Lugar da delicadeza com o outro e com a própria Liberdade.

Onde se está de acordo com o único modo do humano de ser feliz

Friday, July 03, 2009


Um amiga me escreve: que mistérios tem....? Sua frase me caiu também como um vestido azul. Tanto que me dei a observar a mim mesma, medindo cada uma de minhas reações após ler o seu bilhete. E lhe sou tão grata Jeane quanto você me é rara. Então, descobri um único mistério que ainda me intriga. A memória é meu grande mistério. Repito ainda incrédula. O perdão e o 'pouco caso' estão em mim numa simplicidade imediata! Do mesmo jeito que respiro. É natural e não demora mais que o movimento de inspirar e deixar o ar - rarefeito ou não - chegar aos pulmões. Já esquecer....




Sou obrigada por brincadeiras de muito mau gosto a trocar senhas, vez por outra. Isso é quase uma tragédia para quem não dispõe de boa memória. Mesmo não sendo o meu caso, me chateia. Um elefante, dois, três, quatro, cinco, seis... Quantos desses incômodos mamutes com seu modo ancestral andam à solta por aí, fazendo pirraça e querendo roer uma carcaça do que já se foi? Adianta a pergunta? Não, não adianta, nem move uma linha...



Pois bem, por essa rotina, com a qual até já estou adaptada, tive que reativar uma caixa postal que há muito muito muito tempo não abria. Estava ela lá, bonitinha que só vendo, com suas teias de aranhas e mais de dois mil e quinhentos e-mails quase apodrecidos.... Pena ter que olhar para o que já é passado! E num tempo tão veloz como este. Tão imediato! Tempo que me permite até acompanhar mesa de debates com Chico Buarque e Milton Hatoum no mesmo instante em que fazem suas leituras para a platéia presente na Flip... sou obrigada a rever a tão caixa postal.



Foi para mim uma tristeza confessa. Lá está - estava! já deletei - mais de cinquenta mensagens (vixe!) com nome de persona desagradável até mesmo para minha pessoa atual, dada ao futuro e linkada mesmo no novo - que diga-se de passagem, para mim sempre houve. Como para Shirley Temple ali estava o tempo todo o pássaro azul.





Bom, ainda assim, o tal sujeito ordinário (e não me interesso mesmo pelo seu gênero) tão presente quanto poça de lama e lixo pelas ruas dessa cidade já abaixo do nível do mar chamada Recife. Ah... afirmação assim só me faz lembrar como já vi mar tão azul e de água tão limpa!



Por Deus, amiga Jeane, meus mistérios são muitos. Alguns tão famosos e notórios outros completa e secretamente vividos. Mas este, que agora não é mais mistério algum, estava numa latência de querer uma desculpa que só precisou de uma frase para fazer seu movimento e saiu.



Aqui, quis lembrar as duas coisas juntas. Talvez por buscar no modo versado o caminho de perdoar a mim mesma. São tantos os episódios que vêm me remetendo a essa obscura passagem da minha história, que cometi tamanha espontaneidade de enquanto expurgava-o de uma vez por todas, lembrar que ainda sou dada a mistérios em tal medida. Tanto que uma amiga - mesmo que ainda um pouco distante - tão querida e conhecedora até mesmo dos mistérios de Clarice é capaz de colocar cores mais intensas neles.


São mesmo Jeane, muitos os nossos mistérios nessa vida. Bem sabemos... E um deles é perdoar sempre. O outro é esse aprendizado para conseguir - desse modo transverso - o caminho por onde escapar do labirinto e esquecer. O que aliás nem me resta mais. Falo do labirinto...
Mais mistérios irão me aborrecer nesta vida, eu sei! Nada parecido com o primeiro grande mistério de nascer em busca do ainda não se sabe exatamente o quê! Perto dessa imensidão de possibilidades, qualquer encontro com persona non grata tão emaranhada num episódio desagradável é pura nuvem...
Obscuros mesmos são os contornos que nós mesmas conseguimos imprimir. Quando na dúvida, reforçamos linhas que seriam invisíveis. Vide "a reinvenção das experiências pessoais na literatura", para citar o amigo Carpeggiani, de Catherine Millet e Sophie Calle. Por isso, o maior dos segredos é simples assim:
Nessa vida, o maior de todos os méritos é o silêncio. Ou ainda, o delicado esforço em dar voltas até revelá-los com delicadeza e mestria.

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