em capítulos inteiros do romance inglês, agora era energia que fluida simples e líquida. Feito água aquecida. No copo abraçado com as mãos e na passagem estreita prima-irmã dessa rima. Ela virou pesca submarina. Repetia sem parar no pensamento. Ele retrucava sem medo que de pesquisar o mundo marítimo seu universo se faria.

Esqueciam - se das horas, e volte e meia desembalavam frutas ouvindo o barulho do mar. Quietos, em silêncio profundo. Céu inteiro lá em cima, sol em frestas. Mergulho absoluto em cantos de sereia. Ao passar dos anos foram vindo vozes sobre o barulho bom: Ray...Peyroux...Nina... Holiday.

Ela fruta colhida, doce. Feito Mimo. Ele, aos bagos. Comiam-se em dias corridos. Sucessivos. Com o passar de noites, contadas em mil e uma. Quando somente, então, foram descobrindo que há mistérios no mar e dissabores delicados na fruta.

Thursday, March 11, 2010

Amora

Já viu como nasce uma amora? Tal qual um pequeno rato desprovido de sua cor e pelagem. Aos poucos ultrapassa aquele branco pálido, quase transparente. O vermelho lhe aparece quando da metade do processo de amadurecimento. Só então vai depois tornar-se roxa. Intensa e completa em sua força de cor. Poucos se apercebem ao encontrar essa árvore pelo caminho. Uma amoreira tem folhas enormes. Enquanto seu fruto é miúdo. Os galhos são tão finos que não combinam com a idéia que fazemos ao ouvir a expressão "pé de amora". Frágil assim mesmo a especiaria vinda da China, dizem por aí, é ainda reguladora dos hormônios. Imagine tal poder está guardado em segredo ou falta de conhecimento mesmo entre tantas de nós. Apenas com ingesta do delicado fruto e nós diariamente estaríamos livres dos 'desastres ecológicos' tal qual furacões ou tormentas que nos ocorrem vez enquando...

Tem crescido em mim o carinho e admiração por essa fruta. Por sua delicadeza, seu disfarce de nascer assim tão pálida e até feia posso dizer. E ainda por sua força. Sua missão. Por muito que já oferecesse em nos presentear com algum equilíbrio e ainda, dizem os especialistas, tem vinte e duas vezes mais cálcio que o leite. ALém de potássio, magnésio, ferro natural, proteína, fibra, zinco e levedura.

Podiam até reinventá-la como alimento para recém-nascidos e frequentadores do bar de costume. Adoraria erguer copos em sua cor. Lembrando o vinho extraído de uma prima muito distante, batizada uva. São tantos os mistérios da vida. E os da amora ainda tão pouco conhecidos como os que lhe olham pela pimeira vez em sua palidez horrenda não conseguem imaginar a formosura de seu ato final. Da forma para qual foi gerada. E os motivos para ser assim nascida me parecem mais ensinamento da natureza sobre a beleza das coisas...


Monday, March 08, 2010

Minhas Amigas,

Parabéns por todos os dias do ano e em especial por esse dia. Porque foi para isso que a gente inventou o calendário. Você vira a folhinha e "está lá". Oito de março de 2010. Inventamos também o celular e despertador. Começa tocando às cinco e cinquenta e cinco da manhã e você depois de uma insônia braba, que começou às três da manhã, olha aqueles números pequeninos e aposta!: "só mais cinco minutinhos...".

O passo seguinte é ferver a água do café e porque só vai despertar os sentidos depois que o cheiro do pó coado invadir as narinas. Até a hora boa de acordar os filhos. O café da manhã já à mesa. "Tapioca quentinha meus queridos. Vamos levantar?". Proposta com nenhum espaço para negociação. Outra estratégia que uso é o cheiro do pão de queijo mineiro. Infalível.

"Mais um dia de aula, mais um dia de aula". Responde ainda meio torpe a versão criativa de Nemo em seus nove anos completos. Escapa aquele sorriso cúmplice, um beijo nele e na filha de seus quatorze. Para ela ainda não cabe, por completa, a frase que dedico a vocês desde o início do texto. Embora saiba que este é um dos projetos em sua vida, dos maiores e mais desafiadores como bem sabemos, tal qual foi nas nossas vidas.

Ela já caminha sozinha até a escola. Um beijo mais demorado com o silêncio contendo a frase no pensamento. Nessa hora, penso comigo que se ela tivesse pouco mais de idade eu inventaria de brincar em checar que lembrou, não apenas do lanche, mas também do protetor solar ... Cai como uma luva para esses tempos quentes e de tanta radiação solar, se é que me explico. Aliás, taí outra invenção necessária. O protetor solar. Nem precisar perguntar ao Bial.

Para vocês a frase vai inteira e cheia de outros pensamentos e reflexões. Completa nas lembranças de cada momento da história compartilhada. Dos terríveis espartilhos, aos cintos de castidade até nossos moderníssimos amigos do peito. Só mesmo as magazines queimam em suas liquidações. Nós não. Dedicamos uma gaveta para muitas versões dessa invenção. Não queimamos mais os sutiãs. Não é preciso. Nossas metáforam são outras. Acendemos velinhas perfumadas em noites mais românticas ou sopramos a do bolo de aniversário com primeiro pedaço dedicado a quem bem entendemos.

Ainda neste fim de semana vi um namorado chateado porque uma de nós dedicou o primeiro pedação ao melhor amigo. Afinal, o recém-chegado não compartilhou dos momentos difíceis, ora essa. É assim nos tempos modernos. Chaplin bem que avisou. Ajeite rejeita o automatismo porque sabe o valor da amizade. E como a vida ficaria tão impossível sem ela. Na nossa versão são muitas folhinhas viradas em calendários. Oito, quinze, vinte, trinta anos! Mudamos tantos hábitos. Dedicando lixo perecível para a compostagem e o reciclável para doação a escola. Essa rotina ainda mais frequente em nossas vidas que as conversas nos cafés ou no bar de sempre.

Esse dia-a-dia que nos ocupa tanto e muitas vezes diminui a frequência dos nossos encontros. Nossas conversas e análises bebidas em pequenos ou grandes goles desse vinho. Temos fotas digitais em nossas comunidades que mostram. Estivemos aqui e ali e continuamos. Vamos indo. Porque a mentira pregada tantas vezes de que mulheres não sabem ser amigas não grudou em nós. Passou direto por nossos ouvidos. Ficou retida no nosso detector como tantas outras tão convenientes, exceto para gente. Continuamos fazendo diferente - ao nosso modo - a diferença valer de um jeito mais construtivo e amoroso.

Sem as violências de antes, embora elas não tenham desaparecido do planeta. Mas que já são julgadas de outra forma. Sob outra ótica. Inclusive por nós mesmas. Afinal ainda somos e seremos sempre, eu suspeito, quem vai parir e amamentar ou alimentar nos branços contra o peito os recém chegados ao planeta. Não apenas com o leite e o aconchego da nossa voz terna, do nosso cheiro. Mas principalmente com as nossas idéias que definitivamente mudaram. E transformam cada vez mais este mundo.

Wednesday, February 24, 2010

Até as minhas veias suportarem, acenderei esse ponto de pólvora. Tenho um extintor como ouvinte. Neste pequeno muro erguido em frente à minha porta. Eu e minha escuta diminuta. Minha escrita torta. Por que me pergunto tanto sobre o amor e seus vazios? Por que nunca me parece preencher todos os espaços? Como posso olhar para tua ternura, se a minha escapa por esta alma fragmentada? É, ao final, um sentimento de bicho, de felina, que me faz subir no muro. Talvez porque queira olhar um pouco mais do alto.

Então subo na árvore e você deseja que quebre uma perna. Deseje-me sorte apenas. Como eu alimento por ti os melhores desejos. Os mais positivos. De sucesso e glória. Em busca da força que ainda credito a mim mesma, vou acendendo esse ponto de pólvora, até as minhas veias suportarem.

Tuesday, February 16, 2010

Respirava profundamente aquele ambiente que criaram no momento do encontro. O cheiro tão próprio da junção de dois corpos. Aspirava para impregnar em si mesma aquele lugar tão vasto. Uma seara. E ele emitia espécie de barulho que reproduzo. Um urro para o alto. Que nela reverberou em resposta: Uau...
Subiu no caminhão. Tinha pressa. Queria chegar logo para encontrar um tudo novo. Tinha tanta pressa que subiu. Para amainar o ambiente da cabine pergunta sobre a carga para o caminhoneiro. "São sapatos", respondeu. Era sua carga. De sapatos ficaria em algum lugar. Ela e quem o aguardava em sua pressa.

Anjo Caído


Noite dos tambores silenciosos. Luzes se apagam. Fogos são arremessados para o alto e aquele anjo caído bodeja em meu ouvido. Seu tom de voz, sob efeito de "drag-and-drop". Ele sussurrando dizia-me do desejo de beber-me inteira, ali mesmo, em meio aos corpos suados.

Foi com muita coragem que enfrentei o anjo. E contive seu desejo por mim. Deu a si mesmo um nome tão áspero que emudeci. Mas encarei sem medo seus olhos verdes e vivos. Tão vivo era o anjo caído quanto suas mãos quentes e graúdas. Inquietas.

É pequeno o meu corpo inteiro para as tais mãos... E ele continuo com o seu grunido em meu ouvido, dizendo coisas que Deuses não duvidariam porque assim o conheceram. Antes de perder suas asas e descer ao mundo dos homens, este anjo cumpria missão abissal no Olympo. Entre todos os supremos seres divinos ele era responsável pela segurança da grande Hera. E se perdeu no convívio forçado. Perdeu a confiança do grande Zeus, irmão e marido da figura de mulher marcada pelo ciúme e pelo uso abusivo do poder a ela investido.

A este anjo não foi dado o perdão. Nem notoriedade a seus atos condenáveis. Silenciosamente foi enviado para outra dimensão onde ninguém jamais teria notícia do acontecido e mesmo da sua existência. E assim, naquela noite de tambores, ensurdecido e ainda torpe por suas perdas, o anjo deu-se ao Pátio de São Pedro. Fixou sua força em meus olhos e me tomou nos braços como quisesse vingar mal que não cometi. Confundiu-me com Hera em minha força de genitora e por uso da pena e quis passar seu destino a limpo.

Enfeitiçado que estava ainda pela imagem da Deus rixosa confundiu-me sem que houvesse tempo para esclarecer o mal entendido. Tomou-me nos braços fortes feito grandes troncos de árvores e apertou seus lábios contra meus ouvidos. Naquele momento exato de fogos ao alto ele mesmo explodia e por tudo queria depositar em meu corpo seu apelo de gozo. Erguia-me roçando meus seios, umbigo e coxas por seu dorso desejando com força beber-me ali. Eu suspensa já, com os pés fora do alcance do chão, erguida pelo anjo caído segurei seu desejo com meus olhos frágeis num apelo mudo de sorte outra que não aquela da troca. De tão inútil sentimento de vingança em outro corpo por pura troca.

Foi com coragem firme que enfrentei o anjo caído e seus olhos verdes vivos que despiam-me desde o primeiro instante que me fitaram. O encontro exalou um cheiro estranho entre aqueles outros corpos suados e despertou ali no meio do pátio um luminosidade vermelha de entranhas de cabra. Tingiu o lugar perfumando o entorno, deixando naquele carnaval uma centelha de fogo eterno acesa.

Wednesday, February 03, 2010

A filha me conta a história de amor de seus pais portugueses. Ele era tísico. E ela, seu Amor: "uma flor, em perfeito estado físico". Bem sabia, era pura ainda e moça com tudo se melindra... Por isso, o jeito que encontrou para "beijá-la" foi dar a ela conchinhas minúsculas, colhidas no mar. Guarda até hoje o tesouro e uma enorme valise. A doença fez a troca eternizada.
Como livro de uma única página espero que escreva em mim com uma só palavra. E o vento sopre o branco do meu vestido e você, com seu estilo, me faça imprimir a essência dessa mistura. Que nossa vida se construa em cada tijolo da pirâmide. Tu me liberta em movimento. E eu alimento a anima tua.

Monday, January 25, 2010

Na ponta do Arco-íris. Fervo.
Preto
Desejo de gueto
Eu no espeto
Caso amanhã
De preto...
Roxo
Rosto no encontro
Do carro, pálido...
Você tira sarro.
Ficou rôxo?
Eu presa
No intervalo.
Lilás
Será que você
É mesmo capaz?
Dê-me apenas uma
Flor, que seja lilás
Assim, a mentira
se desfaz.
Azul
Senhora Azul:
Posso esconder
o meu pranto
em teu manto?
Juro, logo após
abro os olhos
Pra ver com
Encanto
Vermelho
Teu medo e o meu
Vestido vermelho
Não combinam.
Mira só no espelho
Eu te vejo inteiro
Você me estilhaça
Depois de virar
Pelo avesso.
Verde
Um dia eu vi
Alguém, decidi
Esse não houvera
Igual a ele antes
A este dediquei
Um dia inteiro
Diamantes
Amarelo
Se amar não é
O nosso elo,
O que será
Mais sincero?
Acho que vi
Um sorriso
Amarelo
Laranja
Antes do céu
Ficar laranja
Junte tudo
O que é seu
Dê adeus e
Vamos ver
Como se
Arranja...
Anil
Acho que vi
Um brilho nutri
Será que fiquei
Senil? Menti?
Meu rosto
Pintei de anil.
Violeta
Vamos brincar?
De borboleta!
Eita, eita!
Olha, como deita!
Deu pra ver?
O quê?
Sua violeta.
Branco
Vi um céu liso
De algodão
Pus a mão
E o coração
disparou.
Teu manto
Virou circo branco.

Wednesday, December 30, 2009


A menor concha do mundo



Não que procurasse por tal, mas à menina moça, naquela praia de água fina, ocorreu numa tarde encontrar uma conchinha minúscula. Se fosse para ser contada em dias, ela duraria paneas um instante. Feliz e raro.


De uma notoriedade que não ansiava, ela era! E fosse na escola ou no curso de francês ela era lembrada pelos colegas por sua solidariedade e até caçulice. Precoce, ela durava. Uma vez, um amigo mais próximo levou dez anos para livrar-se de imagem dela em seus sonhos...


Então, o que mais buscava a menina tão moça ainda? O que sei dizer de maneira simples e reta é que a menina fazia por onde realizar metas e planos. E, naturalmente, tinha seus sonhos!

Talvez, uma de suas características mais próprias fosse o êxito com pouco esforço aparente. Sem empenho árduo visível. Porque como capturava instantes em seu imediato momento ficava com aquilo e não abandonava mais. É o que se pode dizer, alguém preciso. Ela é matemática. Pura lógica. Sim, prática. E faz sempre sentido.
Ali, com ajuda diânica e materna, bem terna, foi ali, naquela tarde que parecia ser só de descanso, que à menina moça aconteceu enxergar em meio ao cascalho na areia, a menor concha do mundo. Com a imediata impressão de coisa rara passou a se ocupar de achar uma palavra que naquela minúscula criatura coubesse.


O que afinal descobriu e foi com o passar dos anos é que são duas ou três palavras que cabem naquele universo. Palavras que só se escreve em maiúscula.

Tuesday, September 08, 2009

Bloco de notas: "Aproximo momento de explosão criadora do universo", junção de duas moléculas: H2O.
Explico: viagem Narciso!

Saturday, September 05, 2009

Alturas: numa tarde de completo encanto consegue de mim tanto. Mesmo quanto sinto, apreendo mais do que deveria. É que absorvo naturalmente. Identifico, afinal, um desejo meu. Não importa se tanto amor me leva algum pranto. Vou indo sem medo. Tua música única é a minha também e me põe a palmos de chão. Nas alturas! Mais perto do céu. Longe do não. Amor de medida rara. Sem vírgulas. É azul e está na cara. Sou ponto tão exclamativo ao teu lado. Sinto amizade. Um bem querer para sempre.


Desenho nesse escuro, discorro há horas. Nenhuma palavra é completa para dizer do meu intenso prazer em revelar esse fluxo... Quero escrever até enquanto rezo. E prezo porque não publico. Revejo teus beijos à porta da minha casa. Eles voltam e fixam-se em halo. Não deixaria você ir não fosse “está na hora de dormir”. Passaria a noite naquele mesmo abraço contigo. Fez-me existir. Teu perfume meu elixir. Tua ternura de amigo meu encarecido abrigo.
L&G.


Você, daí de tão longe, devolve em mim uma natureza viva e perdida. Como a terra devolvesse a si mesma o ar puro de antes, muito antes daqui... Vale de água limpa e campo verde em tarde cristalina. Porque há uma sinceridade real no silêncio. E há flores por vir. Uma floresta antiga de raízes profundas e tênues como uma teia. Você me devolve a mim mesma.


É improvável esperar qualquer tempo sem ouvir tua voz ou ver teus olhos. Contigo a noite não chega e é terno o dia. Não tenho medo. Habituo-me à luz que não se apaga. Nem para uma penumbra de quarto e de cores. Querer teu corpo ao lado do meu é perceber-me assim! Por mim apaixonada. Você faz isso comigo? É pergunta de amigo...

Sim. Gene como a própria fé. Zen como meu espírito. Percebo tanta fé em mim que não adormeço revendo teus beijos. Meus olhos brilham em faíscas ao pousar em você. É um pouso... Como uma criança diante da alegria de saber tocar um instrumento. Quase dissolvo. Brilho feita em duas moléculas. Viro água e escorro. Derreto como as asas de Ícaro em proximidade improvável do Sol. Sem qualquer máscara ou disfarce, minha tensão escapa entre os dedos e não faço mais segredo. Foi longa a espera.


Penso em você como quem tece uma manta de fios perfeitos. E se escrevo é porque explodo de alegria quando dedicas horas do dia e da noite a me provocar efeitos. Reencontro a tua gola de camisa azul clarinho nas alturas, os dedos compridos tão conhecidos. Decorei tudo. Cada detalhe. Tua boca e lábios em minha direção. Meu amor por você me leva às alturas e vou. Deixo ir. Encontro de corpos celestes. Força de atração que construiu em mim a trajetória elíptica. E quanto mais distância alcança o meu olhar, enxergo o que fui. Anos luz de história descrita no espaço. Aproximo momento de explosão criadora do universo.

Thursday, August 06, 2009

Lei Maria da Penha. Pequena a distância que separa o silêncio do cumprimento... Tênue e frágil em suas horas a rede que sustenta o elefante. Tal violência é latente e não se encerra o tempo de denunciá-la.

Wednesday, July 29, 2009

Ficou para nunca mais...



Ficou para nunca mais o filme que faríamos no bar Garagem. Ficou para nunca mais a imagem fumegante do seu dono abrindo a geladeira diante de um balcão escuro por sobre uma parede cheia de detalhes. Sim, a iluminação permitia confundir teto e chão com as paredes... De lá se desprendia como num espaço etério a foto do Papa João Paulo II, lembranças de um lugar e outro. Recordações para acender a memória. Isso hoje é tudo.

Tudo que restou do cenário dos que buscavam mais um pouco, um outro passo louco, numa noite que não fosse o Garagem já teria tido fim... Sua grande ventura foi transformar o dia em noite eterna que se misturava a um amanhecer que começava por assim dizer, quando sequer havia terminado...

Realizava assim em nós, recifenses de uma boemia lisa, a aventura de continuar existindo na beira rio que inventamos no nosso projeto de cidade. Cumplicidade. Poeticidade. Insanidade branda. E eternidade de todos nós, se fôssemos jovens. Teciamos ali em conversas mal ouvidas sensações que nem raízes em imaginário fértil.

Em pleno bairro da Torre, depois de resistir a todas as águas que passaram por baixo da ponte, o Garagem foi trator abaixo por decisão e ordem do nosso poder público. Não há manifesto que conserte. Nem concerto que revele a música que se construiu ali. As imagens de um Recife indie, underground, retrô, punk, hardcore ou apenas azul, de um bom blues ficou para nunca mais. Soterrado por leis, licenças de funcionamento e decisões. Representativas?

Não acontecerão nunca mais. Não bastou fazerem pouco do desejo de consumidores pagantes removidos de outras calçadas, longe dali. E os shows que aconteceriam? Os encontros e desencontros? Ali, não acontecerão nunca mais.

Ficou para nunca mais. E eu que neguei o pedido de Alice no país das maravilhas, em mais uma noite que começou e que naturalmente não terminaria, ao pé da indestrutível Ponte da Torre. A única que resistiu às dinamites. Como a ponte, a boemia em nós vai resistir.

E outros lugares como o Garagem surgiram em todas as partes. Embora aquele filme de um colorido obscurecido que faríamos ali, ficou para nunca mais.

Wednesday, July 22, 2009

Uma senhora foi esmagada por um ônibus no corredor da Boa Vista. Quantos não são esmagados todos os dias? E eu? Será que ainda estou viva?

O que ainda não foi esmagado em mim, na Boa Vista? Sei que estou viva porque ainda durmo e tomo muito café para continuar acordada...

Friday, July 17, 2009

Cartola de maçã (manteiga, açúcar e canela), pêra ao vinho (bebido no corpo dela)... sob alta pressão e cristalizada. Tal qual mulheres de areia. Sobre toalhas de linho.

Tornei-me matéria cristalina. De vidro. Em cenário de um tear matutino.

E por que tanta transparência? Quem aguenta tanta bebida? Quem consome tanta notícia? Porque não apresso mais a vida. Não é para ser assim... E não é discurso de Páscoa. É apenas um novo formato. Um novo embalo.

Basta que me entenda mais ... tranquila? Apenas "suavizar o rosto", Clarice. Vou nesse fio de novelo até me livrar do labirinto. Preciso de uma sinceridade branda, que nem sempre se diz em palavras suaves e bem escolhidas. Sim, há os que querem, precisam do grito!

Por outro lado, o que está aqui, se me enxergar mais permitida para o definitivo da vida, eu saberei por onde ir, que caminho seguir. Saber o que querer da vida e se ainda não for possível viver assim, como para o quê nasci, ao menos eu sei para o que não nasci. E que não preciso ter pressa. Tudo a seu tempo. Preciso mesmo é ser acertiva. E não dar ouvidos a essa vozinha insistente ordenando em mim instantes vagos, minutos inteiros de um mal querer sem fim.

O que é preciso e decisivo em minha vida é ser acertiva. Não correr como louca e atravessar tudo nessa pressa infinita. Sede tão louca de viver. É muito mais provável com a alma junto chegar aonde caminha meu querer mais profundo.

Alguma sorte, sim. Que a boa sorte me guie para esse lugar bom do desejo. Como aliás sempre fez comigo. Levar-me para um outro lugar do desejo que não está no vazio. Nem morre ao correspondê-lo em seu urgente pedido. Sendo acertiva me ligarei ao que é mesmo essencial em mim. Pensar bem menos na minha solidão. Se nunca incomodou antes, porque me transtornaria agora? Preciso sim é apagar as marcas da alma.

Eu que nem você e você, sou fruto, de Bullying. Mesmo que num privilégio de tardio. E quem não foi vítima disso ? Preciso é pensar em mim com mais esperança e considerar o nada que existe na opinão dos outros. Afinal, a opinião deles só interessa em parte, a parte que interessa...

Vou ver a vida com mais calma. Sim, corri tanto nos últimos tempos que tenho mesmo é que dar o tempo necessário para a alma chegar junto de novo. E será tudo novo de novo. Toda arte precisa da alma. Minha cria completa: "E toda alma precisa de arte. Para conseguir se expressar é preciso soltar...". Importante também é livrar-se das marcas. Crescer nos instantes em que ela, para se dizer assim, respira!

Para qualquer atuação, inclusive a mais honesta consigo mesmo, a alma tem que estar junto e respirando. Se não puder enxergar a minha como a levarei comigo? Levarei-a a lugar nenhum. Essa pressa para mim, agora é sinônimo de nada.

Feito copo vazio! E sem essa que fica cheio de ar... Não. É tudo que preciso. Digo não ao não de mim. Se não se parece comigo...é não e ponto.

E se beleza não põe mesa, minha querida vó Celina, conversa não enche barriga. Não a minha que sempre se ocupou de uma fome tão distinta. Nunca nunca mesmo comida ou bebida. Minha sede e fome de tanto frio sempre foi de livros. Ao ouvir dos homens o que ouvia, eu já não cria.

Alimento me do que é fruto de areia fina. Matéria polida. Feito animal marinho.

Estou cheia de uma alma que nunca mais será presa. Cristalina e com nenhuma pressa, que já caminha enquanto respira... Ah! Também sei sorrir. Repare, por trás desse cristal líquido, foi meu envelhcido - e tão pouco adocicado - vinho que te trouxe até aqui.

Saturday, July 11, 2009

"Liberdade é única! E exclusivamente ser do jeito que você é, deixar seu ser verdadeiro transbordar dentro de si é permitir que ele dirija suas ações. Um ser livre não prejudica ninguém porque tem noção da interdependência de todos os seres. Ele está conectado a tudo e a todos".

Fritjof Capra

Filosofia J.K. Rowling. Início de ciclo. Ano novo: mundo novo! Disciplina para ter poder. Ui. Sem essa de regimes absolutistas... Só a sabedoria faz avançar. O vício é a ignorância. A ignorância é o que alimenta o vício. É preciso saber mais. Mesmo que avance pouco. É um dia após o outro porque o tempo ensina. Melhor ainda se conseguir aprender algo novo a cada segundo. E é nisso que está a importância da liberdade única como define Capra. Não há prejuízo, apenas clareza dos sentimentos e desse ser verdadeiro que transborda. Aí as ações serão lúcidas e nos conectará a tudo e a todos.

E se a Liberdade é Azul, a Igualdade branca e a Fraternidade vermelha, a ação vem do laranja até o amarelo até a soma de tudo. Verde já será um caminho até o outro lado. Um soma, uma reflexão que mistura ação lúcida (de preferência uma após a outra) e a liberdade...

É difícil manter os sentidos despertos o tempo inteiro... Ainda mais no meio de quem fala tanta bobagem sem sequer saber o que está dizendo. E sensibilidade assim às palavras só afasta. Mas há nisso tudo a importância de pensar uma Ética e uma Estética para si mesmo. Por isso os filtros, os modos, os silêncios... E o vazio. O esvaziamento que vai se dando bem aos poucos e que provavelmente só avança aos poucos.

Do outro lado, o estado acordado permite não deixar para depois o que é preciso fazer agora! Aquilo que só estará presente no mesmo instante, caso contrário, um segundo depois, passou...

O próximo passo é compreender a construção desse novo ciclo, que é novo, de novo, e que tem raízes, se for construir a verdade, naquela essência transbordante do ser. Requer a interdependência. O movimento é sempre de vias múltiplas. Envolve mesmo tantas esferas e círculos na maioria das vezes desconcêntricos.

Essa interrelação tão presente na natureza e no cósmos funciona muito melhor com o que é espontâneo e mesmo natural. Mas nós o que fizemos? Esforços para uma busca em sentido contrário... Descêntricos são esses círculos, naturalmente.

Não vim dizer se é bom ou ruim. Entendemos primeiro apenas que era justo. Para minimizar sofrimentos e angústias inexplicáveis. Há várias faces, estágios, esferas, sintonias. Um sem fim de etapas e interrelações. ? Como se dá a mágica de encontrar chaves com asas por todas as partes, é a pergunta... Onde é esse lugar profundo onde acompanhado de dois ou mais amigos esse ser em formação encontra respostas para mistérios que estão em um tabuleiro de xadrez.

E essa pressão do papel de cada um, da missão a cumprir, do que vai definir sua existência está muito mais impregnado em nós e ditando nossos passos que pode supôr nossa medíocre inteligência humana.

Por isso se dá voltas e tudo parece um filme que está fora de sink. A imagem vai para um lado, o som para o outro. Fazemos coisas que não compreendemos muito menos sabemos explicar. E que nos atráem para um lugar que não estava nos planos... Desconhecemos em profundidade a estranha dissimilitude instaurada por nós mesmos. After that, we sink!

O que deflagra o poder de identificar esse incômodo desconhecimento de si mesmo é a outra pergunta. Como materializar as chaves que vão abrir as portas por esses novos e essenciais caminhos até você mesmo?

Não é simples, não é? Mais fácil - e isso é aparente - é acender alguma coisa que entorpeça você e o faça deixar passar... Só o tempo estará passando. Você apenas perdeu a velocidade de agir com lucidez e velocidade. Perdeu o movimento preciso do exato instante.

Friday, July 10, 2009

O vício só cai feito luva quando as mãos estão nuas e frias... Não há nenhuma aventura ou ventura nisso. Há pressa. A pressa que não dispõe o tempo. Tempo que não chega nunca. Vazio que não se encerra. É nesse vazio de uma noite fria e sem mãos (que dirá Lua!) que me abraço à esperança de um fio de hora. Não há agora mais urgente que o vazio. A ausência de um desejo criativo escava e ara a terra apenas para o espaço em branco. Reto, estreio e platão como um poço. Uma caverna.

Como uma linha que liga eu ponto a lugar nenhum e reescreve em alguns segundos de morte as lembranças que me trouxeram a este lugar incômodo e com gosto tão amargo. Se há morcegos à minha volto, não os noto.

Percebo tão somente o esvaziamento do meu tempo presente que avisto nenhum futuro. Presentes, confesso, estão os pensamentos obscurecidos pelo que não disse, pelo que não me permiti sentir. Fui como uma seta para lugar desconhecido e não objetivo. Afinal, num mundo de tanta fumaça e agentes poluentes parece sempre haver espaço para mais um desejo vaizio e tóxico.

Nunca fui dada a este universo sem a presença da luz. Não antes de me perder por passos tão autônomos. É evidente que foram também autômatos. Robóticos. "Precisa reacenter o fiozinho que lhe conectava a você". Alguém me diz com força e minha alma parece ter ouvidos moucos. Batata! Movimentos loucos... É certo que, não por acaso, tive a chance de conhecer pessoas por ser mesmo dada à sorte.

Preciso dizer que das vezes em que quase morri, vi muita luz ao redor. E deve ter sido impulso de quem se preparou para oferecer o peito, o calor dos braços e o colo ao filho que me resgatou. É verdade que houve um grito imperativo da anestesista (creiam, também madrinha de crisma!) dizendo repetidas vezes com força: "RESPIRE!". Posso dizer sem medo? Tudo isso que me trouxe de volta...

Não, não acredito em fantasmas. E sim na consciência construindo suas imagens. Havia correria na sala, isso eu vi. Mas seria incompleto não admitir: nem todas as imagens eram matéria. Criei holografias? Sim, sou suficientemente criativa e lúdica, sei disso. Além de idealizar muito. Só por isso vou recontar com detalhes e sem qualquer susto de reler e enxegar: que tolice!

Era um caminho branco da senhora Azul de braços tão abertos! Flutuava sobre o mar imenso, pleno e, insisto, de tanta luz e leveza que me deixaria para sempre na eternidade incompleta do parto. Nada do que vivi e vi com susto me atormentaria agora, é certo. Por outro lado, não teria o calor dessas memórias amorosas, das alegrias que tive e vivo ao lado dos filhos. É tanta e
tamanha a ternura. O reconhecimento que tenho, a admiração pela personalidade de um e de outro.

Me são os melhores companheiros de viagem. Divertidos e criativos. Acendo quando estão perto. É Registro: são convivas de um pensamento raro. Exercito, mesmo quando não posso, a atenção e o olhar com carinho porque primo pela mesma felicidade completa que não é descoberta recente.

Seria exagero dizer que em cada instante reservado às nossas brincadeiras com as palavras vivo particular aprendizado? Não se escuto histórias sobre seres velozes feitos de terra, ar, fogo e água. E os silêncios, então!? Sou grata. Devo estar apenas numa fadiga de quem subia o morro e ficou estagnada? Sem o tal fiozinho é bem provável! É que passo minutos concentrada em enxergar apenas as sementes ainda não germinadas espalhadas pelo chão. Os desenhos de folhas e gravetos largados dos galhos entre raízes mal arranjadas.

Uma noite de lua e estalo: olho para o céu estrelado. Sei que me repito, mas quem sabe descubro uma nebulosa ou desvendo cada tipo de nuvem dos dias chuvosos e dos ensolarados. O senhor Outono não me ocupa mais. Farei em breve chegar a Primavera e logo percebo com mais delicadeza as cores variadas do crepúsculo e dessa madrugada que não termina, mesmo em meu estado de alerta desacordado. Ainda posso ser-para-a-vida num simples acerto de contas com o meu ponto de vista e o meu modo. Ânimo minha alma. Ouça-me agora! É hora de voltar à superfície. Vida longa à descendência desse feminino que veio do sopro do barro. E aos seres imaginários. Aos autores que em suas obras completas assinaram juntos obra que fala de Abtu e Anet, da Salamandra, do A Bao A Qu, do Basilisco e das Garouas,

Sunday, July 05, 2009

slapt slapt slapt slapt

Barulho dos cascos no asfalto
Cavalos em disparada
Homens sem camisa sobre eles

Cavalgam?
Comem poeira?
Não, eles apenas
Têm pressa de chegar

Não querem suavizar o impacto
Não pensam no estouro que ouvem
Querem apenas romper o tempo

Desembestados pela via
Não enxergam, daquela altura,
Os sinais vermelhos

Eles querem mesmo assim dobrar-se
Para falar com suas mulheres
Nos orelhões à beira da estrada


Splash splash splash splash

Riscam as ferraduras sem piedade
Sobem soberbos morro acima

Impáfia neles é como cheiro
Do pêlo sobre a pele suada
Dos quadrúpedes que montam

Não, não conseguem ver a lua
Ou o sorriso das meninas
Vêem as saias bulindo
Das moças das casas
De luzes coloridas

Friday, July 03, 2009


Um amiga me escreve: que mistérios tem....? Sua frase me caiu também como um vestido azul. Tanto que me dei a observar a mim mesma, medindo cada uma de minhas reações após ler o seu bilhete. E lhe sou tão grata Jeane quanto você me é rara. Então, descobri um único mistério que ainda me intriga. A memória é meu grande mistério. Repito ainda incrédula. O perdão e o 'pouco caso' estão em mim numa simplicidade imediata! Do mesmo jeito que respiro. É natural e não demora mais que o movimento de inspirar e deixar o ar - rarefeito ou não - chegar aos pulmões. Já esquecer....




Sou obrigada por brincadeiras de muito mau gosto a trocar senhas, vez por outra. Isso é quase uma tragédia para quem não dispõe de boa memória. Mesmo não sendo o meu caso, me chateia. Um elefante, dois, três, quatro, cinco, seis... Quantos desses incômodos mamutes com seu modo ancestral andam à solta por aí, fazendo pirraça e querendo roer uma carcaça do que já se foi? Adianta a pergunta? Não, não adianta, nem move uma linha...



Pois bem, por essa rotina, com a qual até já estou adaptada, tive que reativar uma caixa postal que há muito muito muito tempo não abria. Estava ela lá, bonitinha que só vendo, com suas teias de aranhas e mais de dois mil e quinhentos e-mails quase apodrecidos.... Pena ter que olhar para o que já é passado! E num tempo tão veloz como este. Tão imediato! Tempo que me permite até acompanhar mesa de debates com Chico Buarque e Milton Hatoum no mesmo instante em que fazem suas leituras para a platéia presente na Flip... sou obrigada a rever a tão caixa postal.



Foi para mim uma tristeza confessa. Lá está - estava! já deletei - mais de cinquenta mensagens (vixe!) com nome de persona desagradável até mesmo para minha pessoa atual, dada ao futuro e linkada mesmo no novo - que diga-se de passagem, para mim sempre houve. Como para Shirley Temple ali estava o tempo todo o pássaro azul.





Bom, ainda assim, o tal sujeito ordinário (e não me interesso mesmo pelo seu gênero) tão presente quanto poça de lama e lixo pelas ruas dessa cidade já abaixo do nível do mar chamada Recife. Ah... afirmação assim só me faz lembrar como já vi mar tão azul e de água tão limpa!



Por Deus, amiga Jeane, meus mistérios são muitos. Alguns tão famosos e notórios outros completa e secretamente vividos. Mas este, que agora não é mais mistério algum, estava numa latência de querer uma desculpa que só precisou de uma frase para fazer seu movimento e saiu.



Aqui, quis lembrar as duas coisas juntas. Talvez por buscar no modo versado o caminho de perdoar a mim mesma. São tantos os episódios que vêm me remetendo a essa obscura passagem da minha história, que cometi tamanha espontaneidade de enquanto expurgava-o de uma vez por todas, lembrar que ainda sou dada a mistérios em tal medida. Tanto que uma amiga - mesmo que ainda um pouco distante - tão querida e conhecedora até mesmo dos mistérios de Clarice é capaz de colocar cores mais intensas neles.


São mesmo Jeane, muitos os nossos mistérios nessa vida. Bem sabemos... E um deles é perdoar sempre. O outro é esse aprendizado para conseguir - desse modo transverso - o caminho por onde escapar do labirinto e esquecer. O que aliás nem me resta mais. Falo do labirinto...
Mais mistérios irão me aborrecer nesta vida, eu sei! Nada parecido com o primeiro grande mistério de nascer em busca do ainda não se sabe exatamente o quê! Perto dessa imensidão de possibilidades, qualquer encontro com persona non grata tão emaranhada num episódio desagradável é pura nuvem...
Obscuros mesmos são os contornos que nós mesmas conseguimos imprimir. Quando na dúvida, reforçamos linhas que seriam invisíveis. Vide "a reinvenção das experiências pessoais na literatura", para citar o amigo Carpeggiani, de Catherine Millet e Sophie Calle. Por isso, o maior dos segredos é simples assim:
Nessa vida, o maior de todos os méritos é o silêncio. Ou ainda, o delicado esforço em dar voltas até revelá-los com delicadeza e mestria.

Thursday, July 02, 2009

Vou lhe contar como é meu jardim. De verdade, há apenas um grilo que 'toca' o tempo todo sua mesma canção. Não há plantas, mas tijolos e um telhado de zinco. Sim, passeio pelo corredor estreito e vejo apenas parafusos. Há também nuvens e prédios. Andares de outras construções vizinhas. E neles, vizinhos a mim, solitários mais que eu. Ou mais. Muito mais, do que quando estou com os meus filhos...


Há plantinhas aqui e ali, escondidas pelas estruturas de cimento e argamassa. E azulejos... Vermelhejos, rosalhejos... Como rosas sim, mas alheias a mim e ao ar que humanos como eu são obrigados, nesse mundo moderno, respirar.


Há janelas sim, e flores amarelas bem diferentes das rosas alheias. Nelas há besouros enormes, pretos como a noite sem lua. Aliás, à noite este jardim se transforma. No lugar de enxergar o zinco e os rejuntes, vejo estrelas. Pontinhos luminosos que mais parecem exemplares de meia noite e meio dia, iguaiszinhas àquelas que conheci na casa da minha avó. Era no bairro da Torre. Alto como tal e onde a água chegava em tempos de cheia...


Ali sentia tão absorta de um mundo ao redor que me parecia muito menos fraca que hoje, nesse cantinho de Casa Forte. Posso ainda dizer: com o qual sonhei com todas as minhas forças... O tempo espera só uma beirada de história para se desfazer como um pão de alfenim...



Neste lugar, não há área de serviço. Furto momentos de tempo no espaço comum, à distância dos filhos, para não obrigá-los ao pouco ar que respiro. Então, ali, em silêncio de oração, brinco com a esperança entre os dedos... Diz o Ministério da Saúde, que me levará à morte. O Ministério do mistério de mim mesma diz que essa esperança deve ter parentesco com a lebre.


Como todo jardim deve guardar lendas e mistérios, lembro do coelho e seu relógio. Lembro do menino do dedo verde e das joaninhas como eu. De Jó! Sim, paciência é a ciência de todo o tempo. Sentidos despertos. Porque espero, com pressa, o outono. Espero com a esperança nos dedos acelerar os ponteiros do relógio do coelho branco e chegar ao mês de outubro, com vida e livre da esperança de nome francês.